Trauma, clivagem e anestesia: uma perspectiva ferencziana

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November 25, 2014
Trauma, clivagem e anestesia: uma perspectiva ferencziana

RESUMO

Na clínica psicanalítica atual nos deparamos com pacientes que, apesar de não apontarem sofrimento psíquico, são incapazes de sentir prazer ou desprazer com as experiências cotidianas. Constata-se que este modo de subjetivação reporta para uma anestesia diante de si e do outro, o que implica um prejuízo da possibilidade de sentir. Discute-se a relação entre trauma e anestesia por meio da solução da clivagem na obra de Ferenczi. Busca-se um refinamento da sensibilidade clínica necessário para lidar com processos psíquicos sob o registro do impacto traumático.

Palavras-chave: Trauma; Clivagem; Anestesia; Clínica psicanalítica; Sándor Ferenczi.


ABSTRACT

Currently in psychoanalytic clinic we can observe patients, who despite of not showing psychological suffering, are unable to feel pleasure or displeasure with daily experiences. It can be observed that this mode of subjectivation reports to a numbness within himself and others, which implicates in losing the possibility of feeling. The relation between trauma and numbness is discussed through the cleavage solution in Ferenczi’s work. It is searched through these concepts a refinement of the clinical sensibility necessary to deal with the psychological processes under the impact of traumatic registration.

Keywords: Trauma; Cleavage; Numbness; Psychoanalytic clinic; Sándor Ferenczi.


Envelheci pelas sensações…
Fernando Pessoa (1999)

Estava emparedado dentro de um sonho,
seus muros não tinham consistência
nem peso: seu vazio era seu peso.
Os muros eram horas e as horas
fixo e acumulado pesar.
O tempo dessas horas não era tempo1.
Octavio Paz (1980)

INTRODUÇÃO

Frequentemente nos deparamos na clínica psicanalítica atual com pacientes que, apesar de não apontarem sofrimento psíquico, são incapazes de sentir prazer ou desprazer com as experiências cotidianas. Estes pacientes parecem buscar a calmaria em detrimento da satisfação. Bem adaptados ao mundo externo, não expressam conflitos, tampouco questionamentos acerca da condição humana. Distinto do neurótico clássico, descrito por Freud (1924/1996) em “A perda da realidade na neurose e na psicose”, engolido pelas exigências da realidade a contragosto, ou mesmo distinto do psicótico, que afirma o seu desejo e descarta a materialidade do mundo, tais pacientes encontram-se anestesiados diante de si e do outro. Privados da possibilidade de sentir, eles perdem o sentido da vida. Sentido aqui na sua ampla acepção de significado, orientação e sensorialidade. Desse modo, a vida se torna um somatório de episódios desvinculados, vazios e monótonos. Cumpre-se simplesmente o protocolo existencial.

As sessões de análise transcorrem sustentadas em narrativas minuciosas do dia a dia, contadas de maneira radicalmente desafetada, aplanada e sem acento. Não há turbulência, atrito, desordem, brecha, apenas puros relatos. Desdobramentos e encadeamentos entre o presente, o passado e o futuro também não se apresentam. Os tempos da infância não são rememorados, por um lado, e um porvir não é projetado, por outro. O indivíduo encontra-se, portanto, em um tempo presentificado, de modo que a temporalidade não porta a lógica de uma continuidade, ela é apenas remetida ao agora. As queixas são frequentemente corporais, localizadas de maneira difusa, mas raramente endereçadas como um pedido de ajuda. Este corpo também se mostra silenciado, esvaziado de desejo e, muitas vezes, estranho ao sujeito.

Tamanha suspensão de si, contudo, não impede um funcionamento coerente com as expectativas da sociedade em termos gerais e pragmáticos. Nesse sentido, o indivíduo pode até adquirir determinada autonomia e independência, realizar-se profissionalmente, construir uma família e laços de amizade, mas, ainda assim, não se sentir realmente vivo. Com isso, supõe-se que o movimento originário destas ditas conquistas parece ser mais defensivo do que eminentemente criativo, isto é, um modo de subjetivação pautado demasiadamente na defesa e nos clichês responsivos. Levando ainda em consideração que a vida envolve escolhas, perdas e ganhos, aventuras, passagem do tempo e dos acontecimentos, encontros e desencontros, nota-se claramente um árduo esforço do sujeito para não se deixar afetar pelo colorido vital. Cabe indagar aqui o que determina tal anestesia afetiva e quais as manobras subjetivas destinadas a manter a evitação do prazer e do desprazer.

Não há dúvida de que a psicanálise, desde os primórdios, atribui ao aparato psíquico a função de evitar o desprazer, este, inclusive, associado à idéia de afetos não descarregados. Desse modo, estamos nos referindo aqui a um funcionamento psíquico sob o registro do impacto traumático, no qual a evitação do desprazer mostra-se absolutamente radical. Nos casos acima descritos parece não haver uma regulação econômica viável para o psiquismo, o que justifica a anestesia afetiva. Assim, entendemos que o anestesiamento reporta à tentativa de se libertar de uma dor insuportável, cujo efeito consiste no distanciamento da própria subjetividade.

Esta problemática nos convida a investigar o trauma na obra de Ferenczi (1931-1932/1992, p. 113), uma vez que para o psicanalista húngaro, “um choque inesperado, não preparado e esmagador, age por assim dizer como um anestésico” A fim de avançar na compreensão deste estado de petrificação da intensidade, cabe também abordar a noção de clivagem ferencziana, na medida em que esta modalidade de defesa opera uma dissociação entre o afeto e a objetividade do mundo, cujo intuito consiste justamente em anestesiar o efeito traumático. A solução da clivagem permite uma subjetivação em funcionamento no mundo, porém, desafetada.

Para abordar essa questão, acompanharemos a elaboração ferencziana presente, sobretudo, em “Análise de crianças com adultos” (FERENCZI, 1931/1992), “Confusão de língua entre os adultos e a criança” (FERENCZI, 1933/1992) e algumas notas compiladas em “Reflexões sobre o Trauma” (FERENCZI, 1931-1932/1992) e no Diário Clínico (FERENCZI, 1990). Tal opção teórica se justifica posto que os escritos dos anos de 1930 conjugam o pensamento e a história clínica de Sándor Ferenczi com indivíduos traumatizados. Ademais, acreditamos que lidar com esta temática permitirá um refinamento da sensibilidade clínica necessária para tratar modalidades de padecimento psíquico com as quais nos deparamos na atualidade.

CONFUSÃO E TRAUMA

Em 1932, Ferenczi expõe no XII Congresso Internacional de Psicanálise o trabalho “As paixões dos adultos e sua influência sobre o desenvolvimento do caráter e da sexualidade da criança”, posteriormente publicado sob o título “Confusão de língua entre os adultos e a criança”. Este texto aborda a relação traumática entre adultos e crianças, levando em consideração a diferença de linguagem existente entre eles. Desta ótica, a criança se organiza de acordo com a “linguagem da ternura”, imersa em um universo lúdico e de faz de conta, e o adulto, marcado pelas interdições culturais, pelo recalcamento, pela ambivalência, pauta-se na “linguagem da paixão”, da desmesura, da imprevisibilidade. Para sublinhar os elementos potencialmente traumáticos envolvidos nesta relação confusa, Ferenczi (1933/1992, p. 101-102) utiliza uma cena emblemática de sedução de uma criança por um adulto.

Um adulto e uma criança amam-se. A criança tem fantasias lúdicas, como desempenhar um papel maternal em relação ao adulto. O jogo pode assumir uma forma erótica mas conserva-se, porém, sempre no nível da ternura. Não é o que se passa com os adultos se tiverem tendências psicopatológicas, sobretudo se seu equilíbrio ou seu autodomínio foram perturbados por qualquer infortúnio, pelo uso de estupefacientes ou de substâncias tóxicas. Confundem as brincadeiras infantis com os desejos de uma pessoa que atingiu a maturidade sexual, e deixam-se arrastar pela prática de atos sexuais sem pensar nas conseqüências. 

O adulto, portanto, interpreta e responde à fabulação terna da criança de modo apaixonado, atropelando-a com afetos intensos e desproporcionais em relação à sua capacidade de assimilação. A violência vivida pela criança no abuso sexual explicita a precariedade das defesas infantis diante do outro invasivo e desconcertante. Aqui Ferenczi (1933/1992) se refere ao ato violento sexual strictu sensu. Contudo, entendemos que o abuso ocorre quando o objeto significativo não cumpre a sua função de acolhimento. Por esse viés, a confusão se dá na medida em que o adulto desrespeita o ritmo da maturação infantil, ou seja, quando as necessidades psíquicas e físicas próprias da criança não são reconhecidas pelo adulto2. Nesse sentido, Ferenczi (1990, p. 84) afirma no Diário clínico que

[…] o protótipo de toda a confusão é estar ‘perdido’ quanto à confiabilidade de uma pessoa ou de uma situação. Estar perdido é: ter-se enganado; alguém, por sua atitude ou suas palavras, fez ‘cintilar’ uma certa relação afetiva […]

Trata-se, assim, de uma falha na relação existente entre a criança e o adulto e, nessas circunstâncias, o amor excessivo pode ser tão perturbador quanto a privação de amor.

Na sequência da cena narrada por Ferenczi (1933/1992), o adulto, agente da violência sexual, sente-se culpado e nega o ocorrido, afirmando para a criança que nada se passou.  De maneira geral, a criança tomada pela realidade da sua experiência afetiva, busca outro adulto para traduzir o que lhe escapa. Este, por indiferença ou incompreensão, desmente as impressões infantis e, desse modo, “desqualifica não só o prazer ou o sofrimento da criança, como também seu modo de ver e significar o mundo” (REIS, 2004, p. 71). A violência se constitui então como um trauma em virtude da impossibilidade de atribuição de sentido ao vivido, isto é, pela falta de mediação simbólica entre as diferentes línguas. De acordo com Ferenczi (1931/1992, p. 79), não é a linguagem da paixão, por si só, o principal fator traumático, mas o desmentido, isto é, “a afirmação de que não aconteceu nada, de que não houve sofrimento (…)”. A confusão traumática, portanto, sobrevém com a desautorização da vivência da criança pelos objetos primordiais, lançando-a em um dilema inconciliável: confiar na verdade do adulto ou confiar na verdade dos sentidos.

Daí resulta uma comoção psíquica equivalente à “suspensão de toda a espécie de atividade psíquica, somada à instauração de um estado de passividade desprovido de toda e qualquer resistência” (FERENCZI, 1931-1932/1992, p. 113). Trata-se de um distanciamento da própria subjetividade, o que implica um aniquilamento do sentimento de si. Estar fora de si, fora do tempo e do espaço, apresenta-se como providência necessária para suportar a dor intensa decorrente do trauma. Nesse sentido, uma dor não experienciada, posto a sua ausência de legitimidade, tem um efeito anestésico, pois produz um curto-circuito nas vias sensíveis. O que acontece é justamente que a criança “entrega a sua alma” (FERENCZI, 1990, p. 73) para resistir ao medo e à dor, preservando, ao mesmo tempo, o adulto, referencial indispensável para a sua existência.  

Ora, levando em consideração a impotência da criança em face do mundo adulto e, mais, a dependência dos cuidados que lhe são dispensados, entendemos a submissão à “autoridade esmagadora dos adultos” (FERENCZI, 1933/1992, p. 102) como estratégia de sobrevivência. Nesse sentido, se a criança não pode romper com o agressor, identifica-se forçosamente com ele. Assim, o adulto desaparece enquanto realidade externa e torna-se intrapsíquico, forma pela qual a criança visa exercer um controle mágico sobre ele. De acordo com Ferenczi (1933/1992, p. 105), “para proteger-se do perigo que representam os adultos sem controle, ela deve em primeiro lugar, saber identificar-se por completo com eles”. Trata-se de um recurso subjetivo claramente defensivo para tentar captar o funcionamento do objeto imprevisível e simbolizar desesperadamente o mundo circundante. Nesse contexto, a criança passa a adivinhar e a obedecer mecanicamente às aspirações alteritárias, por uma espécie de mimetismo, esquecendo-se de si mesma. Contudo, a criança sente que “no fundo, nunca é a ela que as coisas acontecem, ela somente se identifica com outras pessoas” (FERENCZI, 1990, p. 250). Portanto, ao hospedar dentro de si o agressor, converte a sua espontaneidade infantil em sentinela e adaptação às exigências externas. Como tributo, furta-se da criação de um sentido para a sua existência. Para entendermos a infiltração e o modus operandi do trauma na subjetividade, investigaremos a noção ferencziana de clivagem.

A SOLUÇÃO DA CLIVAGEM

A clivagem é uma das principais consequências da vivência de uma “dor sem conteúdo de representação” (FERENCZI, 1990, p. 64). Trata-se de um mecanismo pelo qual o indivíduo opera um corte na própria subjetividade, cujo intuito é apartar a vivência traumática e conter uma dor insuportável. Ocorre, portanto, um dilaceramento da vida subjetiva, uma espécie de sacrifício de uma parte de si em prol da sobrevivência do eu, tal como explicitado por Ferenczi (1926/1990) com o processo de autotomia. Esse processo se refere à artimanha que alguns seres vivos elementares possuem de subtrair partes do corpo, fonte de desprazer ou ferimento, para permitir a salvaguarda do conjunto. Nesse sentido, sob a ameaça de colapso do psiquismo e sem esperança de respostas abonadoras, o sujeito se decompõe e, nessa medida, “divide-se num ser psíquico de puro saber que observa os eventos a partir de fora, e num corpo insensível” (FERENCZI, 1990, p. 142). Instaura-se uma dissociação entre um eu que tudo sabe e nada sente e um eu que sente e nada sabe, ou ainda, uma cisão entre o afeto e a objetividade do mundo. É importante realçar que estas partes cindidas do eu coexistem, mas não se reconhecem e/ou se comunicam. Desse modo, uma nova organização da subjetividade é formada a partir destes fragmentos2.Nas palavras de Ferenczi (1931/1992, p. 78):

Tudo se passa verdadeiramente como se, sob a pressão de um perigo iminente, um fragmento de nós mesmos se cindisse sob a forma de instância autoperceptiva que quer acudir em ajuda, e isso, talvez, desde os primeiros anos da infância. Pois todos nós sabemos que as crianças que muito sofreram, moral e fisicamente, adquirem os traços fisionômicos da idade e da sabedoria.

Depreende-se daí que a clivagem traduz a própria medida da falha nas relações com os objetos dos quais se é dependente. Para não sucumbir ao horror do desamparo, o indivíduo precisa vir em seu próprio salvamento. Desse modo, constrói uma espécie de “anjo da guarda interno” como tentativa de suprir a ausência de proteção externa e, ainda, prevenir novas turbulências. Porém, para desempenhar a ousada função adulta de cuidado, um brusco amadurecimento se realiza mediante a exploração de disposições ainda em desenvolvimento e à custa do esgarçamento da afetividade. O envelhecimento adquirido às pressas consiste em um esforço árduo para conter a própria dor sem possibilidade de simbolização. A imagem onírica do “bebê sábio” utilizada por Ferenczi (1923/1990) porta a dimensão paradoxal da necessidade de tomar conta de si, tarefa que cabe aos adultos nos primórdios da existência.

Ora, mas o objetivo da clivagem é obter algum apaziguamento diante de um desespero existencial. Busca-se justamente uma suspensão de si e, nessa medida, um distanciamento do estado de aflição. Acontece que ao tentar escapar de sentir a dor do trauma, o indivíduo também não sente mais nada. Cabe precisar que não se trata aqui de uma insensibilidade ou frieza, mas de uma desconexão afetiva oriunda da descontinuidade radical produzida pela clivagem (VERTZMAN, 2002).  A esse respeito, Vertzman e Ferreira (2008, p. 73) afirmam:


trauma1Esta saída criativa que o defende contra outras formas de adoecimento, cobra seu preço exatamente na esfera da afetividade. A insegurança sobre seus próprios sentimentos, a anestesia psíquica, a sensação de máxima idiossincrasia no mundo dos humanos, o esmaecimento da tonalidade emocional, a dificuldade de decifração dos estímulos que emanam do corpo, são algumas das formas de sofrimento por que passam tais pessoas (…).

Anestesiado, o indivíduo se descentra de si mesmo, perdendo o colorido vital. As oscilações mundanas capazes de interromper o marasmo duramente conquistado são vivenciadas como advertências traumáticas. Com isso, as vias do prazer e do desprazer encontram-se obstruídas. Se existe alguma satisfação, essa consiste na  ausência de pane do funcionamento psíquico, posto que “o fato de ter conseguido ultrapassar esta penosa situação é uma epopéia que merece ser comemorada” (PINHEIRO, 1995, p. 94). Aqui a sensação de impotência primitiva em face da impossibilidade de canalizar as próprias intensidades cede lugar à sensação de onipotência de transmutação interna. Trata-se, contudo, de uma performance de adaptação, um faz de conta de  autossuficiência. Ainda que haja uma súbita evolução intelectual, o plano das emoções permanece embrionário e, mais do que isso, não se estabelece ligações entre ambos.

Depreende-se daí que a clivagem não elimina o ocorrido e, tampouco, a iminência de desmoronamento psíquico, o que significa que a vivência traumática deixa um lastro, ou seja, marcas não simbolizadas no psiquismo. Nesse sentido, o sofrimento não desaparece misteriosamente da subjetividade, tornando-se apenas incomunicável com o restante, ou melhor, clivado. Segundo Ferenczi (1990, p. 251),

[…] o pavor foi a força que dissociou os sentimentos do pensamento; mas esse mesmo pavor está sempre operando, é ele que mantém separados os conteúdos psíquicos assim dissociados.

Desse modo, permanentemente ocupado em impedir o contato com o funcionamento clivado, o sujeito não pode dar-se ao luxo de tirar proveito das experiências cotidianas. A subjetividade torna-se claramente constrangida.

Vislumbra-se aí um rígido, mas vacilante, rearranjo subjetivo, razão pela qual medidas complementares de proteção entram em linha de consideração. Restringir os investimentos objetais, afrouxar os laços afetivos, diminuir a intensidade das relações, abrandar a curiosidade parecem ser algumas das alternativas encontradas para evitar o risco de revivescência do trauma. Tais restrições podem ser entendidas como uma “neutralização energética”3, utilizando a sugestão de Roussillon (1999), o que implica uma evitação, tanto quanto possível, dos investimentos de objeto que arrisquem a reativação do transbordamento das quantidades. Desse modo, torna-se muito difícil para o indivíduo engajar-se em projetos de vida ou sustentar vínculos afetivos sem pressentir a ameaça de colapso. Como desdobramento, variações qualitativas e quantitativas, naturais das relações humanas, são evitadas. Funciona-se em uma espécie de economia de guerra, na qual não há tempo nem espaço para a espontaneidade e criação. Aqui parece perdida a esperança na capacidade de inventar um mundo agradável e autêntico, restando apenas a sobrevivência na adaptação à realidade tal como ela se encontra.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A presença dos processos defensivos da clivagem pós-traumática nas subjetividades engendra um modo de sofrimento psíquico que altera o curso da relação transferencial e o  regime de intervenção analítica. Frequentemente, nos perguntamos qual o sentido destes pacientes estarem em análise e o que os traz sessão após sessão; seja para falar de atualidades, seja para não dizer nada, seja para narrar suas grandes catástrofes da maneira mais blasé possível, seja para nos deixar desconfortáveis. Seguindo Ferenczi (1931/1992, p. 71), acreditamos que “enquanto o paciente continua comparecendo, o fio de esperança não se rompeu”. Esperança do paciente, mas também esperança do analista. Assim sendo, como  trabalhar na recuperação da capacidade de sentir? Como apostar que um outro arranjo subjetivo seja possível?

Considerando que no cerne da clivagem encontra-se a dor vivida na falta de um outro significativo em quem confiar, no lugar de propor ‘interpretações reveladoras’ do desejo inconsciente, tratar-se-ia de oferecer uma qualidade relacional, isto é, propiciar um encontro afetivo entre analista e paciente. Tarefa difícil, certamente, uma vez que tais pacientes estão acostumados a funcionar  em uma espécie de circuito fechado. Dito de  outro modo, o encontro com os objetos primordiais foi tão desencontrado em relação às necessidades psíquicas e físicas do indivíduo que este passou a dispensar a ajuda alheia. Sendo assim, um longo trabalho psicanalítico precisa ser feito visando permitir abertura e  confiança do paciente para os cuidados do analista. Para tanto, é preciso estar sensível aos detalhes, ater-se ao estilo das associações, acolher os movimentos de retração, habitar o paradoxo, convocar as fantasias, conceder tempo e espaço aos processos de subjetivação e, gradativamente, desanuviar as vias de prazer e desprazer outrora obstruídas. Com isso, apostamos que, aos poucos, a vitalidade empregada na manutenção das defesas se desloca para a criação de um modo de ser e estar no mundo mais espontâneo e autêntico.

REFERÊNCIAS

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ROUSSILLON, R. Agonie, clivage e symbolisation. Paris: PUF, 1999.

VERZTMAN, J. S. O observador do mundo: a noção de clivagem em Ferenczi. Revista Agora, v. 5, n. 1, p. 59-78, 2002.

______; FERREIRA, F. P. O uso do afeto na obra de Sándor Ferenczi. Cadernos de Psicanálise, Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro, v. 21, p. 45-78, 2008.

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