Totem e Tabu

Comments 0 by in Psicanálise
March 9, 2015
Totem e Tabu

tabu-y-totem-1-638

1 Introdução

O presente trabalho tem por objetivo realizar uma análise do texto Totem e Tabu (1913), conferindo ênfase à discussão acerca da gênese da moralidade e, mais especificamente, à relação estabelecida entre Lei e desejo.

Estruturado em quatro partes, que seguem a divisão do texto freudiano, procurou-se articular a leitura do original, a obra de uma comentadora e as anotações feitas durante as aulas da disciplina “Ética da Psicanálise”, ministrada no curso de Psicologia da Universidade Federal do Paraná.

I – Horror ao Incesto

Freud, ao iniciar seu texto, no primeiro ensaio, discorre sobre os pontos de concordância existentes entre a psicologia das sociedades primitivas, objeto de estudo da antropologia social, e a psicologia dos neuróticos, revelada pela psicanálise. O que o autor afirma é que horror e desejo de incesto são duas faces de uma mesma moeda, e estão presentes em todas as sociedades, tanto nas mais antigas quanto nas modernas.

Ao levantar apontamentos sobre a organização da população dos aborígenes, o autor evidencia a existência de um sistema totêmico, que estrutura e fundamenta as relações entre os membros desta tribo. Isentos de uma Instituição religiosa ou social, porém operando sobre outra lógica, a do totemismo, os integrantes desta sociedade se subdividem em grupos menores, denominados clãs, que, por sua vez, são organizados mediante o seu totem. O totem se aplica à espécie de seres ou de coisas que todos os membros de um clã julgam sagrados, podendo ser animais, vegetais, ou a própria divinização representada em uma escultura.

Antes de mais nada, trata-se de um símbolo, de um nome, cujo caráter intrínseco determina como as coisas são classificadas, funcionando como uma etiqueta coletiva. Deste modo, todos os descendentes de um mesmo totem são considerados consanguíneos.

Há, contudo, uma característica do totem, que suscitou a curiosidade e o interesse do autor, qual seja, uma lei que proíbe as relações sexuais entre pessoas do mesmo totem, bem como o casamento entre os mesmos. Esta proibição é advertida sob prescrições rigorosas, cuja violação implica sérias consequências para os membros de um grupo, revelando, desse modo, a presença tácita da regra da exogamia.

Note-se que a repulsa e o horror ao incesto, nas sociedades primitivas, foram amplamente estudas, de modo que, ao que tudo indica, o matrimônio entre os integrantes de um mesmo grupo, em tempos remotos, se concretizava. Sendo assim, torna-se evidente e compreensível o rigor da proibição de relações sexuais entre indivíduos de um mesmo totem.

É justamente neste ponto que Freud articula a moral sexual dos povos primitivos com a dos povos ditos “desenvolvidos”, pois em ambas há severas restrições às pulsões sexuais e, principalmente, no que se refere à prática de relações incestuosas.

O que Freud inaugura e enfatiza, sobretudo, é a relação existente entre esta característica de desejo ao incesto e o psiquismo infantil do neurótico.  A psicanálise nos aponta que a primeira escolha do objeto para amar e desejar é fundamentada em objetos proibidos, de ordem incestuosa, mas, à medida que a criança cresce, há a libertação dos desejos incestuosos. Por outro lado, no que tange ao psiquismo de um neurótico, são preservados, em certo grau, um infantilismo psíquico que, ou aparece como inibição, ou como regressão do desenvolvimento. Deste modo, depreende-se que as fixações incestuosas, embora reprimidas, desempenham um papel fundador na vida mental inconsciente.

Segundo Freud, “chegamos ao ponto de considerar a relação de uma criança com os pais, dominada como é por desejos incestuosos, como o complexo nuclear das neuroses.” (FREUD [1913- 1914], p.15) É nesse sentido que Freud compreende a real urgência dos povos selvagens de se defenderam dos desejos incestuosos, pois, em última instância, eles se efetivariam. Para tanto, são construídas proibições e restrições que comparecem como um tabu. Mas, diferentemente das proibições socializadas em nossa sociedade, nas tribos primitivas elas comparecem como algo natural, dado e espontâneo, sem fundamento a priori e sem que haja um sistema rigoroso que contemple e declare as interdições e os motivos para a sua existência. Deste modo, poder-se-ia dizer que o tabu é auto referente, e se impõe por conta própria, na medida em que não é submetido a qualquer ordem externa senão a ele mesmo.

II – O Tabu e a Ambivalência dos Sentimentos

Neste segundo ensaio, Freud inicia seu trajeto através do registro antropológico para ir, aos poucos, se deslocando para a cena da neurose e, somente depois, retorna ao social.

É neste contexto que emerge o estudo do tabu – termo de origem polinésia que apresenta significações antagônicas, a de sagrado e consagrado, por um lado, e de inquietante, perigoso e impuro, por outro.

Freud atribui uma especial importância ao tabu por duas razões, a saber: por sugerir que o mesmo pode se revelar esclarecedor para compreendermos a noção do “imperativo categórico” e, também, por perceber a existência de uma íntima relação entre os tabus primitivos e as proibições e convenções morais vigentes em nossa sociedade.

Porém, faz-se necessário notar que tabu nos remete à idéia de proteção e prevenção contra eventuais ações que representem perigo ou ameaça. Neste sentido, a violação de um tabu era, sem dúvida, motivo de punição ou castigo, o que nos indica que “os primeiros sistemas penais humanos podem ser remontados ao tabu” (FREUD [1913- 1914], p.17). Ao transgredir um tabu, a pessoa efetora da ação será relegada a ser o próprio tabu, confirmando que a transmissibilidade é possível quando em contato com as pessoas ou coisas, carregadas de um poder perigoso. “O fato mais estranho parece ser que qualquer um que tenha transgredido uma dessas proibições adquire, ele mesmo, a característica de ser proibido — como se toda a carga perigosa tivesse sido transferida para ele” (FREUD [1913- 1914], p.19).   Esta característica que reside no tabu de contato permeia, também, os neuróticos obsessivos, na fobia do tocar.

Da comparação do tabu – entendido como interdito que, de tão antigo e rigoroso, tornou-se tão inquestionável que sua violação não só acarreta um castigo violento como transforma o infrator em tabu – com a neurose obsessiva, Freud conclui que, em ambos os casos, a proibição se dirige aos mais intensos desejos do humano, razão pela qual persiste, no inconsciente, a tendência a transgredi-los (KOLTAI, 2010, p. 32).

Verifica-se, então, que o castigo prescrito pelo tabu, relativo ao contato com o interditado, aparece como um meio de alçar o objeto desejado ao estatuto de um objeto impossível.  Esta expressão de desejo e, ao mesmo tempo, de temor, leva Freud a crer que, assim como os povos primitivos sustentam esta atitude ambivalente, no sujeito neurótico esse paradoxo também coexiste.

A evidência mais marcante da articulação existente entre as proibições neuróticas e as suscitadas pelo tabu, emerge, pois, da origem não determinada e destituída de sentido em ambos os casos. Nas considerações que Freud tece, a origem do tabu aparece como algo imposto, noutra época, por uma autoridade externa e não passível de demonstração ou clarificação. O interesse do autor é orientado à verificação de que esses fatores, inerentes ao tabu, aparecem e constituem, particularmente, os sintomas e medidas ambivalentes da neurose obsessiva; estas últimas, entendidas como a dominância de tendências opostas e contraditórias, que encerram a dimensão mais importante nos pacientes obsessivos.

As proibições obsessivas, segundo Freud, estão sujeitas ao deslocamento, isto é, há um deslocar de um objeto para outro, que, quando eleito, torna-se igualmente inacessível. A justificativa recai, novamente, ao fato de que a proibição reflete o desejo e, portanto, ao tentar interditar o desejo – que é de natureza inconsciente -, tem-se, cada vez mais, a aproximação com ele.

Visto que há muitos pontos de concordância existentes entre as práticas do tabu e os sintomas neuróticos, Freud, de maneira sistemática, os classifica como:

(1) o ato de faltar às proibições qualquer motivo atribuível; (2) o fato de serem mantidas por uma necessidade interna; (3) o fato de serem facilmente deslocáveis e de haver um risco de infecção proveniente do proibido; e (4) o fato de criarem injunções para a realização de atos cerimoniais (FREUD [1913- 1914], p.22/23).

O percurso clínico e o discurso travado no seio da psicanálise revelam que um ponto determinante para a imposição da proibição ocorre logo no início da mais tenra infância, e depois terá como resultado mecanismos repressores que envolvem, por exemplo, a perda de memória. O desejo, por outro lado, ainda que reprimido, permanece vívido no inconsciente, ecoando e se fazendo presente sob a persistência da proibição.

Freud retorna as fundamentais proibições, oriundas do tabu, e as descreve como as leis básicas do totemismo: i) não matar o animal totêmico e ii) evitar relações sexuais com membros do clã totêmico do sexo oposto. A enunciação destes dois tabus, para os psicanalistas, parece denunciar o ponto central dos desejos da infância e o núcleo das neuroses.

É possível, neste presente momento, mencionar que há uma forte motivação inconsciente para a ação proibida, originária do próprio tabu, que, em si mesmo, possui o poder de transmissão e contágio do interdito, bem como a capacidade de produzir a tentação ou mesmo de incentivar a imitação. A violação, nesse sentido, traduzida por impulsos conscientes, deve ser vetada, visto que apresenta um perigo real para a convivência em sociedade. É justamente por essa razão que os membros de uma comunidade devem estar avisados de seus transgressores e se vingarem, para que a sociedade não esteja fadada à dissolução.

A necessidade dessa instância de interdição é enfatizada por Freud, pois é por meio dela que é possível impedir a satisfação da pulsão, incompatível com o socius e, deste modo,preservar o laço social. Somente assim é possível manter a ligação durável e inevitável do desejo e da lei, razão pela qual o corpo social imprime severas proibições, com o intuito de reprimir, organizar e canalizar a sexualidade (KOLTAI, p. 31).

Se, por um lado, a renúncia é necessária em prol da obediência que deve ser destinada ao tabu, por outro lado, ela também é compensatória, na medida em que impõe outra alhures.

Os seres humanos são extremamente ambivalentes em relação ao tabu, e ao realizar uma análise pormenorizada das relações contraditórias existentes entre os povos primitivos, Freud fundamenta esta constatação.

No que diz respeito à relação dos súditos com seus superiores (governantes), é possível identificar os contrastes gritantes que coexistem em sua base. Embora o rei seja autorizado a gozar de grandes privilégios, enquanto outros não o são, ao governante são endereçados certos tabus que não são prescritos aos demais viventes. Este dado confere validade à existência da ambivalência, na medida em que, ao mesmo tempo, a expressão do mais profundo respeito por eles não passa de um castigo, uma vingança de seus súditos. Não é de se admirar que suas vidas se transformem num verdadeiro inferno, acabando por viver uma servidão maior do que a de seus súditos.

As analogias que Freud estabelece, nesse segundo capítulo, entre os selvagens e os neuróticos, revelam, fundamentalmente, a presença de sentimentos ambivalentes e contraditórios, que ora são hostis, ora são afetuosos. Este caráter dúbio dos impulsos revela que há, simultaneamente, satisfação em ambas as experiências, encontradas nestes dois pólos que, apenas aparentemente, são dissociáveis.

Ao final deste capítulo, o autor se aproxima do que mais tarde irá tratar sobre natureza e a origem da “consciência moral”, compreendida como a condenação que o sujeito sente ao agir influenciado por certos desejos. Do mesmo modo que o tabu, ela parece também ser parida pela ambivalência afetiva, na qual uma parte da oposição permanece inconsciente, através de alguns mecanismos psíquicos, enquanto a outra se manifesta, explicando, assim, o seu caráter angustiante.

Alguns processos psíquicos inconscientes se diferem, quanto a sua natureza, dos conscientes, desfrutando de certas liberdades negadas aos últimos, tais como o deslocamento e a projeção (mecanismos de defesa), que permitem à pulsão manifestar-se num lugar outro, que não aquele onde surgiu.

Essa consciência moral apresenta uma grande afinidade com a angústia, cuja fonte reside no inconsciente. O caráter angustiante da consciência moral reside justamente nesse inconsciente, nesse desconhecimento das razões que levam ao recalcamento de certos desejos (KOLTAI, 2010, p.37).

Freud nos chama a atenção para o conflito que se estabelece quando uma ordem emitida pela consciência é violada, produzindo senso de culpa, cuja natureza está intimamente ligada à ansiedade:

(…) se impulsos cheios de desejo forem reprimidos, sua libido se transformará em ansiedade. E isto nos faz lembrar que há algo de desconhecido e inconsciente em conexão com a sensação de culpa, a saber, as razões para o ato de repúdio. O caráter de ansiedade que é inerente à sensação de culpa corresponde ao fator desconhecido (FREUD [1913- 1914],p.47/48).

Para reforçar a idéia de que por detrás de toda interdição há desejos inconscientes ocultos, o autor recorre aos “Dez Mandamentos” para melhor ilustrar esta situação. Ao fazer alusão ao mandamento Não matarás, ele explica que a existência desse imperativo somente é pertinente, na medida em que o ser humano carrega inconscientemente o desejo de matar, caso contrário, não haveria necessidade de proibir algo que ninguém deseja fazer e “e uma coisa que é proibida com a maior ênfase deve ser algo que é desejado” (FREUD [1913- 1914], p.48).

Freud lança luz sobre diversas semelhanças encontradas entre o tabu e a neurose obsessiva, porém, ele nos alerta de que é necessário lembrar de que o tabu é uma formação social, gerada no bojo da cultura e, por isso mesmo, diferente da neurose, que se caracteriza pela dominação e sobreposição dos componentes sexuais aos sociais.

Versando sobre a transgressão do tabu, é provável que ao sujeito que a cometeu sejam incididas algumas punições que, na maioria das vezes, aparecem como uma doença grave ou morte. Quando não são acompanhados de castigos, a própria coletividade, inserida no contexto do transgressor, se responsabiliza por aplicar as penalidades, visto que se sentem ameaçadas e temem o tabu de contato. É possível reconhecer neste ponto os desejos recalcados no criminoso e naqueles que estão encarregados de vingar a sociedade do crime cometido.

O contrário parece surgir, pois, na neurose obsessiva. Aparentemente agindo de forma altruísta, o neurótico, ainda que acometido de impulsos de transgressão, quando defrontado com a possibilidade de concretizar o ato proibido, recua e se detém. A justificava reside no temor que ele sente de que alguém por quem ele tenha muito apreço sofra as punições em seu lugar. Poder-se-ia supor uma “inesperada nobreza do neurótico”, mas, o que Freud aponta é que, assim como o primitivo, ele também teme ser castigado por seu desejo de morte contra a pessoa que lhe é cara. A diferença, contudo, está no fato do neurótico recalcar esse desejo, que, por meio de sucessivos deslocamentos, se transformou em temor de que a pessoa viesse a falecer.

O autor conclui, deste modo, o porquê dos fatores sociais desaparecerem nos casos de neurose, pois eles reaparecem tamponados, mascarados por uma sobrecompensação.  O mundo no qual o neurótico se refugia é distante do mundo real do qual ele foge, justamente porque num mundo imaginário ele não tem que se deparar com uma realidade que não lhe oferece satisfações. Mas, ao se desviar dessa realidade, adotando uma postura antissocial, o neurótico é destituído de sua própria comunidade humana (KOLTAI, 2010).

III – Animismo, Magia e Onipotência de Pensamentos

Freud se apóia sobre três grandes concepções de mundo, para engendrar seu terceiro ensaio; a saber: a animista (mitológica), a religiosa e científica, cultivadas nas obras de Taylor, Spencer, Frazer e Wundt e Marret.

Os humanos, diante de suas necessidades, criaram suas primeiras concepções de mundo em consonância com seus próprios desejos. Inicialmente, na fase animista, atribuíram poder a si mesmos e posteriormente, na fase religiosa, aos deuses, sem, contudo, abdicar do desejo de influenciá-las para que agissem conforme seus respectivos desejos humanos.

O animismo, criado pelo primitivo, concebia o mundo como algo natural, regido pela magia, que era considerada uma espécie de fio condutor por meio do qual o primitivo pensava que poderia se apoderar do espírito dos homens, dos animais e das coisas. Freud, em oposição à Taylor, defendia a idéia de que o que estava em questão na magia eram os desejos humanos, os únicos responsáveis por induzir uma superestimação dos processos de pensamento em relação à realidade (KOLTAI, 2010).

Ao enfatizar o papel da magia na onipotência das idéias, o autor nos alerta para o conceito fundamental da psicanálise que é a realidade psíquica, sustentada por um desejo inconsciente.

Os povos primitivos, por meio da imposição de suas próprias leis psíquicas, externavam na realidade os seus reais desejos, a fim de que os espíritos agissem conforme suas vontades. Essa mesma característica que aparece no primitivo é também visível na criança, cujo psiquismo conserva as mesmas condições de um selvagem, fazendo com que alucinem a realização de seus desejos.

O modo que o ser primitivo encara o mundo, isto é, à sua imagem e semelhança, leva Freud a constatar uma associação que existe entre a onipotência e o narcisismo, entendido como investimento libidinal em si próprio, em que o outro existe somente enquanto objeto de satisfação, e não em sua alteridade.

A correlação entre o pensamento onipotente do primitivo e o narcisismo, permitiu que o psicanalista apontasse para as diferentes maneiras de conceber o mundo e o desenvolvimento da libido individual. A fase animista estaria atrelada, deste modo, ao narcisismo primário, a religião ao estágio no qual a libido se fixa nos pais e, por fim, a ciência estaria ligada ao estado de maturidade no qual há uma renúncia, por parte do sujeito, à exclusiva busca de prazer e subordina sua escolha de objeto às exigências da realidade (KOLTAI, 2010).

Freud não cessa suas analogias entre os sujeitos primitivos e os neuróticos. Os neuróticos também hesitam para aceitar a realidade tal como ela é, atribuindo à realidade externa, as suas próprias aspirações. Estes últimos, segundo o psicanalista, possuem natureza mágica, isto é, tanto em seus atos quanto em suas defesas, imperam a onipotência das idéias e o predomínio dos processos psíquicos sobre a vida real.

A transposição do animismo, da magia e da onipotência das idéias para a esfera da religião, e depois da ciência, se concretizou devido à renúncia pulsional exigida pela cultura.

Em nossa experiência cotidiana, é possível identificar alguns resquícios do animismo presentes, por exemplo, nos sonhos. Se prosseguirmos com a leitura de Totem e Tabu, é visível que Freud ao longo dos seus três primeiros ensaios, prepara o terreno para introduzir o ato de nascimento de sua metapsicologia do social, por meio de sua hipótese acerca da gênese da cultura. Em “O retorno do totemismo na infância”, o autor efetuará a união entre totemismo e tabu, que nos levará a idéia da proibição universal do incesto.

IV – O Retorno do Totemismo na Infância

Neste ensaio, Freud retoma várias questões já abordadas, principalmente, o totemismo, justamente para relembrar a importância que ele exerceu sobre os primitivos.

O sistema totêmico pode ser interpretado do ponto de vista tanto religioso quanto social; falar-se-á de seu caráter religioso, na medida em que comparecem relações de respeito mútuo entre o primitivo e seu totem e, de seu estatuto social, nas obrigações recíprocas que permeiam tanto os membros de um clã quanto das tribos entre si.

No que tange à natureza religiosa, pode-se dizer que Freud procura nos chamar a atenção para o tabu, ligado ao totem, manifesto nas proibições que seus descendentes se impunham a fim de protegê-lo. É por isso que não se podia matar, comer ou caçar o animal do totem e, dependendo da tribo, inclusive, tocá-lo, olhá-lo ou chamá-lo por seu verdadeiro nome, sob pena de punições por meio da morte ou da doença. O benefício que fazia valer as restrições residia, pois, na esperança de serem protegidos por ele.

Do ponto de vista social, o que se destaca não é somente a quantidade e o rigor das proibições, mas também, o fato das restrições se relacionarem com o interdito das relações endogámicas, gerando, consequentemente, a fobia do incesto.

Freud, intrigado com as questões levantadas pelo totemismo, procura através dos seus estudos compreender melhor as necessidades psíquicas que ele expressava, bem como as condições que proporcionaram o seu desenvolvimento.          Após se debruçar sobre todas as teóricas conhecidas em sua época – nominalistas, sociológicas e psicológicas – o autor chega a conclusão de que existiam até aquele momento, duas concepções distintas:

Desse modo, encontramos dois pontos de vista opostos: um que procura manter a pressuposição original de que a exogamia constitui parte inerente do sistema totêmico e outro que nega existir tal vinculação, sustentando que a convergência entre esses dois aspectos das culturas mais antigas é uma convergência fortuita (FREUD [1913- 1914], p. 78).

Posicionando-se contrariamente à teoria da coincidência, o autor afirma que a exogamia, corolário do sistema totêmico, só podia se fundar, no medo do incesto. Segundo os ensinamentos da psicanálise, nada havia de inato na exogamia, suas causas, inclusive, deveriam ser procuradas nos primeiros desejos sexuais, de natureza inegavelmente incestuosa.

Neste ponto, Freud lança luz às atitudes das crianças para com os animais, a fim de apresentar as inúmeras concordâncias com os primitivos e, logo a seguir, à clínica da zoofobia infantil, por meio do caso clínico do pequeno Hans.

A análise desta criança fóbica levou o psicanalista a formular a hipótese de que os casos de zoofobia infantil expressam nitidamente a situação do menino no complexo de Édipo; “esse complexo central das neuroses, no qual o pai se apresenta como rival da criança com o qual essa tem de partilhar o interesse da mãe” (KOLTAI, p.44, 2010).

Freud ao analisar este caso, constata que diante da impossibilidade de Hans dar vazão ao ódio que sente pelo pai, justamente, porque o mesmo é objeto também de amor e admiração, ele acaba por deslocar a angústia que sente a um animal. Essa situação se repete inúmeras vezes, manifestando que os sentimentos ambivalentes em relação ao pai, oriundos de interesses sexuais infantis, são deslocados para outro objeto.

Posto isto, Freud se sente autorizado a introduzir suas considerações sobre a origem do totemismo. A primeira consequência notável, na fórmula do totemismo, é a substituição do pai por um animal totêmico. O autor afirma que:

Se o animal totêmico é o pai, então as duas principais ordenanças do totemismo, as duas proibições de tabu que constituem seu âmago — não matar o totem e não ter relações sexuais com os dois crimes de Édipo, que matou o pai e casou com a mãe, assim como os dois desejos primários das crianças, cuja repressão insuficiente ou redespertar formam talvez o núcleo de todas as psiconeuroses (FREUD [1913- 1914], p.87).

Para comprovar que o totemismo é fruto das condições do complexo de Édipo, Freud recorre à Darwin, Atkison e Robertson Smith, para alçar, através da teoria da horda primitiva, uma hipótese sobre um “assassinato originário” e, com a teoria do festim totêmico, a comemoração por meio de sacrifícios ritualizados (KOLTAI, 2010).

Depreende-se que a leitura conjunta, desses três autores, possibilitaram à Freud unir uma teoria clínica e uma teoria social e, também, narrar a procedência de um estado originário da sociedade que nunca havia sido de fato observado.

O autor admite ter encontrado no festim totêmico, de Robertson Smith, a mola propulsora dessa origem, visto que se tratava de um sacrifício-festa, no qual o animal totêmico era sacrificado e lastimado, para em seguida ser devorado pelos membros da tribo numa festa. “Foi nessa transgressão ritual das proibições totêmicas que Freud identificou a sequela do acontecimento como causa da relação da humanidade com as proibições totêmicas e incestuosas” (KOLTAI, p.46, 2010).

Freud insiste na relevância coletiva do sacrifício e sua relação com a festa, chamando a atenção, primeiramente, para os laços que unem os membros de uma comunidade e, na seqüência, para os laços que unem esta à divindade.

Através de alguns dados até então isolados, da biologia e da etnologia, o autor inicia a formulação de sua hipótese. Para tanto, ele utiliza-se de um mito para narrar os acontecimentos que instituíram um contrato social, no qual tanto o incesto quanto o monopólio da violência eram proibidos, descrevendo, deste modo, a passagem do estado arcaico para outro modelo de regime.

Esta passagem teria se dado em três tempos. O primeiro jazia um estado social em que a força fazia a lei:

“(…)uma horda primitiva dominada por um macho que gozava de um monopólio sexual absoluto, possuíra todas as fêmeas ao mesmo tempo e impedia o acesso dos demais machos a elas. Puro gozo, frustrava o desejo dos filhos por suas mães e irmãs, submetendo todos à sua lei, imposta pela força” (KOLTAI, p.47, 2010).

O segundo tempo marca o complô dos filhos frustrados que, insatisfeitos e revoltos com a tirania paterna, decidem matar o déspota que tanto odiavam e amavam simultaneamente. Com efeito, deixaram de ser submissos e tornaram-se ousados ao matarem o pai, realizando, coletivamente, o que sozinhos nenhum deles teria feito. Para selar e afirmar a existência do grupo, eles celebravam o festim totêmico, no decorrer do qual foram levados a devorar o corpo do pai e se identificando com ele, puderam se reconhecer como irmãos de sangue.

O próximo momento é aquele em que os filhos perceberam que cada um deles almejava, secretamente, ocupar exclusivamente o lugar do pai. Informados de que se isso se efetivasse, a consequência última seria uma guerra fratricida, decidiram renunciar mutuamente tanto à satisfação incestuosa quanto à violência como meio de consegui-la. Viram-se, deste modo, obrigados a buscar em outras hordas mulheres para se relacionarem, estabelecendo, assim, a exogamia. Somente nestas circunstâncias foi possível pôr fim à horda selvagem e inaugurar o clã fraterno, fundado sobre os lanços de sangue.

Apreende-se que foi através do assassinato do pai, com o qual os filhos mantinham uma relação ambivalente de amor e ódio, que o estado de direito pode se consolidar. Note-se que o pai morto, se demonstrou mais poderoso do que o pai vivo, uma vez que os filhos passaram a interditar aquilo que o pai os impedia, anteriormente, pela força. Com a morte do pai, os filhos puderam externalizar o sentimento de ódio, enquanto que o amor, que também sentiam, se transformou em sentimento de culpa.

Posto isto, Freud discorre sobre os dois tabus fundamentais do totemismo: matar o totem e casar com uma mulher do mesmo totem que, por sua vez, correspondem aos dois desejos reprimidos do complexo de Édipo.

Freud encerra que o sistema totêmico pode ser objetivado como um contrato concluído com o pai, em que esse promete cumprir tudo aquilo que a imaginação infantil poderia esperar dele, proteção, cuidado, à condição de que sua vida seja respeitada e não se renove o ato que lhe custou a vida (KOLTAI, 2010).

Com base na teoria psicanalítica, o pai da psicanálise examina que a cultura não só é fruto da renúncia pulsional, como essa passa a ser, inclusive, uma constante estrutural dela.

À guisa de conclusão, é possível estabelecer um correlato entre o que Freud afirma sobre a moralidade humana e seu início com esses dois tabus. O primeiro, sendo o da proibição do incesto, corresponde à única maneira que os irmãos encontraram para garantirem a força que nascera de sua união, enquanto que, o segundo, da obrigação de proteger o animal totêmico, pode-se entender como a primeira volição religiosa do totemismo, consequência da culpabilidade dos filhos ao mesmo tempo em que é uma tentativa de refrear esse sentimento, reconciliando-se com o pai, numa obediência retrospectiva.

Neste sentido, a autora coloca que,

(…) em todas as religiões subsiste a ambivalência inerente ao complexo paterno, sendo todas elas, de certa forma, consequência desse grande acontecimento pelo qual teve início a civilização e que, desde então, nunca deixou de atormentar a humanidade (KOLTAI, p.49, 2010).

V – Para Concluir

Visto que o trabalho está por se encerrar, faz-se necessário retomar algumas considerações sobre o mito que Freud nos introduz.

Em primeiro lugar, é fundamental perceber que o crime é um ato fundador, responsável por organizar a civilização.

Em segundo lugar, o crime, ao invés de autorizar os filhos a acessarem as fêmeas desejadas, trouxe como consequência a instauração da percepção de uma classe de iguais. Deste modo, o parricídio não permitiu o acesso às mulheres da horda: o pai morto, longe de perder seu poder, só o teve reforçado. Neste sentido, a morte do pai primevo, longe de dar acesso ao gozo, estabeleceu um sistema social com suas próprias leis, sendo a primeira delas a proibição do incesto. Neste momento é que se afigura a ruptura fundamental do mundo natural para aquele da cultura, estruturado em um sistema de organização simbólica.

Em terceiro lugar, foi somente através desse crime que o chefe da horda se transformou em pai, donde se deduz que o pai só existe morto, em sua negativa, enquanto ser mítico, e que, nessa função, incita o amor, terror e reverência. Assim, inscrição do pai morto, por isso negativo, é o que confere e legitima a sua função, ganhando, pois, uma existência simbólica que só emerge com a sua ausência.

Ademais, “o assassinato do pai não só traz consigo a constante possibilidade do assassinato como a civilização se inicia com o crime e se perpetua com ele” (KOLTAI, p.49, 2010).

O lugar do pai é organizado simbolicamente, por excelência, destituído, então, de quaisquer atributos naturais. É, pois, referenciado a uma autoridade simbólica que, por sua vez, cumpre a função de inscrever um valor simbólico que inaugura uma regra, uma lei, que serve como obrigação. A lei, contudo, retira força dela própria para exercer sua autoridade, na medida em que não há fundamento externo que a justifique.  Neste sentido, é por exclusão de toda possibilidade física ou coercitiva que a lei se constitui. Isto nos leva a crer que a autoridade é dada por um valor simbólico, autoreferente, que tal objeto eleito ocupa.

Finalmente, torna-se possível compreender porque o parricídio é visto por Freud como um ato fundador e necessário para que se dê a passagem da natureza para a cultura e o totemismo como forma elementar de religião, que nos insere no mundo da culpa e da renúncia.

Totem e Tabu é, por fim, um texto que inaugura a importante reflexão a respeito da necessidade de uma lei transcendente, compreendida em sua gênese por meio de uma explicação mítica que acena para os elementos da organização social, das restrições morais e da religião como seus elementos constitutivos.

FREUD, S. Totem & Tabu (1913). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. XIII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

KOLTAI, C. Totem e Tabu: Um mito freudiano. Rio de Janeira: Civilização Brasileira, 2010.

Tags: