O psicanalista no hospital

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January 5, 2017

“As palavras só têm sentido se nos ajudam a ver o mundo melhor. Aprendemos palavras para melhorar os olhos.” (Rubem Alves)

Como é trabalhar com uma equipe multidisciplinar e não sozinho? Como é trabalhar sem o divã, sem agendamentos, sem horários fixos e sendo interrompido a todo instante? Como é trabalhar em um setting tão diferente do habitual? São perguntas que o psicanalista se faz quando pensa em trabalhar em um hospital.

O hospital é um lugar onde vários profissionais com formações diferentes atendem pessoas assustadas e fragilizadas emocionalmente à espera da visita cotidiana de um médico, do médico que trará o prognóstico de sua doença.

As pessoas hospitalizadas têm seu caminho de vida interrompido: deixaram de trabalhar, deixaram de estudar, em um momento adoeceram, pararam e se encontram ali, no leito de um hospital, distante de sua casa, de sua família, fora da rotina de seu dia a dia e, muitas vezes, sozinhos. Essa situação é mais evidente, principalmente, em hospitais públicos, lugar dos mais pobres e desamparados, o que os torna ainda mais desvalidos e inseguros.

Diante da descoberta de doenças graves, como o câncer e a AIDS, por exemplo, diante de procedimentos médicos invasivos, como a retirada de órgãos ou a amputação de membros, pacientes são tomados pela ansiedade e o medo da morte se presentifica.

A permanência em um hospital constitui-se portanto como um momento de reflexão profunda, momento de revisão de vida e de considerações sobre o futuro. O que fazer quando voltar para casa? Será que a vida será a mesma? Poderei fazer as mesmas coisas que fazia antes?

Pacientes terminais, principalmente, costumam fazer uma retrospectiva de sua vida. Revêem o que construíram e se perguntam como ficará sua família quando eles partirem. Falam de mágoas, de perdão e procuram deixar tudo resolvido. Diante da proximidade da morte, alguns pedem para rever determinadas pessoas com a finalidade de perdoá-las ou de serem perdoados.

Nesses casos e nesses momentos, a presença do psicanalista no hospital se consolida. A estrutura emocional adquirida por meio de sua análise pessoal, longa e frequente, lhe respalda para lidar e aguentar o intenso sofrimento físico e psíquico dos doentes.

Muitas vezes, basta estar presente para amparar o paciente nesse mergulho interior e oferecer-lhe uma escuta atenta, acolher seus conteúdos mentais, guiando-se pela atenção flutuante. Estar disponível para a interlocução e o diálogo, permite ao paciente associar livremente e expressar sua dor. O atendimento pode ser realizado no leito, nos corredores ou em qualquer outro lugar do hospital onde a presença do analista é solicitada.

O constrangimento de alguns pacientes em falar de suas questões íntimas em lugares coletivos, próximos de pessoas que não conhecem, é visível pelo tom de sua voz, e procuram falar baixo. Na hora da medicação, a auxiliar de enfermagem chega com o remédio que não pode esperar. As visitas do médico também têm prioridade e o atendimento é interrompido. Diferentemente de um consultório, onde o psicanalista atende com hora marcada, situações inesperadas acontecem a cada instante e não existe privacidade. No hospital, analista e analisando estão expostos.

Ademais, trabalhar com uma equipe multidisciplinar, muitas vezes fragmentada na qual cada um age isoladamente, tendo o prontuário como único meio de comunicação para dar ciência do estado emocional do paciente aos outros profissionais, é uma dificuldade suplementar.

Como é, então, trabalhar com tantas variáveis? Condição sine qua non é a disponibilidade para ouvir, escutar e acolher a angústia do paciente com uma escuta qualificada e diferenciada. Mesmo com todos esses obstáculos, o psicanalista tem um papel fundamental dentro da instituição, pois pode fazer o paciente sentir-se cuidado, olhado, considerado e compreendido.
Por outro lado, as experiências vividas em instituições enriquecem o psicanalista e o habilitam para o trabalho no consultório, ampliando sua visão de mundo, possibilitando-lhe entender a história pessoal de cada um e tratá-lo de forma mais humanizada.

*Marília Ribeiro Alves é membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, membro do Núcleo de Psicanálise de Santos e região, possui especialização em Psicologia Clínica pela PUC- SP e especialização em Psicologia e Saúde – Psicologia Hospitalar também pela PUC – SP.