Renúncia

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January 5, 2017

É frequente os psicanalistas serem procurados para tratar das dores do amor. Amantes impossíveis, paixões descabidas e sonhos frustrados que certamente nos levarão a derrota exigem que tenhamos capacidade para renunciar.

Toda renúncia pede determinação. É preciso capacidade de lidar com a enorme dor provocada pela falta e perda de uma satisfação. A ideia é substituir um prazer imediato por outro, longínquo; mas a recompensa por esse sacrifício, às vezes, demora e não está garantida. Quem renuncia escolhe ter um buraco dentro de si.

A renúncia é um processo. Costuma ser o fim de uma longa jornada – feita de idas e vindas, ponderações e desespero – que leva à conclusão de que nem tudo que é bom faz bem. Não há fórmula para realizá-la, durante o trajeto cada um se descobre e, simultaneamente, inventa um caminho singular.

Quando um amor nefasto surge é preciso que a gente se veja como um dependente químico em tratamento, alguém que precisa se conhecer e se fortalecer para largar a droga. Portanto, é fundamental, investigar os dramas atuais e os amores do passado, bem como o papel que esse vínculo desempenha nesse momento de vida.

A capacidade de se transformar e de aprender com as experiências poderá levar ao desligamento desejado ou a outro lugar ainda desconhecido. O trabalho é árduo porque não se propõe apenas a tirar alguém da nossa vida, deixar tudo como era antes para voltarmos a ser nós mesmos, significa, tirar a gente de nossa própria vida. E ninguém gosta da sensação de ser arrancado de um lugar conhecido para ser atirado na escuridão.

*Luciana Saddi é psicanalista e membro da SBPSP.