Um Estudo sobre o Conceito de Narcisismo

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March 9, 2015
Um Estudo sobre o Conceito de Narcisismo

9846_1O conceito de narcisismo se estabelece a partir da psicanálise como a ideia de um sujeito que admira exacerbadamente sua própria imagem e nutre uma paixão por si mesmo. Este artigo visa promover discussões sobre o conceito de narcisismo e identificar como ele se constitui na formação do sujeito. Para tanto, realizou-se um levantamento bibliográfico na perspectiva de alguns autores, como: Freud, Heinz Kohut e Alexander Lowen. Nessa perspectiva, é possível construir um embasamento teórico que explique esse processo.

Palavras-chave: Psicanálise, Freud, Heinz Kohut, Narcisismo, Alexander Lowen.

1. Considerações Iniciais

O conceito de narcisismo se estabelece a partir da psicanálise como a ideia de um sujeito que admira exacerbadamente sua própria imagem e nutre uma paixão por si mesmo. Para a psicanálise o narcisismo se caracteriza como aspecto fundamental na constituição do sujeito, um tanto de amor por si é necessário para confirmar a auto-estima, todavia, os excessos podem se configurar prejudicial ao convívio do indivíduo em sociedade.

A criação do termo narcisismo se associa à história da mitologia grega, diz o mito que Narciso era uma criança tão linda e admirada por sua mãe, Liríope, que estando preocupada com o excesso de sua beleza, levou-o até um sábio, que, por sua vez, disse que o menino só teria uma longa vida se jamais visse sua imagem. Durante muito tempo, esse fato conseguiu ser guardado, mas diante dos acontecimentos, Narciso, viu sua própria imagem em um lago de águas límpidas e se apaixonou pelo seu reflexo. O mito diz que Narciso mergulha no espelho das águas e desaparece no encontro impossível

O termo narcisismo também foi utilizado pelo senso comum para caracterizar alguém vaidoso ou egoísta. O primeiro autor a se valer do mito de Narciso foi Havelock Ellis, em 1898 com o intuito de explicar o comportamento infantil das mulheres diante do espelho. Em 1899, Paul Näcke introduziu esse conceito na esfera psiquiátrica para introduzir um novo tipo de perversão – o amor pela própria imagem.

Entretanto, Sigmund Freud já usava essa concepção antes mesmo de mencioná-la em “Uma Introdução ao Narcisismo”, estabelecendo uma ligação de como esse mito grego podia estar associado à psicanálise.

Ao longo de sua obra, Freud fala do termo narcisismo e utiliza várias formas para explicitar o tema, caracterizando o termo como narcisismo, narcisismo primário, narcisismo do ego e narcisismo secundário. Nesse sentido, são conceitos relacionados entre si, mas cada um tem sua especificidade, cada um apresenta distintos modos de subjetividade.

2. Narcisismo Primário

De acordo com o aporte psicanalítico o narcisismo situa-se como um modo peculiar de relação com a sexualidade.  Para ELIA (1995) o narcisismo é um processo pelo qual o sujeito assume a imagem do seu corpo próprio como sua, e se identifica com ela (eu sou essa imagem).

Segundo Freud (1981) em seu texto “Introdução ao Narcisismo” [1914], haveria um primeiro estágio do narcisismo permeado pelo auto-erotismo que se manifestaria como um narcisismo primário, no qual toda a energia libidinal se concentraria no Ego. Esse investimento da energia libidinal sobre o Ego primitivo serviria de proteção, além de fonte alimentadora das fantasias de grandeza e de poderes mágicos do tipo megalomaníaco, sendo, portanto, uma etapa indispensável ao desenvolvimento normal e não referente a uma patologia ou perversão.

Antes de Freud elaborar a segunda tópica, nos textos do período de 1910-1915, o narcisismo primário é localizado entre o autoerotismo primitivo e o amor de objeto, e aparece como contemporâneo ao surgimento de uma primeira unificação do sujeito, o surgimento do ego. Com a elaboração da segunda tópica, ele exprime pelo termo narcisismo primário sobretudo um primeiro estado de vida, anterior até à constituição de umego, sendo que a distinção entre auto-erotismo e o narcisismo é suprimida (MAGALHÃES, 2004).

Essa concepção sobre narcisismo primário é mais utilizada no campo psicanalítico atualmente, aqueles que têm essa postura, partem do pressuposto que a vida intra-uterina tem função primordial nesse processo.

3. Ideal do ego

O desenvolvimento do ego consiste, segundo Freud, num distanciamento do narcisismo primário em razão da crítica que os pais exercem com relação à criança, seguido pelo deslocamento da libido a um ideal de ego. Freud, afirma, que não consideraria estranho se encontrasse uma instância distinta do ideal do ego, interiorizada como uma instância de censura e de auto-observação (FERNDANDES, 2002).

Freud (1914) relata que o narcisismo do sujeito surge deslocado em direção a esse ego ideal, que como o ego infantil, se acha possuidor de toda perfeição e valor. O indivíduo não está disposto a renunciar à perfeição narcísica de sua infância. O que o indivíduo projeta diante de si como sendo seu ideal é o substituto do narcisismo perdido da infância na qual ele era seu próprio ideal.

O ideal do ego funcionaria como condição para a repressão, pois sua formação se daria sob a influência dos pais, educadores e outros. Sendo, portanto, resultante da convergência do narcisismo (idealização do ego) e das identificações com os pais, seus substitutos e os ideais coletivos27. A formação do ideal é vista como o mais forte favorecedor da repressão porque aumenta as exigências do ego. A sublimação surgiria como forma de escapar dessa exigência e, ao mesmo tempo, da repressão. A sublimação compreende o processo pelo qual a pulsão se lança para outra meta, distante da satisfação sexual (FERNANDES, 2002).

4. Narcisismo na Perspectiva de Heinz Kohut

Heinz Kohut tem sua trajetória na psicanálise e psiquiatria e desenvolveu a escola psicanalítica da psicologia do self. Algumas de suas obras de referência: Introspecção, empatia e psicanálise (1959); A análise do self (1971); A restauração do self (1977), e a publicação póstuma Como cura a psicanálise? (1984).

No que tange sobre suas contribuições acerca do narcisismo, sua posição é de que o narcisismo é uma fase do desenvolvimento normal na vida do indivíduo, que sofre o uma influência direta do meio externo, passa por transformações e pode evoluir de forma saudável ou patológica.

De acordo com KOHUT (1971) estas pessoas necessitam espelhar-se e idealizar os outros; queixam-se de sentimentos inespecíficas de vazio, depressão ou insatisfação nos relacionamentos, além de se caracterizarem por uma auto-estima muito vulnerável, altamente sensível ao descaso dos amigos, familiares, amantes, colegas, entre outros, e por um sentimento de vazio dilacerante.

Enquanto FREUD (1914) propõe que o sujeito deveria passar do narcisismo primário até o amor objetal, tendo que vencer as demandas narcísicas. Em contrapartida, Kohut acredita que as necessidades narcísicas persistem ao longo de toda à vida.

Nessa linha de pensamento,  Kohut ao discutir o narcisismo defende a ideia de que este surge numa linha de desenvolvimento independentemente das pulsões, consistindo uma fase de desenvolvimento que sobre uma evolução paralela a da libido objetal.

O narcisismo não é idêntico ao revestimento libidinal do sistema do ego ou de suas funções, uma vez que se refere a catexia libidinal da representação do self no ego – isto é, ao modo como a pessoa se vê. Referindo-se ao amor pela própria imagem especular, Kohut propõe em suas formulações metapsicológicas, a trajetória do narcisismo que vai do auto-erotismo, passa pelo narcisismo e evolui para formas mais elevadas do narcisismo (SUERTEGARAY, 2002).

5. Narcisismo na Perspectiva de Alexander Lowen

Alexander Lowen, teve uma formação de base psicanalista. Na sua trajetória  foi um dos estudante de Wilhelm Reich nos anos 1940 e também trouxe suas contribuições para o entendimento do narcisismo sob a sua ótica.

Segundo LOWEN, o narcisismo “indica uma perturbação da personalidade caracterizada por um investimento exagerado na imagem da própria pessoa à custa do eu”. Desse modo, o sujeito que apresenta características narcísicas se configuram como aqueles que perdem o contato com seu “ser”, ou seja, seu corpo e seus sentidos, e encontra-se “alienado” quanto ao seu mundo exterior.

A partir dessa busca desenfreada por uma imagem idealizada, o indivíduo busca reconhecimento no outro, ou seja, o seu “eu” não se reconhece enquanto tal, senão através de sua imagem idealizada por outro.

Segundo SCHILDER (1981), “nossa própria beleza não contará apenas com a imagem que temos de nós mesmos, mas também, com a que os outros constroem a nosso respeito, a qual tomaremos de volta.  A imagem corporal é o resultado da vida social que temos”.

6. Considerações finais

Para concluir, entende-se que cada autor nomeia um percurso para a constituição do narcisismo no sujeito, Freud traça um caminho que surge com base do ego ideal, que como ego infantil, se acha possuidor de toda perfeição e valor. Na opinião deHeinz Kohut sua posição é de que o narcisismo é uma fase do desenvolvimento normal na vida do indivíduo, que sofre o uma influência direta do meio externo, passa por transformações e pode evoluir de forma saudável ou patológica. E para Alexander Lowen o narcisismo indica uma perturbação da personalidade caracterizada por um investimento exagerado na imagem da própria pessoa à custa do eu. Nesse sentido, todas as idéias trazem contribuições diferentes que podem construir novas visões acerca do narcisismo.

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