Um Olhar Psicanalítico Sobre a Menstruação

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March 9, 2015
Um Olhar Psicanalítico Sobre a Menstruação

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A menstruação é um fenômeno que pode produzir na mulher alterações psicológicas e biológicas como depressão, ansiedade, nervosismo, mastalgia, cefaleia, irritabilidade, sensibilidade, entre outros. Outro aspecto crítico para a mulher é a menarca que ocorre quando a menina entra na puberdade, momento de ambivalência entre ser criança e ter se tornado adulto. Para a psicanálise, a menstruação pode gerar reativações inconscientes que podem causar angústia na mulher por fazê-la reviver fantasias inconscientes de sua primeira infância.

Palavras–chave: Menstruação, Psicanálise, Sexualidade Feminina.

1. Introdução

A menstruação como fenômeno biológico é a necrose do endométrio e sua descamação (CINGOLANI E HOUSSAY, 2003). Desde os tempos mais primitivos a mulher é condenada “a sofrer” – ou obrigada a passar – pelo ciclo menstrual (COUTINHO, 1996), mas com o passar do tempo, a mulher foi sofrendo as influências ambientais e culturais, alterando dessa maneira também suas condições psicológicas para essa condição.

Atualmente só aumenta o número de mulheres que sofrem os transtornos provocados pelo período que antecede a menstruação, chamado de SPM (Síndrome Pré-Menstrual) manifestando sintomas fisiológicos e psicológicos como ansiedade, irritabilidade, fadiga, mastalgia, tristeza e depressão (VALADARES, et al, 2006).

Na visão psicanalítica  tanto na menarca quanto na menstruação as fantasias inconscientes da fase fálica, são reativadas, provocando muitas vezes angústia na mulher, pois se torna manifesto as vivências inconscientes de castração, culpa por querer vingar-se da mãe e por ter desejado o pai. Portanto, além de ser sinal de maturidade biológica, a menarca e a menstruação, podem desencadear  sentimento negativo na mulher, pois o fluxo menstrual inconscientemente pode ser representado como ferimentos, mutilação e amputação dos órgãos sexuais (KLEIN, 1969).

2. Desenvolvimento

2.1  A Menstruação Segundo a Biologia

Segundo a Biologia, a descamação do endométrio uterino, recebe o nome de menstruação, uma causa fisiológica do período fértil da mulher quando não ocorre a fecundação do ovócito, sendo uma eliminação periódica por meio da vagina (CINGOLANI E HOUSSAY, 2003).

Segundo Campagna, (2003), a menarca (nome dado à primeira menstruação) ocorre por volta dos doze anos, sendo este um assunto muito discutido, principalmente sobre as influências que a menina é exposta, como a alimentação, a estimulação da mídia, o erotismo na publicidade e na literatura entre outros, alterando dessa forma a idade que sua menarca venha ocorrer.

2.2  A Menstruação e a Sangria Inútil de Elsimar Coutinho

Elsimar Metzker Coutinho é um dos maiores expoentes na endocrinologia da reprodução humana e no planejamento familiar, médico formado pela Universidade Federal da Bahia, defende que a menstruação é para mulher uma sangria inútil, pois, causam prejuízos sociais, profissionais e afetivos que são característicos nessa fase, por reduzir a eficiência feminina no trabalho, na escola, por causar insegurança, nervosismo, depressão, agressividade, confusão, conflitos conjugais, esquecimento, exagero na ingestão de alimentos e bebidas, sendo consequências dessa fase pré-menstrual (COUTINHO, 1996).

Alterações físicas, de humor, cognitivas e comportamentais são recorrentes nesta fase, fazendo a mulher queixar-se de desconforto, irritabilidade, fadiga, inchaço e dor nos seios e abdome e cefaleia, porém não existe uma definição clara e exata, mas sim, a ocorrência de diversos distúrbios, cada qual com sua gravidade sustentada por fatores psicológicos, biológicos e ambientais (VALADARES, et al, 2006).

Mas nem sempre foi assim, as mulheres precocemente se casavam e devido ao grande número de filhos que tinham, raramente menstruavam. A menarca ocorria por volta dos dezoito anos e a estimativa de vida feminina era baixa, vindo a morrer até mesmo antes dos quarenta anos, devido às inúmeras gestações ou complicações das mesmas (COUTINHO, 1996).

Em épocas anteriores a nossa a menstruação já era vista de maneira negativa, em outras culturas o fluxo menstrual era associado ao perigo, sujeira, doença, impureza e até magia (CHENIAUX JUNIOR, 1999).

Coutinho, (1996) afirma que todas essas características negativas só foram extintas com os primórdios da medicina enquanto ciência, porém sem ainda conhecerem a ovulação e a circulação do sangue, interpretavam esse fenômeno como um recurso natural para avaliar o mal-estar periódico a que estavam sujeitas as mulheres.

2.3  A Menarca: puberdade e adolescência

A menstruação é um fenômeno de grande repercussão na vida da mulher e como vimos, surge por volta dos doze anos, momento de outra grande e significativa mudança na vida feminina, momento da ocorrência da puberdade e da adolescência.

Resumidamente, puberdade são as alterações corporais e biológicas onde os órgãos reprodutivos amadurecem e começam a funcionar, enquanto a adolescência são as alterações psicológicas provocadas pela cultura. Porém, toda essa ocorrência gera conflito em cada aspecto, seja social, biológico e psicológico, tornando assim, uma fase de profunda turbulência e inquietação (CAMPAGNA, 2003; CALLIGARIS, 2000).

Segundo Campagna (2003) exalta as possíveis causas do profundo impacto que a puberdade com todas as suas alterações físicas provocam num curto espaço de tempo, especificamente no corpo feminino causando essa turbulência e inquietação psicológica. Todas essas mudanças ocorrem num curto espaço de tempo para a menina assimilar, além da questão de adquirir sua identidade, saindo do contexto infantil para o mundo dos adultos.

Características comuns da adolescência, como atitudes de desafio e revolta, ajudam a supercompensar e/ou dissimular essa angústia, por isso, o desejo de competição e o impulso de dar provas de coragem são tão fortes nessa fase. Nesse sentido, o esporte é tão importante, pois oferece ao adolescente, um meio de rivalizar-se com os outros, admirando suas façanhas superando assim, suas angústias (KLEIN, 1969).

Uma das grandes dificuldades das situações de angústias dos adolescentes é a própria sociedade, pois segundo Calligaris (2000), a maturação física não é suficiente para fazê-lo tornar-se adulto, portanto, o adolescente não se encontra em estado algum, nem adulto, nem criança, tendo em sua frente um espelho vazio, criando cada vez mais situações de depressão, baixa autoestima e suicídios.

Portanto, a sua falta de localização na sociedade, o turbilhão de sentimentos e sensações dentro de si, faz do púbere alvo de tantos adjetivos, como problemático, irritado, impaciente, depressivo, não ouvir ou aceitar a opinião dos outros, entre outros (CAMPANHA, 2003).

2.4  A Menstruação e a Psicanálise

Freud, (1905) tomou como pedra fundamental da psicanálise o Complexo de Édipo, constituindo-se como o complexo nuclear das neuroses, influenciando decisivamente na sexualidade dos adultos.

Young, (2005) ao citar Klein, (1945) afirma que o complexo de Édipo feminino, em certo momento proporciona na menina descobrir que não tem o pênis, sofrendo dessa maneira, uma enorme inveja, recorrendo a sua mãe para que ela lhe arranje um. Como isso não ocorre, ela se decepciona com a mãe, voltando-se para o pai, a fim de que este lhe dê um, ou até mesmo simbolicamente lhe proporcione o pênis-bebê.

O Complexo de Castração, onde Freud, (1909) descreve que para a menina, ela também já teve um pênis, mas que este já lhe foi injusta e brutalmente arrancado, deixando-lhe uma sensação de mutilação.

Sendo assim, podemos compreender a visão psicanalítica de alguns autores a respeito da menstruação.

Para Klein, (1969) a menarca desperta na menina uma intensa angústia. Quando a mãe lhe tira o seio, a menina se frustra e almeja receber o pênis do pai, pois este é infinitamente gratificante, além de lhe dar os bebês, mas este também lhe é recusado, causando-lhe mais frustração ainda. A menina passa a ter pensamentos de vingança para com a mãe, pois esta lhe negou o seio e agora o pênis com os bebês.

Portanto, inconscientemente a menina faz a associação que está sendo castigada por odiar a mãe, que está sendo castrada e privada da possibilidade de ter filhos. Associa também o sangue a cortes, contudo seu interior haveria sido danificado. O fluxo menstrual intensifica o medo de a menina sofrer agressões físicas por parte da mãe, assim como do pai, por haver fantasiado relações tanto com um, quanto com outro. Sendo assim, esse fluxo por vezes acaba convencendo-a que os bebês em seu interior foram destruídos, além de confirmar para a menina a sua crença que o clitóris é a cicatriz deixada pelo pênis arrancado. Contudo, além de reativar as mais diversas fontes de angústias na menina, a menstruação também pode lhe proporcionar intensa satisfação, fazendo-a encarar como prova de sua maturidade sexual e sua condição feminina, dando-lhe confiança e expectativa de receber gratificação sexual e ter filhos (KLEIN, 1969).

Para Langer, (1981) a menarca é um acontecimento importantíssimo, pois significa que a menina adquiriu maturidade biológica e está capacitada fisicamente para o amor e a maternidade. Porém, em nossa sociedade é um acontecimento vergonhoso no qual a menina não pode falar e se veem cercadas de atitudes de indiferença ou rejeição. Atualmente profissionais afirmam que esse trauma menstrual pode ser evitado se houver esclarecimento e informações por parte principalmente das mães. A menstruação possui um caráter sinistro, pois para o menino a relação será de uma ferida externa ensanguentada, relacionando com a falta do pênis, fantasiando uma castração. Para a menina, se dará na fantasia que o interior do corpo da mulher está machucado e que os bebês que ali estão também foram danificados. Entretanto, apesar do sentimento de estranheza e ansiedade, a menina normal aceitará com prazer sua menarca, pois esta é sinal de sua maturidade. Por outro lado, a menina neurótica, que se sente desprezada por ser mulher, rejeitará seus primeiros fluxos menstruais por acreditar ser uma castração ou castigo por seus atos masturbatórios. Muitas meninas também escondem ou rejeitam a menstruação porque se tornando mulher terá que rivalizar com sua própria mãe, podendo provocar seu ódio ou se identificando com ela e sofrendo os danos que acabou desejando-lhe.

Estudos realizados mostram que muitas mulheres ao não menstruarem (em casos de dismenorreia) sofrem profunda angústia, pois em suas fantasias inconscientes elas estariam grávidas do seu próprio pai, gerando assim sentimentos de culpa, ou que sua genitália interna foi destruída como castigo de seus desejos edípicos. Portanto, ao menstruar, ela se alivia, pois lhe é confirmado que seus órgãos internos estão normais e que não ocorreu a fecundação (CHENIAUX JUNIOR, 1999).

3. Considerações Finais

Em todos os momentos da história da mulher, ela está cercada de acontecimentos onde o sangue está presente, seja no seu nascimento, na menarca, menstruação e ao dar a luz a uma criança. A menarca ou a menstruação em si, desperta na mulher sentimentos e sensações que podem se manifestar de maneira positiva ou negativa.

Diferentemente do menino que ao olhar para sua genitália, constata que aparentemente está tudo bem, a menina, no entanto, vive sua primeira angústia, só pelo fato de sua genitália ser interna, de não poder ter certeza que tudo está bem, a não ser pelo fato da mesma apresentar a menstruação ou se provar sua fecundidade.

Quanto mais difícil for a passagem da menina pela primeira infância, pelo Complexo de Édipo e de castração, quanto mais difícil a sua relação com a mãe ou a substituta dela, sua aceitação como mulher, mais intenso serão os sofrimentos biológicos e psicológicos da mesma.

Podemos concluir que a menarca se torna mais angustiante do que a menstruação propriamente dita, pois ocorre numa fase inóspita da vida da menina. Ela tenta se afirmar como mulher, porém em outros momentos deseja permanecer como criança, vivenciando um conflito de identidade, além de muitas vezes e em muitas situações não receber informações a respeito da menstruação, sendo para ela algo inesperado.

A psicanálise vem em auxílio da mulher, agindo na gênese de suas angústias, pois não adianta tratar os efeitos que a menstruação provoca, mas chegar ao início de todas as angústias. Freud afirma que o Complexo de Édipo é o complexo nuclear das neuroses, portanto o processo de análise resultaria no saneamento das angústias da mulher externalizada na menstruação.

ANZIEU, A. A mulher sem qualidade: Estudo Psicanalítico da Feminilidade. São Paulo. Editora Casa do Psicólogo, 1992. 134 p.

CALLIGARIS, C. A adolescência. São Paulo.Publifolha, 2000.  –  (Folha explica) 81 p.

CAMPAGNA, V. N. Aspectos da organização da identidade feminina no início da adolescência. São Paulo, 2003. 153 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia/Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano) – Universidade de São Paulo.

CHENIAUX JUNIOR, E. A abordagem psicanalítica do fenômeno da menstruação.Informação Psiquiátrica, Rio de Janeiro, RJ, v. 18, n. 4, p. 119 – 125, 1999.

CINGOLANI, H. E. ; HOUSSAY, A. B. Fisiologia Humana de Houssay. Porto Alegre. Editora Artmed, 2003. 7ª Edição.

COUTINHO, E. M. Menstruação, a sangria inútil: uma análise da contribuição da menstruação para as dores e os sofrimentos da mulher. São Paulo. Editora Gente, 1996. 212 p. 7ª Edição.

FIGUEIREDO, L. M. et al. Análises psicológicas de mulheres que sofrem de tensão pré-menstrual. Pesquisa Médica Fortaleza, Fortaleza, CE, v. 1, p. 13 – 17, jul/set. 1998.

FREUD, S. (1900). A interpretação dos sonhos. In: Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Tradução sob a direção de Jaime Salomão. Rio de Janeiro. Imago Editora, 1969. v. IV, 363 p.

FREUD, S. (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Tradução sob a direção geral de Jaime Salomão. Rio de Janeiro. Imago Editora, 1969. v. VII, 329 p.

FREUD, S. (1909). O pequeno Hans. In: Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Tradução sob a direção geral de Jaime Salomão. Rio de Janeiro. Imago Editora, 1969. v. X, 293 p.

KLEIN, M. Psicanálise da criança. São Paulo. Editora Mestre Jou, 1969. 391 p.

LANGER, M. Maternidade e sexo: estudo psicanalítico e psicossomático. Traduzido por Maria Nestrovsky Folberg. Porto Alegre. Artes médicas, 1981. 266 p.

REIS, J. R. T. (1984). Família, emoção e ideologia. In S. T. M. Lane & W. Codo (Orgs.), Psicologia social: o homem em movimento (pp. 99-124). São Paulo: Brasiliense.

VALADARES, G. C. et al. Transtorno disfórico pré-menstrual. Revisão – conceito, história, epidemiologia e etiologia. Revista Psiquiátrica Clinica, Belo Horizonte, MG, v. 33, n. 3, p. 117-123, 2006.

YOUNG, R. M. Conceitos da psicanálise. Complexo de Édipo. Traduzido por Carlos Mendes Rosa. Rio de Janeiro. Relume Dumará. Ediouro. Segmento-Duetto, 2005. 80 p.

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