Recalcamento (Die Verdringung)

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March 10, 2015
Recalcamento (Die Verdringung)

163264_640O recalcamento é o mecanismo de defesa mais antigo, e o mais importante; foi descrito por Freud desde 1895.  Está estritamente ligado a noção de inconsciente e é um processo através do qual se elimina da consciência partes inteiras da vida afetiva e relacional profunda.

Sob seu aspecto estritamente funcional, o recalcamento é indispensável à simplificação da existência corrente e não implica sempre uma presunção mórbida. Quando entra em cena de maneira patológica trata-se de organizaçõesneuróticas ou sistemas defensivos de modo neurótico (mesmo no seio de estruturas diferentes). (Bergeret, 2006)

Freud (1915) em seu artigo metapsicológico sobre o recalcamento se questiona sobre por que deve um impulso pulsional sofrer tal vicissitude (ser recalcada, tendo seu acesso negado), já que a satisfação de um impulso sempre provoca prazer. Seria necessário supor a existência de certas circunstâncias peculiares, algum processo através do qual o prazer da satisfação se transforma em desprazer.

Freud diz que o recalque não é um mecanismo defensivo presente desde o início; só pode surgir quando tiver ocorrido uma cisão marcante entre a atividade mental consciente e a inconsciente (o recalcamento só está presente a partir da divisão entre sistema consciente/pré-consciente e sistema inconsciente). E que antes da organização mental alcançar essa fase a tarefa de rechaçar os impulsos pulsionais cabia à outras vicissitudes, as quais as pulsões podem estar sujeitas.

Bergeret (2006) define o recalcamento como um processo ativo, destinado a conservar fora da consciência as representações inaceitáveis. Distinguem-se três níveis nos quais esse mecanismo ocorre: o recalcamento primário; recalcamento secundário ou recalcamento propriamente dito; e retorno do recalcado.

Recalcamento primário

“É o resto de uma época arcaica, individual ou coletiva, em que toda representação incômoda (imagens da cena primitiva, de ameaças à vida ou seduções pelo adulto) se encontrava automática e imediatamente recalcada, sem ter-se tornado consciente; é o pólo atrativo a seguir, os pontos de fixação dos recalcados ulteriores relacionando-se aos mesmos gêneros de representações.” (Bergeret, 2006, pág. 99).

O recalcamento primário, segundo Bergeret (2006) pressupõe a presença de uma inscrição sexual no imaginário primitivo da criança, desde o nascimento. E pressupõe também a impossibilidade dessa inscrição sexual se tornar, desde já operatória, em razão de um recalcamento primário imediato. A inscrição sexual primitiva só poderá se mostrar operatória em uma estrutura mais avançada do aparelho psíquico, o que irá preparar a instalação do Édipo e de todas as suas vicissitudes, que convém, afastar então, do registro consciente, sob a pressão de um recalque secundário, gerador do inconsciente secundário.

Antes de serem formados os sistemas inconsciente e pré-consciente/consciente, certas experiências cuja significação inexiste para o sujeito são inscritas no inconsciente e têm seu acesso à consciência vedado a partir de então. Essas inscrições vão funcionar como o recalcado original (Urverdragngung) que servirá de pólo de atração para o recalcamento propriamente dito (Nachdangen). Para Freud esse “recalque primevo” consiste em negar entrada no consciente ao representante psíquico (ideacional) da pulsão. Com isso, estabelece-se uma fixação.

Recalcamento secundário (ou recalcamento propriamente dito)

Consiste em um duplo movimento de atração pelas fixações do recalcamento primário e de repulsão pelas instâncias proibidoras: superego (e ego, à medida que ele se torna aliado do superego). ( Bergeret, 2006)

Segundo Freud (1915) o recalque propriamente dito afeta os derivados mentais do representante recalcado, ou sucessões de pensamento que, originando-se em outra parte, tenham entrado em ligação associativa com el. Por causa dessa associação, essas idéias sofrem o mesmo destino daquilo que foi primevamente recalcado.

Portanto, para Freud para que haja o recalcamento não é suficiente a ação exercida pelo sistema pré-consciente-consciente, é necessário também a ação exercida por representantes inconsciente. Roza (2005) diz que o que ocorre no recalcamento originário não é nem um investimento por parte do inconsciente, nem um desinvestimento por parte do pré-consciente/consciente, mas um contra-investimento. “No caso, a noção de contra-investimento está sendo utilizada para designar uma defesa contra um excesso de excitação proveniente do exterior, capaz de romper o escudo protetor contra os estímulos”. (Roza, 2005, pág. 161).

Retorno do recalcado

O recalcamento não pode impedir que as representações recalcadas se organizem no inconsciente, se enlacem de forma sutil e dêem mesmo nascimento a novos derivados, que irão tentar se manifestar no nível do consciente.

O retorno do recalcado pode consistir ou em uma simples “escapada” do processo de recalcamento, válvula de escape funcional e útil (sonho, fantasias), ou em uma forma às vezes já menos anódina (lapsos, atos falhos), ou, ainda, em manifestações francamente patológicas de fracasso real do recalcamento (sintomas). (Bergeret, 2006)

As formações substitutivas, as formações de compromisso e os sintomas são fenômenos que assinalam o retorno do recalcado. O recalcamento não organiza essas formações.

O recalcamento incide sobre os representantes pulsionais proibidos, através de um jogo de desinvestimento (dos representantes angustiantes pelo pré-consciente) e de contra-investimento da energia pulsional disponível, ao mesmo tempo reinvestida sobre outras representações autorizadas.

Fenichel (2005) define o recalque como consistindo no esquecimento inconscientemente intencional, ou na não-conscientização de impulsos internos ou de fatos externos, os quais, via de regra, representam possíveis tentações ou castigos de exigências pulsionais censuráveis, quando não meras alusões a estas.

Fenichel (2005) aponta ainda que há casos em que certos fatos são lembrados como tais, mas as conexões respectivas, o significado, o valor emocional são reprimidos.

Freud (1915) diz que o representante pulsional se desenvolverá com menos interferência se for retirado da influencia do sistema consciente – ele “prolifera no escuro”, e assume formas extremas de expressão, que uma vez traduzidas e apresentadas ao neurótico irão não só lhe parecer estranhas mas também assustá-lo, mostrando-lhe o quadro de uma extraordinária e perigosa força da pulsão.

O recalque não retira do consciente todos os derivados daquilo que foi primevamente recalcado. Quando esses derivados se tornam suficientemente afastados do representante recalcado – quer devido à adoção de distorções, quer por causa do grande numero de elos intermediários inseridos -, eles terão livre acesso ao consciente. Mas não é possível determinar qual o grau de distorção e de distancia no tempo necessário para a eliminação da resistência por parte do consciente. E, via de regra, o recalque só é removido temporariamente, reinstalando-se imediatamente.

Freud esclarece que o processo de recalcamento é altamente individual (cada derivado isolado do reprimido pode ter sua própria vissicitude especial, e um pouco mais ou um pouco menos de distorção altera completamente o resultado) em seu funcionamento e extremamente móbil. O recalque não é um fato que acontece uma vez, produzindo resultados permanentes; ele exige um dispêndio persistente de força, e se esta viesse a cessar, o êxito do recalque correria perigo, tornando necessário um novo ato de recalque. O recalcado exerce uma pressão contínua em direção ao consciente, exigindo uma contrapressão incessante.

Bergeret, J. O problema das defesas. In: Bergeret, J. …[et al.]. Psicopatologia: teoria e clínica. Porto Alegre: Artmed, 2006.

Fenichel, Otto. Teoria Psicanalítica das Neuroses. São Paulo: Editora Atheneu, 2005.

Freud, Sigmund. (1915). O Recalcamento. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas, Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Roza, L. A. G-. Freud e o Iconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.

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