Reflexões Psicanalíticas sobre o Suicídio

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March 9, 2015
Reflexões Psicanalíticas sobre o Suicídio

suicidio

O Suicídio se trata de uma importante questão de saúde pública no mundo.   Segundo um relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 815 mil pessoas se mataram no ano 2000 em todo o mundo, o que significa um suicídio a cada 40 segundos. E que até o ano de 2020, mais de 1,5 milhões de pessoas vão cometer suicídio. O Suicídio encontra-se como a quarta causa de morte entre pessoas de 15 a 44 anos. O Ceará é o estado que possui a mais elevada taxa de suicídio no nordeste, sendo a Bahia a taxa mais baixa.

Este é um tema bastante polêmico e complexo, que leva muitos leigos e pesquisadores a refletirem sobre o que leva uma pessoa a tirar a própria vida. Busca-se um significado, um motivo o qual torna essa existência tão insuportável, e se possível, como evitá-lo. Não existe uma causa única que leve ao suicídio. A maioria dos autores vêem como construções ao longo da vida do sujeito, que o levam a tal ato, tornando o viver mais sacrificante que o morrer. Em geral, o que é chamado de “causa”, ocorre em culminância com uma série de outros fatores que vão se acumulando na vida do sujeito, como fatores familiares, sociais, biológicos, psicológicos, etc. Trata-se de um ato não apenas individual, mas também social, pois a mesma relação que há desse sujeito com sua família, também há do sujeito com a sociedade em que vive.

A dor que toma conta da mente do sujeito está carregada de estados emocionais negativos como culpa, vergonha, angústia, solidão, acompanhada de ideais de morte, na intenção de dar fim a essas emoções insuportáveis. O ato suicida demonstra uma grande ambivalência, onde o sujeito vai atrás da morte, mas de alguma maneira deseja a intervenção de socorro, quando transmite sinais verbais ou comportamentais da sua intenção. É como se ele quisesse transmitir que algo está errado e necessita de uma solução, mas não encontra meios para fazê-lo. Por isso o suicídio também é considerado um pedido de ajuda.

Diversos autores como Cassorla e Angerami, percebem esse ato de tirar a própria vida como uma forma de fuga a um sofrimento intenso e insuportável. Ele é acometido de uma imensa angústia que o corrói. Não suportando mais tal sofrimento, passa-se a ver a morte como única saída para o descanso, aliviando essa tensão. Essa tortura na maioria das vezes é interna, vindo da mente do sujeito, construído pelos diversos fatores que citamos. Angerami (1997), fala que a realidade das grandes cidades, os sentimentos de abandono, solidão, angústia, geram um desespero da existência humana a milhares de pessoas. Essa vida se torna tão insuportável que o indivíduo acaba buscando a morte como uma alternativa à vida, não apenas pelo desejo de morrer. A morte não é o que o suicida deseja, porque ele nem mesmo sabe o que seria a morte, o que deseja é fugir do sofrimento. Segundo Macedo (2007), o sofrimento e a tensão produzidos pelo superego são tão intensos, que vendo-se sem esperança, com a perda da sua autoestima, o ego se vê desamparado pelo superego e se deixa morrer.

A partir da psicanálise, o ato suicida é visto em parte, como um evento onde a pulsão de morte prevalece em relação à pulsão de vida, existindo uma luta constante entre a vida e a morte, onde a última acaba prevalecendo. Para Freud (1920), é necessário que exista um equilíbrio entre as duas pulsões, onde a pulsão de morte permaneceria atrelada a serviço da vida, atuando em um movimento paralelo. Cassorla (1991) fala que a psicanálise vê a morte como um parto ao contrário, onde se deseja o reencontro em simbiose com a mãe, em uma espécie de útero. Ele busca uma figura protetora, visando basicamente o princípio de prazer. Dias (1991) fala do ato suicida como um acting-out ou atuação, como é chamado pela psicanálise, ou seja, a expressão dos conteúdos psíquicos através de atos.

Justus (2003), fala que a clínica contemporânea se defronta com a queda da função paterna como resposta de sustentação à existência do sujeito. O sujeito é impedido de ter o enfrentamento da sua dor de existir, frente os avanços da psicofarmacologia. Fala-se do mercado do gozo, onde o sujeito só experimenta o gozo, e não a falta, pois é eliminado rapidamente pelo medicamento, pelo consumo ou a droga, que são usados como fuga dessa falta. Cassorla (1991), fala que o suicídio é a maior manifestação autodestrutiva do sujeito, frente a esse tempo em que reina o consumismo, onde o tempo passa depressa demais, e o homem precisa buscar uma saída para preencher esse sentimento de desamparo, desistindo de viver.

Há também nessa era pós-moderna um afrouxamento dos laços nos relacionamentos. Não há mais tempo para sofrer, nem se deve. Essa geração da felicidade, busca substituir rapidamente esses laços, o que gera um vazio ainda maior, solidão e tédio, aumentando ainda mais o nível de angústia. Por achar que podem substituir e serem substituídas, as pessoas vivem cada vez mais com um sentimento de ansiedade e incompletude. Esse sentimento de desamparo, não seria só da falta do outro, mas também de um ser desprotegido e desamparado, ameaçado por um outro gozador. O suicida fracassa nessa busca do desejo e do prazer que sustenta a era pós-moderna, tornando intolerável esse sentimento de falta, o que acaba levando-o a voltar-se contra si mesmo. No suicida, acontece uma crise de despersonificação, onde o sujeito não se reconhece mais e acaba se identificando com o agressor introjetado.

Macedo (2007) fala que o suicídio é uma agressão ao exterior, e que secundariamente se volta contra o ego. Onde matando-se, o sujeito consegue anular psicologicamente a perda do objeto, vingando-se do ambiente, onde provoca sofrimento aos outros. E que a partir de experiências clínicas, pôde-se observar que frequentemente o suicídio destina-se a destruir a vida dos sobreviventes, onde vêem o suicídio como a única forma de vingança satisfatória contra os pais, amigos ou qualquer ente querido. Este ato gera extremo sofrimento às pessoas que o cercam, devido passarem a sentir-se culpados e responsáveis por de alguma maneira terem permitido, ou não evitado o ato.

Para Freud, no texto Luto e Melancolia, o suicídio seria a volta da destrutividade contra o próprio sujeito, onde há um desejo de matar um outro, e como autopunição, essa agressividade volta contra si mesmo. Macedo (2007), também coloca que para Freud, nenhum neurótico abriga pensamentos de suicídio que não consistam em pensamentos assassinos contra outros, o qual voltam contra si. A energia necessária para tirar-se a vida, precisa estar vinculada ao mesmo tempo como desejo de matar o objeto a qual se identifica, enquanto que esse desejo de morte que era orientado para a outra pessoa volta para si. O suicídio é assim, uma agressão voltada para o íntimo, contra um objeto de amor introjetado e investido, com um desejo reprimido de matar uma outra pessoa.

Prevenção

Primeiramente é preciso conhecer, para prevenir. A Organização Mundial de Saúde (OMS) possui um manual de prevenção do suicídio, onde fala sobre o comportamento suicida, fatores de risco, dentre outras informações importantes para a prevenção do mesmo. Como vimos anteriormente, o suicídio acaba sendo uma forma de comunicação, uma maneira encontrada pelo sujeito de pedir ajuda. Em geral, o suicida expressa a intenção do ato através de palavras ou comportamentos. As pessoas que cercam este sujeito precisam estar atentas às manifestações expressas. Não se deve ignorar a situação, ou fazer parecê-la trivial.

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