Psicologia & Religião: Caminho Terapêutico para Dependentes Químicos?

Comments 0 by in Psicanálise
March 9, 2015
Psicologia & Religião: Caminho Terapêutico para Dependentes Químicos?

1410277113Este trabalho pretende observar a estrutura da dependência química, a configuração da atuação psicológica de ajuda ao dependente químico, bem como a possibilidade da contribuição religiosa, junto a abordagens psicológicas de apoio e orientação ao dependente químico e codependentes. Para isso apresentamos as características da pessoa enquanto ser humano e suas fragilidades. Fazemos um breve comentário acerca da pessoa enquanto Ser Dependente e pontuações sobre o processo de desenvolvimento e instalação da dependência química. Realizamos pontuações sobre a dependência química no que diz respeito a características socioculturais e familiares, além de fatores de risco para o abuso do uso de substâncias químicas. Apresentamos um breve histórico do desenvolvimento e validade do instrumento de avaliação psicológica, MINI, e da entrevista psicológica, acompanhado pelos teóricos mais reconhecidos nesse processo, que auxiliam no diagnóstico e orientação do processo terapêutico. Além da apresentação de características e especificidades de algumas abordagens psicológicas. Devido ao fato do tratamento a dependentes químicos no Brasil (por meio de comunidades terapêuticas) apresentar quase sempre uma perspectiva religiosa, pontuou-se sobre algumas linhas de aconselhamento psicológico, relacionando-os com processos de orientação cristã, na intenção de reconhecer as semelhanças básicas destes processos de ajuda, por meio da apresentação de idéias mais conhecidas da psicanálise, do behaviorismo, da logoterapia e do pessoalismo (ACP), seguidas da apresentação das orientações cristãs de cura do passado, aconselhamento pastoral, aconselhamento bíblico e aconselhamento cristão. Após a breve apresentação de cada orientação relacionada, são realizadas considerações sobre algumas das semelhanças encontradas. Por fim, apresentamos um breve relato sobre o processo terapêutico centrado na família e a compreensão sistêmica do processo terapêutico, bem como seus aspectos e alvos mais conhecidos. E seguimos com considerações sobre a funcionalidade das perspectivas terapêuticas centradas na família, quando relacionadas especificamente no trato de famílias compostas por dependentes químicos.

Palavras chave: Psicologia, Religião, Dependência Química.

Introdução

A proposta deste trabalho é discutir aspectos relacionados à compreensão e estruturação do cuidado ao dependente químico. Pode-se afirmar que o problema referente a este cuidado está relacionado a uma questão básica: “A psicologia pode considerar a religião como contribuinte no processo de recuperação de dependentes químicos?” Acredita-se que a metodologia mais adequada para desenvolver essa análise é a comparação entre algumas das orientações religiosas e psicológicas mais reconhecidas, na tentativa de entender as semelhanças dos processos.

Esse questionamento ocorre devido ao fato de que a dependência química é uma realidade conflituosa da modernidade tardia [01], não apenas em grupos específicos, mas, em toda a sociedade, inclusive na igreja. Assim, por vezes, líderes religiosos acabam por intervir em meio ao processo de apoio a dependentes químicos, através de casas de recuperação mantidas por igrejas.

Por isso, é comum perceber alterações religiosas intensas em dependentes internados em comunidades terapêuticas. Essas alterações merecem atenção especial, porque, o dependente químico, em tratamento, apresenta dificuldades com a ansiedade, depressão, ondas de alegria ou tristeza repentina, sensibilidade às palavras, conflitos de interesses, insegurança, desconfiança, dentre outras situações concernentes, a transição de um mundo ilusório, gerado gradativamente pelas sensações produzidas por drogas a uma realidade de fatos e obstáculos que devem ser enfrentados e vencidos de maneira responsável, ética e racional. O indivíduo parece apresentar dificuldades em manter sua estabilidade em múltiplas situações adversas, ou diante de algum tipo de pressão com a qual não esteja acostumado e, como tentativa momentânea de aliviar a tensão, recorre a drogas que produzam bem estar ou alívio. Lidar com o dependente e ajudá-lo a resolver seus problemas de adequação e sentido para a vida não é tarefa fácil e percebe-se que muitas comunidades eclesiásticas não sabem como trabalhar com a dependência.

Essa pesquisa é justificada por um fato específico. Não é difícil perceber que em alguns grupos religiosos o dependente químico é visto como alguém possesso, que precisa apenas afirmar-se convertido à determinada religião para ser liberto do mal e em consequência ficar livre das drogas.

Muitos fazem esta declaração de fé enquanto experienciadores de um processo catártico em meio a um culto religioso. Essa catarse proporciona prazer e, quando o período de prazer passa e o indivíduo se depara com as dificuldades naturais, sem um acompanhamento ou apoio, ele volta ao uso das drogas com um agravante, a cobrança da comunidade religiosa. O usuário passa a ser visto como alguém que ainda não foi liberto e precisa de oração, ou como uma pessoa que despreza o poder de divino manifestado sobre ela, no entanto, essa maneira de perceber o usuário, não apenas é errada, mas, prejudicial ao verdadeiro processo de ajuda e crescimento que esta pessoa necessita.

Considerando os fatos citados, pode-se dizer que há uma necessidade de um trabalho contínuo, um acompanhamento que produza uma compreensão real da dependência química e das limitações próprias, bem como da busca por crescimento pessoal e autovalorização, identificando e tratando as especificidades humanas de relacionamentos.

São objetivos desse trabalho: pontuar sobre as principais causas para a dependência, identificar as características dos dependentes químicos, analisar os tipos, as reações e os prováveis níveis de dependência gerados por substâncias químicas e reiterar a necessidade de um acompanhamento psicológico que se interesse pelo aconselhamento qualitativo no trato do dependente químico juntamente com possíveis processos de ajuda religioso oriundos de ações psicológicas.

Na tentativa de alcançar o objetivo citado, foi realizada uma pesquisa bibliográfica, acrescidas de consulta a documentos virtuais, além da utilização de um genograma organizado a partir da família de um dependente químico [02].

O trabalho é composto por um texto organizado em três capítulos, além da introdução e conclusão. Inicialmente são destacadas características acerca da dependência. Nota-se questões referentes às necessidades básicas do ser humano, quanto ao relacionamento com autoridade, busca de orientação e prazer como resposta à orientação, das quais o indivíduo é naturalmente dependente. Esses fatores podem estar relacionados à dinâmica de vida na modernidade, portanto, a mesma é apontada como um dos fatores de risco para o abuso do uso de drogas. A atualidade é marcada por inconstâncias e múltiplas compreensões de certo ou errado, o que dificulta o estabelecimento de padrões, limites e valores socioculturais e espirituais, e isso gera no indivíduo uma situação de fragilidade e insegurança que o conduz à possibilidade de se tornar usuário de drogas e provável dependente químico.

No primeiro capítulo o dependente é apresentado como ser humano fragilizado em questões psicológicas, sociais, orgânicas e espirituais, fragilidade essa, que conduz a ações de fuga da realidade e de busca de sentido para viver. Nessa fuga da realidade ou busca de sentido, destaca-se a representatividade das drogas na vida do usuário. Contudo, os efeitos de diversas drogas contribuem para que esse indivíduo permaneça preso num círculo vicioso que gira em torno da ausência e busca de prazer e sentido para vida, de modo que essa fuga e/ou busca nunca terminam.

O segundo capítulo destaca as características da avaliação psicológica em meio à dependência química. Isto, a partir da apresentação do instrumento de avaliação MINI – que foi validado no Brasil e é largamente utilizado para mensurar gravidade e intensidade do abuso do uso de substâncias psicoativas – a partir de uma aplicação realizada por Silva. Além disso, a intervenção psicológica é apresenta por meio da informação sobre o processo da entrevista psicológica, acompanhado por orientações de possíveis problemas para a execução do procedimento e as diferenças do processo em psicoterapias breves.

Para concluir, foram trabalhadas diferentes abordagens psicológicas de acompanhamento, seguidas por comparações para com as perspectivas religiosas de orientação mais conhecidas, tendo em vista o aspecto terapêutico dos sistemas. O trabalho é fechado com a explanação mais detalhada sobre o procedimento psicológico humanista de Carl Rogers, denominado ACP (Abordagem Centrada na Pessoa), que considera todas as vivências – inclusive as vivências religiosas – como ferramenta essencial para o desenvolvimento do chamado empoderamento de si. Estado necessário para o crescimento e cura do indivíduo.

A relevância da pesquisa está relacionada às proporções alcançadas pelo abuso do uso de drogas, que reflete diretamente no desenvolvimento e manutenção da situação de dependência química do ser humano na atualidade, e, do aumento numérico desordenado de comunidades terapêuticas religiosas, que desenvolvem trabalhos variados, com resultados incertos; o que pode proporcionar uma situação agravante quanto à identificação adequada da expansão e controle da doença no Brasil.

1 Dependência Química

Ao considerarmos a modernidade como período marcado pela carência de referenciais, o que gera instabilidade, ausência de rumo e de princípios de autoridade para o indivíduo, podemos afirmar que o ser humano é afetado pelas características desse tempo histórico, tanto emocionalmente quanto na maneira de agir, compreender e valorizar as pessoas, situações e coisas (SAFRA, 2005, p.7).

Tal mudança no modo de agir se deve, segundo Frankl, ao vazio existencial que também é proveniente da atualidade e sua falta de referenciais (FRANKL, 1987, p.123). O que dá sentido a vida é entendê-la enquanto missão individual, ou seja, cada pessoa deve considerar que existe um sentido para a vida do indivíduo e não um sentido para a vida de modo geral (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.19).

A busca de sentido específico para a vida do indivíduo o conduz a compreensão de um trabalho pessoal a ser executado, e este trabalho, tarefa ou missão, não apenas traz sentido a vida, mas serve de estímulo para que o ser humano vença as dificuldades advindas dessa tarefa (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.19).

Frankl afirma ainda que, na busca pela conclusão dessa missão específica, o sofrimento é quase inevitável, mas, diante do sofrimento, o ser humano tem a oportunidade de se transformar naquilo que quiser, e que tem, em si, potencial para ser bom ou ruim, precisando apenas escolher no que quer se tornar. O indivíduo apresenta uma perspectiva de autoridade ou poder sobre si mesmo, que atua a partir de valores criadores, vivenciais, e de atitudes (FRANKL, 1987, p.149).

Os valores são criadores quando se referem a habilidades criativas, intelectuais ou artísticas, são vivenciais, porque dizem respeito à relação com a natureza, com o outro e com Deus, e os valores de atitudes, por sua vez, referem-se à decisão pela ação adequada ante um sofrimento que não se pode evitar (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.20).

Além disso, percebe-se que o sofrimento apresenta um aspecto positivo referente à avaliação ou descoberta sobre o sentido da vida, pois, “a preocupação ou mesmo o desespero da pessoa sobre se a sua vida vale a pena ser vivida é uma angústia existencial” (FRANKL, 1987, p.120) e essa angústia conduz o indivíduo à busca de uma razão pela qual viver, ou seja, quem tem sentido para viver, encontra forças para suportar quase toda e qualquer situação ou adversidade, de modo que o ser humano é capaz de viver e até morrer por seus ideais e valores (FRANKL, 1987, p.117).

Notamos que, no sofrimento, o indivíduo tem também a oportunidade de descobrir ou confirmar sua missão específica e colocá-la em prática por meio de habilidades criativas, experiências de vida e atitudes decisivas (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.20). Quando isso não ocorre, pode-se dizer que a pessoa desistiu de encontrar o sentido de sua vida, ou se deixou levar pelo racionalismo, cientificismo e ativismo moderno, que não oferecem tempo ou condições para que o ser humano trabalhe a partir do sentido de suas atividades (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p. 26-27).

Libânio amplia a posição de Frankl, quando afirma que só é possível encontrar sentido para vida inserido em um grupo ou contexto social que estabeleça condutas, mesmo que estas sejam questionadas, pois, limites estabelecidos norteiam decisões e auxiliam na formação de identidade biológica, familiar, afetiva e social (LIBÂNIO, 2004, p.22). Ou seja, é a partir do meio social que o indivíduo desenvolve e experimenta conflitos, e é nesse contexto que ele deve aprender a vencê-los.

Assim, podemos entender que o usuário de drogas vive uma situação de vazio existencial, que o induz à busca por um sentido de vida que lhe dê forças para suportar as adversidades.

Essa busca de sentido possibilita que o ser humano encontre e experimente substâncias químicas, que, inicialmente, respondem à busca desorientada por prazer e segurança, porém, posteriormente fragilizam-no emocionalmente, tornando-o mais suscetível à dependência química.

1.1 Pessoa enquanto SER dependente químico

Carmo afirma que alguns dos fatores de risco para o abuso do uso de drogas, segundo a Organização Mundial de Saúde, são a falta de informação acerca dos efeitos das drogas, enfermidades gerais, insatisfação com a vida, personalidade fraca e fácil acesso às drogas (CARMO, 2000, p. 143).

A relação de dependência enquanto necessidade de prazer inerente ao ser humano, às influências da modernidade para o desenvolvimento da dependência química, devido à crise de identidade, de sentido e valores existenciais, e a ausência de informação ou educação adequadas acerca do uso, abuso e efeitos gerados pelas drogas, favorece a formação de um indivíduo propício ao uso indiscriminado de substâncias, das quais, muitas vezes, não tem controle. O uso dessas substâncias gera dificuldades no desenvolvimento das relações, além de danos fisiológicos no indivíduo.

Giddens afirma que, geralmente, as pessoas se tornam dependentes químicos, devido à ausência de um acompanhamento dentro de padrões de desenvolvimento natural do ser humano, em que um aprende com o outro a aceitar o mundo real como real e adquirir segurança a partir da confiança estabelecida nas primeiras relações humanas (GIDDENS apud BESSA, 2005, p.44).

Afirma ainda que, as pessoas sofrem influências do meio social em que estão inseridas, e essas influências refletem em suas questões relacionais, sejam no trato da segurança ou insegurança, submissão ou prepotência, satisfação ou insatisfação. E isso, porque a modernidade foge a este padrão de desenvolvimento recusando o relacionamento interpessoal, e, com isso produzem-se a exclusão e a marginalização (GIDDENS apud BESSA, 2005, p.44).

A marginalização deteriora a estrutura do ser humano, minimiza as possibilidades de que o indivíduo adquira bons referenciais, torna-o acessível ao conhecimento, administração e uso da droga e amplia a necessidade de busca de prazer devido à sensação de abandono causada pela marginalidade (SCHMIDT, 1976, p.25).

No que diz respeito ao ser humano enquanto necessitado de referenciais sociais, a atualidade apresenta duas características negativas: a carência de bons referenciais e o marketingda droga.

Sobre os referenciais, podemos afirmar que há uma desvalorização dos relacionamentos interpessoais e das preocupações com limites e ordem, além de um esforço em busca da liberdade e de relações convenientes e utilitaristas, logo, não há uma preocupação ou desejo no indivíduo de se tornar referencial ou exemplo para o outro, e sim, a expectativa de que esteoutro seja referencial para o indivíduo (ROUANET, 1987, p.233, 236).

Quanto ao marketing da droga, importa ressaltar que as propagandas, sejam a favor ou contra o uso indiscriminado de drogas, aumentam a curiosidade dos que veem e isto funciona como facilitador para que mais pessoas procurem experimentar drogas tornando-se possíveis dependentes químicos (LIBÂNIO, 2004, p.159).

Os indivíduos que se tornam usuários de drogas são, geralmente, pessoas que não conseguem administrar bem circunstâncias de conflito, pressão ou rejeição naturais no processo de ascensão e reconhecimento social. São pessoas que não têm ou não sabem como se manter diante dessas dificuldades e por isso, recorrem a substâncias que lhes proporcionem um período de estabilidade e segurança, que, mesmo sendo ilusória, causa a sensação de alívio que o usuário deseja (LEON, 2003, p. 39).

1.2 Característica dependente

No que diz respeito à dependência química, podemos falar que as perspectivas alcançam várias interpretações. Uma delas está associada à situação de sujeição de uma pessoa em relação à outra, de modo que o dependente ocupe a postura de submissão ou se sinta parte de algo, de alguém ou de uma situação (AULETE, 1964, p. 1090).

Uma segunda visão considera a característica natural de dependência do ser humano, a partir da necessidade de organização temporal, espacial, psicológica e também de personalidade, que é inerente ao indivíduo desde a mais tenra idade, e que, só pode ser constituída a partir de referenciais externos, ou seja, a presença de alguém que se torna referencial junto a esse processo (SAFRA, 2005, p. 7).

Em terceiro lugar, existem afirmativas a favor da ideia de que a modernidade tardia atua como motivador de uma conduta que contribui para com o surgimento e desenvolvimento da dependência química. Conforme Rouanet, a atração ou sedução das coisas sobre as pessoas é uma marca da modernidade que influencia no modo de agir e na construção ou desconstrução de valores do mesmo (ROUANET, 1987, p. 233).

A psicóloga Daniela Bessa reforça a compreensão de Rouanet e afirma que o ser humano deseja conquistar status e reconhecimento, seja social e/ou familiar, através da aquisição de bens, mesmo que por meio disso, aconteçam perdas significativas no desenvolvimento de relações profundas e verdadeiras, seja com as pessoas ou mesmo com Deus (BESSA, 2002, p. 31).

Portanto, podemos compreender a dependência química como relação de sujeição, bem como de referência e de sedução. O dependente é a pessoa que se submete a qualquer coisa que lhe pareça importante ou que lhe cause medo, e, a partir disso, passa a seguir os exemplos ou as referências daquilo que se tornou o alvo das expectativas do indivíduo, de modo que este pode se deixar conduzir pela sensação de sedução de tudo o que lhe afeta os sentidos e as emoções (MOREIRA JR, 2011, p.78).

Logo, podemos entender que a dependência química é desenvolvida de acordo com o lugar que as drogas ocupam na vida das pessoas. Assim, o indivíduo pode: se sujeitar à dominação física gerada pela substância; adquirir comportamentos comuns às pessoas que se tornaram referenciais – como o grupo de amigos; e até mesmo, se abandonar ante a sedução causada pelas ilusões proporcionadas por meio das drogas.

1.3 Fatores de risco

É perceptível que algumas situações favorecem para o desenvolvimento e manutenção de situações de dependência química. Alguns dos fatores que são encontrados nos âmbitos sociais e familiares, são características comuns à modernidade.

Benedicto afirma que existe na modernidade um vício pela busca de soluções rápidas e que uma das provas disso é a utilização excessiva de medicamentos, mesmo sem orientação médica. As pessoas de modo geral, acreditam que as drogas – lícitas – resolvem praticamente tudo: da mais simples dor de cabeça, até dificuldades para com estresse e depressão. Esta crença auxilia na modificação da conduta do indivíduo ante as situações de crise e dor, de modo que, este, passa a entender que pode encontrar respostas para seus problemas em comprimidos. Deste modo, acontece a familiarização e facilidade para administração de drogas gerais, o que favorece para que o indivíduo desenvolva um caráter vicioso e possa vir a se tornar um dependente químico, porque os remédios passam a ser vistos como mais fortes que as pessoas (BENEDICTO, 2007, p. 17).

Um agravante pode ser encontrado ao considerar a visão de Nouwen, pois, este afirma que, a sociedade não tem representante ou líderes de modo geral, que sejam exemplos. Isso dificulta a construção social e o crescimento da individualidade constituída a partir de um referencial positivo. Assim, cada pessoa tende a ser seu próprio referencial tornando-se interiorizada e vazia. Ante a isso, os referenciais de grupo ganham força, e, portanto, a dificuldade de exemplos gerais pode se tornar facilitador para que indivíduo comece a seguir os padrões de comportamento do grupo onde estiver inserido e a utilização de drogas pode ser um destes hábitos (NOUWEN apud BESSA, 2005, p. 43).

A perspectiva do prazer também está relacionada como fator de risco. Conforme Freud, o desejo natural de busca do prazer, pode ser motivador para a utilização de drogas. Isso, porque Freud considera a relação funcional da masturbação com a utilização de drogas, ao entender que ambas as situações de prazer são desenvolvidas e manipuladas pelo usuário, em busca de satisfação pessoal e intensa, sem preocupação para com o outro (FREUD apud MARZANO, 2007).

O psiquiatra Eduardo Kalina reforça esta perspectiva quando afirma que o erotismo oral é constante e intenso, durante toda a vida do ser humano e que está particularmente presente nos casos de drogadicção, mesmo quando a substância não é ingerida pela boca. Assim, é mais fácil entender porque algumas pessoas sentem-se seduzidas ao uso contínuo de drogas, mesmo que o prazer seja momentâneo e ilusório (KALINA, 1983, p. 29).

Além disso, percebemos que alguns fatores de risco estão diretamente relacionados às perspectivas familiares (LEITE, 2005, p.40). Dentre as quais, podemos destacar: o nível do envolvimento afetivo dos pais em relação aos filhos; a estrutura hierárquica constituída no âmbito familiar; e o contexto doméstico, ou seja, o fato de os pais fazerem, ou não, uso abusivo de substâncias químicas (HUTZ, 2007, p. 174, 175).

Isto é importante porque quando se fala em violência familiar, por mais causas que possam existir, geralmente podemos dividir em duas grandes áreas: as questões intrafamiliares, ou seja, os relacionamentos de modo geral; e os sociais, dentre os quais se encontram o abuso do uso de substâncias químicas, comportamento considerado comum atualmente (ZAMPIERI, 2004, p.65).

1.4 Farmacologia da dependência

Drogas são substâncias naturais ou sintéticas, que agem diretamente no organismo, modificando suas funções e proporcionando prazer momentâneo (Cf. BENEDICTO, 2007. p. 17).

Considerando que a variedade de drogas de que se têm informações é muito ampla, serão destacados alguns tipos mais comuns, organizados por classes. As drogas geralmente são classificadas como: narcóticos, depressores do sistema nervoso central, estimulantes e alucinógenos.

Os narcóticos, também chamados de entorpecentes, são muito usados na medicina devido ao caráter anestésico de seu princípio ativo. Nessa classificação destacam-se: a morfina, a codeína, a meperidina, e metadona. O ópio e a heroína fazem parte da família dos narcóticos, porém, não são utilizados com fins medicinais (Cf. SANCHEZ, 1982).

Os depressores do sistema nervoso central apresentam sintomas semelhantes à embriaguez. Dentre eles estão: os barbitúricos, remédios mais conhecidos como Gardenal, Vagostencil e Desbutal; a metaqualona, também conhecida como Mesqualon ou Mandrix; tranquilizantes menores, vendidos como Valium, Diempax, Apraz, Frontal, Psicossedim, Rivoltril, Dorminid, Lexotan, Somalium e antidistônicos; solventes, como aguarrás e colas diversas, vendidas em casas de construção; éter e clorofórmio, usado para amenizar as dores de parto até o início do século XX (Cf. MACHADO, 2004).

Dentre os estimulantes, destacam-se: a cocaína, utilizada na oftalmologia no século XIX e com finalidade terapêutica no século XX, tornando-se proibida nos EUA em 1914 (Cf. MACHADO, 2004); o crack, uma forma impura da cocaína; a efedrina, mais conhecida como Rinosteg, descongestionante nasal; anfetaminas, Hipofagin e Moderex, remédios comumente usados por anoréxicos, comprados como Pervitin, Dexedrina e Desbutal que ajudam a controlar o apetite (Cf. MURAD, 1994, p. 59).

Os alucinógenos também são chamados de psicodislépticos. Os mais conhecidos são: LSD, Mescalina, Trixipheidyl, conhecido como Artane e Akineton, que pode ser utilizado contra mal de Parkinson – para PRZEDKORSKI (2002, p. 596), os efeitos do mal de Parkinson podem ser reduzidos com o uso de depressores – e a cannabis sativa, chamada de “alucinógeno menor”, conhecida como maconha ou marijuana (Cf. MACHADO, 2004).

O uso de cada uma destas substâncias altera o comportamento e o funcionamento do corpo do usuário de modo diferente, dependendo do tipo de droga utilizada.

Inicialmente, os efeitos não são muito aparentes, mas, com o uso contínuo, o indivíduo passa a apresentar sinais sociais, emocionais e orgânicos, que indicam não apenas o uso de drogas, mas instalação da dependência, além da necessidade de um cuidado específico.

As questões orgânicas ou fisiológicas são mais perceptíveis diante do uso contínuo de drogas, mesmo que já existam a partir da primeira dose administrada. Cada tipo de substância apresenta um risco específico, por isso as questões serão abordadas a partir das classes já apresentadas, com um destaque para os efeitos dos inalantes.

As pessoas sob a ação dos narcóticos apresentam uma contração acentuada da pupila que pode ficar tão pequena quanto à cabeça de um alfinete. Pode ocorrer paresia – diferente de paralisia, o termo paresia indica uma parada momentânea de órgãos ou tecidos (Cf. ROWLAND, 2002, p. 34) – estomacal e sensação de estômago cheio, como se não tivesse condição de realizar a digestão. Os intestinos também ficam sujeitos à paresia e, em consequência, a pessoa que abusa destas substâncias geralmente apresenta forte prisão de ventre. Com base neste efeito é que os opiáceos são utilizados para combater as diarreias (DEPARTAMENTO DE PSICOBIOLOGIA, 2007).

Os depressores aumentam as chances de adquirir lesão cerebral, parkinsonismo, cegueira, disfunção renal, disfunção do fígado e insuficiência respiratória, além de promoverem alterações psicológicas (Cf. MACHADO, 2004).

De modo geral, os estimulantes podem causar psicoses, alucinações, impotência, doenças no pulmão, estômago, bexiga, alterações hormonais, pressão alta e até morte súbita (Cf. MACHADO, 2004).

Os alucinógenos têm maior possibilidade de levar à perda de memória, dificuldade de capacidade produtiva -baixo tônus vital, desânimo, cansaço, etc. -, alterações de ordem motora, aumento do risco de infecções, problemas de infertilidade e potência, maiores possibilidades de câncer e aborto, além de cansaço e alterações psicológicas que podem levar ao pânico e até suicídio (Cf. LEMOS, 2007, p. 22).

No caso da maconha, há alterações da percepção temporal e da memória recente, como também aumento do apetite e diminuição do desempenho para tarefas do cotidiano (Cf. JAFFE, 1981, p. 71-72).

Os inalantes produzem reações orgânicas típicas como tosse, irritação no nariz e nos olhos, náusea, vômito, diarréia, dor no peito, dor nas juntas, visão dupla, sensibilidade à luz e até perda de apetite (Cf. JAFFE, 1981, p. 51).

Parece estranho que, diante de reações orgânicas tão agressivas, uma pessoa possa se tornar um dependente químico. Porém, deve-se destacar que essas reações ocorrem gradativamente, de modo que o usuário experimente inicialmente a euforia, relaxamento e prazer que as drogas proporcionam (Cf. VIANA, 2004).

1.5 Reações e níveis de dependência

Os efeitos de cada uma das substâncias químicas utilizadas pelo dependente podem variar de caso a caso, de acordo com a saúde do indivíduo, o quanto ele utiliza, o tipo de droga escolhida, como é administrada: se pela boca, se inalada ou injetada, e do ambiente sociocultural em que ele se encontra. Logo, os efeitos aqui apresentados são prováveis, e como realizado anteriormente, serão apresentados divididos por classes.

Os narcóticos, de modo geral, causam um nível alto de dependência psíquica e física. Considerando a atuação fisiológica dos narcóticos e observando a conduta de diversos usuários, nota-se que não há um comportamento aparentemente agressivo do indivíduo que utiliza tais substâncias, desde que este não seja provocado ou induzido (DEPARTAMENTO DE PSICOBIOLOGIA, 2007). Geralmente os derivados do ópio causam sensações de exaltação, aumento de energia ou euforia, porém, o uso frequente gera uma tolerância aos efeitos, o que faz necessário um aumento na quantidade de droga administrada, bem como a redução dos espaços de tempo entre uma dose e outra na tentativa de alcançar a sensação desejada (Cf. JAFFE, 1981, p. 32).

As drogas depressoras do sistema nervoso central são hipnóticas, sedativas e anti-convulsivas. São indicadas no tratamento de pânico, ansiedade, insônia e dor crônica. Agem como relaxante muscular e geralmente diminuem a censura, mas podem provocar angústia e uma dependência de alta a média, tanto psíquica quanto física (Cf. MACHADO, 2004; SANCHEZ, 1982).

Normalmente, os estimulantes aliviam a fadiga e despertam a pessoa, provocando sensação de alerta. Em geral, criam alta dependência psíquica e uma possibilidade de dependência física. Vários são os efeitos produzidos pelos estimulantes: sensação de melhora do funcionamento cognitivo, ansiedade, infatigabilidade, dentre outros. A utilização excessiva ocorre devido a dois efeitos marcantes dessas drogas: a euforia e a perda de apetite, por isso, boa parte dos usuários são anoréxicos, o que fez alguns desses medicamentos ficarem conhecidos como “remedinhos para emagrecer” (Cf. MACHADO, 2004; SANCHEZ, 1982).

No que diz respeito às substâncias alucinógenas, pode-se afirmar que provocam reações semelhantes a psicoses, desde delírios a perda parcial ou total de percepção da realidade. Essas substâncias não causam dependência física e o grau de alcance psicológico é desconhecido. Dentre estas drogas, destaca-se a maconha, que relaxa, produz sensação de bem estar e vermelhidão nos olhos, induz, na maioria das vezes a ações extrovertidas, mas pode gerar o desejo de isolamento e reflexão, bem como ansiedade ou pânico. A maconha gera uma dependência psíquica moderada (Cf. MACHADO, 2004; SANCHEZ, 1982).

Dentre outros efeitos causados pelos diversos tipos de drogas, podem-se relacionar questões emocionais e situações orgânicas do usuário de drogas.

As características emocionais produzidos pelas drogas também podem variar de indivíduo para indivíduo. Cada substância proporciona uma reação diferente de uma pessoa para outra e o contexto do usuário faz diferença no modo de ação da droga.

Porém, de modo geral, destacam-se alterações no pensamento, perda de memória, ações psicóticas, como suspeita de estar sendo seguido ou de que outros estejam falando e conspirando contra eles, comportamento inconstante e incoerente, irritação, e até excitação sexual persistente (Cf. JAFFE, 1981, p. 32-33).

Outras características que podem ser observadas são a perda da distinção entre o certo e o errado, padrões éticos e morais deturpados, dificuldade em discernir entre o real e o ilusório, sensibilidade extrema a palavras e ações, e baixa autoestima (Cf. VIANA, 2004).

Nota-se que os efeitos das substâncias químicas afetam diretamente a sensação de segurança, de direção e prazer: segurança, porque afetam a estabilidade psicológica e deixam o usuário em expectativa de perseguição; direção, porque deturpam os conceitos e limites sociais; e prazer, porque invadem as experiências naturais do indivíduo, modificando-as até no trato sexual.

Logo, a dependência é apresentada como relação de sujeição, referência e sedução, ou seja, o dependente é aquele que se submete a algo que lhe parece maior, mais significativo, ou que lhe proporcione medo. Desse algo ou alguém, o dependente segue o exemplo, as referências do que lhe chamam mais atenção ou lhe parecem mais importante, ou se deixa levar pela sedução daquilo que lhe afeta e envolve seus sentidos e emoções.

A partir disso, pode-se dizer que a dependência química está relacionada ao lugar que as drogas ocupam na vida do individuo. De modo que este pode sujeitar-se ao domínio orgânico da substância, ter os padrões do grupo como referenciais, ou mesmo se deixar seduzir pela viagem ou pelo mundo apresentado a ele por meio das drogas.  De modo especial, percebe-se que há um diferencial no comportamento desta geração que favorece para que a dependência química seja cada vez mais comum.

1.6 Genograma: família, fator de risco e de proteção para o dependente

O genograma é uma ferramenta essencial para acompanhamento de famílias. A partir da construção e interpretação do genograma é possível avaliar o contexto perceber as melhores formas de intervenção de acordo com o comportamento da família avaliada, para que no momento oportuno, as impressões percebidas por meio do genograma sejam apresentadas ao sistema familiar.

A coleta de informações para a composição do genograma deve alcançar ao menos três gerações. O sistema utiliza regras particulares de simbologia, tanto em relação à estrutura familiar, quanto aos dados demográficos, clínicos e relacionais da família.

É indicado como modelo terapêutico de avaliação, em famílias que apresentem dificuldades com: 1) saúde materna; 2) saúde infantil; 3) problemas de desenvolvimento infantil; 4) dificuldades em relação ao trabalho; 5) doença crônica em algum elemento da família; 6) doença mental em algum indivíduo do sistema familiar; 7) morte de um familiar; 8) consumo de drogas; 9) suspeita de violência; 10) depressão ou ansiedade crônica; e 11) falta de adesão aos planos terapêuticos.

A importância do genograma para a atenção familiar está vinculada ao valor que o sistema familiar apresenta enquanto base de desenvolvimento social para o indivíduo. O modelo terapêutico em questão foi elaborado de modo a contemplar todo o ciclo de vida da família, desde a constituição do sistema, por meio do casamento, até a morte dos cônjuges.

O genograma pode ser desenhado pelo médico, paciente ou por contribuições de ambos, tendo início em uma consulta e deve ser construído a partir da composição e estrutura familiar, considerando o ciclo de vida, os padrões de repetição em gerações, além do equilíbrio e desequilíbrio familiar. Para a constituição deste modelo terapêutico é necessário a utilização de símbolos próprios (REBELO, 2007, p. 314).

A interpretação deve considerar resultados de exames médicos (eletrocardiogramas, por exemplo), existência ou não de padrões de repetição em diferentes gerações, além de observações do ciclo da vida familiar em questão, ou seja, é necessário considerar se a família é composta por recém-casados, se tem filhos adolescentes, etc (REBELO, 2007, p. 314).

Símbolos do genograma

Símbolos do genograma

O genograma surgiu em meio a buscas por compreensões de patologias de filhos em relação à mãe ou pai. Posteriormente a teoria da comunicação humana contribuiu por meio da percepção de incongruências na comunicação, seja verbal ou não verbal, além dos estudos realizados em famílias de esquizofrênicos, que auxiliaram no chamado duplo-vínculo, favorecendo no acompanhamento de filhos esquizofrênicos (PRADO, 2009, p. 233).

Houve um avanço do conhecimento sobre as causas da saúde e da doença psíquica, não apenas do indivíduo, mas, nas relações e interações de membros dos sistemas familiares, em direção diferente à dos modelos até então conhecidos, da perspectiva psicanalítica (PRADO, 2009).

Por um período, houve um destaque no trabalho que considerava a família tri geracional, ou seja, a ênfase da importância dos avôs na família.

A partir disso, a história da família ganha valor e as interações passadas são consideradas como influentes no comportamento dos pais e, portanto, afetam toda a vida familiar. Assim, toda a estrutura histórica da família, tudo o que foi construído no passado, como, abusos sexuais, violências, segredos de paternidade, adoções, mitos e crenças, etc., são avaliados como influenciadores na distorção das interações do tempo presente (PRADO, 2009, p236).

Os anos oitenta também contribuíram para a ampliação da perspectiva do genograma e da terapia sistêmica, pois, o movimento feminista impulsiona o desenvolvimento da terapia familiar feminista, valorizando diferenças de gênero e aspectos particulares do papel da mulher na sociedade, família e casamento (PRADO, 2009).

No entanto, todas as considerações, inclusive sobre as particularidades do papel da mulher, devem ser construídas no genograma em conjunto, terapeuta e família, devem buscar compor a história da família com todas as características e problemas que vierem à tona. (PRADO, 2009, p 237)

As alterações e complementos no processo terapêutico chegam ao ponto de influenciar pioneiros na orientação de família, como, Minuchin, ainda vivo, em sua nona década de vida, autor do livro Dominando a Terapia Familiar, publicado em 2008, considerado estruturalista, reconheceu novas visões pós-modernas e acrescentou ao seu próprio trabalho, a avaliação histórica da família (PRADO, 2009).

Outra alteração histórica que influencia no processo terapêutico de família, está relacionada ao sistema familiar contemporâneo, pois, a configuração de família atual é em maioria, composta por famílias de pais sozinhos em decorrência de divórcios, de nascimentos e adoções por pessoas não casadas, indivíduos criados por avós, grupos familiares de filhos de pais diferentes vivendo no mesmo ambiente devido à  casamentos de divorciados, grupos familiares constituídos por casais homossexuais, famílias que vivem em casas separadas, ou mesmo indivíduos que vivem só (PRADO, 2009).

A estrutura do genograma é constituída por uma imagem gráfica, um tipo de mapa e até desenho da família. Esse recurso é utilizado como ferramenta de apoio para um destravamento do sistema, por meio da observação das dificuldades familiares e dos padrões relacionais (WENDT & CREPALDI, 2008).

A avaliação desse mapa favorece para que o clínico examine as prováveis dificuldades e facilidades do eixo familiar. Assim, um dos trabalhos que se utilizam do genograma é na caracterização e cadastramento de grupos familiares, em órgãos públicos que lidam com auxílio à família (WENDT & CREPALDI, 2008).

Podemos dizer que o genograma é um “mapeamento gráfico da história e do padrão familiar”, onde podemos perceber: a) estrutura básica; b) demografia; e c) funcionamento e relacionamentos; que formam um gráfico dos dados coletados. O mapeamento expõe as etapas familiares através das gerações, além das estruturas emocionais associadas (WENDT & CREPALDI, 2008).

A função mais importante do genograma é cruzar dados familiares em momentos de avaliação, para acompanhamento adequado em meio aos processos relacionais em meio à terapia (WENDT & CREPALDI, 2008).

Para isso, as informações da família são organizadas em estrutura gráfica, para que se tenha uma visão mais clara da complexidade dos padrões de grupo. Supostamente, os membros do grupo são interdependentes, por mais que sejam idiossincráticos. Portanto, quando uma parte do sistema muda, todos os demais membros são afetados (WENDT & CREPALDI, 2008).

Através desse gráfico é possível identificar mitos e crenças que guiam e formam famílias por gerações, bem como sustentam rupturas de relacionamentos e dificuldades de trato.

Uma das formas de se analisar uma família é pela observação dos subsistemas, fronteiras e demais abstrações que podem ser percebidas entre os membros do grupo ao longo da história de vida. Esta construção abstrata indica uma estrutura familiar e delimita configurações do grupo (WENDT & CREPALDI, 2008).

A dinâmica familiar é a forma de relacionamento estabelecida pelos membros do grupo, ou seja, o modo como desenvolvem vínculos ou tratam seus problemas, os ritos, as regras, definição de ordem e papeis de cada membro da família (WENDT & CREPALDI, 2008).

Os filhos fazem com que a família amplie ou modifique a estrutura interna vigente, o que favorece para o surgimento de novos subsistemas (WENDT & CREPALDI, 2008, p.305).

Enfim, em meio a tantas alterações nas composições de famílias, o genograma segue como ferramenta de auxílio fundamental na construção de um modelo terapêutico que integre e enriqueça as técnicas de apoio a disfunções relacionais.

Em relação à dependência química, o genograma atua como ferramenta de compreensão, pois, a estrutura gráfica proporcionada pelo genograma auxilia no desenvolvimento da compreensão familiar de como a doença surgiu, retirando o estigma do individuo que se tornou dependente químico, por meio de um esclarecimento sobre a realidade patológica de toda a família.

Para exemplificar, será mostrado aqui o genograma de uma família onde foi percebido um histórico de dependência química, inicialmente considerado como algo comum, devido ao fato de bebidas alcoólicas serem drogas lícitas, mas que, proporcionaram o surgimento de dependentes de drogas ilícitas como cocaína e crack.

O dependente titular desse genograma é descendente da junção das famílias O.M. e P.M.

  • Família O.M. (geração de avós)
Família O.M. (geração de avós)
  • Família O.M. (geração de tios)
Família O.M. (geração de tios)
  • Família O.M.
    • Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma

 

  • Família O.M.
    • Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
  • Família O.M.
    • Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
  • Família O.M.
    • Descendência do terceiro tio do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência do terceiro tio do dependente químico titular do genograma
  • Família O.M.
    • Descendência da mãe do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência da mãe do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M. (geração de avós)
Família P.M. (geração de avós)
  • Família P.M. (geração de tios)
Família P.M. (geração de tios)
  • Família P.M.
    • Descendência do pai do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência do pai do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da segunda tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da segunda tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma
Família P.M.- Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da terceira tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da terceira tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da quarta tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da quarta tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência do terceiro tio do dependente químico titular do genograma
Família P.M.- Descendência do terceiro tio do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da quinta tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da quinta tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da sexta tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da sexta tia do dependente químico titular do genograma

Observações sobre o genograma

Alergias, diabetes, dificuldades oftalmológicas, doenças cardíacas e problemas gerais de pressão, são características comuns a quase todos os membros da família.

O número de alcoolistas chegou a quase 56 membros da família e nove foram usuários de drogas (cocaína e crack). Atualmente, a maioria afirma ter deixado as drogas e bebidas por questões religiosas.

Três pessoas manifestaram câncer, sendo que, no caso de M.A. houve manifestação da doença em três momentos distintos e recuperação da saúde, de modo que permanece viva.

Dois casos de distúrbio psiquiátrico foram confirmados clinicamente, porém, foram tratados e recuperados totalmente.

Não existe padrão em relação à conduta escolar. É possível perceber pessoas de todos os níveis de estudo e atuando em diversas áreas, com predominância nas seguintes profissões: Motorista, Professor, Ourives, Pedreiro e Pastor Evangélico.

Em relação à constituição familiar podemos observar divórcios, relações extraconjugais constituídas paralelamente e mães solteiras.

De modo geral, foi percebido que a maior marca da família é a falta de relacionamento e de interesse mútuo. Isto foi comprovado pela dificuldade em conseguir informações dos membros da família por meio de entrevistas, de modo que, a maior parte das informações desse relatório foi adquirida por meio de pesquisas em cartórios e documentos diversos.

Três questões para exemplificar o nível do distanciamento das pessoas que compõem este grupo familiar.

  • Mesmo os dados mais simples não são de conhecimento de parentes próximos. Por exemplo: Em meio à pesquisa nos cartórios foi descoberto que I. P. (avô do titular do genograma) era gêmeo com G. P. (comprovado vivo até a juventude em documento de cartório) e este era desconhecido de seus sobrinhos, filhos de I.P. , que se surpreenderam ao saber da existência de um tio gêmeo do pai.
  • Em meio às tentativas de entrevista de familiares, houve discussões sobre o distanciamento dos membros da família e alegações do tipo… “Há dez anos não vejo meu irmão! E moramos a em bairros vizinhos!”
  • Também por meio de pesquisa em cartórios, foi descoberto que, B.O. , filha de M.A. , foi registrada em nome de A.O. e criada como filha de J.A.
    • Após a descoberta, discussões explicaram que a situação foi causada em decorrência de que, a gestação de B.O. ocorreu na adolescência de sua mãe, que, ainda solteira, não seria bem vista na sociedade da época, portanto, a criança nasceu em outra cidade e foi registrada como filha de uma prima de sua mãe, contudo, foi criada como filha da própria avó. Obs. Mãe e filha ainda vivem e se tratam como irmãs, a família não comenta o assunto.

Diante disso, pode-se perceber o quanto as ações familiares influenciam na formação do caráter do indivíduo, bem como, as circunstâncias vivenciais modificam os valores e interesses das pessoas. Pode-se perceber que, o titular do genograma, cresce em meio a alcoolistas, dependentes químicos, familiares distantes, mentiras, omissões, doenças e brigas, que proporcionam um ambiente favorável para que este se torne suscetível ao abuso do uso de substâncias químicas, como tentativa de refúgio, busca de segurança e mesmo por meio dos referenciais de pessoas estimadas que, já fazem uso de substâncias psicoativas.

 A partir do reconhecimento de uma situação de dependência química instalada, é necessário o desenvolvimento de uma avaliação psicológica com vistas à intervenção para possível auxílio no controle da situação de dependência.

2 Avaliação & Intervenção Psicológica

A psicometria é um ramo da estatística que estuda fenômenos psicológicos. Não se trata apenas de métodos, ela se insere na teoria da medida que trata da utilização de números no estudo dos fenômenos naturais. O processo de avaliação psicológica começa a ganhar estrutura a partir da elaboração de instrumentos de medida psicológica. Assim, a avaliação tende inicialmente a ocupar lugar de diagnóstico nos âmbitos clínicos e de trabalho e posteriormente repercute em todas as perspectivas do indivíduo. No entanto, apesar do desenvolvimento da área e da solidificação de análises e instrumentos, ainda existem críticas sobre os testes psicológicos.

Atualmente, pode-se dizer que, os instrumentos foram atualizados e compreende-se que o conhecimento é adquirido pela relação com o outro e a observação desta relação. Tornando o diagnóstico uma questão, por um lado racional, por outro, empático (NASCIMENTO, 2005, p. 217).

No Brasil, a psicometria ganha um grande espaço de discussão, devido ao modo como os testes veem sendo utilizados, sem o rigor necessário e estudos adequados, de forma que descaracteriza o método e sua cientificidade (NORONHA; BALDO; ALMEIDA; FREITAS; BARBIN; & COZOLI, 2004).

O rigor do método se deve à importância do mesmo, pois, a partir da psicometria é possível mensurar questões individuais em perspectivas legais, como quando um teste serve de base para distinguir entre dano moral e dano psicológico.

O dano moral é identificado como parte da percepção subjetiva de prejuízo em questões de honra, finanças ou de liberdade, enquanto que o dano psicológico está vinculado à saúde, possibilitando desenvolvimento de patologias (ROVINSK, 2005, p.178).

A avaliação psicológica é um dos principais campos da atuação do psicólogo. E isso, porque, a partir dos resultados dos testes, é possível se fazer inferências acerca do comportamento humano, de modo a auxiliar o indivíduo a tomar decisões diante de situações específicas (ÁVILA-BATISTA, 2011, p. 11).

Assim, o teste mais utilizado no Brasil para avaliação psicológica, tanto em relação à gravidade quanto à intensidade de danos, em casos de dependência química, é o MINI (Mini International Neuropsychiatric Interview). Seu questionário foi validado para a realidade brasileira e, por isso, sua eficácia tem sido continuamente constatada a cada aplicação, de modo que, muitos pesquisadores se utilizam com tranqüilidade deste instrumento.

2.1 MINI: Características e validação do instrumento

Dentre os métodos psicológicos reconhecidos estão o DSM IV TR (2002) a nível clínico e de diagnóstico de dependência química e o SADD (1983) como avaliador de gravidade da dependência química (SOUZA; BITENCOURTT & OLIVEIRA, 2006, p. 111).

O Mini International Neuropsychiatric Interview, doravante designado MINI, é um questionário de auxílio para desenvolvimento de diagnóstico padronizado breve (15-30 minutos). É compatível com os critérios do DSM-III-R/IV e do CID-10 e sua utilização é indicada na prática clínica e na pesquisa em atenção primária e em psiquiatria. Pode ser utilizado por clínicos após um treinamento rápido (de 1 a 3 horas). O MINI Plus, versão mais detalhada, pode gerar diagnósticos dos principais transtornos psicóticos e do humor do DSM-IV (SCHEFFER; PASA; & ALMEIDA, 2010, p.535).

O MINI é estruturado em módulos diagnósticos independentes, para otimizar a sensibilidade do instrumento, na tentativa de diminuição de falso-positivos. Como meio de redução de tempo da entrevista, são utilizadas as seguintes estratégias: observação dos transtornos atuais, para facilitar a escolha da terapia mais adequada no momento; as questões são de resposta objetiva entre SIM/NÃO; questões de entrada exploram critérios obrigatórios para excluir diagnósticos de respostas negativas; as características e sintomas ocasionais de transtornos não são sistematicamente exploradas; e os algoritmos são integrados à estrutura do questionário, permitindo estabelecer ou excluir os diagnósticos ao longo da entrevista (AMORIN, 2000, p. 107).

Foram desenvolvidas duas versões do MINI para responder aos diagnósticos específicos de contextos diferentes:

1) voltado para ensaios clínicos e cuidados primários. O MINI abrange 19 módulos que alcançam 17 transtornos do eixo I do DSM-IV, o transtorno da personalidade anti-social e o risco de suicídio. O módulo Síndrome psicótica descobre os indícios do critério da esquizofrenia, com a finalidade de eliminar a possível existência de um transtorno psicótico. Os outros módulos determinam análises positivas.

2) proposto para a avaliação aprofundada das desordens mentais ao longo da vida, na pesquisa e na clínica em psiquiatria. O MINI Plus explora ordenadamente todos os critérios de abrangência e de eliminação, bem como a cronologia de 23 classes diagnósticas do DSM-IV. O módulo Transtornos psicóticos produz a análise positiva de 7 subtipos de psicoses: (1) transtorno psicótico sem especificação, (2) transtorno delirante, (3) transtorno psicótico breve, (4) transtorno esquizoafetivo, (5) transtorno esquizofreniforme, (6) esquizofrenia, e (7) transtorno psicótico decorrente de uma condição médica geral e/ou induzido por substâncias (AMORIN, 2000, p. 108).

O método utilizado para a validação do instrumento MINI foi o teste de confiabilidade entre métodos.  Era necessário provar a concordância entre o diagnóstico gerado pelo MINI e aqueles gerados por métodos já reconhecidos. Foram escolhidas duas estratégias para validar o novo procedimento diagnóstico: “compará-lo a diferentes critérios de referência e compará-lo ao Best Diagnosis ou LEAD Standard” (AMORIN, 2000, p. 108).

O MINI/MINI Plus foi comparado a questionários padronizados com características distintas, empregados em pesquisas internacionais – o CIDI e o SCID-P – e com a apreciação de psiquiatras. Além disso, foram realizadas análises quantitativas e qualitativas, pela metodologia do LEAD Standard.

2.1.1 Aplicação do MINI e os resultados obtidos junto a Dependentes Químicos

A dependência química é o resultado de uma relação doentia entre um indivíduo e uma substância psicoativa (SPA). Inicialmente o consumo pode ter diversos motivos que possivelmente prosseguirão após o desenvolvimento da dependência. O abuso do uso de SPA, frequentemente desenvolve a dependência e esta, traz consigo, comorbidades psiquiátricas, o que é desfavorável ao tratamento da dependência química. O episódio de um transtorno adicional pode comprometer o diagnóstico, tratamento e prognóstico de ambos os problemas (SILVA; KOLLING; CARVALHO; CUNHA; & KRISTENSEN, 2009, p.102).

Estudos afirmam que um terço dos alcoolistas demonstra ansiedade em níveis significativos. Uma média de 50 a 67% dos alcoolistas e 80% dos dependentes de outras drogas apresenta características semelhantes ao transtorno do pânico, dos transtornos fóbicos ou do transtorno de ansiedade generalizada. Conforme Silva, “pacientes com comorbidade psiquiátrica, principalmente aqueles com transtornos psiquiátricos graves, apresentam maiores taxas de suicídio, agressividade, detenção por atos ilegais, recaídas, internações, mais gastos com tratamento…” (SILVA et al, 2009, p.104).

Para a aplicação do instrumento, Silva realizou uma pesquisa, a partir de 31 pessoas, diagnosticados dependentes de álcool ou cocaína / crack a partir do CID-10 e DSM-IV. O trabalho foi realizado em um hospital de Porto Alegre – Hospital Parque Belém – tendo como critérios de exclusão: 1) a idade abaixo de 18 anos; 2) estado de abstinência de duas semanas; 3) experimentadores e ex-usuários; 4) dependência de outra substância; 5) menos de um semestre de uso regular de SPA.

A pesquisa foi realizada predominantemente por:

  • pessoas do sexo masculino (84%)
  • entre 20 a 56 anos de idade
  • sendo que, 19,4% dos participantes tinham ensino fundamental incompleto
  • 16,1% terminaram o ensino fundamental
  • 16,1% afirmavam ter ensino médio incompleto
  • 29% concluíram o ensino médio
  • 12,9% tinham ensino superior incompleto
  • e 6,5% possuem ensino superior completo.

 Em média, os envolvidos apresentaram 25 dias de abstinência. A coleta de dados durou em torno de 60 minutos e os instrumentos utilizados foram: formulário padronizado, elaborado por Silva, e o MINI Plus (SILVA et al, 2009, p.106).

Como resultado da aplicação do instrumento foi observado que: 1) os participantes do sexo masculino apresentavam maior tempo de abstinência; 2) os dependentes de cocaína / crack, são mais jovens que os alcoolistas; 3) 67% dos envolvidos na pesquisa, afirmavam ter parentes próximos que faziam uso abusivo de álcool e/ou drogas; 4) 38,7% tem pais dependentes químicos; 5) 25,8% são sobrinhos de dependentes; 6) 22,6% são primos de dependentes; 7) 19,4% são netos de dependentes; 8) 12,9% tem irmãos dependentes; 9) 6,5% tem mães dependentes de SPA; e 10) 3,2% tem filho dependente químico. Transtornos mentais foram percebidos em 83,9% dos participantes, além da percepção de comorbidades múltiplas em grande parte do grupo estudado (SILVA et al, 2009, p.108).

A partir da observação e avaliação dos resultados da aplicação do MINI, é possível que a intervenção psicológica seja mais adequada. Ou seja, torna-se mais difícil que o terapeuta promova um direcionamento errado, de modo a prejudicar o dependente. Tanto em relação ao desenvolvimento do tratamento, quanto no que diz respeito ao surgimento de novos problemas. A partir da avaliação, o passo seguinte é a intervenção.

2.2 Intervenção: Entrevista psicológica

A entrevista psicológica é uma ação entre duas pessoas – das quais, um deve ser profissional da psicologia – onde ocorre uma troca de informações, por meio de diálogo em uma comunicação informal e por tanto, os nomes e conceitos atribuídos a esse diálogo são muitos, de maneira que os teóricos da área ainda discutem o tema com intensidade (ALMEIDA, 2004, p. 34).

A expressão entrevista psicológica é efetuada por psicólogos no exercício de suas atividades. E levam em conta, perspectivas e fatores psicológicos percebidos anteriormente, com o objetivo de resolver problemas que habitualmente fazem parte do quadro da psicologia, ou seja, seleção e orientação profissional, pesquisas psicológicas, estudos de opinião pública, exame de personalidade, etc. No entanto, a avaliação psicológica não é uma prática independente de amarrações teóricas que a direcionem, é necessário identificar as perspectivas teóricas adequadas, de acordo com o que deve ser avaliado e o modo como deve ser analisado, além de forma de utilização dos resultados obtidos (SPARTA; BARDAGI; &  TEIXEIRA, 2006, p. 19).

De acordo com Sullivan (1970), a entrevista psicológica é uma comunicação vocal a partir de duas pessoas, integradas numa estrutura terapeuta-cliente e que se desenvolve progressivamente com objetivo de clarificar situações de vida dos entrevistados, vividas de modo especialmente penoso ou valioso, com objetivo de que esta clarificação possa gerar algum benefício para o cliente (p. 4).

Assim, nos atemos ao estudo da entrevista psicológica, com a intenção de pontuar sobre regras que auxiliam para que a aplicação da técnica seja mais adequada, de modo a facilitar o desenvolvimento da análise. Isto porque, só o cliente realmente tem condição de expressar sobre o próprio sofrimento e, portanto, se faz necessário que o terapeuta consiga identificar o problema e conduzir o cliente no processo de ajuda, a partir desta identificação (OLIVEIRA, 2005, p.1).

A entrevista psicológica deve ser realizada através de procedimentos e técnicas próprias e empíricas. É o ponto de encontro entre a ciência psicológica e a prática. Por tanto, é a partir da entrevista que se é possível aplicar de modo prático, os conhecimentos elaborados sobre as perspectivas psicológicas, por meio de um processo de interação (BLEGER, 1998, p. 1).

Todo o aparato instrumental do profissional da psicologia consiste no resultado das elucubrações do paciente, que voluntariamente ou impulsionado por facilitações do terapeuta, se dispõe e falar sobre aquilo que lhe é problema, ou motivação que o levou à clínica psicológica. As palavras do paciente são na verdade o material sobre o qual irá trabalhar na tentativa de uma melhor compreensão do caso (AUGRAS, 2002, p. 82).

As técnicas da entrevista são ferramentas de auxílio para que o paciente se sinta mais a vontade para expor suas questões e para que o terapeuta tenha maior acesso às informações essenciais na elaboração do processo de ajuda. Por meio da entrevista, é possível testar limites, contrapor, confrontar e buscar esclarecimentos para as respostas do sujeito. Por isso, a entrevista clínica tem lugar de destaque incomparável entre as demais técnicas de avaliação (TAVARES, 2002, p. 75).

2.2.1 Primeiras Entrevistas

O objetivo das primeiras entrevistas é identificar os aspectos mais relevantes do caso e a partir disso, identificar a melhor maneira de deseenvolver o acompanhamento.

No decurso destas primeiras entrevistas, o analista deve: 1) escutar e tentar peceber na historia de vida do paciente, os problemas e perturbações a serem trabalhados; 2) avaliar o nível de vontade e condição do paciente para o acompanhamento terapêutico; 3) observar as características psiquicas, bem como a habilidade de verbalizar e tolerar a condição de analise.

A partir disto, se a analise for realmente indicada ao caso, deve ser fixado um modo de acompanhamento, ao estabelecer a duração, a frequência das sessões, a postura do analisado (divã, por exemplo) e a postura do analista (DAVIES & HARRÉ citado por PINHEIRO, 2004, p.186).

O trabalho do analista é o de observar, escutar, compreender, saber esperar e calar-se e no momento oportuno e dar a interpretação que convêm. Após isto, o terapeuta deve comunicar ao paciente o conteúdo latente do discurso deste.

Esta comunicação deve ser elaborada a partir da reunião de elementos separados do discurso. É um trabalho de reorganização e de atribuição de sentido à narrativa do paciente.

Essa devolução organizada das informações do sujeito precisa ser realizada em momento adequado, que este tenha condição de ouvir e de assimilar as informações apresentadas pelo terapeuta. É um trabalho de cooperação na construção de questões interenas do individuo  (DAVIES & HARRÉ citado por PINHEIRO, 2004, p.186).

É importante saber que, as primeiras entrevistas podem desencadear alguns fatores psicológicos. É imprescindível estar atento a:

  • Resistências – dificuldades gerais que o paciente possa apresentar em relação ao desenvolvimento do processo terapêutico.
  • Transferência – ação inconsciente de vivência momentânea das questões que afligem o paciente, de modo que as emoções sejam transferidas do evento, para o terapeuta.
  • Contratransferência – ação de deslocamento das emoções do terapeuta para com o paciente, ante alguma vivência comum ou situação específica do momento vivencial do terapeuta.

Estas situações podem ocorrer em meio a qualquer processo terapêutico e precisam ser consideradas com cuidado para que o tratamento não seja prejudicado (NETO, A.C.; DAL-BÓ, M. J.; BREDA, R. L.; & CRESTANA, T. 2003, p. 266)

2.2.2 Entrevista nas psicoterapias breves

A psicanálise influenciou a psicologia tanto em questões teóricas quanto a nível de exemplo. Por outro lado, a psicologia auxiliou na propagação da psicanálise em países que demonstravam indiferença à atuação psicanalítica. Ainda assim, é notória as especificidades de cada uma das disciplinas.

Ferenczi, psicanalista contemporâneo de Freud, é um dos precursores das psicoterapias breves. Decidiu por buscar novas maneiras de ajudar os seus pacientes, e para isso, experimentou um certo número de mudanças técnicas. É assim que ele começa por atuar a partir da técnica activa, fundada na observação atenta e empática, que consiste em intervenções directivas por parte do analista: formular, por exemplo, ordens e interdições (OLIVEIRA, 1999, p.10).

Michael Balint propõe a psicoterapia focal; trata-se de entrevistas face a face, cujo número é limitado no tempo, com uma focalização no problema do paciente (PSICOTERAPIA BREVE, 2003-2011).

Alexander e French propõem modificações técnicas da psicanálise e desenvolvem aexperiência emocional correctiva. Alexander propõe trabalhar com base no método das associações livres, mas associa igualmente entrevistas mais directas e dá directivas ao paciente, ele pensa também que as atitudes do terapeuta devem ser suficientemente flexíveis para se adaptarem caso a caso (OLIVEIRA, 1999, p.11).

De um modo geral, podemos dizer que, por meio da entrevista psicológica, o cliente precisa alcançar o relaxamento suficiente, para que o terapeuta consiga perceber as situações que lhe causam desconforto, ansiedade e outros problemas que o motivaram a procurar ajuda terapêutica e apartir disso, seja possível a elaboração – por parte do profissional da psicologia – de um processo terapeutico adequado, considerando as abordagens psicologicas cabiveis.

O objectivo é, portanto, fazer com que o sujeito tome consciência dos seus pensamentos, reconhecer aqueles que são inexactos e substitui-los por ideias positivas.

Para que a entrevista psicológica tenha resultados adequados, não basta a  compreensão ou domínio teórico de utilização deste instrumento de avaliação. É impressindível que o profissional tenha adquirido sensibilidade adequada para observação do paciente, seja através de estágio, supervisão, laboratório ou oficinas.

É necessário desenvolver sensibilidade e empatia, saber lidar com a própria subjetividade e com a subjetividade do outro (entrevistando). O entrevistador deve ser capaz de adentrar esse universo, sem juízo de valor, sem preconceito, para que assim possa estar com o outro, conhecer, não temer, se perder e se achar e, finalmente, voltar à realidade do contexto. E agora, de posse de sua bagagem técnica tecer suas observações, ponderações e considerações, de modo axiomático, considerado que a utópica da neutralidade sempre deverá ser perseguida.

Os princípios éticos serão avivados em cada encontro, e nenhum instrumento poderá adquirir uma aura de prevalência sobre a pessoa do entrevistado, que é mais importante e assim deve ser respeitado.

É fundamental que o profissional se conheça e que tenha como rotineiras, as reflexões sobre suas próprias atitudes, postura e comportamento. É preciso que tenha também flexibilidade em modificar-se, quando a necessário. Muito do trabalho do psicólogo certamente vem em conseqüência do auto conhecimento, que lhe dará a base na qual se apóiam à sua atuação e intervenção com toda transparência.

2.3 Abordagens

No campo da Psicologia, são muitas as abordagens existentes para tratamentos de conflitos. Há aquelas em que o cunho está mais voltada para o autoconhecimento do sujeito, seus traumas e conflitos internos, existem aquelas que trabalham com as crises e suas repercussões no momento, e, há também as de fundo filosófico que vêem o sujeito não somente como uma psique em crise, e sim como um todo levando em conta seu lado social e seu relacionamento com consigo mesmo e com o mundo.

As abordagens que pontuaremos, devido ao reconhecimento e destaque geral no campo da psicologia são quatro: Abordagem Fenomenológica; Abordagem Humanista; Abordagem Sistêmica; e Abordagem Cognitivo Comportamental.

2.3.1 Abordagem Fenomenológica

A perspectiva fenomenológica surge como reação às teses e à maneira de compreender questões patológicas no início do século XIX.

A abordagem surge a parir da filosofia, em particular da filosofia a alemã. Tendo como precursor Edmund Husserl, que elaborou os fundamentos desta idéia. Ele propõe compreender o homem e a sua psicologia a partir da análise dos estados de consciência, das questões vivenciais, da experiência e dos modos de relação do sujeito com o seu meio. Martin Heidegger, discípulo de E. Husserl, propõe uma filosofia que prioriza o conhecimento do ser humano no mundo, da realidade humana a partir da descrição das coisas na sua essência sem qualquer pressuposto teórico (VILA-CHÃ, 1988, pp.357-365).

A filosofia fenomenologica destaca a necessidade de um retorno à experiência humana como objecto de uma descrição; esta enfoque marcou profundamente a psicologia e a psicopatologia. Karl Jaspers é um dos primeiros a introduzir a dimensão fenomenologica em psicopatologia (RODRIGUES, 2005, pp. 754-768).

Karl Jaspers desenvolveu uma abordagem descritiva da fenomenologia; o seu método consistia em descrever as vivências psíquicas conscientes dos doentes mentais, classificar esses estados entre si e compara-los com as vivências psíquicas do homem normal (RODRIGUES, 2005, pp. 754-768).

Os fenomenologistas têm como referencia essencialmente Ludwig Biswanger, que pensa que é preciso ampliar a compreensão do doente tal como ele se encontra, mais do que compreende-lo a partir das teorias pré estabelecidas, que pertencem ao terapeuta e não ao doente; ele propõe uma análise que se baseia mais na relação e na experiência vivencial (CHAMOND, 2011, pp. 3-7).

A abordagem fenomenologica não propõe qualquer técnica psicoterapeutica particular, mas insiste na noção de comunicação, a partir de uma comunicação e uma relação verdadeira entre o clínico e o seu paciente. O ênfase está na relação terapêutica, que é considerada como uma relação inter-humana, portanto uma possibilidade de encontro, um face-a-face e uma troca com o outro. Não está baseado em regras técnicas, mas, uma reflexão teórica sobre a noção de psicoterapia e uma reflexão sobre a prática da entrevista, insistindo na experiência comunicativa entre os dois interlocutores (LESSA &  SÁ, 2006, pp. 393-397).

2.3.2 Abordagem humanista: Carl Rogers

As percepções de C. Rogers tiveram grande influência no que diz respeito à psicoterapia. Elas integram uma abordagem humanista bastante próxima do ponto de vista fenomenologico, assumindo uma posição face às teorias psicanalítica e behavioristas, a partir do interesse pela nosografia e pela estrutura da personalidade.

Conforme Rogers, em todo o ser humano existem potencialidades que podem ser desenvolvidas numa relação interpessoal, a partir da aceitação, compreensão empática, e, não diretividade, por meio de uma relação interpessoal e construtiva.

O processo terapêutico, segundo C. Rogers, envolve uma libertação dos sentimentos a partir da experiência vivencial e a percepção disto durante a terapia, para que o indivíduo tenha como modificar sua prática de atitudes e assim, desenvolver congruência consigo próprio (AMATUZZI, & CARPES, 2010, pp. 11-25).

2.3.3 Abordagem Sistêmica

A terapia centrada na família compartilha dos mesmos pressupostos da terapia centrada na pessoa, ou seja, o foco do terapeuta não está no problema, mas, nas pessoas e, deste modo, o trabalho é desenvolvido em dois momentos específicos. Num primeiro momento, o terapeuta direciona seu trabalho para o cliente que lhe procura e, portanto, a atuação é centrada na pessoa. Num segundo momento, é realizada uma reflexão para o desenvolvimento de uma intervenção adequada ao contexto antropológico. A partir disso, podemos entender a família como um “sistema multidimensional de relações sociais interdependentes em que estas diferentes dimensões se encontram presentes em grau e correlações variáveis” (HIPÓLITO, 2010, p.76).

A pessoa nesta perspectiva é ao mesmo tempo, o centro e um dos pólos de cada uma das relações familiares. E por isso, o terapeuta deve se utilizar da resposta de compreensão empática para refletir em todo o sistema familiar, as vivências expressas de cada pessoa envolvida no processo terapêutico. Desse modo, é possível que cada membro da família consiga alcançar uma visão mais adequada de si e em si, ou seja, que cada um se observe interna e externamente, e que a partir dessa visão, seja possível um crescimento mais adequado ou haja um enriquecimento familiar por meio das potencialidades individuais (HIPÓLITO, 2010, p 76).

A terapia familiar sistêmica é originária da década de cinquenta e tem como alicerce, aspectos da biologia, química, cibernética, teoria sistêmica e outras. O início das considerações sobre a terapia familiar surge, quando estudiosos começaram a questionar a perspectiva conhecida, até então, sobre a doença mental, pois, acreditava-se que a psicopatologia se desenvolve e é mantida apenas pelo indivíduo e esta interpretação não se sustentava mais, devido à observação das influências do contexto na construção do indivíduo (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

De modo geral, as famílias são percebidas como grupos de pessoas com laços consanguíneos, com intenções de procriação. Na perspectiva sistêmica, as famílias simbolizam sistemas que se relacionam com o meio e/ou com outros sistemas semelhantes (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

A terapia é centrada no sistema e não em cada indivíduo que compõe a família. Por isso, acredita-se ser impossível entender o funcionamento de uma família conhecendo apenas uma de suas partes. Portanto, podem ser desenvolvidas várias técnicas para a ampliação da compreensão das relações familiares, o que favorece na reorganização do grupo (FERES-CARNEIRO, 1994, p.57-58)

 A facilitação terapêutica deve ser desenvolvida de modo que o discurso de cada pessoa seja integrado ao discurso da família, a fim de que o indivíduo não abandone suas perspectivas pessoais e seja respeitado com todas as suas idiossincrasias, e, assim, sinta-se restituído ao grupo familiar identificando o seu valor em relação ao mesmo (HIPÓLITO, 2010, p 78).

O papel do terapeuta é de vivenciar o quadro apresentado pela família e a partir disso comunicar sua compreensão, de modo sensível, respeitando a expressão da vivência de cada um, juntamente com as projeções, mudanças e significados atribuídos por cada pessoa do grupo (HIPÓLITO, 2010, p 79).

Além disso, a família apresenta uma especificidade terapêutica: cada membro, estando presente ou não no momento terapêutico, tem um lugar especial e influencia no desenvolvimento das potencialidades do grupo e, por isso, o terapeuta precisa considerar o indivíduo ausente e atribuir-lhe o lugar conferido pelas pessoas presentes, contando com estas atribuições durante todo o período de acompanhamento (HIPÓLITO, 2010, p 79).

A proposta é auxiliar a família a alcançar o enriquecimento proporcionado pela consciência de que o tema da colusão não afasta ou divide a família, mas, serve de oportunidade para o desenvolvimento da flexibilidade e equilíbrio (FERES-CARNEIRO, 1994, p.54).

2.3.4 Abordagem Cognitiva e Comportamental

A abordagem cognitiva e comportamental representa um conjunto de técnicas baseadas nas teorias da aprendizagem e nos contributos da psicopatologia cognitiva. Todas elas têm em comum um certo número de características: O estabelecimento de um contrato entre o paciente e o terapeuta; A definição clara e precisa dos objectivos terapêuticos, com uma definição das condutas que vão ser alvo das tentativas de mudança; A duração do tratamento, que é geralmente bastante breve, de três a seis meses; A medida quantitativa e qualitativa da mudança obtida.

Têm por objetivo suprimir o comportamento inapropriado para o substituir por um comportamento adaptado, segundo as leis do condicionamento. Por exemplo, a técnica da dessensibilização, utilizada para tratar as fobias (BAHLS; & NAVOLAR, 2004, pp.1-11).

A Psicologia é uma área muito ampla e as abordagens são diferentes entre si. Elas diferem em filosofia, objeto de estudo, teoria, linguagem, formas de pesquisa, dados científicos e práticas de intervenção. Todas essas características resultam em perspectivas muito particulares de como perceber o homem e como lidar com ele profissionalmente, e resultam em certas expectativas de postura do psicólogo, portanto, é necessário cuidado ao escolher a abordagem mais adequada.

3 Psicologia & Religião: Caminho terapêutico para o dependente químico?

Uma das características do processo terapêutico está relacionada ao valor e lugar que o do processo catártico em meio ao tratamento escolhido. Pode-se dizer que catarse é um processo de liberação de angústias e emoções reprimidas, ou de algum modo contidas, que, a partir de certo ponto podem causar distúrbios psicológicos (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

O termo Catarse surge com Aristóteles. Por meio da ação poética, o palco tornava-se lugar de liberação das expressões emocionais por meio do drama e da tragédia. Posteriormente a ação catártica de purificação das emoções passa a ser vivenciada também pelo expectador (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

Após o estabelecimento do processo catártico, por anos, esta ação foi vivenciada como ritual de purificação de espíritos malignos e/ou influências negativas externas sobre a vida das pessoas, por meio de ações como exorcismos, hipnose e semelhantes (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

O processo foi utilizado a partir de diferentes perspectivas, passando por Freud, Diderot, Lessing, Goethe, etc. (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

Em cada perspectiva a catarse ganhou um nome diferente como: análise do caráter, Gestalt-terapia, terapia primal, analise bioenergética, etc. (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

De modo geral pode-se dizer que a catarse atua claramente em três perspectivas humanas: médica, moral e religiosa (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

No que diz respeito ao aspecto médico, a catarse pode ser compreendida como ação homeopática de purificação do corpo (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

A perspectiva moral entende que, ao purgar as malignidades por meio da catarse, a conduta do indivíduo seria equilibrada e não haveria riscos de ações imorais / malignas (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

A ênfase religiosa da catarse aparece desde o teatro grego, onde a tragédia era compreendida como excitação religiosa e êxtase báquico. É possível citar também a influência hebréia no que diz respeito às experiências de sofrimento de personagens bíblicos como Ana (1 Sam 1:12-16), que não podia ter filhos e por isso, chorava e sofria diante de Iahwe. A oração sofrida acompanhada por movimentos de lábios que lembravam embriaguês, tiveram como resultado, a resposta do clamor, alívio e cura da alma. Além disso, Inácio de Loyola afirmou que a prática da glossolália (dom de línguas) resulta em paz e crescimento (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

Ainda hoje é possível perceber que, algumas linhas de orientação religiosa são desenvolvidas a partir de processos terapêuticos, que promovem reações com caráter catártico, especialmente em comunidades terapêuticas para recuperação de dependentes químicos (em maioria, apresentam fundação religiosa). Diante disto, torna-se imprescindível a observação da prática terapêutica psicológica, paralela ao sistema de orientação religioso que ocorre em meio à essas comunidades.

É fácil perceber a importância da relação de ajuda, desenvolvida por meio do aconselhamento, ante a necessidade humana de apoio e orientação em situações de crise e conflitos de modo geral.

O aconselhamento psicológico é um trabalho realizado por meio de encontros regulares e de caráter profissional, entre um cliente e um psicoterapeuta, com vistas a proporcionar suporte para que o indivíduo ultrapasse dificuldades relacionais ou pessoais. A compreensão de uma situação em particular, pode levar o indivíduo a aceitação ou a mudança de conduta,  de modo que, a pessoa tenha suas questões internas resolvidas (MACEDO; FONSECA e; HOLANDA, 2007, p.207).

 O aconselhamento religioso é um processo de mediação, realizado por um conselheiro, que neste caso, exerce a função de terapeuta, no sentido do grego antigo, que tem a conotação de cuidar, servir, tratar e também render culto. Ou seja, o terapeuta não é responsável pela cura, mas, é quem facilita o encontro entre àquele que cura e o necessitado, seja por meio de orações, de orientações, de imposição de limites ou simplesmente pelo direcionamento, para que o necessitado caminhe em direção àquele que tem o poder de curar (MACEDO; FONSECA e; HOLANDA, 2007, p.208).

Algumas linhas de aconselhamento relacionam, propositalmente ou não, a bíblia ou princípios morais do cristianismo, com linhas psicológicas específicas, como apresentaremos adiante.

3.1 Psicanálise & Cura do Passado

A psicanálise é uma metodologia desenvolvida por Freud, que considera como essencial, compreender o inconsciente do indivíduo e integrá-lo ao consciente, por meio da interpretação das ações e palavras, bem como de produções imaginárias, sonhos, delírios, associações livres e atos falhos (BOCK, 1999, p.70).

Esta interpretação visa promover um equilíbrio que auxilie no ajuste da conduta humana, de modo que seja possível a eliminação do mal-estar e do sofrimento. A idéia central é de que o autoconhecimento desenvolve a capacidade de lidar com as adversidades e superar as dificuldades (CATALDO NETO; GAUER e; FURTADO, 2003, p. 776).

Desse modo, é possível adquirir autonomia, por meio de uma capacidade criativa de cada indivíduo, grupo e instituição, por meio de um processo onde seja possível desfazer calmamente as barreiras do paciente (BOCK, 1999, p.80).

O princípio da desmontagem das resistências do inconsciente, está relacionado ao fato de que Freud considera que experimentamos a ansiedade já no primeiro momento da vida humana e a causa desta angústia é o parto (MEZAN, 2006, p. 527). Portanto, todo o passado do indivíduo, mesmo as coisas que de modo natural não são lembradas, como a sensação do nascimento, são importantes no trato das doenças desenvolvidas por meios de traumas.

A cura do passado é uma metodologia cristã, que afirma a cura por meio de uma volta ou de um relembrar o passado. É conhecida também como cura interior, cura das memórias, cura da árvore genealógica (SEAMANDS, 2007, p.12) dentre outros.

A metodologia foi desenvolvida por um psicanalista austríaco, Otto Rank, discípulo direto de Freud, que se aproxima da psicanálise ainda na adolescência, após a separação de seus pais (HURDING, 1995, p.411).

O trabalho tem como base a terapia desenvolvida durante a imaginação pela fé e o aconselhamento desenvolvido por meio da oração (SHLEMON, 1986, p.12), que visa conduzir o  indivíduo de modo consciente, à uma situação de crise do passado, e, por meio da conscientização da presença de Jesus – enquanto Deus atemporal – no momento em questão (HURDING, 1995, p.416), curar feridas e suas consequências na vida prática da pessoa que se dispõe a ser acompanhada.

A ênfase da cura interior ganha maior repercussão a partir dos estudos de alguns nomes como Anne White, Francis MacNutt e Ruth Stapleton, sendo que esta, afirma a cura interior como ação de restauração das emoções por meio das orientações do Espírito Santo (HURDING, 1995, p.416).

A partir da década de 1960, influenciado pela metodologia da cura interior, Frank Lake, médico missionário com treinamento em psiquiatria, desenvolve o que posteriormente ganha o nome de Teologia Clínica (EVANS, 2002, p.186).

O trabalho considera o princípio freudiano do trauma no nascimento e por isso, Lake utiliza teorias “reichianas e bioenergéticas de respiração profunda” (HURDING, 1995, p.420) para conduzir o indivíduo a reviver a experiência do nascimento e outras experiências traumáticas, na tentativa de resolver os problemas adquiridos durante a gestação e parto.

Lake, afirma que os sentimentos da mãe, sejam bons ou ruins, são transmitidos à criança durante a gravidez e a angústia da separação do bebê com a mãe por meio do parto, é relacionada a angústia gerada pela separação de Cristo com o Pai no Getsêmani e Gólgota.

Nesta pesrpectiva, pode-se entender que, a cura acontece por meio da realização do ego, mas, não o ego como compreendido por Freud, o ego do indivíduo, e sim, um tipo de ego ideal, que é gerado por meio da realização em Cristo, ou seja, o desenvolvimento de uma nova pessoa ou personalidade, ante ao convívio e comunhão com Deus (HURDING, 1995, pp.426,427).

Relação entre Psicanálise e Cura do Passado

Percebemos de modo claro a influência da psicanálise no desenvolvimento da cura do passado, a partir de um ponto específico: o fundador da teoria de cura do passado é de formação psicanalítica.

Diante disso, fica mais fácil identificar a semelhança na compreensão do ser humano enquanto indivíduo fragilizado desde o nascimento e necessitado de apoio para o autoconhecimento, para que este conhecimento auxilie no desenvolvimento do ego – seja o ego freudiano ou o ego ideal de Lake – e a partir disso, o indivíduo seja capaz de constituir forças para superar as adversidades e frustrações, sejam essas forças do próprio indivíduo ou da presença de Deus neste.

Ambas as linhas de orientação, conduzem o indivíduo a olhar para dentro de si, com dois objetivos: compreender a si mesmo, e buscar forças internas para continuar vivendo.

3.2 Logoterapia & Aconselhamento Pastoral

A logoterapia, desenvolvida por Viktor E. Frankl, é a terceira escola de psicoterapia de Viena, também conhecida como Psicologia do sentido da vida, devido a experiência de Frankl no campo de concentração, onde compreendeu o sentido do sofrimento (EINSFELD, 2000, p.18).

A logoterapia pode ser compreendida em três categorias de valores: criadores, vivenciais e de atitudes. Os valores criadores são referentes a capacidade criativa nas questões intelectuais, artísticas, de trabalho, enfim, de toda a liberdade de ação humana; os valores vivenciais são adquiridos por meio das experiências afetivas, seja por meio do desenvolvimento das relações familiares, seja pela contemplação da natureza, de observação da arte e cultura ou mesmo, pelas vivências místicas; e por fim, os valores de atitude, caracterizados pelo posicionamento adequado ante os sofrimentos inevitáveis e a condição ou capacidade de sofrer (LUNA, 2005, p.26).

Einsfeld afirma ainda que, Frankl descobriu a liberdade de observar a vida – mesmo que em condições precárias – e conseguir encontrar um sentido, que não depende da realização pessoal, mas, da maneira como a pessoa se coloca diante da situação vivenciada. Esse sentido surge quando a pessoa transforma o sofrimento em conquista, quando a culpa é transformada em oportunidade de mudança, ou quando a transitoriedade da vida auxilia no desenvolvimento de ações responsáveis (EINSFELD, 2000, p.21.).

Segundo Clinebell, o aconselhamento pastoral considera três aspectos essenciais com vistas ao crescimento: luta, morte e renascimento. O trabalho de orientação pastoral é desenvolvido a partir de uma compreensão particular da vida cristã, ao entender que esta não é apenas uma maneira de crer, mas, uma maneira de vivenciar ou experienciar todas as coisas, logo, tem como objetivo, modificar a motivação do comportamento e não apenas da crença humana. E isto, ante a experiência de luta, morte e renascimento de Cristo (CLINEBELL, 1987, p.56).

Clinebell afirma que as pessoas devem encontrar sentido para a vida, em todas as suas circunstâncias, tendo no sofrimento, o crescimento, seja humano, seja espiritual. Isto, porque, o ser humano é tido como carente de sustento, apoio e cuidado.

Essa carência gera crise no indivíduo que, torna-se perdido em si mesmo, de modo que passa a ter necessidade de apoio externo, de uma relação de ajuda, de alguém que auxilie no processo poimênico de cura da alma, por meio do apoio na compreensão do propósito da vida e de suas crises fundamentais, que estão diretamente relacionadas às percepções de “pecado e salvação, alienação e reconciliação, culpa e perdão, juizo e graça, morte e renascimento espiritual” (CLINEBELL, 1987, p. 47).

Relação entre a Logoterapia e o Aconselhamento Pastoral

Ambas as estruturas consideram como base de trabalho o sentido da vida e tratam disto em três perspectivas. Enquanto a logoterapia considera os valores criadores, vivenciais e de atitudes, como fundamentais para o desenvolvimento da capacidade do indivíduo de suportar o sofrimento, o aconselhamento pastoral aponta a luta, morte e renascimento como princípios de fé que devem não apenas nortear a vida mas, dar sentido a ela.

Outra característica está associada a ideia de realização pessoal como processo logoterapêutico, motivador para a continuidade da vida, e o propósito de vida apresentado pelo aconselhamento pastoral, como suporte e estímulo da esperança ante o sofrimento.

Ambas as orientações consideram as vivências como determinantes, ou seja, as vivências podem favorecer para o desânimo e enfraquecimento, ou para o fortalecimento e esperança, dependendo de como o indivíduo se posiciona.

3.3 Behaviorismo & Aconselhamento Bíblico

O behaviorismo  também conhecido como  comportamentalismo ou análise do comporta-

mento, considera uma espécie de ação e reação. O organismo responde a um estímulo, ante a ajustes ambientais ou por hábitos desenvolvidos (BOCK, FURTADO, & TEIXEIRA, 1999, p.45).

Duas situações são utilizadas na análise, o comportamento respondente e o comportamento operante. O comportamento respondente é composto pelos atos involuntários, por estímulos antecedentes ao ambiente, como salivação ou contração das pupilas. Já o comportamento operante é tudo aquilo que o indivíduo escolhe fazer, tudo o que a pessoa pode realizar para influenciar ou afetar o meio em que está envolvido (SKINNER, 2006, p.59).

   Em síntese, podemos dizer que, o comportamento respondente ocorre quando o indivíduo sofre um estímulo, enquanto o comportamento operante acontece quando o indivíduo produz o estímulo.

Além disso, considera-se o reforço, o controle de estímulos, extinção, punição, discriminação e generalização, como ferramentas de identificação, orientação e avaliação de casos (BOCK, FURTADO, & TEIXEIRA, 1999, pp. 50-54), sendo cada categoria compreendida da seguinte forma:

  • Reforço é tudo o que pode modificar uma ação futura, seja positiva ou negativamente;
  • Controle de estímulos é relacionado aos controles como placas de trânsito ou sinais indicativos, que delimitam os espaços e orientam ações de modo objetivo;
  • Extinção é o mecanismo que capacita a redução de determinada ação até a completa extinção da mesma;
  • Punição, leva a redução temporária de certo comportamento;
  • Discriminação, auxilia na modificação de comportamento de acordo com o ambiente;
  • Generalização, dificulta as reações ante a estímulos semelhantes.

O aconselhamento bíblico é o método utilizado por Jay Adams, para confrontar pessoas por meio de textos bíblicos, com a intenção de promover mudanças comportamentais, na tentativa de ajustar o indivíduo à uma conduta considerada biblicamente adequada ou justa (ADAMS, 1999, pp. 58-59).

A metodologia é diretiva, com a intensão de moldar os padrões de comportamento, invertendo ações tidas como pecaminosas, em atitudes justas e positivas, tendo como estímulos, os exemplos dos personagens e as situações apresentadas nas histórias bíblicas (CRABB, 2000, pp. 80,81).

Os limites estabelecidos estão relacionados à questões éticas de uma cultura específica, e portanto, limita as possibilidades de discriminação ou generalização em situações sociofamiliares, de modo que esse limite pode gerar punição e em alguns casos, extinção de comportamentos.

Relação entre Behaviorismo e Aconselhamento Bíblico

O behaviorismoe oaconselhamento bíblico seguem padrões indutivos para influenciar ou mesmo determinar comportamentos. E tem como ferramentas básicas: reforço, controle de estímulos, extinção, punição, discriminação, e generalização.

O diferencial consiste na base de direcionamento. Enquanto o aconselhamento bíblico tem como determinantes os escritos, a moral e a tradição cristã, o behaviorismo trabalha a partir das extruturas individuais de cultura.

Ambas as perspectivas não se orientam a partir da capacidade individual de construção ou elaboração de superação, mas, conduzem o aconselhando à uma decisão e uma ação específica e padronizada.

3.4 Pessoalismo (ACP) & Aconselhamento Cristão

O pessoalismo ou terapia centrada na pessoa, desenvolvida por Carl Rogers, considera que o indivíduo tem em si uma tendência atualizante, ou seja, uma capacidade natural de se curar ou de se ajustar às mais diferentes situações, de modo a aprimorar o self. A importância deste aprimoramento se deve ao fato de que o self é tido como a essência da personalidade humana, de modo que, o autodiscernimento apresenta-se como chave para o desenvolvimento do indivíduo (SCHULTZ, 2002, pp.316-317).

Na perspectiva do pessoalismo, pessoas psicologicamente saudáveis percebem a si mesmas, então, não se sentem ameaçadas em seu autoconceito. Isto ocorre com aqueles que receberam considerações positivas e portanto, não sentem necessidade de “internalizar condições de merecimento” (SCHULTZ, 2002, p.321) para realizar o self e adquirir pleno funcionamento. Este fato indica também que o indivíduo não apresenta incongruência, que seria a dificuldade de perceber e vivenciar o verdadeiro self.

O trabalho de Rogers é auxiliar o cliente, através do aconselhamento centrado na pessoa e não no problema. A intenção é de desenvolver empatia em meio ao processo de acolhimento, criando uma identificação com o indivíduo, o que facilita para que o mesmo se compreenda e permita o processo natural de atualização do self, gradativamente, em meio ao processo terapêutico. Assim, o indivíduo adquire maior facilidade de se aceitar e a partir disso, gerar condições de enfrentar as dificuldades do mundo experiencial (MORATO, 1999, p.109).

O aconselhamento cristão, segundo Collins (2004, p.45-46), tem como objetivo gerar:

  • Autoconhecimento, porque compreende a necessidade do indivíduo de se entender,  para posteriormente alcançar cura;
  • Comunicação, porque reconhece a necessidade de expor os sentimentos, pensamentos e emoções de modo preciso;
  • Aprendizado e mudança de comportamento, pois entende que as pessoas agem de acordo com aquilo que aprenderam;
  • Auto-realização, devido à necessidade humana de desenvolver o próprio potencial;
  • Apoio, que é ferramenta facilitadora ante as dificuldades decorrentes no processo de realização pessoal; e
  • Integridade espiritual, por reconhecer a influência da dimensão espiritual em relação aos problemas humanos.

A idéia principal é de que o conselheiro deve: saber dar at

enção; desenvolver habilidades de bom ouvinte; responder objetivamente àquilo que foi ouvido comprovando o comprometimento com a pessoa; saber como conduzir, comentar, perguntar, confrontar, informar e interpretar a fala do aconselhando, de modo que o mesmo possa aprender durante o processo de aconselhamento (COLLINS, 2004, p.48-51).

Relação entre Pessoalismo e Aconselhamento Cristão

O pessoalismo está alicerçado na construção e manutenção do self, ou seja, da característica individual que torna uma pessoa única. A idéia é de personalidade e de capacidade criativa, bem como de idiossincrasia e que precisa, na perspectiva rogeriana, ser reconhecida, aceita e desenvolvida, para que o indivíduo alcance cura e qualidade de vida em todas as perspectivas.

O aconselhamento cristão segue o padrão de autoconhecimento como base para o reconhecimento da dimensão espiritual e da necessidade da mesma para a constituição humana saudável.

 O conhecimento de si, de todas as mazelas e qualidades individuais formam a esfera de atuação destas linhas de aconselhamento, que consideram a liberdade e capacidade humana de decisão, como essenciais para o processo de formação, cura e saúde, mental e espiritual do ser humano.

Relação geral entre os processos

De modo geral, o acompanhamento religioso se apresenta como aconselhamento pastoral, porque tem como princípio a comunicação da palavra de Deus. Assim, difere-se de perspectivas como a psicanálise ou qualquer outra linha psicológica. No entanto, tem como objetivo, ajudar as pessoas a ajustarem-se melhor consigo mesmas e seus ambientes. E essa ajuda pode ocorrer individualmente, em família, ou em grupos afins, com ambiente estruturado, e programas de autoconhecimento, com vistas a superação de crises (MACEDO; FONSECA e; HOLANDA, 2007, pp.208,209).

Esta característica de atuação com ambientes estruturados e trabalhos individuais, familiares ou em grupos, também são adotadas nas orientações psicológicas, com objetivo de fundamentar as relações e constituir, indivíduo e sociedade.

Como se pode perceber é possível realizar o processo terapêutico de diversas maneiras, inclusive, em parceria com estruturas eclesiásticas. Para maior esclarecimento sobre a atuação do terapeuta que trabalha em comunidades terapêuticas confessionais, é importante que se fale mais detalhadamente, ao menos sobre uma, dentre as perspectivas citadas. O trabalho humanista, de Carl Rogers, apresenta duas especificidades que favorecem o acompanhamento ao dependente internado em uma instituição religiosa: 1) ênfase na valorização de Si, dificuldade característica do dependente, citada e explicada no capítulo primeiro deste trabalho; e 2) facilidade de aplicação das técnicas da ACP, devido ao fato de que a abordagem partilha de princípios estruturais semelhantes a características da ética cristã, em aspectos  gerais.

3.5 Abordagem centrada na pessoa ou pessoalismo cristão?

A abordagem centrada na pessoa é uma teoria sustentada pela compreensão de Carl Rogers de que as pessoas têm em si mesmas, a capacidade de resolverem seus conflitos internos, desde que consigam uma oportunidade e um ambiente adequado para isso. Rogers afirma que existe uma tendência, chamada de atualizante, que move o indivíduo em direção ao desenvolvimento de suas potencialidades, em busca da própria conservação e/ou enriquecimento. (ROGERS & KINGET, 1977, p.159).

Segundo Rogers, essa tendência atualizante é uma característica humana semelhante a princípios fundamentais das plantas e dos animais, no que diz respeito à constituição biológica, de maneira que, a capacidade de crescimento e desenvolvimento permanece inerente no ser e, portanto, sempre que o ambiente e as condições favoráveis existirem, essa capacidade entrará em funcionamento (MOREIRA, 2007, p.53).

A compreensão de Rogers se relaciona à visão cristã, no sentido de entender a existência humana, como parte da criação. Entender o indivíduo como um ser que compartilha das características de surgimento, manutenção e sustento vital, a partir de uma questão interna (no caso, a presença do Espírito de Deus no homem) que favorece a cura, crescimento, ajustamento, etc. desde que não haja empecilhos externos.

Por isso, o conselheiro deve favorecer para que o cliente alcance a condição de se aceitar, de expressar seus sentimentos e atitudes, identificando diferenças individuais, sem, no entanto, comparar-se a outros. É necessário que o terapeuta desenvolva uma compreensão empática, ou seja, não apenas ouvir, mas, tentar perceber as reações do cliente ante a cada situação compartilhada e transmitir essa percepção ao indivíduo (ROGERS, 1983a, p.33).

Rogers afirma que a importância da empatia no processo de aconselhamento, deve-se ao fato de que as pessoas conseguem apresentar maior consideração por si, quando percebem que outros a aceitam e a compreendem (ROGERS, 1983a, p.39). A compreensão empática reflete as informações apresentadas pelo cliente a ele mesmo. Esse reflexo proporciona o autoconhecimento e por consequência, ajuste vivencial (HIPÓLITO, 2010, p.44).

Em outras palavras, podemos dizer que, a função do conselheiro é de agir como um espelho no qual o cliente deve enxergar a si e suas vivências, de modo mais objetivo. A partir desta compreensão, o indivíduo torna-se capaz de assumir seus problemas de forma mais adequada e responsável, porque se sente em uma situação segura para caminhar em direção à maturidade e se libertar das dificuldades (ROGERS, 2000, p.11-19).

Este aspecto também pode ser percebido em algumas ações de Jesus, que, considerava o indivíduo com todas as suas mazelas, independente do que a sociedade da época considerava pecado ou erro. A aceitação de Cristo para com os outros era incondicional e isso proporcionava confiança na relação estabelecida, de modo que as pessoas sentiam-se livres para falar de suas dores e dificuldades. Sentiam-se acolhidas e consequentemente, curadas.

Schultz afirma que, para Rogers, os processos avaliativos da psicologia tornam o paciente dependente, porque cria uma atmosfera de autoridade em torno do terapeuta. E, a partir do momento em que o terapeuta toma conhecimento dos problemas do cliente, o paciente age como se não fosse mais necessário se preocupar com o problema, pois, o alvo agora é seguir a orientação do especialista com a certeza de que tudo será resolvido (SCHULTZ, 2002, p.325).

Por isso, o princípio de Rogers está sustentado na premissa de não contar com uma estrutura teórica determinada, a partir da qual o problema do cliente seria enquadrado, para o desenvolvimento de algum mecanismo de ajuda. O importante é entender e aceitar o valor da pessoa. Logo, o terapeuta não deve expressar julgamentos nem dar conselhos, apenas concentrar-se no cliente, para que este consiga se perceber no terapeuta, de modo a reavaliar suas relações e possivelmente mudar de comportamento (SCHULTZ, 2002, p.325).

O terapeuta atua como facilitador. A sensação de segurança produzida pela empatia do conselheiro será suporte para que o cliente encontre em si mesmo as condições de superação para os problemas (SCHEEFFER, 1976, p.26).

Rogers abre mão de qualquer tipologia de personalidade ou de conceitos psicológicos específicos sobre o ser. Mas, tinha como objetivo, esclarecer o que é e como se estrutura uma relação psicológica que colabore para que o cliente alcance uma visão adequada de si mesmo, para que este consiga progredir a partir de sua própria compreensão (ROGERS, 1987, p.14).

A personalidade, conforme Rogers é o resultado de experiências vivenciadas pelo indivíduo, sendo que a pessoa é o centro dos eventos e consequentemente, influencia e recebe influências destes.  Logo, estes eventos tornam-se concretos para aqueles que o vivenciam (ROGERS, 1961, p.23).

Porém, a construção deste ser, ou como Rogers afirma, a construção deste Si-Mesmo, não é apenas uma percepção de si, mas, uma relação entre a vivência e compreensão, ou a vivência a partir da compreensão (ROGERS & WOOD, 1978, p.197).

De modo semelhante, a visão geral do cristianismo considera que não se deve preocupar com a personalidade, como se fosse algo imutável, pois, a vivência proporciona mudança de conduta. Assim como o apóstolo Pedro, tornou-se grande homem de fé, a partir dos percalços da negação trina de Jesus e da aceitação que recebeu de Cristo ainda na cruz. Cada indivíduo é considerado único e necessitado de um processo distinto de apoio.

Assim, depois da compreensão da aplicabilidade do método de Rogers junto à instituições confessionais, é preciso pensar as duas vertentes de atuação do terapeuta. Dependente químico e familiares (co-dependentes).

3.5.1 Aconselhamento centrado no dependente químico

Podemos dizer que a empatia (ROGERS, 1983a, p.33), enquanto ferramenta do aconselhamento centrado na pessoa pode proporcionar ao indivíduo dependente químico, a segurança necessária para aceitar o mundo real como real (GIDDENS apud Bessa, 2005, p.44), porém, não a partir das relações humanas, mas, a partir da tendência atualizante, ou seja, a partir de si mesmo (ROGERS & KINGET, 1977, p.159).

Ao considerar a capacidade humana de crescimento e enriquecimento intrínseca, desde que se encontre o ambiente favorável (MOREIRA, 2007, p.53), é possível que o dependente consiga a partir do aconselhamento, tudo o que precisa para se estruturar e crescer, sem precisar esperar bons referenciais externos (SCHMIDT, 1976, p.25).

A partir do conhecimento pleno, desenvolvido por meio da ação reflexa do terapeuta, a pessoa dependente pode alcançar a condição de mudança e de reestruturação de vida (HIPÓLITO, 2010, p.44), de modo que não mais aguarda por referenciais, mas, torna-se referencial (ROUANET, 1987, p. 233).

Este conhecimento pleno proporciona também a diminuição da curiosidade (LIBÂNIO, 2004, p. 159), pois a mesma é sensação relacionada ao desconhecido. Portanto, o autoconhecimento promove a prevenção do uso de drogas, no que diz respeito à pessoa que ainda não utiliza, e redução de recaídas para os que estão diminuindo o uso.

Se a condição de dependência pode ser desenvolvida por diversos fatores como insatisfação com a vida, personalidade fraca, necessidade de prazer inerente ao ser humano e influências da modernidade (CARMO, 200, p.143), é imprescindível que seja desenvolvido um acompanhamento centrado na pessoa dependente e não nos problemas decorrentes da utilização de drogas, para que o dependente não redirecione a dependência de drogas para uma dependência do terapeuta (SCHULTZ, 2002, p.325).

3.5.2 Terapia familiar

A terapia centrada na família compartilha dos mesmos pressupostos da terapia centrada na pessoa, ou seja, o foco do terapeuta não está no problema, mas, nas pessoas e, deste modo, o trabalho é desenvolvido em dois momentos específicos. Num primeiro momento, o terapeuta direciona seu trabalho para o cliente que lhe procura e, portanto, a atuação é centrada na pessoa. Num segundo momento, é realizada uma reflexão para o desenvolvimento de uma intervenção adequada ao contexto antropológico. A partir disso, podemos entender a família como um “sistema multidimensional de relações sociais interdependentes em que estas diferentes dimensões se encontram presentes em grau e correlações variáveis” (HIPÓLITO, 2010, p.76).

A pessoa nesta perspectiva é ao mesmo tempo, o centro e um dos pólos de cada uma das relações familiares. E por isso, o terapeuta deve se utilizar da resposta de compreensão empática para refletir em todo o sistema familiar, as vivências expressas de cada pessoa envolvida no processo terapêutico. Desse modo, é possível que cada membro da família consiga alcançar uma visão mais adequada de si e em si, ou seja, que cada um se observe interna e externamente, e que a partir dessa visão, seja possível um crescimento mais adequado ou haja um enriquecimento familiar por meio das potencialidades individuais (HIPÓLITO, 2010, p 76).

A terapia familiar sistêmica é originária da década de cinquenta e tem como alicerce, aspectos da biologia, química, cibernética, teoria sistêmica e outras. O início das considerações sobre a terapia familiar surge, quando estudiosos começaram a questionar a perspectiva conhecida, até então, sobre a doença mental, pois, acreditava-se que a psicopatologia se desenvolve e é mantida apenas pelo indivíduo e esta interpretação não se sustentava mais, devido à observação das influências do contexto na construção do indivíduo (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

De modo geral, as famílias são percebidas como grupos de pessoas com laços consanguíneos, com intenções de procriação. Na perspectiva sistêmica, as famílias simbolizam sistemas que se relacionam com o meio e/ou com outros sistemas semelhantes (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

A terapia é centrada no sistema e não em cada indivíduo que compõe a família. Por isso, acredita-se ser impossível entender o funcionamento de uma família conhecendo apenas uma de suas partes. Portanto, podem ser desenvolvidas várias técnicas para a ampliação da compreensão das relações familiares, o que favorece na reorganização do grupo (FERES-CARNEIRO, 1994, p.57-58)

 A facilitação terapêutica deve ser desenvolvida de modo que o discurso de cada pessoa seja integrado ao discurso da família, a fim de que o indivíduo não abandone suas perspectivas pessoais e seja respeitado com todas as suas idiossincrasias, e, assim, sinta-se restituído ao grupo familiar identificando o seu valor em relação ao mesmo (HIPÓLITO, 2010, p 78).

O papel do terapeuta é de vivenciar o quadro apresentado pela família e a partir disso comunicar sua compreensão, de modo sensível, respeitando a expressão da vivência de cada um, juntamente com as projeções, mudanças e significados atribuídos por cada pessoa do grupo (HIPÓLITO, 2010, p 79).

Além disso, a família apresenta uma especificidade terapêutica: cada membro, estando presente ou não no momento terapêutico, tem um lugar especial e influencia no desenvolvimento das potencialidades do grupo e, por isso, o terapeuta precisa considerar o indivíduo ausente e atribuir-lhe o lugar conferido pelas pessoas presentes, contando com estas atribuições durante todo o período de acompanhamento (HIPÓLITO, 2010, p 79).

A proposta é auxiliar a família a alcançar o enriquecimento proporcionado pela consciência de que o tema da colusão não afasta ou divide a família, mas, serve de oportunidade para o desenvolvimento da flexibilidade e equilíbrio (FERES-CARNEIRO, 1994, p.54).

Considerações Finais

Durante o desenvolvimento desse trabalho ficou evidente a complexidade das situações que envolvem o dependente químico, bem como as dificuldades encontradas para propiciar um tratamento que seja apropriado.

Tal compreensão fica cada vez mais imprecisa devido ao fato de que a modernidade, marcada por relações momentâneas e utilitárias, influencia diretamente na fragmentação de conceitos e estruturas sociais.

Essa despreocupação para com o próximo gera uma busca individual que sofre influências do coletivo, pois, enquanto ser social, o indivíduo participa se envolve e responde de modo relacional às estruturas sociais em que está inserido, logo, o pensamento vigente na modernidade faz parte da formação do caráter do indivíduo. Por isso, o ser humano não se preocupa em como buscar aquilo de que necessita, de modo que, se entender que é preciso, abre mão de limites, ética e moral, para alcançar seu desejo.

É a partir do rompimento com esses limites, que o indivíduo geralmente, encontra, conhece, experimenta e se entrega à droga. Desse modo, passa a ser dominado por estímulos e sensações produzidas pelas substâncias químicas utilizadas, e, gradativamente, perde qualidade de vida em todos os aspectos, conforme os efeitos da substância escolhida pelo usuário. Esse abandono de si pode conduzi-lo a uma posição indesejável, pois, em muitos casos o usuário, adquire má aparência, passa a ter cheiro desagradável, modifica a maneira de conversar, torna-se inconveniente, e, por fim, pode chegar ao rompimento com as leis, numa tentativa de manter seu vício.

Pode-se afirmar que um acompanhamento compromissado, individual e relacional, possibilita ao dependente químico a organização pessoal necessária para um desenvolvimento integralizado.

É perceptível que a característica da dependência química, enquanto situação que considera a sujeição do indivíduo a algo ou alguém, bem como a necessidade humana de apoio para a organização temporal, social e psicológica – que deve ser desenvolvida em si, mas, a partir do outro – pode ser trabalhada em um processo terapêutico que leva em conta as necessidades intrafamiliares, a partir da compreensão empática. Isto porque, o terapeuta facilita ao grupo familiar, a interpretação das diferentes vivências e das necessidades de cada um.

Em relação aos referenciais que podem influenciar o indivíduo, podemos afirmar que, o enriquecimento familiar proporcionado pela aceitação dos papeis familiares e do valor de cada pessoa, pode promover condições para que cada membro do grupo torne-se referencial um para o outro, e assim, não haja mais a necessidade de busca de referenciais, mas, a potencialidade de ser referencial.

A compreensão de que as dificuldades devem ser aceitas e trabalhadas pela família – mesmo que num primeiro momento uma única pessoa busque o terapeuta e, posteriormente, o grupo se permita ser auxiliado – funciona como ferramenta de apoio contra a ideia de buscar soluções rápidas para os problemas em comprimidos ou ações emergenciais – ação esta que funciona como fator de risco para o desenvolvimento da dependência e codependência química.

A aplicação do MINI utilizada neste trabalho contribui para que os esforços no sentido de auxilio do tratamento dos dependentes tenham uma base mais concreta, a partir de interpretações gráficas sobre a direção e velocidade com que a dependência química está se desenvolvendo no país.

Além disso, o resultado da aplicação do MINI confirma argumentos apresentados por pesquisadores da área, sobre as características dos usuários e suas relações sócio familiares e isso confirma a necessidade de um apoio terapêutico familiar e não individual. A atenção voltada para com a família possibilita que o grupo desenvolva um ambiente equilibrado entre as múltiplas relações intrafamiliares e diminui o risco de que algum dos integrantes do grupo torne-se dependente químico ou mantenha-se em uso de substâncias químicas, como tentativa de refugiar-se de atritos e colusões.

Assim, a avaliação do genograma e a observância de possíveis farmacologias utilizadas em meio ao processo terapêutico devem ser observadas com cuidado, para que o terapeuta não deixe de perceber o quanto as identificações de família, realizadas por meio do genograma, ou os efeitos dos medicamentos, que por ventura o dependente esteja utilizando, interfiram nas ações do aconselhando, seja positivamente ou negativamente, de modo a afetar as intervenções do terapeuta.

É possível perceber o quanto os instrumentos de avaliação psicológica podem ser úteis para o desenvolvimento de uma intervenção eficaz, a partir da visão mais adequada do problema característico do indivíduo, grupo ou patologia específica.

Mas é importante lembrar que, para que a entrevista psicológica tenha resultados adequados, não basta à compreensão ou domínio teórico de utilização deste instrumento de avaliação. É imprescindível que o profissional tenha adquirido sensibilidade adequada para observação do paciente, seja através de estágio, supervisão, laboratório ou oficinas.

É necessário desenvolver sensibilidade e empatia, saber lidar com a própria subjetividade e com a subjetividade do outro (entrevistando). O entrevistador deve ser capaz de adentrar esse universo, sem juízo de valor, sem preconceito, para que assim possa estar com o outro, conhecer, não temer, se perder e se achar e, finalmente, voltar à realidade do contexto. E assim construir suas observações, ponderações e considerações, de modo mais neutro possível.

Assim, é possível perceber a presença de comorbidades psiquiátricas associadas à dependência de substâncias psicoativas e identificar a frequência em que ocorrem, bem como alguns dos sintomas que aparecem associados de forma especial a estas patologias, como sintomas de ansiedade e depressão.

A presença de transtornos psiquiátricos torna-se um dos fatores que compromete efeito do tratamento com pacientes dependentes químicos. Por isso, o diagnóstico apropriado desses transtornos associados pode proporcionar intervenções terapêuticas mais adequadas na interrupção da conduta de consumo de substâncias, amortecendo a ocorrência de recaídas e proporcionando melhora no funcionamento social e familiar.

Em relação às perspectivas religiosas que atuam como ferramenta de ajuda, notamos que alguns casos, a ligação entre as linhas religiosas e psicológicas de orientação ficam evidentes – como no caso da psicanálise e da cura do passado, onde se percebe a influência da psicanálise na vida do fundador da cura do passado. Em outros, essa ligação não fica tão clara, porém, pode ser percebido ante a semelhança no desenvolvimento de técnicas e mesmo na maneira como compreende o problema e pessoa ou cliente, como no caso do pessoalismo e o aconselhamento cristão.

A semelhança ocorre até mesmo no sentido em que a orientação é desenvolvida, ou seja, diretiva ou não, como no caso do behaviorismo e do aconselhamento bíblico, ambos diretivos, determinantes.

Diante disso, podemos afirmar que as linhas de aconselhamento e orientação relacionadas, podem ser apresentadas como estruturas ou processos da relação de ajuda, que, independente de serem psicologias, ou simplesmente terem influências psicológicas, atuam em direção à necessidade humana de apoio e orientação.

Pode-se dizer que a abordagem centrada na pessoa é uma ferramenta particularmente adequada para o cuidado com o dependente químico, porque considera a questão de maior significado para o indivíduo fragilizado e suscetível ao abuso do uso de drogas: a autoestima construída a partir do autoconhecimento, proporcionado pela compreensão empática do terapeuta.

A postura desenvolvida por Rogers, para auxiliar o ser humano em seu crescimento e enriquecimento, a partir das potencialidades intrínsecas, favorece para que o indivíduo se resolva sem necessitar de referenciais externos ou de condições sociais específicas, mas a partir daquilo que já existe dentro do ser e que, no caso do dependente químico, havia sido fragilizado ou momentaneamente impedido de se desenvolver.

Um diferencial desta abordagem está no fato de que, enquanto a mudança ocasionada por uma motivação externa pode ser revertida de acordo com futuras circunstâncias adversas, as alterações de comportamento, geradas por questões internas de auto compreensão, não ficam sujeitas as intempéries sociais ou crises de ordens familiares.

A segurança advinda dessa nova postura, além de proporcionar capacidade para superar adversidades, gera a motivação necessária para continuar se desenvolvendo e se enriquecendo por meio de novas compreensões, geradas a partir de novas vivências, formando um círculo eterno de compreensão e crescimento.

E esse movimento constante de vivência que leva à compreensão e compreensão que leva à vivência, forma uma estrutura de segurança para que o indivíduo não tenha necessidade futura de buscar refúgio em substâncias que produzem alívio passageiro das sensações sem, contudo, resolver o verdadeiro problema.

Logo, é perceptível que a abordagem centrada na pessoa realmente pode alcançar resultados extremamente positivos no acompanhamento para com dependentes e codependentes químicos, tornando-se um possível caminho de apoio. Seja unicamente pelos trilhos da psicologia, seja acompanhada pelo aconselhamento cristão.

Este trabalho pretende observar a estrutura da dependência química, a configuração da atuação psicológica de ajuda ao dependente químico, bem como a possibilidade da contribuição religiosa, junto a abordagens psicológicas de apoio e orientação ao dependente químico e codependentes. Para isso apresentamos as características da pessoa enquanto ser humano e suas fragilidades. Fazemos um breve comentário acerca da pessoa enquanto Ser Dependente e pontuações sobre o processo de desenvolvimento e instalação da dependência química. Realizamos pontuações sobre a dependência química no que diz respeito a características socioculturais e familiares, além de fatores de risco para o abuso do uso de substâncias químicas. Apresentamos um breve histórico do desenvolvimento e validade do instrumento de avaliação psicológica, MINI, e da entrevista psicológica, acompanhado pelos teóricos mais reconhecidos nesse processo, que auxiliam no diagnóstico e orientação do processo terapêutico. Além da apresentação de características e especificidades de algumas abordagens psicológicas. Devido ao fato do tratamento a dependentes químicos no Brasil (por meio de comunidades terapêuticas) apresentar quase sempre uma perspectiva religiosa, pontuou-se sobre algumas linhas de aconselhamento psicológico, relacionando-os com processos de orientação cristã, na intenção de reconhecer as semelhanças básicas destes processos de ajuda, por meio da apresentação de idéias mais conhecidas da psicanálise, do behaviorismo, da logoterapia e do pessoalismo (ACP), seguidas da apresentação das orientações cristãs de cura do passado, aconselhamento pastoral, aconselhamento bíblico e aconselhamento cristão. Após a breve apresentação de cada orientação relacionada, são realizadas considerações sobre algumas das semelhanças encontradas. Por fim, apresentamos um breve relato sobre o processo terapêutico centrado na família e a compreensão sistêmica do processo terapêutico, bem como seus aspectos e alvos mais conhecidos. E seguimos com considerações sobre a funcionalidade das perspectivas terapêuticas centradas na família, quando relacionadas especificamente no trato de famílias compostas por dependentes químicos.

Palavras chave: Psicologia, Religião, Dependência Química.

Introdução

A proposta deste trabalho é discutir aspectos relacionados à compreensão e estruturação do cuidado ao dependente químico. Pode-se afirmar que o problema referente a este cuidado está relacionado a uma questão básica: “A psicologia pode considerar a religião como contribuinte no processo de recuperação de dependentes químicos?” Acredita-se que a metodologia mais adequada para desenvolver essa análise é a comparação entre algumas das orientações religiosas e psicológicas mais reconhecidas, na tentativa de entender as semelhanças dos processos.

Esse questionamento ocorre devido ao fato de que a dependência química é uma realidade conflituosa da modernidade tardia [01], não apenas em grupos específicos, mas, em toda a sociedade, inclusive na igreja. Assim, por vezes, líderes religiosos acabam por intervir em meio ao processo de apoio a dependentes químicos, através de casas de recuperação mantidas por igrejas.

Por isso, é comum perceber alterações religiosas intensas em dependentes internados em comunidades terapêuticas. Essas alterações merecem atenção especial, porque, o dependente químico, em tratamento, apresenta dificuldades com a ansiedade, depressão, ondas de alegria ou tristeza repentina, sensibilidade às palavras, conflitos de interesses, insegurança, desconfiança, dentre outras situações concernentes, a transição de um mundo ilusório, gerado gradativamente pelas sensações produzidas por drogas a uma realidade de fatos e obstáculos que devem ser enfrentados e vencidos de maneira responsável, ética e racional. O indivíduo parece apresentar dificuldades em manter sua estabilidade em múltiplas situações adversas, ou diante de algum tipo de pressão com a qual não esteja acostumado e, como tentativa momentânea de aliviar a tensão, recorre a drogas que produzam bem estar ou alívio. Lidar com o dependente e ajudá-lo a resolver seus problemas de adequação e sentido para a vida não é tarefa fácil e percebe-se que muitas comunidades eclesiásticas não sabem como trabalhar com a dependência.

Essa pesquisa é justificada por um fato específico. Não é difícil perceber que em alguns grupos religiosos o dependente químico é visto como alguém possesso, que precisa apenas afirmar-se convertido à determinada religião para ser liberto do mal e em consequência ficar livre das drogas.

Muitos fazem esta declaração de fé enquanto experienciadores de um processo catártico em meio a um culto religioso. Essa catarse proporciona prazer e, quando o período de prazer passa e o indivíduo se depara com as dificuldades naturais, sem um acompanhamento ou apoio, ele volta ao uso das drogas com um agravante, a cobrança da comunidade religiosa. O usuário passa a ser visto como alguém que ainda não foi liberto e precisa de oração, ou como uma pessoa que despreza o poder de divino manifestado sobre ela, no entanto, essa maneira de perceber o usuário, não apenas é errada, mas, prejudicial ao verdadeiro processo de ajuda e crescimento que esta pessoa necessita.

Considerando os fatos citados, pode-se dizer que há uma necessidade de um trabalho contínuo, um acompanhamento que produza uma compreensão real da dependência química e das limitações próprias, bem como da busca por crescimento pessoal e autovalorização, identificando e tratando as especificidades humanas de relacionamentos.

São objetivos desse trabalho: pontuar sobre as principais causas para a dependência, identificar as características dos dependentes químicos, analisar os tipos, as reações e os prováveis níveis de dependência gerados por substâncias químicas e reiterar a necessidade de um acompanhamento psicológico que se interesse pelo aconselhamento qualitativo no trato do dependente químico juntamente com possíveis processos de ajuda religioso oriundos de ações psicológicas.

Na tentativa de alcançar o objetivo citado, foi realizada uma pesquisa bibliográfica, acrescidas de consulta a documentos virtuais, além da utilização de um genograma organizado a partir da família de um dependente químico [02].

O trabalho é composto por um texto organizado em três capítulos, além da introdução e conclusão. Inicialmente são destacadas características acerca da dependência. Nota-se questões referentes às necessidades básicas do ser humano, quanto ao relacionamento com autoridade, busca de orientação e prazer como resposta à orientação, das quais o indivíduo é naturalmente dependente. Esses fatores podem estar relacionados à dinâmica de vida na modernidade, portanto, a mesma é apontada como um dos fatores de risco para o abuso do uso de drogas. A atualidade é marcada por inconstâncias e múltiplas compreensões de certo ou errado, o que dificulta o estabelecimento de padrões, limites e valores socioculturais e espirituais, e isso gera no indivíduo uma situação de fragilidade e insegurança que o conduz à possibilidade de se tornar usuário de drogas e provável dependente químico.

No primeiro capítulo o dependente é apresentado como ser humano fragilizado em questões psicológicas, sociais, orgânicas e espirituais, fragilidade essa, que conduz a ações de fuga da realidade e de busca de sentido para viver. Nessa fuga da realidade ou busca de sentido, destaca-se a representatividade das drogas na vida do usuário. Contudo, os efeitos de diversas drogas contribuem para que esse indivíduo permaneça preso num círculo vicioso que gira em torno da ausência e busca de prazer e sentido para vida, de modo que essa fuga e/ou busca nunca terminam.

O segundo capítulo destaca as características da avaliação psicológica em meio à dependência química. Isto, a partir da apresentação do instrumento de avaliação MINI – que foi validado no Brasil e é largamente utilizado para mensurar gravidade e intensidade do abuso do uso de substâncias psicoativas – a partir de uma aplicação realizada por Silva. Além disso, a intervenção psicológica é apresenta por meio da informação sobre o processo da entrevista psicológica, acompanhado por orientações de possíveis problemas para a execução do procedimento e as diferenças do processo em psicoterapias breves.

Para concluir, foram trabalhadas diferentes abordagens psicológicas de acompanhamento, seguidas por comparações para com as perspectivas religiosas de orientação mais conhecidas, tendo em vista o aspecto terapêutico dos sistemas. O trabalho é fechado com a explanação mais detalhada sobre o procedimento psicológico humanista de Carl Rogers, denominado ACP (Abordagem Centrada na Pessoa), que considera todas as vivências – inclusive as vivências religiosas – como ferramenta essencial para o desenvolvimento do chamado empoderamento de si. Estado necessário para o crescimento e cura do indivíduo.

A relevância da pesquisa está relacionada às proporções alcançadas pelo abuso do uso de drogas, que reflete diretamente no desenvolvimento e manutenção da situação de dependência química do ser humano na atualidade, e, do aumento numérico desordenado de comunidades terapêuticas religiosas, que desenvolvem trabalhos variados, com resultados incertos; o que pode proporcionar uma situação agravante quanto à identificação adequada da expansão e controle da doença no Brasil.

1 Dependência Química

Ao considerarmos a modernidade como período marcado pela carência de referenciais, o que gera instabilidade, ausência de rumo e de princípios de autoridade para o indivíduo, podemos afirmar que o ser humano é afetado pelas características desse tempo histórico, tanto emocionalmente quanto na maneira de agir, compreender e valorizar as pessoas, situações e coisas (SAFRA, 2005, p.7).

Tal mudança no modo de agir se deve, segundo Frankl, ao vazio existencial que também é proveniente da atualidade e sua falta de referenciais (FRANKL, 1987, p.123). O que dá sentido a vida é entendê-la enquanto missão individual, ou seja, cada pessoa deve considerar que existe um sentido para a vida do indivíduo e não um sentido para a vida de modo geral (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.19).

A busca de sentido específico para a vida do indivíduo o conduz a compreensão de um trabalho pessoal a ser executado, e este trabalho, tarefa ou missão, não apenas traz sentido a vida, mas serve de estímulo para que o ser humano vença as dificuldades advindas dessa tarefa (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.19).

Frankl afirma ainda que, na busca pela conclusão dessa missão específica, o sofrimento é quase inevitável, mas, diante do sofrimento, o ser humano tem a oportunidade de se transformar naquilo que quiser, e que tem, em si, potencial para ser bom ou ruim, precisando apenas escolher no que quer se tornar. O indivíduo apresenta uma perspectiva de autoridade ou poder sobre si mesmo, que atua a partir de valores criadores, vivenciais, e de atitudes (FRANKL, 1987, p.149).

Os valores são criadores quando se referem a habilidades criativas, intelectuais ou artísticas, são vivenciais, porque dizem respeito à relação com a natureza, com o outro e com Deus, e os valores de atitudes, por sua vez, referem-se à decisão pela ação adequada ante um sofrimento que não se pode evitar (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.20).

Além disso, percebe-se que o sofrimento apresenta um aspecto positivo referente à avaliação ou descoberta sobre o sentido da vida, pois, “a preocupação ou mesmo o desespero da pessoa sobre se a sua vida vale a pena ser vivida é uma angústia existencial” (FRANKL, 1987, p.120) e essa angústia conduz o indivíduo à busca de uma razão pela qual viver, ou seja, quem tem sentido para viver, encontra forças para suportar quase toda e qualquer situação ou adversidade, de modo que o ser humano é capaz de viver e até morrer por seus ideais e valores (FRANKL, 1987, p.117).

Notamos que, no sofrimento, o indivíduo tem também a oportunidade de descobrir ou confirmar sua missão específica e colocá-la em prática por meio de habilidades criativas, experiências de vida e atitudes decisivas (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.20). Quando isso não ocorre, pode-se dizer que a pessoa desistiu de encontrar o sentido de sua vida, ou se deixou levar pelo racionalismo, cientificismo e ativismo moderno, que não oferecem tempo ou condições para que o ser humano trabalhe a partir do sentido de suas atividades (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p. 26-27).

Libânio amplia a posição de Frankl, quando afirma que só é possível encontrar sentido para vida inserido em um grupo ou contexto social que estabeleça condutas, mesmo que estas sejam questionadas, pois, limites estabelecidos norteiam decisões e auxiliam na formação de identidade biológica, familiar, afetiva e social (LIBÂNIO, 2004, p.22). Ou seja, é a partir do meio social que o indivíduo desenvolve e experimenta conflitos, e é nesse contexto que ele deve aprender a vencê-los.

Assim, podemos entender que o usuário de drogas vive uma situação de vazio existencial, que o induz à busca por um sentido de vida que lhe dê forças para suportar as adversidades.

Essa busca de sentido possibilita que o ser humano encontre e experimente substâncias químicas, que, inicialmente, respondem à busca desorientada por prazer e segurança, porém, posteriormente fragilizam-no emocionalmente, tornando-o mais suscetível à dependência química.

1.1 Pessoa enquanto SER dependente químico

Carmo afirma que alguns dos fatores de risco para o abuso do uso de drogas, segundo a Organização Mundial de Saúde, são a falta de informação acerca dos efeitos das drogas, enfermidades gerais, insatisfação com a vida, personalidade fraca e fácil acesso às drogas (CARMO, 2000, p. 143).

A relação de dependência enquanto necessidade de prazer inerente ao ser humano, às influências da modernidade para o desenvolvimento da dependência química, devido à crise de identidade, de sentido e valores existenciais, e a ausência de informação ou educação adequadas acerca do uso, abuso e efeitos gerados pelas drogas, favorece a formação de um indivíduo propício ao uso indiscriminado de substâncias, das quais, muitas vezes, não tem controle. O uso dessas substâncias gera dificuldades no desenvolvimento das relações, além de danos fisiológicos no indivíduo.

Giddens afirma que, geralmente, as pessoas se tornam dependentes químicos, devido à ausência de um acompanhamento dentro de padrões de desenvolvimento natural do ser humano, em que um aprende com o outro a aceitar o mundo real como real e adquirir segurança a partir da confiança estabelecida nas primeiras relações humanas (GIDDENS apud BESSA, 2005, p.44).

Afirma ainda que, as pessoas sofrem influências do meio social em que estão inseridas, e essas influências refletem em suas questões relacionais, sejam no trato da segurança ou insegurança, submissão ou prepotência, satisfação ou insatisfação. E isso, porque a modernidade foge a este padrão de desenvolvimento recusando o relacionamento interpessoal, e, com isso produzem-se a exclusão e a marginalização (GIDDENS apud BESSA, 2005, p.44).

A marginalização deteriora a estrutura do ser humano, minimiza as possibilidades de que o indivíduo adquira bons referenciais, torna-o acessível ao conhecimento, administração e uso da droga e amplia a necessidade de busca de prazer devido à sensação de abandono causada pela marginalidade (SCHMIDT, 1976, p.25).

No que diz respeito ao ser humano enquanto necessitado de referenciais sociais, a atualidade apresenta duas características negativas: a carência de bons referenciais e o marketingda droga.

Sobre os referenciais, podemos afirmar que há uma desvalorização dos relacionamentos interpessoais e das preocupações com limites e ordem, além de um esforço em busca da liberdade e de relações convenientes e utilitaristas, logo, não há uma preocupação ou desejo no indivíduo de se tornar referencial ou exemplo para o outro, e sim, a expectativa de que esteoutro seja referencial para o indivíduo (ROUANET, 1987, p.233, 236).

Quanto ao marketing da droga, importa ressaltar que as propagandas, sejam a favor ou contra o uso indiscriminado de drogas, aumentam a curiosidade dos que veem e isto funciona como facilitador para que mais pessoas procurem experimentar drogas tornando-se possíveis dependentes químicos (LIBÂNIO, 2004, p.159).

Os indivíduos que se tornam usuários de drogas são, geralmente, pessoas que não conseguem administrar bem circunstâncias de conflito, pressão ou rejeição naturais no processo de ascensão e reconhecimento social. São pessoas que não têm ou não sabem como se manter diante dessas dificuldades e por isso, recorrem a substâncias que lhes proporcionem um período de estabilidade e segurança, que, mesmo sendo ilusória, causa a sensação de alívio que o usuário deseja (LEON, 2003, p. 39).

1.2 Característica dependente

No que diz respeito à dependência química, podemos falar que as perspectivas alcançam várias interpretações. Uma delas está associada à situação de sujeição de uma pessoa em relação à outra, de modo que o dependente ocupe a postura de submissão ou se sinta parte de algo, de alguém ou de uma situação (AULETE, 1964, p. 1090).

Uma segunda visão considera a característica natural de dependência do ser humano, a partir da necessidade de organização temporal, espacial, psicológica e também de personalidade, que é inerente ao indivíduo desde a mais tenra idade, e que, só pode ser constituída a partir de referenciais externos, ou seja, a presença de alguém que se torna referencial junto a esse processo (SAFRA, 2005, p. 7).

Em terceiro lugar, existem afirmativas a favor da ideia de que a modernidade tardia atua como motivador de uma conduta que contribui para com o surgimento e desenvolvimento da dependência química. Conforme Rouanet, a atração ou sedução das coisas sobre as pessoas é uma marca da modernidade que influencia no modo de agir e na construção ou desconstrução de valores do mesmo (ROUANET, 1987, p. 233).

A psicóloga Daniela Bessa reforça a compreensão de Rouanet e afirma que o ser humano deseja conquistar status e reconhecimento, seja social e/ou familiar, através da aquisição de bens, mesmo que por meio disso, aconteçam perdas significativas no desenvolvimento de relações profundas e verdadeiras, seja com as pessoas ou mesmo com Deus (BESSA, 2002, p. 31).

Portanto, podemos compreender a dependência química como relação de sujeição, bem como de referência e de sedução. O dependente é a pessoa que se submete a qualquer coisa que lhe pareça importante ou que lhe cause medo, e, a partir disso, passa a seguir os exemplos ou as referências daquilo que se tornou o alvo das expectativas do indivíduo, de modo que este pode se deixar conduzir pela sensação de sedução de tudo o que lhe afeta os sentidos e as emoções (MOREIRA JR, 2011, p.78).

Logo, podemos entender que a dependência química é desenvolvida de acordo com o lugar que as drogas ocupam na vida das pessoas. Assim, o indivíduo pode: se sujeitar à dominação física gerada pela substância; adquirir comportamentos comuns às pessoas que se tornaram referenciais – como o grupo de amigos; e até mesmo, se abandonar ante a sedução causada pelas ilusões proporcionadas por meio das drogas.

1.3 Fatores de risco

É perceptível que algumas situações favorecem para o desenvolvimento e manutenção de situações de dependência química. Alguns dos fatores que são encontrados nos âmbitos sociais e familiares, são características comuns à modernidade.

Benedicto afirma que existe na modernidade um vício pela busca de soluções rápidas e que uma das provas disso é a utilização excessiva de medicamentos, mesmo sem orientação médica. As pessoas de modo geral, acreditam que as drogas – lícitas – resolvem praticamente tudo: da mais simples dor de cabeça, até dificuldades para com estresse e depressão. Esta crença auxilia na modificação da conduta do indivíduo ante as situações de crise e dor, de modo que, este, passa a entender que pode encontrar respostas para seus problemas em comprimidos. Deste modo, acontece a familiarização e facilidade para administração de drogas gerais, o que favorece para que o indivíduo desenvolva um caráter vicioso e possa vir a se tornar um dependente químico, porque os remédios passam a ser vistos como mais fortes que as pessoas (BENEDICTO, 2007, p. 17).

Um agravante pode ser encontrado ao considerar a visão de Nouwen, pois, este afirma que, a sociedade não tem representante ou líderes de modo geral, que sejam exemplos. Isso dificulta a construção social e o crescimento da individualidade constituída a partir de um referencial positivo. Assim, cada pessoa tende a ser seu próprio referencial tornando-se interiorizada e vazia. Ante a isso, os referenciais de grupo ganham força, e, portanto, a dificuldade de exemplos gerais pode se tornar facilitador para que indivíduo comece a seguir os padrões de comportamento do grupo onde estiver inserido e a utilização de drogas pode ser um destes hábitos (NOUWEN apud BESSA, 2005, p. 43).

A perspectiva do prazer também está relacionada como fator de risco. Conforme Freud, o desejo natural de busca do prazer, pode ser motivador para a utilização de drogas. Isso, porque Freud considera a relação funcional da masturbação com a utilização de drogas, ao entender que ambas as situações de prazer são desenvolvidas e manipuladas pelo usuário, em busca de satisfação pessoal e intensa, sem preocupação para com o outro (FREUD apud MARZANO, 2007).

O psiquiatra Eduardo Kalina reforça esta perspectiva quando afirma que o erotismo oral é constante e intenso, durante toda a vida do ser humano e que está particularmente presente nos casos de drogadicção, mesmo quando a substância não é ingerida pela boca. Assim, é mais fácil entender porque algumas pessoas sentem-se seduzidas ao uso contínuo de drogas, mesmo que o prazer seja momentâneo e ilusório (KALINA, 1983, p. 29).

Além disso, percebemos que alguns fatores de risco estão diretamente relacionados às perspectivas familiares (LEITE, 2005, p.40). Dentre as quais, podemos destacar: o nível do envolvimento afetivo dos pais em relação aos filhos; a estrutura hierárquica constituída no âmbito familiar; e o contexto doméstico, ou seja, o fato de os pais fazerem, ou não, uso abusivo de substâncias químicas (HUTZ, 2007, p. 174, 175).

Isto é importante porque quando se fala em violência familiar, por mais causas que possam existir, geralmente podemos dividir em duas grandes áreas: as questões intrafamiliares, ou seja, os relacionamentos de modo geral; e os sociais, dentre os quais se encontram o abuso do uso de substâncias químicas, comportamento considerado comum atualmente (ZAMPIERI, 2004, p.65).

1.4 Farmacologia da dependência

Drogas são substâncias naturais ou sintéticas, que agem diretamente no organismo, modificando suas funções e proporcionando prazer momentâneo (Cf. BENEDICTO, 2007. p. 17).

Considerando que a variedade de drogas de que se têm informações é muito ampla, serão destacados alguns tipos mais comuns, organizados por classes. As drogas geralmente são classificadas como: narcóticos, depressores do sistema nervoso central, estimulantes e alucinógenos.

Os narcóticos, também chamados de entorpecentes, são muito usados na medicina devido ao caráter anestésico de seu princípio ativo. Nessa classificação destacam-se: a morfina, a codeína, a meperidina, e metadona. O ópio e a heroína fazem parte da família dos narcóticos, porém, não são utilizados com fins medicinais (Cf. SANCHEZ, 1982).

Os depressores do sistema nervoso central apresentam sintomas semelhantes à embriaguez. Dentre eles estão: os barbitúricos, remédios mais conhecidos como Gardenal, Vagostencil e Desbutal; a metaqualona, também conhecida como Mesqualon ou Mandrix; tranquilizantes menores, vendidos como Valium, Diempax, Apraz, Frontal, Psicossedim, Rivoltril, Dorminid, Lexotan, Somalium e antidistônicos; solventes, como aguarrás e colas diversas, vendidas em casas de construção; éter e clorofórmio, usado para amenizar as dores de parto até o início do século XX (Cf. MACHADO, 2004).

Dentre os estimulantes, destacam-se: a cocaína, utilizada na oftalmologia no século XIX e com finalidade terapêutica no século XX, tornando-se proibida nos EUA em 1914 (Cf. MACHADO, 2004); o crack, uma forma impura da cocaína; a efedrina, mais conhecida como Rinosteg, descongestionante nasal; anfetaminas, Hipofagin e Moderex, remédios comumente usados por anoréxicos, comprados como Pervitin, Dexedrina e Desbutal que ajudam a controlar o apetite (Cf. MURAD, 1994, p. 59).

Os alucinógenos também são chamados de psicodislépticos. Os mais conhecidos são: LSD, Mescalina, Trixipheidyl, conhecido como Artane e Akineton, que pode ser utilizado contra mal de Parkinson – para PRZEDKORSKI (2002, p. 596), os efeitos do mal de Parkinson podem ser reduzidos com o uso de depressores – e a cannabis sativa, chamada de “alucinógeno menor”, conhecida como maconha ou marijuana (Cf. MACHADO, 2004).

O uso de cada uma destas substâncias altera o comportamento e o funcionamento do corpo do usuário de modo diferente, dependendo do tipo de droga utilizada.

Inicialmente, os efeitos não são muito aparentes, mas, com o uso contínuo, o indivíduo passa a apresentar sinais sociais, emocionais e orgânicos, que indicam não apenas o uso de drogas, mas instalação da dependência, além da necessidade de um cuidado específico.

As questões orgânicas ou fisiológicas são mais perceptíveis diante do uso contínuo de drogas, mesmo que já existam a partir da primeira dose administrada. Cada tipo de substância apresenta um risco específico, por isso as questões serão abordadas a partir das classes já apresentadas, com um destaque para os efeitos dos inalantes.

As pessoas sob a ação dos narcóticos apresentam uma contração acentuada da pupila que pode ficar tão pequena quanto à cabeça de um alfinete. Pode ocorrer paresia – diferente de paralisia, o termo paresia indica uma parada momentânea de órgãos ou tecidos (Cf. ROWLAND, 2002, p. 34) – estomacal e sensação de estômago cheio, como se não tivesse condição de realizar a digestão. Os intestinos também ficam sujeitos à paresia e, em consequência, a pessoa que abusa destas substâncias geralmente apresenta forte prisão de ventre. Com base neste efeito é que os opiáceos são utilizados para combater as diarreias (DEPARTAMENTO DE PSICOBIOLOGIA, 2007).

Os depressores aumentam as chances de adquirir lesão cerebral, parkinsonismo, cegueira, disfunção renal, disfunção do fígado e insuficiência respiratória, além de promoverem alterações psicológicas (Cf. MACHADO, 2004).

De modo geral, os estimulantes podem causar psicoses, alucinações, impotência, doenças no pulmão, estômago, bexiga, alterações hormonais, pressão alta e até morte súbita (Cf. MACHADO, 2004).

Os alucinógenos têm maior possibilidade de levar à perda de memória, dificuldade de capacidade produtiva -baixo tônus vital, desânimo, cansaço, etc. -, alterações de ordem motora, aumento do risco de infecções, problemas de infertilidade e potência, maiores possibilidades de câncer e aborto, além de cansaço e alterações psicológicas que podem levar ao pânico e até suicídio (Cf. LEMOS, 2007, p. 22).

No caso da maconha, há alterações da percepção temporal e da memória recente, como também aumento do apetite e diminuição do desempenho para tarefas do cotidiano (Cf. JAFFE, 1981, p. 71-72).

Os inalantes produzem reações orgânicas típicas como tosse, irritação no nariz e nos olhos, náusea, vômito, diarréia, dor no peito, dor nas juntas, visão dupla, sensibilidade à luz e até perda de apetite (Cf. JAFFE, 1981, p. 51).

Parece estranho que, diante de reações orgânicas tão agressivas, uma pessoa possa se tornar um dependente químico. Porém, deve-se destacar que essas reações ocorrem gradativamente, de modo que o usuário experimente inicialmente a euforia, relaxamento e prazer que as drogas proporcionam (Cf. VIANA, 2004).

1.5 Reações e níveis de dependência

Os efeitos de cada uma das substâncias químicas utilizadas pelo dependente podem variar de caso a caso, de acordo com a saúde do indivíduo, o quanto ele utiliza, o tipo de droga escolhida, como é administrada: se pela boca, se inalada ou injetada, e do ambiente sociocultural em que ele se encontra. Logo, os efeitos aqui apresentados são prováveis, e como realizado anteriormente, serão apresentados divididos por classes.

Os narcóticos, de modo geral, causam um nível alto de dependência psíquica e física. Considerando a atuação fisiológica dos narcóticos e observando a conduta de diversos usuários, nota-se que não há um comportamento aparentemente agressivo do indivíduo que utiliza tais substâncias, desde que este não seja provocado ou induzido (DEPARTAMENTO DE PSICOBIOLOGIA, 2007). Geralmente os derivados do ópio causam sensações de exaltação, aumento de energia ou euforia, porém, o uso frequente gera uma tolerância aos efeitos, o que faz necessário um aumento na quantidade de droga administrada, bem como a redução dos espaços de tempo entre uma dose e outra na tentativa de alcançar a sensação desejada (Cf. JAFFE, 1981, p. 32).

As drogas depressoras do sistema nervoso central são hipnóticas, sedativas e anti-convulsivas. São indicadas no tratamento de pânico, ansiedade, insônia e dor crônica. Agem como relaxante muscular e geralmente diminuem a censura, mas podem provocar angústia e uma dependência de alta a média, tanto psíquica quanto física (Cf. MACHADO, 2004; SANCHEZ, 1982).

Normalmente, os estimulantes aliviam a fadiga e despertam a pessoa, provocando sensação de alerta. Em geral, criam alta dependência psíquica e uma possibilidade de dependência física. Vários são os efeitos produzidos pelos estimulantes: sensação de melhora do funcionamento cognitivo, ansiedade, infatigabilidade, dentre outros. A utilização excessiva ocorre devido a dois efeitos marcantes dessas drogas: a euforia e a perda de apetite, por isso, boa parte dos usuários são anoréxicos, o que fez alguns desses medicamentos ficarem conhecidos como “remedinhos para emagrecer” (Cf. MACHADO, 2004; SANCHEZ, 1982).

No que diz respeito às substâncias alucinógenas, pode-se afirmar que provocam reações semelhantes a psicoses, desde delírios a perda parcial ou total de percepção da realidade. Essas substâncias não causam dependência física e o grau de alcance psicológico é desconhecido. Dentre estas drogas, destaca-se a maconha, que relaxa, produz sensação de bem estar e vermelhidão nos olhos, induz, na maioria das vezes a ações extrovertidas, mas pode gerar o desejo de isolamento e reflexão, bem como ansiedade ou pânico. A maconha gera uma dependência psíquica moderada (Cf. MACHADO, 2004; SANCHEZ, 1982).

Dentre outros efeitos causados pelos diversos tipos de drogas, podem-se relacionar questões emocionais e situações orgânicas do usuário de drogas.

As características emocionais produzidos pelas drogas também podem variar de indivíduo para indivíduo. Cada substância proporciona uma reação diferente de uma pessoa para outra e o contexto do usuário faz diferença no modo de ação da droga.

Porém, de modo geral, destacam-se alterações no pensamento, perda de memória, ações psicóticas, como suspeita de estar sendo seguido ou de que outros estejam falando e conspirando contra eles, comportamento inconstante e incoerente, irritação, e até excitação sexual persistente (Cf. JAFFE, 1981, p. 32-33).

Outras características que podem ser observadas são a perda da distinção entre o certo e o errado, padrões éticos e morais deturpados, dificuldade em discernir entre o real e o ilusório, sensibilidade extrema a palavras e ações, e baixa autoestima (Cf. VIANA, 2004).

Nota-se que os efeitos das substâncias químicas afetam diretamente a sensação de segurança, de direção e prazer: segurança, porque afetam a estabilidade psicológica e deixam o usuário em expectativa de perseguição; direção, porque deturpam os conceitos e limites sociais; e prazer, porque invadem as experiências naturais do indivíduo, modificando-as até no trato sexual.

Logo, a dependência é apresentada como relação de sujeição, referência e sedução, ou seja, o dependente é aquele que se submete a algo que lhe parece maior, mais significativo, ou que lhe proporcione medo. Desse algo ou alguém, o dependente segue o exemplo, as referências do que lhe chamam mais atenção ou lhe parecem mais importante, ou se deixa levar pela sedução daquilo que lhe afeta e envolve seus sentidos e emoções.

A partir disso, pode-se dizer que a dependência química está relacionada ao lugar que as drogas ocupam na vida do individuo. De modo que este pode sujeitar-se ao domínio orgânico da substância, ter os padrões do grupo como referenciais, ou mesmo se deixar seduzir pela viagem ou pelo mundo apresentado a ele por meio das drogas.  De modo especial, percebe-se que há um diferencial no comportamento desta geração que favorece para que a dependência química seja cada vez mais comum.

1.6 Genograma: família, fator de risco e de proteção para o dependente

O genograma é uma ferramenta essencial para acompanhamento de famílias. A partir da construção e interpretação do genograma é possível avaliar o contexto perceber as melhores formas de intervenção de acordo com o comportamento da família avaliada, para que no momento oportuno, as impressões percebidas por meio do genograma sejam apresentadas ao sistema familiar.

A coleta de informações para a composição do genograma deve alcançar ao menos três gerações. O sistema utiliza regras particulares de simbologia, tanto em relação à estrutura familiar, quanto aos dados demográficos, clínicos e relacionais da família.

É indicado como modelo terapêutico de avaliação, em famílias que apresentem dificuldades com: 1) saúde materna; 2) saúde infantil; 3) problemas de desenvolvimento infantil; 4) dificuldades em relação ao trabalho; 5) doença crônica em algum elemento da família; 6) doença mental em algum indivíduo do sistema familiar; 7) morte de um familiar; 8) consumo de drogas; 9) suspeita de violência; 10) depressão ou ansiedade crônica; e 11) falta de adesão aos planos terapêuticos.

A importância do genograma para a atenção familiar está vinculada ao valor que o sistema familiar apresenta enquanto base de desenvolvimento social para o indivíduo. O modelo terapêutico em questão foi elaborado de modo a contemplar todo o ciclo de vida da família, desde a constituição do sistema, por meio do casamento, até a morte dos cônjuges.

O genograma pode ser desenhado pelo médico, paciente ou por contribuições de ambos, tendo início em uma consulta e deve ser construído a partir da composição e estrutura familiar, considerando o ciclo de vida, os padrões de repetição em gerações, além do equilíbrio e desequilíbrio familiar. Para a constituição deste modelo terapêutico é necessário a utilização de símbolos próprios (REBELO, 2007, p. 314).

A interpretação deve considerar resultados de exames médicos (eletrocardiogramas, por exemplo), existência ou não de padrões de repetição em diferentes gerações, além de observações do ciclo da vida familiar em questão, ou seja, é necessário considerar se a família é composta por recém-casados, se tem filhos adolescentes, etc (REBELO, 2007, p. 314).

Símbolos do genograma

Símbolos do genograma

O genograma surgiu em meio a buscas por compreensões de patologias de filhos em relação à mãe ou pai. Posteriormente a teoria da comunicação humana contribuiu por meio da percepção de incongruências na comunicação, seja verbal ou não verbal, além dos estudos realizados em famílias de esquizofrênicos, que auxiliaram no chamado duplo-vínculo, favorecendo no acompanhamento de filhos esquizofrênicos (PRADO, 2009, p. 233).

Houve um avanço do conhecimento sobre as causas da saúde e da doença psíquica, não apenas do indivíduo, mas, nas relações e interações de membros dos sistemas familiares, em direção diferente à dos modelos até então conhecidos, da perspectiva psicanalítica (PRADO, 2009).

Por um período, houve um destaque no trabalho que considerava a família tri geracional, ou seja, a ênfase da importância dos avôs na família.

A partir disso, a história da família ganha valor e as interações passadas são consideradas como influentes no comportamento dos pais e, portanto, afetam toda a vida familiar. Assim, toda a estrutura histórica da família, tudo o que foi construído no passado, como, abusos sexuais, violências, segredos de paternidade, adoções, mitos e crenças, etc., são avaliados como influenciadores na distorção das interações do tempo presente (PRADO, 2009, p236).

Os anos oitenta também contribuíram para a ampliação da perspectiva do genograma e da terapia sistêmica, pois, o movimento feminista impulsiona o desenvolvimento da terapia familiar feminista, valorizando diferenças de gênero e aspectos particulares do papel da mulher na sociedade, família e casamento (PRADO, 2009).

No entanto, todas as considerações, inclusive sobre as particularidades do papel da mulher, devem ser construídas no genograma em conjunto, terapeuta e família, devem buscar compor a história da família com todas as características e problemas que vierem à tona. (PRADO, 2009, p 237)

As alterações e complementos no processo terapêutico chegam ao ponto de influenciar pioneiros na orientação de família, como, Minuchin, ainda vivo, em sua nona década de vida, autor do livro Dominando a Terapia Familiar, publicado em 2008, considerado estruturalista, reconheceu novas visões pós-modernas e acrescentou ao seu próprio trabalho, a avaliação histórica da família (PRADO, 2009).

Outra alteração histórica que influencia no processo terapêutico de família, está relacionada ao sistema familiar contemporâneo, pois, a configuração de família atual é em maioria, composta por famílias de pais sozinhos em decorrência de divórcios, de nascimentos e adoções por pessoas não casadas, indivíduos criados por avós, grupos familiares de filhos de pais diferentes vivendo no mesmo ambiente devido à  casamentos de divorciados, grupos familiares constituídos por casais homossexuais, famílias que vivem em casas separadas, ou mesmo indivíduos que vivem só (PRADO, 2009).

A estrutura do genograma é constituída por uma imagem gráfica, um tipo de mapa e até desenho da família. Esse recurso é utilizado como ferramenta de apoio para um destravamento do sistema, por meio da observação das dificuldades familiares e dos padrões relacionais (WENDT & CREPALDI, 2008).

A avaliação desse mapa favorece para que o clínico examine as prováveis dificuldades e facilidades do eixo familiar. Assim, um dos trabalhos que se utilizam do genograma é na caracterização e cadastramento de grupos familiares, em órgãos públicos que lidam com auxílio à família (WENDT & CREPALDI, 2008).

Podemos dizer que o genograma é um “mapeamento gráfico da história e do padrão familiar”, onde podemos perceber: a) estrutura básica; b) demografia; e c) funcionamento e relacionamentos; que formam um gráfico dos dados coletados. O mapeamento expõe as etapas familiares através das gerações, além das estruturas emocionais associadas (WENDT & CREPALDI, 2008).

A função mais importante do genograma é cruzar dados familiares em momentos de avaliação, para acompanhamento adequado em meio aos processos relacionais em meio à terapia (WENDT & CREPALDI, 2008).

Para isso, as informações da família são organizadas em estrutura gráfica, para que se tenha uma visão mais clara da complexidade dos padrões de grupo. Supostamente, os membros do grupo são interdependentes, por mais que sejam idiossincráticos. Portanto, quando uma parte do sistema muda, todos os demais membros são afetados (WENDT & CREPALDI, 2008).

Através desse gráfico é possível identificar mitos e crenças que guiam e formam famílias por gerações, bem como sustentam rupturas de relacionamentos e dificuldades de trato.

Uma das formas de se analisar uma família é pela observação dos subsistemas, fronteiras e demais abstrações que podem ser percebidas entre os membros do grupo ao longo da história de vida. Esta construção abstrata indica uma estrutura familiar e delimita configurações do grupo (WENDT & CREPALDI, 2008).

A dinâmica familiar é a forma de relacionamento estabelecida pelos membros do grupo, ou seja, o modo como desenvolvem vínculos ou tratam seus problemas, os ritos, as regras, definição de ordem e papeis de cada membro da família (WENDT & CREPALDI, 2008).

Os filhos fazem com que a família amplie ou modifique a estrutura interna vigente, o que favorece para o surgimento de novos subsistemas (WENDT & CREPALDI, 2008, p.305).

Enfim, em meio a tantas alterações nas composições de famílias, o genograma segue como ferramenta de auxílio fundamental na construção de um modelo terapêutico que integre e enriqueça as técnicas de apoio a disfunções relacionais.

Em relação à dependência química, o genograma atua como ferramenta de compreensão, pois, a estrutura gráfica proporcionada pelo genograma auxilia no desenvolvimento da compreensão familiar de como a doença surgiu, retirando o estigma do individuo que se tornou dependente químico, por meio de um esclarecimento sobre a realidade patológica de toda a família.

Para exemplificar, será mostrado aqui o genograma de uma família onde foi percebido um histórico de dependência química, inicialmente considerado como algo comum, devido ao fato de bebidas alcoólicas serem drogas lícitas, mas que, proporcionaram o surgimento de dependentes de drogas ilícitas como cocaína e crack.

O dependente titular desse genograma é descendente da junção das famílias O.M. e P.M.

  • Família O.M. (geração de avós)
Família O.M. (geração de avós)
  • Família O.M. (geração de tios)
Família O.M. (geração de tios)
  • Família O.M.
    • Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma

 

  • Família O.M.
    • Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
  • Família O.M.
    • Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
  • Família O.M.
    • Descendência do terceiro tio do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência do terceiro tio do dependente químico titular do genograma
  • Família O.M.
    • Descendência da mãe do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência da mãe do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M. (geração de avós)
Família P.M. (geração de avós)
  • Família P.M. (geração de tios)
Família P.M. (geração de tios)
  • Família P.M.
    • Descendência do pai do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência do pai do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da segunda tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da segunda tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma
Família P.M.- Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da terceira tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da terceira tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da quarta tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da quarta tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência do terceiro tio do dependente químico titular do genograma
Família P.M.- Descendência do terceiro tio do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da quinta tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da quinta tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da sexta tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da sexta tia do dependente químico titular do genograma

Observações sobre o genograma

Alergias, diabetes, dificuldades oftalmológicas, doenças cardíacas e problemas gerais de pressão, são características comuns a quase todos os membros da família.

O número de alcoolistas chegou a quase 56 membros da família e nove foram usuários de drogas (cocaína e crack). Atualmente, a maioria afirma ter deixado as drogas e bebidas por questões religiosas.

Três pessoas manifestaram câncer, sendo que, no caso de M.A. houve manifestação da doença em três momentos distintos e recuperação da saúde, de modo que permanece viva.

Dois casos de distúrbio psiquiátrico foram confirmados clinicamente, porém, foram tratados e recuperados totalmente.

Não existe padrão em relação à conduta escolar. É possível perceber pessoas de todos os níveis de estudo e atuando em diversas áreas, com predominância nas seguintes profissões: Motorista, Professor, Ourives, Pedreiro e Pastor Evangélico.

Em relação à constituição familiar podemos observar divórcios, relações extraconjugais constituídas paralelamente e mães solteiras.

De modo geral, foi percebido que a maior marca da família é a falta de relacionamento e de interesse mútuo. Isto foi comprovado pela dificuldade em conseguir informações dos membros da família por meio de entrevistas, de modo que, a maior parte das informações desse relatório foi adquirida por meio de pesquisas em cartórios e documentos diversos.

Três questões para exemplificar o nível do distanciamento das pessoas que compõem este grupo familiar.

  • Mesmo os dados mais simples não são de conhecimento de parentes próximos. Por exemplo: Em meio à pesquisa nos cartórios foi descoberto que I. P. (avô do titular do genograma) era gêmeo com G. P. (comprovado vivo até a juventude em documento de cartório) e este era desconhecido de seus sobrinhos, filhos de I.P. , que se surpreenderam ao saber da existência de um tio gêmeo do pai.
  • Em meio às tentativas de entrevista de familiares, houve discussões sobre o distanciamento dos membros da família e alegações do tipo… “Há dez anos não vejo meu irmão! E moramos a em bairros vizinhos!”
  • Também por meio de pesquisa em cartórios, foi descoberto que, B.O. , filha de M.A. , foi registrada em nome de A.O. e criada como filha de J.A.
    • Após a descoberta, discussões explicaram que a situação foi causada em decorrência de que, a gestação de B.O. ocorreu na adolescência de sua mãe, que, ainda solteira, não seria bem vista na sociedade da época, portanto, a criança nasceu em outra cidade e foi registrada como filha de uma prima de sua mãe, contudo, foi criada como filha da própria avó. Obs. Mãe e filha ainda vivem e se tratam como irmãs, a família não comenta o assunto.

Diante disso, pode-se perceber o quanto as ações familiares influenciam na formação do caráter do indivíduo, bem como, as circunstâncias vivenciais modificam os valores e interesses das pessoas. Pode-se perceber que, o titular do genograma, cresce em meio a alcoolistas, dependentes químicos, familiares distantes, mentiras, omissões, doenças e brigas, que proporcionam um ambiente favorável para que este se torne suscetível ao abuso do uso de substâncias químicas, como tentativa de refúgio, busca de segurança e mesmo por meio dos referenciais de pessoas estimadas que, já fazem uso de substâncias psicoativas.

 A partir do reconhecimento de uma situação de dependência química instalada, é necessário o desenvolvimento de uma avaliação psicológica com vistas à intervenção para possível auxílio no controle da situação de dependência.

2 Avaliação & Intervenção Psicológica

A psicometria é um ramo da estatística que estuda fenômenos psicológicos. Não se trata apenas de métodos, ela se insere na teoria da medida que trata da utilização de números no estudo dos fenômenos naturais. O processo de avaliação psicológica começa a ganhar estrutura a partir da elaboração de instrumentos de medida psicológica. Assim, a avaliação tende inicialmente a ocupar lugar de diagnóstico nos âmbitos clínicos e de trabalho e posteriormente repercute em todas as perspectivas do indivíduo. No entanto, apesar do desenvolvimento da área e da solidificação de análises e instrumentos, ainda existem críticas sobre os testes psicológicos.

Atualmente, pode-se dizer que, os instrumentos foram atualizados e compreende-se que o conhecimento é adquirido pela relação com o outro e a observação desta relação. Tornando o diagnóstico uma questão, por um lado racional, por outro, empático (NASCIMENTO, 2005, p. 217).

No Brasil, a psicometria ganha um grande espaço de discussão, devido ao modo como os testes veem sendo utilizados, sem o rigor necessário e estudos adequados, de forma que descaracteriza o método e sua cientificidade (NORONHA; BALDO; ALMEIDA; FREITAS; BARBIN; & COZOLI, 2004).

O rigor do método se deve à importância do mesmo, pois, a partir da psicometria é possível mensurar questões individuais em perspectivas legais, como quando um teste serve de base para distinguir entre dano moral e dano psicológico.

O dano moral é identificado como parte da percepção subjetiva de prejuízo em questões de honra, finanças ou de liberdade, enquanto que o dano psicológico está vinculado à saúde, possibilitando desenvolvimento de patologias (ROVINSK, 2005, p.178).

A avaliação psicológica é um dos principais campos da atuação do psicólogo. E isso, porque, a partir dos resultados dos testes, é possível se fazer inferências acerca do comportamento humano, de modo a auxiliar o indivíduo a tomar decisões diante de situações específicas (ÁVILA-BATISTA, 2011, p. 11).

Assim, o teste mais utilizado no Brasil para avaliação psicológica, tanto em relação à gravidade quanto à intensidade de danos, em casos de dependência química, é o MINI (Mini International Neuropsychiatric Interview). Seu questionário foi validado para a realidade brasileira e, por isso, sua eficácia tem sido continuamente constatada a cada aplicação, de modo que, muitos pesquisadores se utilizam com tranqüilidade deste instrumento.

2.1 MINI: Características e validação do instrumento

Dentre os métodos psicológicos reconhecidos estão o DSM IV TR (2002) a nível clínico e de diagnóstico de dependência química e o SADD (1983) como avaliador de gravidade da dependência química (SOUZA; BITENCOURTT & OLIVEIRA, 2006, p. 111).

O Mini International Neuropsychiatric Interview, doravante designado MINI, é um questionário de auxílio para desenvolvimento de diagnóstico padronizado breve (15-30 minutos). É compatível com os critérios do DSM-III-R/IV e do CID-10 e sua utilização é indicada na prática clínica e na pesquisa em atenção primária e em psiquiatria. Pode ser utilizado por clínicos após um treinamento rápido (de 1 a 3 horas). O MINI Plus, versão mais detalhada, pode gerar diagnósticos dos principais transtornos psicóticos e do humor do DSM-IV (SCHEFFER; PASA; & ALMEIDA, 2010, p.535).

O MINI é estruturado em módulos diagnósticos independentes, para otimizar a sensibilidade do instrumento, na tentativa de diminuição de falso-positivos. Como meio de redução de tempo da entrevista, são utilizadas as seguintes estratégias: observação dos transtornos atuais, para facilitar a escolha da terapia mais adequada no momento; as questões são de resposta objetiva entre SIM/NÃO; questões de entrada exploram critérios obrigatórios para excluir diagnósticos de respostas negativas; as características e sintomas ocasionais de transtornos não são sistematicamente exploradas; e os algoritmos são integrados à estrutura do questionário, permitindo estabelecer ou excluir os diagnósticos ao longo da entrevista (AMORIN, 2000, p. 107).

Foram desenvolvidas duas versões do MINI para responder aos diagnósticos específicos de contextos diferentes:

1) voltado para ensaios clínicos e cuidados primários. O MINI abrange 19 módulos que alcançam 17 transtornos do eixo I do DSM-IV, o transtorno da personalidade anti-social e o risco de suicídio. O módulo Síndrome psicótica descobre os indícios do critério da esquizofrenia, com a finalidade de eliminar a possível existência de um transtorno psicótico. Os outros módulos determinam análises positivas.

2) proposto para a avaliação aprofundada das desordens mentais ao longo da vida, na pesquisa e na clínica em psiquiatria. O MINI Plus explora ordenadamente todos os critérios de abrangência e de eliminação, bem como a cronologia de 23 classes diagnósticas do DSM-IV. O módulo Transtornos psicóticos produz a análise positiva de 7 subtipos de psicoses: (1) transtorno psicótico sem especificação, (2) transtorno delirante, (3) transtorno psicótico breve, (4) transtorno esquizoafetivo, (5) transtorno esquizofreniforme, (6) esquizofrenia, e (7) transtorno psicótico decorrente de uma condição médica geral e/ou induzido por substâncias (AMORIN, 2000, p. 108).

O método utilizado para a validação do instrumento MINI foi o teste de confiabilidade entre métodos.  Era necessário provar a concordância entre o diagnóstico gerado pelo MINI e aqueles gerados por métodos já reconhecidos. Foram escolhidas duas estratégias para validar o novo procedimento diagnóstico: “compará-lo a diferentes critérios de referência e compará-lo ao Best Diagnosis ou LEAD Standard” (AMORIN, 2000, p. 108).

O MINI/MINI Plus foi comparado a questionários padronizados com características distintas, empregados em pesquisas internacionais – o CIDI e o SCID-P – e com a apreciação de psiquiatras. Além disso, foram realizadas análises quantitativas e qualitativas, pela metodologia do LEAD Standard.

2.1.1 Aplicação do MINI e os resultados obtidos junto a Dependentes Químicos

A dependência química é o resultado de uma relação doentia entre um indivíduo e uma substância psicoativa (SPA). Inicialmente o consumo pode ter diversos motivos que possivelmente prosseguirão após o desenvolvimento da dependência. O abuso do uso de SPA, frequentemente desenvolve a dependência e esta, traz consigo, comorbidades psiquiátricas, o que é desfavorável ao tratamento da dependência química. O episódio de um transtorno adicional pode comprometer o diagnóstico, tratamento e prognóstico de ambos os problemas (SILVA; KOLLING; CARVALHO; CUNHA; & KRISTENSEN, 2009, p.102).

Estudos afirmam que um terço dos alcoolistas demonstra ansiedade em níveis significativos. Uma média de 50 a 67% dos alcoolistas e 80% dos dependentes de outras drogas apresenta características semelhantes ao transtorno do pânico, dos transtornos fóbicos ou do transtorno de ansiedade generalizada. Conforme Silva, “pacientes com comorbidade psiquiátrica, principalmente aqueles com transtornos psiquiátricos graves, apresentam maiores taxas de suicídio, agressividade, detenção por atos ilegais, recaídas, internações, mais gastos com tratamento…” (SILVA et al, 2009, p.104).

Para a aplicação do instrumento, Silva realizou uma pesquisa, a partir de 31 pessoas, diagnosticados dependentes de álcool ou cocaína / crack a partir do CID-10 e DSM-IV. O trabalho foi realizado em um hospital de Porto Alegre – Hospital Parque Belém – tendo como critérios de exclusão: 1) a idade abaixo de 18 anos; 2) estado de abstinência de duas semanas; 3) experimentadores e ex-usuários; 4) dependência de outra substância; 5) menos de um semestre de uso regular de SPA.

A pesquisa foi realizada predominantemente por:

  • pessoas do sexo masculino (84%)
  • entre 20 a 56 anos de idade
  • sendo que, 19,4% dos participantes tinham ensino fundamental incompleto
  • 16,1% terminaram o ensino fundamental
  • 16,1% afirmavam ter ensino médio incompleto
  • 29% concluíram o ensino médio
  • 12,9% tinham ensino superior incompleto
  • e 6,5% possuem ensino superior completo.

 Em média, os envolvidos apresentaram 25 dias de abstinência. A coleta de dados durou em torno de 60 minutos e os instrumentos utilizados foram: formulário padronizado, elaborado por Silva, e o MINI Plus (SILVA et al, 2009, p.106).

Como resultado da aplicação do instrumento foi observado que: 1) os participantes do sexo masculino apresentavam maior tempo de abstinência; 2) os dependentes de cocaína / crack, são mais jovens que os alcoolistas; 3) 67% dos envolvidos na pesquisa, afirmavam ter parentes próximos que faziam uso abusivo de álcool e/ou drogas; 4) 38,7% tem pais dependentes químicos; 5) 25,8% são sobrinhos de dependentes; 6) 22,6% são primos de dependentes; 7) 19,4% são netos de dependentes; 8) 12,9% tem irmãos dependentes; 9) 6,5% tem mães dependentes de SPA; e 10) 3,2% tem filho dependente químico. Transtornos mentais foram percebidos em 83,9% dos participantes, além da percepção de comorbidades múltiplas em grande parte do grupo estudado (SILVA et al, 2009, p.108).

A partir da observação e avaliação dos resultados da aplicação do MINI, é possível que a intervenção psicológica seja mais adequada. Ou seja, torna-se mais difícil que o terapeuta promova um direcionamento errado, de modo a prejudicar o dependente. Tanto em relação ao desenvolvimento do tratamento, quanto no que diz respeito ao surgimento de novos problemas. A partir da avaliação, o passo seguinte é a intervenção.

2.2 Intervenção: Entrevista psicológica

A entrevista psicológica é uma ação entre duas pessoas – das quais, um deve ser profissional da psicologia – onde ocorre uma troca de informações, por meio de diálogo em uma comunicação informal e por tanto, os nomes e conceitos atribuídos a esse diálogo são muitos, de maneira que os teóricos da área ainda discutem o tema com intensidade (ALMEIDA, 2004, p. 34).

A expressão entrevista psicológica é efetuada por psicólogos no exercício de suas atividades. E levam em conta, perspectivas e fatores psicológicos percebidos anteriormente, com o objetivo de resolver problemas que habitualmente fazem parte do quadro da psicologia, ou seja, seleção e orientação profissional, pesquisas psicológicas, estudos de opinião pública, exame de personalidade, etc. No entanto, a avaliação psicológica não é uma prática independente de amarrações teóricas que a direcionem, é necessário identificar as perspectivas teóricas adequadas, de acordo com o que deve ser avaliado e o modo como deve ser analisado, além de forma de utilização dos resultados obtidos (SPARTA; BARDAGI; &  TEIXEIRA, 2006, p. 19).

De acordo com Sullivan (1970), a entrevista psicológica é uma comunicação vocal a partir de duas pessoas, integradas numa estrutura terapeuta-cliente e que se desenvolve progressivamente com objetivo de clarificar situações de vida dos entrevistados, vividas de modo especialmente penoso ou valioso, com objetivo de que esta clarificação possa gerar algum benefício para o cliente (p. 4).

Assim, nos atemos ao estudo da entrevista psicológica, com a intenção de pontuar sobre regras que auxiliam para que a aplicação da técnica seja mais adequada, de modo a facilitar o desenvolvimento da análise. Isto porque, só o cliente realmente tem condição de expressar sobre o próprio sofrimento e, portanto, se faz necessário que o terapeuta consiga identificar o problema e conduzir o cliente no processo de ajuda, a partir desta identificação (OLIVEIRA, 2005, p.1).

A entrevista psicológica deve ser realizada através de procedimentos e técnicas próprias e empíricas. É o ponto de encontro entre a ciência psicológica e a prática. Por tanto, é a partir da entrevista que se é possível aplicar de modo prático, os conhecimentos elaborados sobre as perspectivas psicológicas, por meio de um processo de interação (BLEGER, 1998, p. 1).

Todo o aparato instrumental do profissional da psicologia consiste no resultado das elucubrações do paciente, que voluntariamente ou impulsionado por facilitações do terapeuta, se dispõe e falar sobre aquilo que lhe é problema, ou motivação que o levou à clínica psicológica. As palavras do paciente são na verdade o material sobre o qual irá trabalhar na tentativa de uma melhor compreensão do caso (AUGRAS, 2002, p. 82).

As técnicas da entrevista são ferramentas de auxílio para que o paciente se sinta mais a vontade para expor suas questões e para que o terapeuta tenha maior acesso às informações essenciais na elaboração do processo de ajuda. Por meio da entrevista, é possível testar limites, contrapor, confrontar e buscar esclarecimentos para as respostas do sujeito. Por isso, a entrevista clínica tem lugar de destaque incomparável entre as demais técnicas de avaliação (TAVARES, 2002, p. 75).

2.2.1 Primeiras Entrevistas

O objetivo das primeiras entrevistas é identificar os aspectos mais relevantes do caso e a partir disso, identificar a melhor maneira de deseenvolver o acompanhamento.

No decurso destas primeiras entrevistas, o analista deve: 1) escutar e tentar peceber na historia de vida do paciente, os problemas e perturbações a serem trabalhados; 2) avaliar o nível de vontade e condição do paciente para o acompanhamento terapêutico; 3) observar as características psiquicas, bem como a habilidade de verbalizar e tolerar a condição de analise.

A partir disto, se a analise for realmente indicada ao caso, deve ser fixado um modo de acompanhamento, ao estabelecer a duração, a frequência das sessões, a postura do analisado (divã, por exemplo) e a postura do analista (DAVIES & HARRÉ citado por PINHEIRO, 2004, p.186).

O trabalho do analista é o de observar, escutar, compreender, saber esperar e calar-se e no momento oportuno e dar a interpretação que convêm. Após isto, o terapeuta deve comunicar ao paciente o conteúdo latente do discurso deste.

Esta comunicação deve ser elaborada a partir da reunião de elementos separados do discurso. É um trabalho de reorganização e de atribuição de sentido à narrativa do paciente.

Essa devolução organizada das informações do sujeito precisa ser realizada em momento adequado, que este tenha condição de ouvir e de assimilar as informações apresentadas pelo terapeuta. É um trabalho de cooperação na construção de questões interenas do individuo  (DAVIES & HARRÉ citado por PINHEIRO, 2004, p.186).

É importante saber que, as primeiras entrevistas podem desencadear alguns fatores psicológicos. É imprescindível estar atento a:

  • Resistências – dificuldades gerais que o paciente possa apresentar em relação ao desenvolvimento do processo terapêutico.
  • Transferência – ação inconsciente de vivência momentânea das questões que afligem o paciente, de modo que as emoções sejam transferidas do evento, para o terapeuta.
  • Contratransferência – ação de deslocamento das emoções do terapeuta para com o paciente, ante alguma vivência comum ou situação específica do momento vivencial do terapeuta.

Estas situações podem ocorrer em meio a qualquer processo terapêutico e precisam ser consideradas com cuidado para que o tratamento não seja prejudicado (NETO, A.C.; DAL-BÓ, M. J.; BREDA, R. L.; & CRESTANA, T. 2003, p. 266)

2.2.2 Entrevista nas psicoterapias breves

A psicanálise influenciou a psicologia tanto em questões teóricas quanto a nível de exemplo. Por outro lado, a psicologia auxiliou na propagação da psicanálise em países que demonstravam indiferença à atuação psicanalítica. Ainda assim, é notória as especificidades de cada uma das disciplinas.

Ferenczi, psicanalista contemporâneo de Freud, é um dos precursores das psicoterapias breves. Decidiu por buscar novas maneiras de ajudar os seus pacientes, e para isso, experimentou um certo número de mudanças técnicas. É assim que ele começa por atuar a partir da técnica activa, fundada na observação atenta e empática, que consiste em intervenções directivas por parte do analista: formular, por exemplo, ordens e interdições (OLIVEIRA, 1999, p.10).

Michael Balint propõe a psicoterapia focal; trata-se de entrevistas face a face, cujo número é limitado no tempo, com uma focalização no problema do paciente (PSICOTERAPIA BREVE, 2003-2011).

Alexander e French propõem modificações técnicas da psicanálise e desenvolvem aexperiência emocional correctiva. Alexander propõe trabalhar com base no método das associações livres, mas associa igualmente entrevistas mais directas e dá directivas ao paciente, ele pensa também que as atitudes do terapeuta devem ser suficientemente flexíveis para se adaptarem caso a caso (OLIVEIRA, 1999, p.11).

De um modo geral, podemos dizer que, por meio da entrevista psicológica, o cliente precisa alcançar o relaxamento suficiente, para que o terapeuta consiga perceber as situações que lhe causam desconforto, ansiedade e outros problemas que o motivaram a procurar ajuda terapêutica e apartir disso, seja possível a elaboração – por parte do profissional da psicologia – de um processo terapeutico adequado, considerando as abordagens psicologicas cabiveis.

O objectivo é, portanto, fazer com que o sujeito tome consciência dos seus pensamentos, reconhecer aqueles que são inexactos e substitui-los por ideias positivas.

Para que a entrevista psicológica tenha resultados adequados, não basta a  compreensão ou domínio teórico de utilização deste instrumento de avaliação. É impressindível que o profissional tenha adquirido sensibilidade adequada para observação do paciente, seja através de estágio, supervisão, laboratório ou oficinas.

É necessário desenvolver sensibilidade e empatia, saber lidar com a própria subjetividade e com a subjetividade do outro (entrevistando). O entrevistador deve ser capaz de adentrar esse universo, sem juízo de valor, sem preconceito, para que assim possa estar com o outro, conhecer, não temer, se perder e se achar e, finalmente, voltar à realidade do contexto. E agora, de posse de sua bagagem técnica tecer suas observações, ponderações e considerações, de modo axiomático, considerado que a utópica da neutralidade sempre deverá ser perseguida.

Os princípios éticos serão avivados em cada encontro, e nenhum instrumento poderá adquirir uma aura de prevalência sobre a pessoa do entrevistado, que é mais importante e assim deve ser respeitado.

É fundamental que o profissional se conheça e que tenha como rotineiras, as reflexões sobre suas próprias atitudes, postura e comportamento. É preciso que tenha também flexibilidade em modificar-se, quando a necessário. Muito do trabalho do psicólogo certamente vem em conseqüência do auto conhecimento, que lhe dará a base na qual se apóiam à sua atuação e intervenção com toda transparência.

2.3 Abordagens

No campo da Psicologia, são muitas as abordagens existentes para tratamentos de conflitos. Há aquelas em que o cunho está mais voltada para o autoconhecimento do sujeito, seus traumas e conflitos internos, existem aquelas que trabalham com as crises e suas repercussões no momento, e, há também as de fundo filosófico que vêem o sujeito não somente como uma psique em crise, e sim como um todo levando em conta seu lado social e seu relacionamento com consigo mesmo e com o mundo.

As abordagens que pontuaremos, devido ao reconhecimento e destaque geral no campo da psicologia são quatro: Abordagem Fenomenológica; Abordagem Humanista; Abordagem Sistêmica; e Abordagem Cognitivo Comportamental.

2.3.1 Abordagem Fenomenológica

A perspectiva fenomenológica surge como reação às teses e à maneira de compreender questões patológicas no início do século XIX.

A abordagem surge a parir da filosofia, em particular da filosofia a alemã. Tendo como precursor Edmund Husserl, que elaborou os fundamentos desta idéia. Ele propõe compreender o homem e a sua psicologia a partir da análise dos estados de consciência, das questões vivenciais, da experiência e dos modos de relação do sujeito com o seu meio. Martin Heidegger, discípulo de E. Husserl, propõe uma filosofia que prioriza o conhecimento do ser humano no mundo, da realidade humana a partir da descrição das coisas na sua essência sem qualquer pressuposto teórico (VILA-CHÃ, 1988, pp.357-365).

A filosofia fenomenologica destaca a necessidade de um retorno à experiência humana como objecto de uma descrição; esta enfoque marcou profundamente a psicologia e a psicopatologia. Karl Jaspers é um dos primeiros a introduzir a dimensão fenomenologica em psicopatologia (RODRIGUES, 2005, pp. 754-768).

Karl Jaspers desenvolveu uma abordagem descritiva da fenomenologia; o seu método consistia em descrever as vivências psíquicas conscientes dos doentes mentais, classificar esses estados entre si e compara-los com as vivências psíquicas do homem normal (RODRIGUES, 2005, pp. 754-768).

Os fenomenologistas têm como referencia essencialmente Ludwig Biswanger, que pensa que é preciso ampliar a compreensão do doente tal como ele se encontra, mais do que compreende-lo a partir das teorias pré estabelecidas, que pertencem ao terapeuta e não ao doente; ele propõe uma análise que se baseia mais na relação e na experiência vivencial (CHAMOND, 2011, pp. 3-7).

A abordagem fenomenologica não propõe qualquer técnica psicoterapeutica particular, mas insiste na noção de comunicação, a partir de uma comunicação e uma relação verdadeira entre o clínico e o seu paciente. O ênfase está na relação terapêutica, que é considerada como uma relação inter-humana, portanto uma possibilidade de encontro, um face-a-face e uma troca com o outro. Não está baseado em regras técnicas, mas, uma reflexão teórica sobre a noção de psicoterapia e uma reflexão sobre a prática da entrevista, insistindo na experiência comunicativa entre os dois interlocutores (LESSA &  SÁ, 2006, pp. 393-397).

2.3.2 Abordagem humanista: Carl Rogers

As percepções de C. Rogers tiveram grande influência no que diz respeito à psicoterapia. Elas integram uma abordagem humanista bastante próxima do ponto de vista fenomenologico, assumindo uma posição face às teorias psicanalítica e behavioristas, a partir do interesse pela nosografia e pela estrutura da personalidade.

Conforme Rogers, em todo o ser humano existem potencialidades que podem ser desenvolvidas numa relação interpessoal, a partir da aceitação, compreensão empática, e, não diretividade, por meio de uma relação interpessoal e construtiva.

O processo terapêutico, segundo C. Rogers, envolve uma libertação dos sentimentos a partir da experiência vivencial e a percepção disto durante a terapia, para que o indivíduo tenha como modificar sua prática de atitudes e assim, desenvolver congruência consigo próprio (AMATUZZI, & CARPES, 2010, pp. 11-25).

2.3.3 Abordagem Sistêmica

A terapia centrada na família compartilha dos mesmos pressupostos da terapia centrada na pessoa, ou seja, o foco do terapeuta não está no problema, mas, nas pessoas e, deste modo, o trabalho é desenvolvido em dois momentos específicos. Num primeiro momento, o terapeuta direciona seu trabalho para o cliente que lhe procura e, portanto, a atuação é centrada na pessoa. Num segundo momento, é realizada uma reflexão para o desenvolvimento de uma intervenção adequada ao contexto antropológico. A partir disso, podemos entender a família como um “sistema multidimensional de relações sociais interdependentes em que estas diferentes dimensões se encontram presentes em grau e correlações variáveis” (HIPÓLITO, 2010, p.76).

A pessoa nesta perspectiva é ao mesmo tempo, o centro e um dos pólos de cada uma das relações familiares. E por isso, o terapeuta deve se utilizar da resposta de compreensão empática para refletir em todo o sistema familiar, as vivências expressas de cada pessoa envolvida no processo terapêutico. Desse modo, é possível que cada membro da família consiga alcançar uma visão mais adequada de si e em si, ou seja, que cada um se observe interna e externamente, e que a partir dessa visão, seja possível um crescimento mais adequado ou haja um enriquecimento familiar por meio das potencialidades individuais (HIPÓLITO, 2010, p 76).

A terapia familiar sistêmica é originária da década de cinquenta e tem como alicerce, aspectos da biologia, química, cibernética, teoria sistêmica e outras. O início das considerações sobre a terapia familiar surge, quando estudiosos começaram a questionar a perspectiva conhecida, até então, sobre a doença mental, pois, acreditava-se que a psicopatologia se desenvolve e é mantida apenas pelo indivíduo e esta interpretação não se sustentava mais, devido à observação das influências do contexto na construção do indivíduo (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

De modo geral, as famílias são percebidas como grupos de pessoas com laços consanguíneos, com intenções de procriação. Na perspectiva sistêmica, as famílias simbolizam sistemas que se relacionam com o meio e/ou com outros sistemas semelhantes (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

A terapia é centrada no sistema e não em cada indivíduo que compõe a família. Por isso, acredita-se ser impossível entender o funcionamento de uma família conhecendo apenas uma de suas partes. Portanto, podem ser desenvolvidas várias técnicas para a ampliação da compreensão das relações familiares, o que favorece na reorganização do grupo (FERES-CARNEIRO, 1994, p.57-58)

 A facilitação terapêutica deve ser desenvolvida de modo que o discurso de cada pessoa seja integrado ao discurso da família, a fim de que o indivíduo não abandone suas perspectivas pessoais e seja respeitado com todas as suas idiossincrasias, e, assim, sinta-se restituído ao grupo familiar identificando o seu valor em relação ao mesmo (HIPÓLITO, 2010, p 78).

O papel do terapeuta é de vivenciar o quadro apresentado pela família e a partir disso comunicar sua compreensão, de modo sensível, respeitando a expressão da vivência de cada um, juntamente com as projeções, mudanças e significados atribuídos por cada pessoa do grupo (HIPÓLITO, 2010, p 79).

Além disso, a família apresenta uma especificidade terapêutica: cada membro, estando presente ou não no momento terapêutico, tem um lugar especial e influencia no desenvolvimento das potencialidades do grupo e, por isso, o terapeuta precisa considerar o indivíduo ausente e atribuir-lhe o lugar conferido pelas pessoas presentes, contando com estas atribuições durante todo o período de acompanhamento (HIPÓLITO, 2010, p 79).

A proposta é auxiliar a família a alcançar o enriquecimento proporcionado pela consciência de que o tema da colusão não afasta ou divide a família, mas, serve de oportunidade para o desenvolvimento da flexibilidade e equilíbrio (FERES-CARNEIRO, 1994, p.54).

2.3.4 Abordagem Cognitiva e Comportamental

A abordagem cognitiva e comportamental representa um conjunto de técnicas baseadas nas teorias da aprendizagem e nos contributos da psicopatologia cognitiva. Todas elas têm em comum um certo número de características: O estabelecimento de um contrato entre o paciente e o terapeuta; A definição clara e precisa dos objectivos terapêuticos, com uma definição das condutas que vão ser alvo das tentativas de mudança; A duração do tratamento, que é geralmente bastante breve, de três a seis meses; A medida quantitativa e qualitativa da mudança obtida.

Têm por objetivo suprimir o comportamento inapropriado para o substituir por um comportamento adaptado, segundo as leis do condicionamento. Por exemplo, a técnica da dessensibilização, utilizada para tratar as fobias (BAHLS; & NAVOLAR, 2004, pp.1-11).

A Psicologia é uma área muito ampla e as abordagens são diferentes entre si. Elas diferem em filosofia, objeto de estudo, teoria, linguagem, formas de pesquisa, dados científicos e práticas de intervenção. Todas essas características resultam em perspectivas muito particulares de como perceber o homem e como lidar com ele profissionalmente, e resultam em certas expectativas de postura do psicólogo, portanto, é necessário cuidado ao escolher a abordagem mais adequada.

3 Psicologia & Religião: Caminho terapêutico para o dependente químico?

Uma das características do processo terapêutico está relacionada ao valor e lugar que o do processo catártico em meio ao tratamento escolhido. Pode-se dizer que catarse é um processo de liberação de angústias e emoções reprimidas, ou de algum modo contidas, que, a partir de certo ponto podem causar distúrbios psicológicos (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

O termo Catarse surge com Aristóteles. Por meio da ação poética, o palco tornava-se lugar de liberação das expressões emocionais por meio do drama e da tragédia. Posteriormente a ação catártica de purificação das emoções passa a ser vivenciada também pelo expectador (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

Após o estabelecimento do processo catártico, por anos, esta ação foi vivenciada como ritual de purificação de espíritos malignos e/ou influências negativas externas sobre a vida das pessoas, por meio de ações como exorcismos, hipnose e semelhantes (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

O processo foi utilizado a partir de diferentes perspectivas, passando por Freud, Diderot, Lessing, Goethe, etc. (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

Em cada perspectiva a catarse ganhou um nome diferente como: análise do caráter, Gestalt-terapia, terapia primal, analise bioenergética, etc. (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

De modo geral pode-se dizer que a catarse atua claramente em três perspectivas humanas: médica, moral e religiosa (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

No que diz respeito ao aspecto médico, a catarse pode ser compreendida como ação homeopática de purificação do corpo (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

A perspectiva moral entende que, ao purgar as malignidades por meio da catarse, a conduta do indivíduo seria equilibrada e não haveria riscos de ações imorais / malignas (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

A ênfase religiosa da catarse aparece desde o teatro grego, onde a tragédia era compreendida como excitação religiosa e êxtase báquico. É possível citar também a influência hebréia no que diz respeito às experiências de sofrimento de personagens bíblicos como Ana (1 Sam 1:12-16), que não podia ter filhos e por isso, chorava e sofria diante de Iahwe. A oração sofrida acompanhada por movimentos de lábios que lembravam embriaguês, tiveram como resultado, a resposta do clamor, alívio e cura da alma. Além disso, Inácio de Loyola afirmou que a prática da glossolália (dom de línguas) resulta em paz e crescimento (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

Ainda hoje é possível perceber que, algumas linhas de orientação religiosa são desenvolvidas a partir de processos terapêuticos, que promovem reações com caráter catártico, especialmente em comunidades terapêuticas para recuperação de dependentes químicos (em maioria, apresentam fundação religiosa). Diante disto, torna-se imprescindível a observação da prática terapêutica psicológica, paralela ao sistema de orientação religioso que ocorre em meio à essas comunidades.

É fácil perceber a importância da relação de ajuda, desenvolvida por meio do aconselhamento, ante a necessidade humana de apoio e orientação em situações de crise e conflitos de modo geral.

O aconselhamento psicológico é um trabalho realizado por meio de encontros regulares e de caráter profissional, entre um cliente e um psicoterapeuta, com vistas a proporcionar suporte para que o indivíduo ultrapasse dificuldades relacionais ou pessoais. A compreensão de uma situação em particular, pode levar o indivíduo a aceitação ou a mudança de conduta,  de modo que, a pessoa tenha suas questões internas resolvidas (MACEDO; FONSECA e; HOLANDA, 2007, p.207).

 O aconselhamento religioso é um processo de mediação, realizado por um conselheiro, que neste caso, exerce a função de terapeuta, no sentido do grego antigo, que tem a conotação de cuidar, servir, tratar e também render culto. Ou seja, o terapeuta não é responsável pela cura, mas, é quem facilita o encontro entre àquele que cura e o necessitado, seja por meio de orações, de orientações, de imposição de limites ou simplesmente pelo direcionamento, para que o necessitado caminhe em direção àquele que tem o poder de curar (MACEDO; FONSECA e; HOLANDA, 2007, p.208).

Algumas linhas de aconselhamento relacionam, propositalmente ou não, a bíblia ou princípios morais do cristianismo, com linhas psicológicas específicas, como apresentaremos adiante.

3.1 Psicanálise & Cura do Passado

A psicanálise é uma metodologia desenvolvida por Freud, que considera como essencial, compreender o inconsciente do indivíduo e integrá-lo ao consciente, por meio da interpretação das ações e palavras, bem como de produções imaginárias, sonhos, delírios, associações livres e atos falhos (BOCK, 1999, p.70).

Esta interpretação visa promover um equilíbrio que auxilie no ajuste da conduta humana, de modo que seja possível a eliminação do mal-estar e do sofrimento. A idéia central é de que o autoconhecimento desenvolve a capacidade de lidar com as adversidades e superar as dificuldades (CATALDO NETO; GAUER e; FURTADO, 2003, p. 776).

Desse modo, é possível adquirir autonomia, por meio de uma capacidade criativa de cada indivíduo, grupo e instituição, por meio de um processo onde seja possível desfazer calmamente as barreiras do paciente (BOCK, 1999, p.80).

O princípio da desmontagem das resistências do inconsciente, está relacionado ao fato de que Freud considera que experimentamos a ansiedade já no primeiro momento da vida humana e a causa desta angústia é o parto (MEZAN, 2006, p. 527). Portanto, todo o passado do indivíduo, mesmo as coisas que de modo natural não são lembradas, como a sensação do nascimento, são importantes no trato das doenças desenvolvidas por meios de traumas.

A cura do passado é uma metodologia cristã, que afirma a cura por meio de uma volta ou de um relembrar o passado. É conhecida também como cura interior, cura das memórias, cura da árvore genealógica (SEAMANDS, 2007, p.12) dentre outros.

A metodologia foi desenvolvida por um psicanalista austríaco, Otto Rank, discípulo direto de Freud, que se aproxima da psicanálise ainda na adolescência, após a separação de seus pais (HURDING, 1995, p.411).

O trabalho tem como base a terapia desenvolvida durante a imaginação pela fé e o aconselhamento desenvolvido por meio da oração (SHLEMON, 1986, p.12), que visa conduzir o  indivíduo de modo consciente, à uma situação de crise do passado, e, por meio da conscientização da presença de Jesus – enquanto Deus atemporal – no momento em questão (HURDING, 1995, p.416), curar feridas e suas consequências na vida prática da pessoa que se dispõe a ser acompanhada.

A ênfase da cura interior ganha maior repercussão a partir dos estudos de alguns nomes como Anne White, Francis MacNutt e Ruth Stapleton, sendo que esta, afirma a cura interior como ação de restauração das emoções por meio das orientações do Espírito Santo (HURDING, 1995, p.416).

A partir da década de 1960, influenciado pela metodologia da cura interior, Frank Lake, médico missionário com treinamento em psiquiatria, desenvolve o que posteriormente ganha o nome de Teologia Clínica (EVANS, 2002, p.186).

O trabalho considera o princípio freudiano do trauma no nascimento e por isso, Lake utiliza teorias “reichianas e bioenergéticas de respiração profunda” (HURDING, 1995, p.420) para conduzir o indivíduo a reviver a experiência do nascimento e outras experiências traumáticas, na tentativa de resolver os problemas adquiridos durante a gestação e parto.

Lake, afirma que os sentimentos da mãe, sejam bons ou ruins, são transmitidos à criança durante a gravidez e a angústia da separação do bebê com a mãe por meio do parto, é relacionada a angústia gerada pela separação de Cristo com o Pai no Getsêmani e Gólgota.

Nesta pesrpectiva, pode-se entender que, a cura acontece por meio da realização do ego, mas, não o ego como compreendido por Freud, o ego do indivíduo, e sim, um tipo de ego ideal, que é gerado por meio da realização em Cristo, ou seja, o desenvolvimento de uma nova pessoa ou personalidade, ante ao convívio e comunhão com Deus (HURDING, 1995, pp.426,427).

Relação entre Psicanálise e Cura do Passado

Percebemos de modo claro a influência da psicanálise no desenvolvimento da cura do passado, a partir de um ponto específico: o fundador da teoria de cura do passado é de formação psicanalítica.

Diante disso, fica mais fácil identificar a semelhança na compreensão do ser humano enquanto indivíduo fragilizado desde o nascimento e necessitado de apoio para o autoconhecimento, para que este conhecimento auxilie no desenvolvimento do ego – seja o ego freudiano ou o ego ideal de Lake – e a partir disso, o indivíduo seja capaz de constituir forças para superar as adversidades e frustrações, sejam essas forças do próprio indivíduo ou da presença de Deus neste.

Ambas as linhas de orientação, conduzem o indivíduo a olhar para dentro de si, com dois objetivos: compreender a si mesmo, e buscar forças internas para continuar vivendo.

3.2 Logoterapia & Aconselhamento Pastoral

A logoterapia, desenvolvida por Viktor E. Frankl, é a terceira escola de psicoterapia de Viena, também conhecida como Psicologia do sentido da vida, devido a experiência de Frankl no campo de concentração, onde compreendeu o sentido do sofrimento (EINSFELD, 2000, p.18).

A logoterapia pode ser compreendida em três categorias de valores: criadores, vivenciais e de atitudes. Os valores criadores são referentes a capacidade criativa nas questões intelectuais, artísticas, de trabalho, enfim, de toda a liberdade de ação humana; os valores vivenciais são adquiridos por meio das experiências afetivas, seja por meio do desenvolvimento das relações familiares, seja pela contemplação da natureza, de observação da arte e cultura ou mesmo, pelas vivências místicas; e por fim, os valores de atitude, caracterizados pelo posicionamento adequado ante os sofrimentos inevitáveis e a condição ou capacidade de sofrer (LUNA, 2005, p.26).

Einsfeld afirma ainda que, Frankl descobriu a liberdade de observar a vida – mesmo que em condições precárias – e conseguir encontrar um sentido, que não depende da realização pessoal, mas, da maneira como a pessoa se coloca diante da situação vivenciada. Esse sentido surge quando a pessoa transforma o sofrimento em conquista, quando a culpa é transformada em oportunidade de mudança, ou quando a transitoriedade da vida auxilia no desenvolvimento de ações responsáveis (EINSFELD, 2000, p.21.).

Segundo Clinebell, o aconselhamento pastoral considera três aspectos essenciais com vistas ao crescimento: luta, morte e renascimento. O trabalho de orientação pastoral é desenvolvido a partir de uma compreensão particular da vida cristã, ao entender que esta não é apenas uma maneira de crer, mas, uma maneira de vivenciar ou experienciar todas as coisas, logo, tem como objetivo, modificar a motivação do comportamento e não apenas da crença humana. E isto, ante a experiência de luta, morte e renascimento de Cristo (CLINEBELL, 1987, p.56).

Clinebell afirma que as pessoas devem encontrar sentido para a vida, em todas as suas circunstâncias, tendo no sofrimento, o crescimento, seja humano, seja espiritual. Isto, porque, o ser humano é tido como carente de sustento, apoio e cuidado.

Essa carência gera crise no indivíduo que, torna-se perdido em si mesmo, de modo que passa a ter necessidade de apoio externo, de uma relação de ajuda, de alguém que auxilie no processo poimênico de cura da alma, por meio do apoio na compreensão do propósito da vida e de suas crises fundamentais, que estão diretamente relacionadas às percepções de “pecado e salvação, alienação e reconciliação, culpa e perdão, juizo e graça, morte e renascimento espiritual” (CLINEBELL, 1987, p. 47).

Relação entre a Logoterapia e o Aconselhamento Pastoral

Ambas as estruturas consideram como base de trabalho o sentido da vida e tratam disto em três perspectivas. Enquanto a logoterapia considera os valores criadores, vivenciais e de atitudes, como fundamentais para o desenvolvimento da capacidade do indivíduo de suportar o sofrimento, o aconselhamento pastoral aponta a luta, morte e renascimento como princípios de fé que devem não apenas nortear a vida mas, dar sentido a ela.

Outra característica está associada a ideia de realização pessoal como processo logoterapêutico, motivador para a continuidade da vida, e o propósito de vida apresentado pelo aconselhamento pastoral, como suporte e estímulo da esperança ante o sofrimento.

Ambas as orientações consideram as vivências como determinantes, ou seja, as vivências podem favorecer para o desânimo e enfraquecimento, ou para o fortalecimento e esperança, dependendo de como o indivíduo se posiciona.

3.3 Behaviorismo & Aconselhamento Bíblico

O behaviorismo  também conhecido como  comportamentalismo ou análise do comporta-

mento, considera uma espécie de ação e reação. O organismo responde a um estímulo, ante a ajustes ambientais ou por hábitos desenvolvidos (BOCK, FURTADO, & TEIXEIRA, 1999, p.45).

Duas situações são utilizadas na análise, o comportamento respondente e o comportamento operante. O comportamento respondente é composto pelos atos involuntários, por estímulos antecedentes ao ambiente, como salivação ou contração das pupilas. Já o comportamento operante é tudo aquilo que o indivíduo escolhe fazer, tudo o que a pessoa pode realizar para influenciar ou afetar o meio em que está envolvido (SKINNER, 2006, p.59).

   Em síntese, podemos dizer que, o comportamento respondente ocorre quando o indivíduo sofre um estímulo, enquanto o comportamento operante acontece quando o indivíduo produz o estímulo.

Além disso, considera-se o reforço, o controle de estímulos, extinção, punição, discriminação e generalização, como ferramentas de identificação, orientação e avaliação de casos (BOCK, FURTADO, & TEIXEIRA, 1999, pp. 50-54), sendo cada categoria compreendida da seguinte forma:

  • Reforço é tudo o que pode modificar uma ação futura, seja positiva ou negativamente;
  • Controle de estímulos é relacionado aos controles como placas de trânsito ou sinais indicativos, que delimitam os espaços e orientam ações de modo objetivo;
  • Extinção é o mecanismo que capacita a redução de determinada ação até a completa extinção da mesma;
  • Punição, leva a redução temporária de certo comportamento;
  • Discriminação, auxilia na modificação de comportamento de acordo com o ambiente;
  • Generalização, dificulta as reações ante a estímulos semelhantes.

O aconselhamento bíblico é o método utilizado por Jay Adams, para confrontar pessoas por meio de textos bíblicos, com a intenção de promover mudanças comportamentais, na tentativa de ajustar o indivíduo à uma conduta considerada biblicamente adequada ou justa (ADAMS, 1999, pp. 58-59).

A metodologia é diretiva, com a intensão de moldar os padrões de comportamento, invertendo ações tidas como pecaminosas, em atitudes justas e positivas, tendo como estímulos, os exemplos dos personagens e as situações apresentadas nas histórias bíblicas (CRABB, 2000, pp. 80,81).

Os limites estabelecidos estão relacionados à questões éticas de uma cultura específica, e portanto, limita as possibilidades de discriminação ou generalização em situações sociofamiliares, de modo que esse limite pode gerar punição e em alguns casos, extinção de comportamentos.

Relação entre Behaviorismo e Aconselhamento Bíblico

O behaviorismoe oaconselhamento bíblico seguem padrões indutivos para influenciar ou mesmo determinar comportamentos. E tem como ferramentas básicas: reforço, controle de estímulos, extinção, punição, discriminação, e generalização.

O diferencial consiste na base de direcionamento. Enquanto o aconselhamento bíblico tem como determinantes os escritos, a moral e a tradição cristã, o behaviorismo trabalha a partir das extruturas individuais de cultura.

Ambas as perspectivas não se orientam a partir da capacidade individual de construção ou elaboração de superação, mas, conduzem o aconselhando à uma decisão e uma ação específica e padronizada.

3.4 Pessoalismo (ACP) & Aconselhamento Cristão

O pessoalismo ou terapia centrada na pessoa, desenvolvida por Carl Rogers, considera que o indivíduo tem em si uma tendência atualizante, ou seja, uma capacidade natural de se curar ou de se ajustar às mais diferentes situações, de modo a aprimorar o self. A importância deste aprimoramento se deve ao fato de que o self é tido como a essência da personalidade humana, de modo que, o autodiscernimento apresenta-se como chave para o desenvolvimento do indivíduo (SCHULTZ, 2002, pp.316-317).

Na perspectiva do pessoalismo, pessoas psicologicamente saudáveis percebem a si mesmas, então, não se sentem ameaçadas em seu autoconceito. Isto ocorre com aqueles que receberam considerações positivas e portanto, não sentem necessidade de “internalizar condições de merecimento” (SCHULTZ, 2002, p.321) para realizar o self e adquirir pleno funcionamento. Este fato indica também que o indivíduo não apresenta incongruência, que seria a dificuldade de perceber e vivenciar o verdadeiro self.

O trabalho de Rogers é auxiliar o cliente, através do aconselhamento centrado na pessoa e não no problema. A intenção é de desenvolver empatia em meio ao processo de acolhimento, criando uma identificação com o indivíduo, o que facilita para que o mesmo se compreenda e permita o processo natural de atualização do self, gradativamente, em meio ao processo terapêutico. Assim, o indivíduo adquire maior facilidade de se aceitar e a partir disso, gerar condições de enfrentar as dificuldades do mundo experiencial (MORATO, 1999, p.109).

O aconselhamento cristão, segundo Collins (2004, p.45-46), tem como objetivo gerar:

  • Autoconhecimento, porque compreende a necessidade do indivíduo de se entender,  para posteriormente alcançar cura;
  • Comunicação, porque reconhece a necessidade de expor os sentimentos, pensamentos e emoções de modo preciso;
  • Aprendizado e mudança de comportamento, pois entende que as pessoas agem de acordo com aquilo que aprenderam;
  • Auto-realização, devido à necessidade humana de desenvolver o próprio potencial;
  • Apoio, que é ferramenta facilitadora ante as dificuldades decorrentes no processo de realização pessoal; e
  • Integridade espiritual, por reconhecer a influência da dimensão espiritual em relação aos problemas humanos.

A idéia principal é de que o conselheiro deve: saber dar atenção; desenvolver habilidades de bom ouvinte; responder objetivamente àquilo que foi ouvido comprovando o comprometimento com a pessoa; saber como conduzir, comentar, perguntar, confrontar, informar e interpretar a fala do aconselhando, de modo que o mesmo possa aprender durante o processo de aconselhamento (COLLINS, 2004, p.48-51).

Relação entre Pessoalismo e Aconselhamento Cristão

O pessoalismo está alicerçado na construção e manutenção do self, ou seja, da característica individual que torna uma pessoa única. A idéia é de personalidade e de capacidade criativa, bem como de idiossincrasia e que precisa, na perspectiva rogeriana, ser reconhecida, aceita e desenvolvida, para que o indivíduo alcance cura e qualidade de vida em todas as perspectivas.

O aconselhamento cristão segue o padrão de autoconhecimento como base para o reconhecimento da dimensão espiritual e da necessidade da mesma para a constituição humana saudável.

 O conhecimento de si, de todas as mazelas e qualidades individuais formam a esfera de atuação destas linhas de aconselhamento, que consideram a liberdade e capacidade humana de decisão, como essenciais para o processo de formação, cura e saúde, mental e espiritual do ser humano.

Relação geral entre os processos

De modo geral, o acompanhamento religioso se apresenta como aconselhamento pastoral, porque tem como princípio a comunicação da palavra de Deus. Assim, difere-se de perspectivas como a psicanálise ou qualquer outra linha psicológica. No entanto, tem como objetivo, ajudar as pessoas a ajustarem-se melhor consigo mesmas e seus ambientes. E essa ajuda pode ocorrer individualmente, em família, ou em grupos afins, com ambiente estruturado, e programas de autoconhecimento, com vistas a superação de crises (MACEDO; FONSECA e; HOLANDA, 2007, pp.208,209).

Esta característica de atuação com ambientes estruturados e trabalhos individuais, familiares ou em grupos, também são adotadas nas orientações psicológicas, com objetivo de fundamentar as relações e constituir, indivíduo e sociedade.

Como se pode perceber é possível realizar o processo terapêutico de diversas maneiras, inclusive, em parceria com estruturas eclesiásticas. Para maior esclarecimento sobre a atuação do terapeuta que trabalha em comunidades terapêuticas confessionais, é importante que se fale mais detalhadamente, ao menos sobre uma, dentre as perspectivas citadas. O trabalho humanista, de Carl Rogers, apresenta duas especificidades que favorecem o acompanhamento ao dependente internado em uma instituição religiosa: 1) ênfase na valorização de Si, dificuldade característica do dependente, citada e explicada no capítulo primeiro deste trabalho; e 2) facilidade de aplicação das técnicas da ACP, devido ao fato de que a abordagem partilha de princípios estruturais semelhantes a características da ética cristã, em aspectos  gerais.

3.5 Abordagem centrada na pessoa ou pessoalismo cristão?

A abordagem centrada na pessoa é uma teoria sustentada pela compreensão de Carl Rogers de que as pessoas têm em si mesmas, a capacidade de resolverem seus conflitos internos, desde que consigam uma oportunidade e um ambiente adequado para isso. Rogers afirma que existe uma tendência, chamada de atualizante, que move o indivíduo em direção ao desenvolvimento de suas potencialidades, em busca da própria conservação e/ou enriquecimento. (ROGERS & KINGET, 1977, p.159).

Segundo Rogers, essa tendência atualizante é uma característica humana semelhante a princípios fundamentais das plantas e dos animais, no que diz respeito à constituição biológica, de maneira que, a capacidade de crescimento e desenvolvimento permanece inerente no ser e, portanto, sempre que o ambiente e as condições favoráveis existirem, essa capacidade entrará em funcionamento (MOREIRA, 2007, p.53).

A compreensão de Rogers se relaciona à visão cristã, no sentido de entender a existência humana, como parte da criação. Entender o indivíduo como um ser que compartilha das características de surgimento, manutenção e sustento vital, a partir de uma questão interna (no caso, a presença do Espírito de Deus no homem) que favorece a cura, crescimento, ajustamento, etc. desde que não haja empecilhos externos.

Por isso, o conselheiro deve favorecer para que o cliente alcance a condição de se aceitar, de expressar seus sentimentos e atitudes, identificando diferenças individuais, sem, no entanto, comparar-se a outros. É necessário que o terapeuta desenvolva uma compreensão empática, ou seja, não apenas ouvir, mas, tentar perceber as reações do cliente ante a cada situação compartilhada e transmitir essa percepção ao indivíduo (ROGERS, 1983a, p.33).

Rogers afirma que a importância da empatia no processo de aconselhamento, deve-se ao fato de que as pessoas conseguem apresentar maior consideração por si, quando percebem que outros a aceitam e a compreendem (ROGERS, 1983a, p.39). A compreensão empática reflete as informações apresentadas pelo cliente a ele mesmo. Esse reflexo proporciona o autoconhecimento e por consequência, ajuste vivencial (HIPÓLITO, 2010, p.44).

Em outras palavras, podemos dizer que, a função do conselheiro é de agir como um espelho no qual o cliente deve enxergar a si e suas vivências, de modo mais objetivo. A partir desta compreensão, o indivíduo torna-se capaz de assumir seus problemas de forma mais adequada e responsável, porque se sente em uma situação segura para caminhar em direção à maturidade e se libertar das dificuldades (ROGERS, 2000, p.11-19).

Este aspecto também pode ser percebido em algumas ações de Jesus, que, considerava o indivíduo com todas as suas mazelas, independente do que a sociedade da época considerava pecado ou erro. A aceitação de Cristo para com os outros era incondicional e isso proporcionava confiança na relação estabelecida, de modo que as pessoas sentiam-se livres para falar de suas dores e dificuldades. Sentiam-se acolhidas e consequentemente, curadas.

Schultz afirma que, para Rogers, os processos avaliativos da psicologia tornam o paciente dependente, porque cria uma atmosfera de autoridade em torno do terapeuta. E, a partir do momento em que o terapeuta toma conhecimento dos problemas do cliente, o paciente age como se não fosse mais necessário se preocupar com o problema, pois, o alvo agora é seguir a orientação do especialista com a certeza de que tudo será resolvido (SCHULTZ, 2002, p.325).

Por isso, o princípio de Rogers está sustentado na premissa de não contar com uma estrutura teórica determinada, a partir da qual o problema do cliente seria enquadrado, para o desenvolvimento de algum mecanismo de ajuda. O importante é entender e aceitar o valor da pessoa. Logo, o terapeuta não deve expressar julgamentos nem dar conselhos, apenas concentrar-se no cliente, para que este consiga se perceber no terapeuta, de modo a reavaliar suas relações e possivelmente mudar de comportamento (SCHULTZ, 2002, p.325).

O terapeuta atua como facilitador. A sensação de segurança produzida pela empatia do conselheiro será suporte para que o cliente encontre em si mesmo as condições de superação para os problemas (SCHEEFFER, 1976, p.26).

Rogers abre mão de qualquer tipologia de personalidade ou de conceitos psicológicos específicos sobre o ser. Mas, tinha como objetivo, esclarecer o que é e como se estrutura uma relação psicológica que colabore para que o cliente alcance uma visão adequada de si mesmo, para que este consiga progredir a partir de sua própria compreensão (ROGERS, 1987, p.14).

A personalidade, conforme Rogers é o resultado de experiências vivenciadas pelo indivíduo, sendo que a pessoa é o centro dos eventos e consequentemente, influencia e recebe influências destes.  Logo, estes eventos tornam-se concretos para aqueles que o vivenciam (ROGERS, 1961, p.23).

Porém, a construção deste ser, ou como Rogers afirma, a construção deste Si-Mesmo, não é apenas uma percepção de si, mas, uma relação entre a vivência e compreensão, ou a vivência a partir da compreensão (ROGERS & WOOD, 1978, p.197).

De modo semelhante, a visão geral do cristianismo considera que não se deve preocupar com a personalidade, como se fosse algo imutável, pois, a vivência proporciona mudança de conduta. Assim como o apóstolo Pedro, tornou-se grande homem de fé, a partir dos percalços da negação trina de Jesus e da aceitação que recebeu de Cristo ainda na cruz. Cada indivíduo é considerado único e necessitado de um processo distinto de apoio.

Assim, depois da compreensão da aplicabilidade do método de Rogers junto à instituições confessionais, é preciso pensar as duas vertentes de atuação do terapeuta. Dependente químico e familiares (co-dependentes).

3.5.1 Aconselhamento centrado no dependente químico

Podemos dizer que a empatia (ROGERS, 1983a, p.33), enquanto ferramenta do aconselhamento centrado na pessoa pode proporcionar ao indivíduo dependente químico, a segurança necessária para aceitar o mundo real como real (GIDDENS apud Bessa, 2005, p.44), porém, não a partir das relações humanas, mas, a partir da tendência atualizante, ou seja, a partir de si mesmo (ROGERS & KINGET, 1977, p.159).

Ao considerar a capacidade humana de crescimento e enriquecimento intrínseca, desde que se encontre o ambiente favorável (MOREIRA, 2007, p.53), é possível que o dependente consiga a partir do aconselhamento, tudo o que precisa para se estruturar e crescer, sem precisar esperar bons referenciais externos (SCHMIDT, 1976, p.25).

A partir do conhecimento pleno, desenvolvido por meio da ação reflexa do terapeuta, a pessoa dependente pode alcançar a condição de mudança e de reestruturação de vida (HIPÓLITO, 2010, p.44), de modo que não mais aguarda por referenciais, mas, torna-se referencial (ROUANET, 1987, p. 233).

Este conhecimento pleno proporciona também a diminuição da curiosidade (LIBÂNIO, 2004, p. 159), pois a mesma é sensação relacionada ao desconhecido. Portanto, o autoconhecimento promove a prevenção do uso de drogas, no que diz respeito à pessoa que ainda não utiliza, e redução de recaídas para os que estão diminuindo o uso.

Se a condição de dependência pode ser desenvolvida por diversos fatores como insatisfação com a vida, personalidade fraca, necessidade de prazer inerente ao ser humano e influências da modernidade (CARMO, 200, p.143), é imprescindível que seja desenvolvido um acompanhamento centrado na pessoa dependente e não nos problemas decorrentes da utilização de drogas, para que o dependente não redirecione a dependência de drogas para uma dependência do terapeuta (SCHULTZ, 2002, p.325).

3.5.2 Terapia familiar

A terapia centrada na família compartilha dos mesmos pressupostos da terapia centrada na pessoa, ou seja, o foco do terapeuta não está no problema, mas, nas pessoas e, deste modo, o trabalho é desenvolvido em dois momentos específicos. Num primeiro momento, o terapeuta direciona seu trabalho para o cliente que lhe procura e, portanto, a atuação é centrada na pessoa. Num segundo momento, é realizada uma reflexão para o desenvolvimento de uma intervenção adequada ao contexto antropológico. A partir disso, podemos entender a família como um “sistema multidimensional de relações sociais interdependentes em que estas diferentes dimensões se encontram presentes em grau e correlações variáveis” (HIPÓLITO, 2010, p.76).

A pessoa nesta perspectiva é ao mesmo tempo, o centro e um dos pólos de cada uma das relações familiares. E por isso, o terapeuta deve se utilizar da resposta de compreensão empática para refletir em todo o sistema familiar, as vivências expressas de cada pessoa envolvida no processo terapêutico. Desse modo, é possível que cada membro da família consiga alcançar uma visão mais adequada de si e em si, ou seja, que cada um se observe interna e externamente, e que a partir dessa visão, seja possível um crescimento mais adequado ou haja um enriquecimento familiar por meio das potencialidades individuais (HIPÓLITO, 2010, p 76).

A terapia familiar sistêmica é originária da década de cinquenta e tem como alicerce, aspectos da biologia, química, cibernética, teoria sistêmica e outras. O início das considerações sobre a terapia familiar surge, quando estudiosos começaram a questionar a perspectiva conhecida, até então, sobre a doença mental, pois, acreditava-se que a psicopatologia se desenvolve e é mantida apenas pelo indivíduo e esta interpretação não se sustentava mais, devido à observação das influências do contexto na construção do indivíduo (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

De modo geral, as famílias são percebidas como grupos de pessoas com laços consanguíneos, com intenções de procriação. Na perspectiva sistêmica, as famílias simbolizam sistemas que se relacionam com o meio e/ou com outros sistemas semelhantes (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

A terapia é centrada no sistema e não em cada indivíduo que compõe a família. Por isso, acredita-se ser impossível entender o funcionamento de uma família conhecendo apenas uma de suas partes. Portanto, podem ser desenvolvidas várias técnicas para a ampliação da compreensão das relações familiares, o que favorece na reorganização do grupo (FERES-CARNEIRO, 1994, p.57-58)

 A facilitação terapêutica deve ser desenvolvida de modo que o discurso de cada pessoa seja integrado ao discurso da família, a fim de que o indivíduo não abandone suas perspectivas pessoais e seja respeitado com todas as suas idiossincrasias, e, assim, sinta-se restituído ao grupo familiar identificando o seu valor em relação ao mesmo (HIPÓLITO, 2010, p 78).

O papel do terapeuta é de vivenciar o quadro apresentado pela família e a partir disso comunicar sua compreensão, de modo sensível, respeitando a expressão da vivência de cada um, juntamente com as projeções, mudanças e significados atribuídos por cada pessoa do grupo (HIPÓLITO, 2010, p 79).

Além disso, a família apresenta uma especificidade terapêutica: cada membro, estando presente ou não no momento terapêutico, tem um lugar especial e influencia no desenvolvimento das potencialidades do grupo e, por isso, o terapeuta precisa considerar o indivíduo ausente e atribuir-lhe o lugar conferido pelas pessoas presentes, contando com estas atribuições durante todo o período de acompanhamento (HIPÓLITO, 2010, p 79).

A proposta é auxiliar a família a alcançar o enriquecimento proporcionado pela consciência de que o tema da colusão não afasta ou divide a família, mas, serve de oportunidade para o desenvolvimento da flexibilidade e equilíbrio (FERES-CARNEIRO, 1994, p.54).

Considerações Finais

Durante o desenvolvimento desse trabalho ficou evidente a complexidade das situações que envolvem o dependente químico, bem como as dificuldades encontradas para propiciar um tratamento que seja apropriado.

Tal compreensão fica cada vez mais imprecisa devido ao fato de que a modernidade, marcada por relações momentâneas e utilitárias, influencia diretamente na fragmentação de conceitos e estruturas sociais.

Essa despreocupação para com o próximo gera uma busca individual que sofre influências do coletivo, pois, enquanto ser social, o indivíduo participa se envolve e responde de modo relacional às estruturas sociais em que está inserido, logo, o pensamento vigente na modernidade faz parte da formação do caráter do indivíduo. Por isso, o ser humano não se preocupa em como buscar aquilo de que necessita, de modo que, se entender que é preciso, abre mão de limites, ética e moral, para alcançar seu desejo.

É a partir do rompimento com esses limites, que o indivíduo geralmente, encontra, conhece, experimenta e se entrega à droga. Desse modo, passa a ser dominado por estímulos e sensações produzidas pelas substâncias químicas utilizadas, e, gradativamente, perde qualidade de vida em todos os aspectos, conforme os efeitos da substância escolhida pelo usuário. Esse abandono de si pode conduzi-lo a uma posição indesejável, pois, em muitos casos o usuário, adquire má aparência, passa a ter cheiro desagradável, modifica a maneira de conversar, torna-se inconveniente, e, por fim, pode chegar ao rompimento com as leis, numa tentativa de manter seu vício.

Pode-se afirmar que um acompanhamento compromissado, individual e relacional, possibilita ao dependente químico a organização pessoal necessária para um desenvolvimento integralizado.

É perceptível que a característica da dependência química, enquanto situação que considera a sujeição do indivíduo a algo ou alguém, bem como a necessidade humana de apoio para a organização temporal, social e psicológica – que deve ser desenvolvida em si, mas, a partir do outro – pode ser trabalhada em um processo terapêutico que leva em conta as necessidades intrafamiliares, a partir da compreensão empática. Isto porque, o terapeuta facilita ao grupo familiar, a interpretação das diferentes vivências e das necessidades de cada um.

Em relação aos referenciais que podem influenciar o indivíduo, podemos afirmar que, o enriquecimento familiar proporcionado pela aceitação dos papeis familiares e do valor de cada pessoa, pode promover condições para que cada membro do grupo torne-se referencial um para o outro, e assim, não haja mais a necessidade de busca de referenciais, mas, a potencialidade de ser referencial.

A compreensão de que as dificuldades devem ser aceitas e trabalhadas pela família – mesmo que num primeiro momento uma única pessoa busque o terapeuta e, posteriormente, o grupo se permita ser auxiliado – funciona como ferramenta de apoio contra a ideia de buscar soluções rápidas para os problemas em comprimidos ou ações emergenciais – ação esta que funciona como fator de risco para o desenvolvimento da dependência e codependência química.

A aplicação do MINI utilizada neste trabalho contribui para que os esforços no sentido de auxilio do tratamento dos dependentes tenham uma base mais concreta, a partir de interpretações gráficas sobre a direção e velocidade com que a dependência química está se desenvolvendo no país.

Além disso, o resultado da aplicação do MINI confirma argumentos apresentados por pesquisadores da área, sobre as características dos usuários e suas relações sócio familiares e isso confirma a necessidade de um apoio terapêutico familiar e não individual. A atenção voltada para com a família possibilita que o grupo desenvolva um ambiente equilibrado entre as múltiplas relações intrafamiliares e diminui o risco de que algum dos integrantes do grupo torne-se dependente químico ou mantenha-se em uso de substâncias químicas, como tentativa de refugiar-se de atritos e colusões.

Assim, a avaliação do genograma e a observância de possíveis farmacologias utilizadas em meio ao processo terapêutico devem ser observadas com cuidado, para que o terapeuta não deixe de perceber o quanto as identificações de família, realizadas por meio do genograma, ou os efeitos dos medicamentos, que por ventura o dependente esteja utilizando, interfiram nas ações do aconselhando, seja positivamente ou negativamente, de modo a afetar as intervenções do terapeuta.

É possível perceber o quanto os instrumentos de avaliação psicológica podem ser úteis para o desenvolvimento de uma intervenção eficaz, a partir da visão mais adequada do problema característico do indivíduo, grupo ou patologia específica.

Mas é importante lembrar que, para que a entrevista psicológica tenha resultados adequados, não basta à compreensão ou domínio teórico de utilização deste instrumento de avaliação. É imprescindível que o profissional tenha adquirido sensibilidade adequada para observação do paciente, seja através de estágio, supervisão, laboratório ou oficinas.

É necessário desenvolver sensibilidade e empatia, saber lidar com a própria subjetividade e com a subjetividade do outro (entrevistando). O entrevistador deve ser capaz de adentrar esse universo, sem juízo de valor, sem preconceito, para que assim possa estar com o outro, conhecer, não temer, se perder e se achar e, finalmente, voltar à realidade do contexto. E assim construir suas observações, ponderações e considerações, de modo mais neutro possível.

Assim, é possível perceber a presença de comorbidades psiquiátricas associadas à dependência de substâncias psicoativas e identificar a frequência em que ocorrem, bem como alguns dos sintomas que aparecem associados de forma especial a estas patologias, como sintomas de ansiedade e depressão.

A presença de transtornos psiquiátricos torna-se um dos fatores que compromete efeito do tratamento com pacientes dependentes químicos. Por isso, o diagnóstico apropriado desses transtornos associados pode proporcionar intervenções terapêuticas mais adequadas na interrupção da conduta de consumo de substâncias, amortecendo a ocorrência de recaídas e proporcionando melhora no funcionamento social e familiar.

Em relação às perspectivas religiosas que atuam como ferramenta de ajuda, notamos que alguns casos, a ligação entre as linhas religiosas e psicológicas de orientação ficam evidentes – como no caso da psicanálise e da cura do passado, onde se percebe a influência da psicanálise na vida do fundador da cura do passado. Em outros, essa ligação não fica tão clara, porém, pode ser percebido ante a semelhança no desenvolvimento de técnicas e mesmo na maneira como compreende o problema e pessoa ou cliente, como no caso do pessoalismo e o aconselhamento cristão.

A semelhança ocorre até mesmo no sentido em que a orientação é desenvolvida, ou seja, diretiva ou não, como no caso do behaviorismo e do aconselhamento bíblico, ambos diretivos, determinantes.

Diante disso, podemos afirmar que as linhas de aconselhamento e orientação relacionadas, podem ser apresentadas como estruturas ou processos da relação de ajuda, que, independente de serem psicologias, ou simplesmente terem influências psicológicas, atuam em direção à necessidade humana de apoio e orientação.

Pode-se dizer que a abordagem centrada na pessoa é uma ferramenta particularmente adequada para o cuidado com o dependente químico, porque considera a questão de maior significado para o indivíduo fragilizado e suscetível ao abuso do uso de drogas: a autoestima construída a partir do autoconhecimento, proporcionado pela compreensão empática do terapeuta.

A postura desenvolvida por Rogers, para auxiliar o ser humano em seu crescimento e enriquecimento, a partir das potencialidades intrínsecas, favorece para que o indivíduo se resolva sem necessitar de referenciais externos ou de condições sociais específicas, mas a partir daquilo que já existe dentro do ser e que, no caso do dependente químico, havia sido fragilizado ou momentaneamente impedido de se desenvolver.

Um diferencial desta abordagem está no fato de que, enquanto a mudança ocasionada por uma motivação externa pode ser revertida de acordo com futuras circunstâncias adversas, as alterações de comportamento, geradas por questões internas de auto compreensão, não ficam sujeitas as intempéries sociais ou crises de ordens familiares.

A segurança advinda dessa nova postura, além de proporcionar capacidade para superar adversidades, gera a motivação necessária para continuar se desenvolvendo e se enriquecendo por meio de novas compreensões, geradas a partir de novas vivências, formando um círculo eterno de compreensão e crescimento.

E esse movimento constante de vivência que leva à compreensão e compreensão que leva à vivência, forma uma estrutura de segurança para que o indivíduo não tenha necessidade futura de buscar refúgio em substâncias que produzem alívio passageiro das sensações sem, contudo, resolver o verdadeiro problema.

Logo, é perceptível que a abordagem centrada na pessoa realmente pode alcançar resultados extremamente positivos no acompanhamento para com dependentes e codependentes químicos, tornando-se um possível caminho de apoio. Seja unicamente pelos trilhos da psicologia, seja acompanhada pelo aconselhamento cristão.

Este trabalho pretende observar a estrutura da dependência química, a configuração da atuação psicológica de ajuda ao dependente químico, bem como a possibilidade da contribuição religiosa, junto a abordagens psicológicas de apoio e orientação ao dependente químico e codependentes. Para isso apresentamos as características da pessoa enquanto ser humano e suas fragilidades. Fazemos um breve comentário acerca da pessoa enquanto Ser Dependente e pontuações sobre o processo de desenvolvimento e instalação da dependência química. Realizamos pontuações sobre a dependência química no que diz respeito a características socioculturais e familiares, além de fatores de risco para o abuso do uso de substâncias químicas. Apresentamos um breve histórico do desenvolvimento e validade do instrumento de avaliação psicológica, MINI, e da entrevista psicológica, acompanhado pelos teóricos mais reconhecidos nesse processo, que auxiliam no diagnóstico e orientação do processo terapêutico. Além da apresentação de características e especificidades de algumas abordagens psicológicas. Devido ao fato do tratamento a dependentes químicos no Brasil (por meio de comunidades terapêuticas) apresentar quase sempre uma perspectiva religiosa, pontuou-se sobre algumas linhas de aconselhamento psicológico, relacionando-os com processos de orientação cristã, na intenção de reconhecer as semelhanças básicas destes processos de ajuda, por meio da apresentação de idéias mais conhecidas da psicanálise, do behaviorismo, da logoterapia e do pessoalismo (ACP), seguidas da apresentação das orientações cristãs de cura do passado, aconselhamento pastoral, aconselhamento bíblico e aconselhamento cristão. Após a breve apresentação de cada orientação relacionada, são realizadas considerações sobre algumas das semelhanças encontradas. Por fim, apresentamos um breve relato sobre o processo terapêutico centrado na família e a compreensão sistêmica do processo terapêutico, bem como seus aspectos e alvos mais conhecidos. E seguimos com considerações sobre a funcionalidade das perspectivas terapêuticas centradas na família, quando relacionadas especificamente no trato de famílias compostas por dependentes químicos.

Palavras chave: Psicologia, Religião, Dependência Química.

Introdução

A proposta deste trabalho é discutir aspectos relacionados à compreensão e estruturação do cuidado ao dependente químico. Pode-se afirmar que o problema referente a este cuidado está relacionado a uma questão básica: “A psicologia pode considerar a religião como contribuinte no processo de recuperação de dependentes químicos?” Acredita-se que a metodologia mais adequada para desenvolver essa análise é a comparação entre algumas das orientações religiosas e psicológicas mais reconhecidas, na tentativa de entender as semelhanças dos processos.

Esse questionamento ocorre devido ao fato de que a dependência química é uma realidade conflituosa da modernidade tardia [01], não apenas em grupos específicos, mas, em toda a sociedade, inclusive na igreja. Assim, por vezes, líderes religiosos acabam por intervir em meio ao processo de apoio a dependentes químicos, através de casas de recuperação mantidas por igrejas.

Por isso, é comum perceber alterações religiosas intensas em dependentes internados em comunidades terapêuticas. Essas alterações merecem atenção especial, porque, o dependente químico, em tratamento, apresenta dificuldades com a ansiedade, depressão, ondas de alegria ou tristeza repentina, sensibilidade às palavras, conflitos de interesses, insegurança, desconfiança, dentre outras situações concernentes, a transição de um mundo ilusório, gerado gradativamente pelas sensações produzidas por drogas a uma realidade de fatos e obstáculos que devem ser enfrentados e vencidos de maneira responsável, ética e racional. O indivíduo parece apresentar dificuldades em manter sua estabilidade em múltiplas situações adversas, ou diante de algum tipo de pressão com a qual não esteja acostumado e, como tentativa momentânea de aliviar a tensão, recorre a drogas que produzam bem estar ou alívio. Lidar com o dependente e ajudá-lo a resolver seus problemas de adequação e sentido para a vida não é tarefa fácil e percebe-se que muitas comunidades eclesiásticas não sabem como trabalhar com a dependência.

Essa pesquisa é justificada por um fato específico. Não é difícil perceber que em alguns grupos religiosos o dependente químico é visto como alguém possesso, que precisa apenas afirmar-se convertido à determinada religião para ser liberto do mal e em consequência ficar livre das drogas.

Muitos fazem esta declaração de fé enquanto experienciadores de um processo catártico em meio a um culto religioso. Essa catarse proporciona prazer e, quando o período de prazer passa e o indivíduo se depara com as dificuldades naturais, sem um acompanhamento ou apoio, ele volta ao uso das drogas com um agravante, a cobrança da comunidade religiosa. O usuário passa a ser visto como alguém que ainda não foi liberto e precisa de oração, ou como uma pessoa que despreza o poder de divino manifestado sobre ela, no entanto, essa maneira de perceber o usuário, não apenas é errada, mas, prejudicial ao verdadeiro processo de ajuda e crescimento que esta pessoa necessita.

Considerando os fatos citados, pode-se dizer que há uma necessidade de um trabalho contínuo, um acompanhamento que produza uma compreensão real da dependência química e das limitações próprias, bem como da busca por crescimento pessoal e autovalorização, identificando e tratando as especificidades humanas de relacionamentos.

São objetivos desse trabalho: pontuar sobre as principais causas para a dependência, identificar as características dos dependentes químicos, analisar os tipos, as reações e os prováveis níveis de dependência gerados por substâncias químicas e reiterar a necessidade de um acompanhamento psicológico que se interesse pelo aconselhamento qualitativo no trato do dependente químico juntamente com possíveis processos de ajuda religioso oriundos de ações psicológicas.

Na tentativa de alcançar o objetivo citado, foi realizada uma pesquisa bibliográfica, acrescidas de consulta a documentos virtuais, além da utilização de um genograma organizado a partir da família de um dependente químico [02].

O trabalho é composto por um texto organizado em três capítulos, além da introdução e conclusão. Inicialmente são destacadas características acerca da dependência. Nota-se questões referentes às necessidades básicas do ser humano, quanto ao relacionamento com autoridade, busca de orientação e prazer como resposta à orientação, das quais o indivíduo é naturalmente dependente. Esses fatores podem estar relacionados à dinâmica de vida na modernidade, portanto, a mesma é apontada como um dos fatores de risco para o abuso do uso de drogas. A atualidade é marcada por inconstâncias e múltiplas compreensões de certo ou errado, o que dificulta o estabelecimento de padrões, limites e valores socioculturais e espirituais, e isso gera no indivíduo uma situação de fragilidade e insegurança que o conduz à possibilidade de se tornar usuário de drogas e provável dependente químico.

No primeiro capítulo o dependente é apresentado como ser humano fragilizado em questões psicológicas, sociais, orgânicas e espirituais, fragilidade essa, que conduz a ações de fuga da realidade e de busca de sentido para viver. Nessa fuga da realidade ou busca de sentido, destaca-se a representatividade das drogas na vida do usuário. Contudo, os efeitos de diversas drogas contribuem para que esse indivíduo permaneça preso num círculo vicioso que gira em torno da ausência e busca de prazer e sentido para vida, de modo que essa fuga e/ou busca nunca terminam.

O segundo capítulo destaca as características da avaliação psicológica em meio à dependência química. Isto, a partir da apresentação do instrumento de avaliação MINI – que foi validado no Brasil e é largamente utilizado para mensurar gravidade e intensidade do abuso do uso de substâncias psicoativas – a partir de uma aplicação realizada por Silva. Além disso, a intervenção psicológica é apresenta por meio da informação sobre o processo da entrevista psicológica, acompanhado por orientações de possíveis problemas para a execução do procedimento e as diferenças do processo em psicoterapias breves.

Para concluir, foram trabalhadas diferentes abordagens psicológicas de acompanhamento, seguidas por comparações para com as perspectivas religiosas de orientação mais conhecidas, tendo em vista o aspecto terapêutico dos sistemas. O trabalho é fechado com a explanação mais detalhada sobre o procedimento psicológico humanista de Carl Rogers, denominado ACP (Abordagem Centrada na Pessoa), que considera todas as vivências – inclusive as vivências religiosas – como ferramenta essencial para o desenvolvimento do chamado empoderamento de si. Estado necessário para o crescimento e cura do indivíduo.

A relevância da pesquisa está relacionada às proporções alcançadas pelo abuso do uso de drogas, que reflete diretamente no desenvolvimento e manutenção da situação de dependência química do ser humano na atualidade, e, do aumento numérico desordenado de comunidades terapêuticas religiosas, que desenvolvem trabalhos variados, com resultados incertos; o que pode proporcionar uma situação agravante quanto à identificação adequada da expansão e controle da doença no Brasil.

1 Dependência Química

Ao considerarmos a modernidade como período marcado pela carência de referenciais, o que gera instabilidade, ausência de rumo e de princípios de autoridade para o indivíduo, podemos afirmar que o ser humano é afetado pelas características desse tempo histórico, tanto emocionalmente quanto na maneira de agir, compreender e valorizar as pessoas, situações e coisas (SAFRA, 2005, p.7).

Tal mudança no modo de agir se deve, segundo Frankl, ao vazio existencial que também é proveniente da atualidade e sua falta de referenciais (FRANKL, 1987, p.123). O que dá sentido a vida é entendê-la enquanto missão individual, ou seja, cada pessoa deve considerar que existe um sentido para a vida do indivíduo e não um sentido para a vida de modo geral (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.19).

A busca de sentido específico para a vida do indivíduo o conduz a compreensão de um trabalho pessoal a ser executado, e este trabalho, tarefa ou missão, não apenas traz sentido a vida, mas serve de estímulo para que o ser humano vença as dificuldades advindas dessa tarefa (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.19).

Frankl afirma ainda que, na busca pela conclusão dessa missão específica, o sofrimento é quase inevitável, mas, diante do sofrimento, o ser humano tem a oportunidade de se transformar naquilo que quiser, e que tem, em si, potencial para ser bom ou ruim, precisando apenas escolher no que quer se tornar. O indivíduo apresenta uma perspectiva de autoridade ou poder sobre si mesmo, que atua a partir de valores criadores, vivenciais, e de atitudes (FRANKL, 1987, p.149).

Os valores são criadores quando se referem a habilidades criativas, intelectuais ou artísticas, são vivenciais, porque dizem respeito à relação com a natureza, com o outro e com Deus, e os valores de atitudes, por sua vez, referem-se à decisão pela ação adequada ante um sofrimento que não se pode evitar (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.20).

Além disso, percebe-se que o sofrimento apresenta um aspecto positivo referente à avaliação ou descoberta sobre o sentido da vida, pois, “a preocupação ou mesmo o desespero da pessoa sobre se a sua vida vale a pena ser vivida é uma angústia existencial” (FRANKL, 1987, p.120) e essa angústia conduz o indivíduo à busca de uma razão pela qual viver, ou seja, quem tem sentido para viver, encontra forças para suportar quase toda e qualquer situação ou adversidade, de modo que o ser humano é capaz de viver e até morrer por seus ideais e valores (FRANKL, 1987, p.117).

Notamos que, no sofrimento, o indivíduo tem também a oportunidade de descobrir ou confirmar sua missão específica e colocá-la em prática por meio de habilidades criativas, experiências de vida e atitudes decisivas (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.20). Quando isso não ocorre, pode-se dizer que a pessoa desistiu de encontrar o sentido de sua vida, ou se deixou levar pelo racionalismo, cientificismo e ativismo moderno, que não oferecem tempo ou condições para que o ser humano trabalhe a partir do sentido de suas atividades (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p. 26-27).

Libânio amplia a posição de Frankl, quando afirma que só é possível encontrar sentido para vida inserido em um grupo ou contexto social que estabeleça condutas, mesmo que estas sejam questionadas, pois, limites estabelecidos norteiam decisões e auxiliam na formação de identidade biológica, familiar, afetiva e social (LIBÂNIO, 2004, p.22). Ou seja, é a partir do meio social que o indivíduo desenvolve e experimenta conflitos, e é nesse contexto que ele deve aprender a vencê-los.

Assim, podemos entender que o usuário de drogas vive uma situação de vazio existencial, que o induz à busca por um sentido de vida que lhe dê forças para suportar as adversidades.

Essa busca de sentido possibilita que o ser humano encontre e experimente substâncias químicas, que, inicialmente, respondem à busca desorientada por prazer e segurança, porém, posteriormente fragilizam-no emocionalmente, tornando-o mais suscetível à dependência química.

1.1 Pessoa enquanto SER dependente químico

Carmo afirma que alguns dos fatores de risco para o abuso do uso de drogas, segundo a Organização Mundial de Saúde, são a falta de informação acerca dos efeitos das drogas, enfermidades gerais, insatisfação com a vida, personalidade fraca e fácil acesso às drogas (CARMO, 2000, p. 143).

A relação de dependência enquanto necessidade de prazer inerente ao ser humano, às influências da modernidade para o desenvolvimento da dependência química, devido à crise de identidade, de sentido e valores existenciais, e a ausência de informação ou educação adequadas acerca do uso, abuso e efeitos gerados pelas drogas, favorece a formação de um indivíduo propício ao uso indiscriminado de substâncias, das quais, muitas vezes, não tem controle. O uso dessas substâncias gera dificuldades no desenvolvimento das relações, além de danos fisiológicos no indivíduo.

Giddens afirma que, geralmente, as pessoas se tornam dependentes químicos, devido à ausência de um acompanhamento dentro de padrões de desenvolvimento natural do ser humano, em que um aprende com o outro a aceitar o mundo real como real e adquirir segurança a partir da confiança estabelecida nas primeiras relações humanas (GIDDENS apud BESSA, 2005, p.44).

Afirma ainda que, as pessoas sofrem influências do meio social em que estão inseridas, e essas influências refletem em suas questões relacionais, sejam no trato da segurança ou insegurança, submissão ou prepotência, satisfação ou insatisfação. E isso, porque a modernidade foge a este padrão de desenvolvimento recusando o relacionamento interpessoal, e, com isso produzem-se a exclusão e a marginalização (GIDDENS apud BESSA, 2005, p.44).

A marginalização deteriora a estrutura do ser humano, minimiza as possibilidades de que o indivíduo adquira bons referenciais, torna-o acessível ao conhecimento, administração e uso da droga e amplia a necessidade de busca de prazer devido à sensação de abandono causada pela marginalidade (SCHMIDT, 1976, p.25).

No que diz respeito ao ser humano enquanto necessitado de referenciais sociais, a atualidade apresenta duas características negativas: a carência de bons referenciais e o marketingda droga.

Sobre os referenciais, podemos afirmar que há uma desvalorização dos relacionamentos interpessoais e das preocupações com limites e ordem, além de um esforço em busca da liberdade e de relações convenientes e utilitaristas, logo, não há uma preocupação ou desejo no indivíduo de se tornar referencial ou exemplo para o outro, e sim, a expectativa de que esteoutro seja referencial para o indivíduo (ROUANET, 1987, p.233, 236).

Quanto ao marketing da droga, importa ressaltar que as propagandas, sejam a favor ou contra o uso indiscriminado de drogas, aumentam a curiosidade dos que veem e isto funciona como facilitador para que mais pessoas procurem experimentar drogas tornando-se possíveis dependentes químicos (LIBÂNIO, 2004, p.159).

Os indivíduos que se tornam usuários de drogas são, geralmente, pessoas que não conseguem administrar bem circunstâncias de conflito, pressão ou rejeição naturais no processo de ascensão e reconhecimento social. São pessoas que não têm ou não sabem como se manter diante dessas dificuldades e por isso, recorrem a substâncias que lhes proporcionem um período de estabilidade e segurança, que, mesmo sendo ilusória, causa a sensação de alívio que o usuário deseja (LEON, 2003, p. 39).

1.2 Característica dependente

No que diz respeito à dependência química, podemos falar que as perspectivas alcançam várias interpretações. Uma delas está associada à situação de sujeição de uma pessoa em relação à outra, de modo que o dependente ocupe a postura de submissão ou se sinta parte de algo, de alguém ou de uma situação (AULETE, 1964, p. 1090).

Uma segunda visão considera a característica natural de dependência do ser humano, a partir da necessidade de organização temporal, espacial, psicológica e também de personalidade, que é inerente ao indivíduo desde a mais tenra idade, e que, só pode ser constituída a partir de referenciais externos, ou seja, a presença de alguém que se torna referencial junto a esse processo (SAFRA, 2005, p. 7).

Em terceiro lugar, existem afirmativas a favor da ideia de que a modernidade tardia atua como motivador de uma conduta que contribui para com o surgimento e desenvolvimento da dependência química. Conforme Rouanet, a atração ou sedução das coisas sobre as pessoas é uma marca da modernidade que influencia no modo de agir e na construção ou desconstrução de valores do mesmo (ROUANET, 1987, p. 233).

A psicóloga Daniela Bessa reforça a compreensão de Rouanet e afirma que o ser humano deseja conquistar status e reconhecimento, seja social e/ou familiar, através da aquisição de bens, mesmo que por meio disso, aconteçam perdas significativas no desenvolvimento de relações profundas e verdadeiras, seja com as pessoas ou mesmo com Deus (BESSA, 2002, p. 31).

Portanto, podemos compreender a dependência química como relação de sujeição, bem como de referência e de sedução. O dependente é a pessoa que se submete a qualquer coisa que lhe pareça importante ou que lhe cause medo, e, a partir disso, passa a seguir os exemplos ou as referências daquilo que se tornou o alvo das expectativas do indivíduo, de modo que este pode se deixar conduzir pela sensação de sedução de tudo o que lhe afeta os sentidos e as emoções (MOREIRA JR, 2011, p.78).

Logo, podemos entender que a dependência química é desenvolvida de acordo com o lugar que as drogas ocupam na vida das pessoas. Assim, o indivíduo pode: se sujeitar à dominação física gerada pela substância; adquirir comportamentos comuns às pessoas que se tornaram referenciais – como o grupo de amigos; e até mesmo, se abandonar ante a sedução causada pelas ilusões proporcionadas por meio das drogas.

1.3 Fatores de risco

É perceptível que algumas situações favorecem para o desenvolvimento e manutenção de situações de dependência química. Alguns dos fatores que são encontrados nos âmbitos sociais e familiares, são características comuns à modernidade.

Benedicto afirma que existe na modernidade um vício pela busca de soluções rápidas e que uma das provas disso é a utilização excessiva de medicamentos, mesmo sem orientação médica. As pessoas de modo geral, acreditam que as drogas – lícitas – resolvem praticamente tudo: da mais simples dor de cabeça, até dificuldades para com estresse e depressão. Esta crença auxilia na modificação da conduta do indivíduo ante as situações de crise e dor, de modo que, este, passa a entender que pode encontrar respostas para seus problemas em comprimidos. Deste modo, acontece a familiarização e facilidade para administração de drogas gerais, o que favorece para que o indivíduo desenvolva um caráter vicioso e possa vir a se tornar um dependente químico, porque os remédios passam a ser vistos como mais fortes que as pessoas (BENEDICTO, 2007, p. 17).

Um agravante pode ser encontrado ao considerar a visão de Nouwen, pois, este afirma que, a sociedade não tem representante ou líderes de modo geral, que sejam exemplos. Isso dificulta a construção social e o crescimento da individualidade constituída a partir de um referencial positivo. Assim, cada pessoa tende a ser seu próprio referencial tornando-se interiorizada e vazia. Ante a isso, os referenciais de grupo ganham força, e, portanto, a dificuldade de exemplos gerais pode se tornar facilitador para que indivíduo comece a seguir os padrões de comportamento do grupo onde estiver inserido e a utilização de drogas pode ser um destes hábitos (NOUWEN apud BESSA, 2005, p. 43).

A perspectiva do prazer também está relacionada como fator de risco. Conforme Freud, o desejo natural de busca do prazer, pode ser motivador para a utilização de drogas. Isso, porque Freud considera a relação funcional da masturbação com a utilização de drogas, ao entender que ambas as situações de prazer são desenvolvidas e manipuladas pelo usuário, em busca de satisfação pessoal e intensa, sem preocupação para com o outro (FREUD apud MARZANO, 2007).

O psiquiatra Eduardo Kalina reforça esta perspectiva quando afirma que o erotismo oral é constante e intenso, durante toda a vida do ser humano e que está particularmente presente nos casos de drogadicção, mesmo quando a substância não é ingerida pela boca. Assim, é mais fácil entender porque algumas pessoas sentem-se seduzidas ao uso contínuo de drogas, mesmo que o prazer seja momentâneo e ilusório (KALINA, 1983, p. 29).

Além disso, percebemos que alguns fatores de risco estão diretamente relacionados às perspectivas familiares (LEITE, 2005, p.40). Dentre as quais, podemos destacar: o nível do envolvimento afetivo dos pais em relação aos filhos; a estrutura hierárquica constituída no âmbito familiar; e o contexto doméstico, ou seja, o fato de os pais fazerem, ou não, uso abusivo de substâncias químicas (HUTZ, 2007, p. 174, 175).

Isto é importante porque quando se fala em violência familiar, por mais causas que possam existir, geralmente podemos dividir em duas grandes áreas: as questões intrafamiliares, ou seja, os relacionamentos de modo geral; e os sociais, dentre os quais se encontram o abuso do uso de substâncias químicas, comportamento considerado comum atualmente (ZAMPIERI, 2004, p.65).

1.4 Farmacologia da dependência

Drogas são substâncias naturais ou sintéticas, que agem diretamente no organismo, modificando suas funções e proporcionando prazer momentâneo (Cf. BENEDICTO, 2007. p. 17).

Considerando que a variedade de drogas de que se têm informações é muito ampla, serão destacados alguns tipos mais comuns, organizados por classes. As drogas geralmente são classificadas como: narcóticos, depressores do sistema nervoso central, estimulantes e alucinógenos.

Os narcóticos, também chamados de entorpecentes, são muito usados na medicina devido ao caráter anestésico de seu princípio ativo. Nessa classificação destacam-se: a morfina, a codeína, a meperidina, e metadona. O ópio e a heroína fazem parte da família dos narcóticos, porém, não são utilizados com fins medicinais (Cf. SANCHEZ, 1982).

Os depressores do sistema nervoso central apresentam sintomas semelhantes à embriaguez. Dentre eles estão: os barbitúricos, remédios mais conhecidos como Gardenal, Vagostencil e Desbutal; a metaqualona, também conhecida como Mesqualon ou Mandrix; tranquilizantes menores, vendidos como Valium, Diempax, Apraz, Frontal, Psicossedim, Rivoltril, Dorminid, Lexotan, Somalium e antidistônicos; solventes, como aguarrás e colas diversas, vendidas em casas de construção; éter e clorofórmio, usado para amenizar as dores de parto até o início do século XX (Cf. MACHADO, 2004).

Dentre os estimulantes, destacam-se: a cocaína, utilizada na oftalmologia no século XIX e com finalidade terapêutica no século XX, tornando-se proibida nos EUA em 1914 (Cf. MACHADO, 2004); o crack, uma forma impura da cocaína; a efedrina, mais conhecida como Rinosteg, descongestionante nasal; anfetaminas, Hipofagin e Moderex, remédios comumente usados por anoréxicos, comprados como Pervitin, Dexedrina e Desbutal que ajudam a controlar o apetite (Cf. MURAD, 1994, p. 59).

Os alucinógenos também são chamados de psicodislépticos. Os mais conhecidos são: LSD, Mescalina, Trixipheidyl, conhecido como Artane e Akineton, que pode ser utilizado contra mal de Parkinson – para PRZEDKORSKI (2002, p. 596), os efeitos do mal de Parkinson podem ser reduzidos com o uso de depressores – e a cannabis sativa, chamada de “alucinógeno menor”, conhecida como maconha ou marijuana (Cf. MACHADO, 2004).

O uso de cada uma destas substâncias altera o comportamento e o funcionamento do corpo do usuário de modo diferente, dependendo do tipo de droga utilizada.

Inicialmente, os efeitos não são muito aparentes, mas, com o uso contínuo, o indivíduo passa a apresentar sinais sociais, emocionais e orgânicos, que indicam não apenas o uso de drogas, mas instalação da dependência, além da necessidade de um cuidado específico.

As questões orgânicas ou fisiológicas são mais perceptíveis diante do uso contínuo de drogas, mesmo que já existam a partir da primeira dose administrada. Cada tipo de substância apresenta um risco específico, por isso as questões serão abordadas a partir das classes já apresentadas, com um destaque para os efeitos dos inalantes.

As pessoas sob a ação dos narcóticos apresentam uma contração acentuada da pupila que pode ficar tão pequena quanto à cabeça de um alfinete. Pode ocorrer paresia – diferente de paralisia, o termo paresia indica uma parada momentânea de órgãos ou tecidos (Cf. ROWLAND, 2002, p. 34) – estomacal e sensação de estômago cheio, como se não tivesse condição de realizar a digestão. Os intestinos também ficam sujeitos à paresia e, em consequência, a pessoa que abusa destas substâncias geralmente apresenta forte prisão de ventre. Com base neste efeito é que os opiáceos são utilizados para combater as diarreias (DEPARTAMENTO DE PSICOBIOLOGIA, 2007).

Os depressores aumentam as chances de adquirir lesão cerebral, parkinsonismo, cegueira, disfunção renal, disfunção do fígado e insuficiência respiratória, além de promoverem alterações psicológicas (Cf. MACHADO, 2004).

De modo geral, os estimulantes podem causar psicoses, alucinações, impotência, doenças no pulmão, estômago, bexiga, alterações hormonais, pressão alta e até morte súbita (Cf. MACHADO, 2004).

Os alucinógenos têm maior possibilidade de levar à perda de memória, dificuldade de capacidade produtiva -baixo tônus vital, desânimo, cansaço, etc. -, alterações de ordem motora, aumento do risco de infecções, problemas de infertilidade e potência, maiores possibilidades de câncer e aborto, além de cansaço e alterações psicológicas que podem levar ao pânico e até suicídio (Cf. LEMOS, 2007, p. 22).

No caso da maconha, há alterações da percepção temporal e da memória recente, como também aumento do apetite e diminuição do desempenho para tarefas do cotidiano (Cf. JAFFE, 1981, p. 71-72).

Os inalantes produzem reações orgânicas típicas como tosse, irritação no nariz e nos olhos, náusea, vômito, diarréia, dor no peito, dor nas juntas, visão dupla, sensibilidade à luz e até perda de apetite (Cf. JAFFE, 1981, p. 51).

Parece estranho que, diante de reações orgânicas tão agressivas, uma pessoa possa se tornar um dependente químico. Porém, deve-se destacar que essas reações ocorrem gradativamente, de modo que o usuário experimente inicialmente a euforia, relaxamento e prazer que as drogas proporcionam (Cf. VIANA, 2004).

1.5 Reações e níveis de dependência

Os efeitos de cada uma das substâncias químicas utilizadas pelo dependente podem variar de caso a caso, de acordo com a saúde do indivíduo, o quanto ele utiliza, o tipo de droga escolhida, como é administrada: se pela boca, se inalada ou injetada, e do ambiente sociocultural em que ele se encontra. Logo, os efeitos aqui apresentados são prováveis, e como realizado anteriormente, serão apresentados divididos por classes.

Os narcóticos, de modo geral, causam um nível alto de dependência psíquica e física. Considerando a atuação fisiológica dos narcóticos e observando a conduta de diversos usuários, nota-se que não há um comportamento aparentemente agressivo do indivíduo que utiliza tais substâncias, desde que este não seja provocado ou induzido (DEPARTAMENTO DE PSICOBIOLOGIA, 2007). Geralmente os derivados do ópio causam sensações de exaltação, aumento de energia ou euforia, porém, o uso frequente gera uma tolerância aos efeitos, o que faz necessário um aumento na quantidade de droga administrada, bem como a redução dos espaços de tempo entre uma dose e outra na tentativa de alcançar a sensação desejada (Cf. JAFFE, 1981, p. 32).

As drogas depressoras do sistema nervoso central são hipnóticas, sedativas e anti-convulsivas. São indicadas no tratamento de pânico, ansiedade, insônia e dor crônica. Agem como relaxante muscular e geralmente diminuem a censura, mas podem provocar angústia e uma dependência de alta a média, tanto psíquica quanto física (Cf. MACHADO, 2004; SANCHEZ, 1982).

Normalmente, os estimulantes aliviam a fadiga e despertam a pessoa, provocando sensação de alerta. Em geral, criam alta dependência psíquica e uma possibilidade de dependência física. Vários são os efeitos produzidos pelos estimulantes: sensação de melhora do funcionamento cognitivo, ansiedade, infatigabilidade, dentre outros. A utilização excessiva ocorre devido a dois efeitos marcantes dessas drogas: a euforia e a perda de apetite, por isso, boa parte dos usuários são anoréxicos, o que fez alguns desses medicamentos ficarem conhecidos como “remedinhos para emagrecer” (Cf. MACHADO, 2004; SANCHEZ, 1982).

No que diz respeito às substâncias alucinógenas, pode-se afirmar que provocam reações semelhantes a psicoses, desde delírios a perda parcial ou total de percepção da realidade. Essas substâncias não causam dependência física e o grau de alcance psicológico é desconhecido. Dentre estas drogas, destaca-se a maconha, que relaxa, produz sensação de bem estar e vermelhidão nos olhos, induz, na maioria das vezes a ações extrovertidas, mas pode gerar o desejo de isolamento e reflexão, bem como ansiedade ou pânico. A maconha gera uma dependência psíquica moderada (Cf. MACHADO, 2004; SANCHEZ, 1982).

Dentre outros efeitos causados pelos diversos tipos de drogas, podem-se relacionar questões emocionais e situações orgânicas do usuário de drogas.

As características emocionais produzidos pelas drogas também podem variar de indivíduo para indivíduo. Cada substância proporciona uma reação diferente de uma pessoa para outra e o contexto do usuário faz diferença no modo de ação da droga.

Porém, de modo geral, destacam-se alterações no pensamento, perda de memória, ações psicóticas, como suspeita de estar sendo seguido ou de que outros estejam falando e conspirando contra eles, comportamento inconstante e incoerente, irritação, e até excitação sexual persistente (Cf. JAFFE, 1981, p. 32-33).

Outras características que podem ser observadas são a perda da distinção entre o certo e o errado, padrões éticos e morais deturpados, dificuldade em discernir entre o real e o ilusório, sensibilidade extrema a palavras e ações, e baixa autoestima (Cf. VIANA, 2004).

Nota-se que os efeitos das substâncias químicas afetam diretamente a sensação de segurança, de direção e prazer: segurança, porque afetam a estabilidade psicológica e deixam o usuário em expectativa de perseguição; direção, porque deturpam os conceitos e limites sociais; e prazer, porque invadem as experiências naturais do indivíduo, modificando-as até no trato sexual.

Logo, a dependência é apresentada como relação de sujeição, referência e sedução, ou seja, o dependente é aquele que se submete a algo que lhe parece maior, mais significativo, ou que lhe proporcione medo. Desse algo ou alguém, o dependente segue o exemplo, as referências do que lhe chamam mais atenção ou lhe parecem mais importante, ou se deixa levar pela sedução daquilo que lhe afeta e envolve seus sentidos e emoções.

A partir disso, pode-se dizer que a dependência química está relacionada ao lugar que as drogas ocupam na vida do individuo. De modo que este pode sujeitar-se ao domínio orgânico da substância, ter os padrões do grupo como referenciais, ou mesmo se deixar seduzir pela viagem ou pelo mundo apresentado a ele por meio das drogas.  De modo especial, percebe-se que há um diferencial no comportamento desta geração que favorece para que a dependência química seja cada vez mais comum.

1.6 Genograma: família, fator de risco e de proteção para o dependente

O genograma é uma ferramenta essencial para acompanhamento de famílias. A partir da construção e interpretação do genograma é possível avaliar o contexto perceber as melhores formas de intervenção de acordo com o comportamento da família avaliada, para que no momento oportuno, as impressões percebidas por meio do genograma sejam apresentadas ao sistema familiar.

A coleta de informações para a composição do genograma deve alcançar ao menos três gerações. O sistema utiliza regras particulares de simbologia, tanto em relação à estrutura familiar, quanto aos dados demográficos, clínicos e relacionais da família.

É indicado como modelo terapêutico de avaliação, em famílias que apresentem dificuldades com: 1) saúde materna; 2) saúde infantil; 3) problemas de desenvolvimento infantil; 4) dificuldades em relação ao trabalho; 5) doença crônica em algum elemento da família; 6) doença mental em algum indivíduo do sistema familiar; 7) morte de um familiar; 8) consumo de drogas; 9) suspeita de violência; 10) depressão ou ansiedade crônica; e 11) falta de adesão aos planos terapêuticos.

A importância do genograma para a atenção familiar está vinculada ao valor que o sistema familiar apresenta enquanto base de desenvolvimento social para o indivíduo. O modelo terapêutico em questão foi elaborado de modo a contemplar todo o ciclo de vida da família, desde a constituição do sistema, por meio do casamento, até a morte dos cônjuges.

O genograma pode ser desenhado pelo médico, paciente ou por contribuições de ambos, tendo início em uma consulta e deve ser construído a partir da composição e estrutura familiar, considerando o ciclo de vida, os padrões de repetição em gerações, além do equilíbrio e desequilíbrio familiar. Para a constituição deste modelo terapêutico é necessário a utilização de símbolos próprios (REBELO, 2007, p. 314).

A interpretação deve considerar resultados de exames médicos (eletrocardiogramas, por exemplo), existência ou não de padrões de repetição em diferentes gerações, além de observações do ciclo da vida familiar em questão, ou seja, é necessário considerar se a família é composta por recém-casados, se tem filhos adolescentes, etc (REBELO, 2007, p. 314).

Símbolos do genograma

Símbolos do genograma

O genograma surgiu em meio a buscas por compreensões de patologias de filhos em relação à mãe ou pai. Posteriormente a teoria da comunicação humana contribuiu por meio da percepção de incongruências na comunicação, seja verbal ou não verbal, além dos estudos realizados em famílias de esquizofrênicos, que auxiliaram no chamado duplo-vínculo, favorecendo no acompanhamento de filhos esquizofrênicos (PRADO, 2009, p. 233).

Houve um avanço do conhecimento sobre as causas da saúde e da doença psíquica, não apenas do indivíduo, mas, nas relações e interações de membros dos sistemas familiares, em direção diferente à dos modelos até então conhecidos, da perspectiva psicanalítica (PRADO, 2009).

Por um período, houve um destaque no trabalho que considerava a família tri geracional, ou seja, a ênfase da importância dos avôs na família.

A partir disso, a história da família ganha valor e as interações passadas são consideradas como influentes no comportamento dos pais e, portanto, afetam toda a vida familiar. Assim, toda a estrutura histórica da família, tudo o que foi construído no passado, como, abusos sexuais, violências, segredos de paternidade, adoções, mitos e crenças, etc., são avaliados como influenciadores na distorção das interações do tempo presente (PRADO, 2009, p236).

Os anos oitenta também contribuíram para a ampliação da perspectiva do genograma e da terapia sistêmica, pois, o movimento feminista impulsiona o desenvolvimento da terapia familiar feminista, valorizando diferenças de gênero e aspectos particulares do papel da mulher na sociedade, família e casamento (PRADO, 2009).

No entanto, todas as considerações, inclusive sobre as particularidades do papel da mulher, devem ser construídas no genograma em conjunto, terapeuta e família, devem buscar compor a história da família com todas as características e problemas que vierem à tona. (PRADO, 2009, p 237)

As alterações e complementos no processo terapêutico chegam ao ponto de influenciar pioneiros na orientação de família, como, Minuchin, ainda vivo, em sua nona década de vida, autor do livro Dominando a Terapia Familiar, publicado em 2008, considerado estruturalista, reconheceu novas visões pós-modernas e acrescentou ao seu próprio trabalho, a avaliação histórica da família (PRADO, 2009).

Outra alteração histórica que influencia no processo terapêutico de família, está relacionada ao sistema familiar contemporâneo, pois, a configuração de família atual é em maioria, composta por famílias de pais sozinhos em decorrência de divórcios, de nascimentos e adoções por pessoas não casadas, indivíduos criados por avós, grupos familiares de filhos de pais diferentes vivendo no mesmo ambiente devido à  casamentos de divorciados, grupos familiares constituídos por casais homossexuais, famílias que vivem em casas separadas, ou mesmo indivíduos que vivem só (PRADO, 2009).

A estrutura do genograma é constituída por uma imagem gráfica, um tipo de mapa e até desenho da família. Esse recurso é utilizado como ferramenta de apoio para um destravamento do sistema, por meio da observação das dificuldades familiares e dos padrões relacionais (WENDT & CREPALDI, 2008).

A avaliação desse mapa favorece para que o clínico examine as prováveis dificuldades e facilidades do eixo familiar. Assim, um dos trabalhos que se utilizam do genograma é na caracterização e cadastramento de grupos familiares, em órgãos públicos que lidam com auxílio à família (WENDT & CREPALDI, 2008).

Podemos dizer que o genograma é um “mapeamento gráfico da história e do padrão familiar”, onde podemos perceber: a) estrutura básica; b) demografia; e c) funcionamento e relacionamentos; que formam um gráfico dos dados coletados. O mapeamento expõe as etapas familiares através das gerações, além das estruturas emocionais associadas (WENDT & CREPALDI, 2008).

A função mais importante do genograma é cruzar dados familiares em momentos de avaliação, para acompanhamento adequado em meio aos processos relacionais em meio à terapia (WENDT & CREPALDI, 2008).

Para isso, as informações da família são organizadas em estrutura gráfica, para que se tenha uma visão mais clara da complexidade dos padrões de grupo. Supostamente, os membros do grupo são interdependentes, por mais que sejam idiossincráticos. Portanto, quando uma parte do sistema muda, todos os demais membros são afetados (WENDT & CREPALDI, 2008).

Através desse gráfico é possível identificar mitos e crenças que guiam e formam famílias por gerações, bem como sustentam rupturas de relacionamentos e dificuldades de trato.

Uma das formas de se analisar uma família é pela observação dos subsistemas, fronteiras e demais abstrações que podem ser percebidas entre os membros do grupo ao longo da história de vida. Esta construção abstrata indica uma estrutura familiar e delimita configurações do grupo (WENDT & CREPALDI, 2008).

A dinâmica familiar é a forma de relacionamento estabelecida pelos membros do grupo, ou seja, o modo como desenvolvem vínculos ou tratam seus problemas, os ritos, as regras, definição de ordem e papeis de cada membro da família (WENDT & CREPALDI, 2008).

Os filhos fazem com que a família amplie ou modifique a estrutura interna vigente, o que favorece para o surgimento de novos subsistemas (WENDT & CREPALDI, 2008, p.305).

Enfim, em meio a tantas alterações nas composições de famílias, o genograma segue como ferramenta de auxílio fundamental na construção de um modelo terapêutico que integre e enriqueça as técnicas de apoio a disfunções relacionais.

Em relação à dependência química, o genograma atua como ferramenta de compreensão, pois, a estrutura gráfica proporcionada pelo genograma auxilia no desenvolvimento da compreensão familiar de como a doença surgiu, retirando o estigma do individuo que se tornou dependente químico, por meio de um esclarecimento sobre a realidade patológica de toda a família.

Para exemplificar, será mostrado aqui o genograma de uma família onde foi percebido um histórico de dependência química, inicialmente considerado como algo comum, devido ao fato de bebidas alcoólicas serem drogas lícitas, mas que, proporcionaram o surgimento de dependentes de drogas ilícitas como cocaína e crack.

O dependente titular desse genograma é descendente da junção das famílias O.M. e P.M.

  • Família O.M. (geração de avós)
Família O.M. (geração de avós)
  • Família O.M. (geração de tios)
Família O.M. (geração de tios)
  • Família O.M.
    • Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma

 

  • Família O.M.
    • Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
  • Família O.M.
    • Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
  • Família O.M.
    • Descendência do terceiro tio do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência do terceiro tio do dependente químico titular do genograma
  • Família O.M.
    • Descendência da mãe do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência da mãe do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M. (geração de avós)
Família P.M. (geração de avós)
  • Família P.M. (geração de tios)
Família P.M. (geração de tios)
  • Família P.M.
    • Descendência do pai do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência do pai do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da segunda tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da segunda tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma
Família P.M.- Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da terceira tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da terceira tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da quarta tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da quarta tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência do terceiro tio do dependente químico titular do genograma
Família P.M.- Descendência do terceiro tio do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da quinta tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da quinta tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da sexta tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da sexta tia do dependente químico titular do genograma

Observações sobre o genograma

Alergias, diabetes, dificuldades oftalmológicas, doenças cardíacas e problemas gerais de pressão, são características comuns a quase todos os membros da família.

O número de alcoolistas chegou a quase 56 membros da família e nove foram usuários de drogas (cocaína e crack). Atualmente, a maioria afirma ter deixado as drogas e bebidas por questões religiosas.

Três pessoas manifestaram câncer, sendo que, no caso de M.A. houve manifestação da doença em três momentos distintos e recuperação da saúde, de modo que permanece viva.

Dois casos de distúrbio psiquiátrico foram confirmados clinicamente, porém, foram tratados e recuperados totalmente.

Não existe padrão em relação à conduta escolar. É possível perceber pessoas de todos os níveis de estudo e atuando em diversas áreas, com predominância nas seguintes profissões: Motorista, Professor, Ourives, Pedreiro e Pastor Evangélico.

Em relação à constituição familiar podemos observar divórcios, relações extraconjugais constituídas paralelamente e mães solteiras.

De modo geral, foi percebido que a maior marca da família é a falta de relacionamento e de interesse mútuo. Isto foi comprovado pela dificuldade em conseguir informações dos membros da família por meio de entrevistas, de modo que, a maior parte das informações desse relatório foi adquirida por meio de pesquisas em cartórios e documentos diversos.

Três questões para exemplificar o nível do distanciamento das pessoas que compõem este grupo familiar.

  • Mesmo os dados mais simples não são de conhecimento de parentes próximos. Por exemplo: Em meio à pesquisa nos cartórios foi descoberto que I. P. (avô do titular do genograma) era gêmeo com G. P. (comprovado vivo até a juventude em documento de cartório) e este era desconhecido de seus sobrinhos, filhos de I.P. , que se surpreenderam ao saber da existência de um tio gêmeo do pai.
  • Em meio às tentativas de entrevista de familiares, houve discussões sobre o distanciamento dos membros da família e alegações do tipo… “Há dez anos não vejo meu irmão! E moramos a em bairros vizinhos!”
  • Também por meio de pesquisa em cartórios, foi descoberto que, B.O. , filha de M.A. , foi registrada em nome de A.O. e criada como filha de J.A.
    • Após a descoberta, discussões explicaram que a situação foi causada em decorrência de que, a gestação de B.O. ocorreu na adolescência de sua mãe, que, ainda solteira, não seria bem vista na sociedade da época, portanto, a criança nasceu em outra cidade e foi registrada como filha de uma prima de sua mãe, contudo, foi criada como filha da própria avó. Obs. Mãe e filha ainda vivem e se tratam como irmãs, a família não comenta o assunto.

Diante disso, pode-se perceber o quanto as ações familiares influenciam na formação do caráter do indivíduo, bem como, as circunstâncias vivenciais modificam os valores e interesses das pessoas. Pode-se perceber que, o titular do genograma, cresce em meio a alcoolistas, dependentes químicos, familiares distantes, mentiras, omissões, doenças e brigas, que proporcionam um ambiente favorável para que este se torne suscetível ao abuso do uso de substâncias químicas, como tentativa de refúgio, busca de segurança e mesmo por meio dos referenciais de pessoas estimadas que, já fazem uso de substâncias psicoativas.

 A partir do reconhecimento de uma situação de dependência química instalada, é necessário o desenvolvimento de uma avaliação psicológica com vistas à intervenção para possível auxílio no controle da situação de dependência.

2 Avaliação & Intervenção Psicológica

A psicometria é um ramo da estatística que estuda fenômenos psicológicos. Não se trata apenas de métodos, ela se insere na teoria da medida que trata da utilização de números no estudo dos fenômenos naturais. O processo de avaliação psicológica começa a ganhar estrutura a partir da elaboração de instrumentos de medida psicológica. Assim, a avaliação tende inicialmente a ocupar lugar de diagnóstico nos âmbitos clínicos e de trabalho e posteriormente repercute em todas as perspectivas do indivíduo. No entanto, apesar do desenvolvimento da área e da solidificação de análises e instrumentos, ainda existem críticas sobre os testes psicológicos.

Atualmente, pode-se dizer que, os instrumentos foram atualizados e compreende-se que o conhecimento é adquirido pela relação com o outro e a observação desta relação. Tornando o diagnóstico uma questão, por um lado racional, por outro, empático (NASCIMENTO, 2005, p. 217).

No Brasil, a psicometria ganha um grande espaço de discussão, devido ao modo como os testes veem sendo utilizados, sem o rigor necessário e estudos adequados, de forma que descaracteriza o método e sua cientificidade (NORONHA; BALDO; ALMEIDA; FREITAS; BARBIN; & COZOLI, 2004).

O rigor do método se deve à importância do mesmo, pois, a partir da psicometria é possível mensurar questões individuais em perspectivas legais, como quando um teste serve de base para distinguir entre dano moral e dano psicológico.

O dano moral é identificado como parte da percepção subjetiva de prejuízo em questões de honra, finanças ou de liberdade, enquanto que o dano psicológico está vinculado à saúde, possibilitando desenvolvimento de patologias (ROVINSK, 2005, p.178).

A avaliação psicológica é um dos principais campos da atuação do psicólogo. E isso, porque, a partir dos resultados dos testes, é possível se fazer inferências acerca do comportamento humano, de modo a auxiliar o indivíduo a tomar decisões diante de situações específicas (ÁVILA-BATISTA, 2011, p. 11).

Assim, o teste mais utilizado no Brasil para avaliação psicológica, tanto em relação à gravidade quanto à intensidade de danos, em casos de dependência química, é o MINI (Mini International Neuropsychiatric Interview). Seu questionário foi validado para a realidade brasileira e, por isso, sua eficácia tem sido continuamente constatada a cada aplicação, de modo que, muitos pesquisadores se utilizam com tranqüilidade deste instrumento.

2.1 MINI: Características e validação do instrumento

Dentre os métodos psicológicos reconhecidos estão o DSM IV TR (2002) a nível clínico e de diagnóstico de dependência química e o SADD (1983) como avaliador de gravidade da dependência química (SOUZA; BITENCOURTT & OLIVEIRA, 2006, p. 111).

O Mini International Neuropsychiatric Interview, doravante designado MINI, é um questionário de auxílio para desenvolvimento de diagnóstico padronizado breve (15-30 minutos). É compatível com os critérios do DSM-III-R/IV e do CID-10 e sua utilização é indicada na prática clínica e na pesquisa em atenção primária e em psiquiatria. Pode ser utilizado por clínicos após um treinamento rápido (de 1 a 3 horas). O MINI Plus, versão mais detalhada, pode gerar diagnósticos dos principais transtornos psicóticos e do humor do DSM-IV (SCHEFFER; PASA; & ALMEIDA, 2010, p.535).

O MINI é estruturado em módulos diagnósticos independentes, para otimizar a sensibilidade do instrumento, na tentativa de diminuição de falso-positivos. Como meio de redução de tempo da entrevista, são utilizadas as seguintes estratégias: observação dos transtornos atuais, para facilitar a escolha da terapia mais adequada no momento; as questões são de resposta objetiva entre SIM/NÃO; questões de entrada exploram critérios obrigatórios para excluir diagnósticos de respostas negativas; as características e sintomas ocasionais de transtornos não são sistematicamente exploradas; e os algoritmos são integrados à estrutura do questionário, permitindo estabelecer ou excluir os diagnósticos ao longo da entrevista (AMORIN, 2000, p. 107).

Foram desenvolvidas duas versões do MINI para responder aos diagnósticos específicos de contextos diferentes:

1) voltado para ensaios clínicos e cuidados primários. O MINI abrange 19 módulos que alcançam 17 transtornos do eixo I do DSM-IV, o transtorno da personalidade anti-social e o risco de suicídio. O módulo Síndrome psicótica descobre os indícios do critério da esquizofrenia, com a finalidade de eliminar a possível existência de um transtorno psicótico. Os outros módulos determinam análises positivas.

2) proposto para a avaliação aprofundada das desordens mentais ao longo da vida, na pesquisa e na clínica em psiquiatria. O MINI Plus explora ordenadamente todos os critérios de abrangência e de eliminação, bem como a cronologia de 23 classes diagnósticas do DSM-IV. O módulo Transtornos psicóticos produz a análise positiva de 7 subtipos de psicoses: (1) transtorno psicótico sem especificação, (2) transtorno delirante, (3) transtorno psicótico breve, (4) transtorno esquizoafetivo, (5) transtorno esquizofreniforme, (6) esquizofrenia, e (7) transtorno psicótico decorrente de uma condição médica geral e/ou induzido por substâncias (AMORIN, 2000, p. 108).

O método utilizado para a validação do instrumento MINI foi o teste de confiabilidade entre métodos.  Era necessário provar a concordância entre o diagnóstico gerado pelo MINI e aqueles gerados por métodos já reconhecidos. Foram escolhidas duas estratégias para validar o novo procedimento diagnóstico: “compará-lo a diferentes critérios de referência e compará-lo ao Best Diagnosis ou LEAD Standard” (AMORIN, 2000, p. 108).

O MINI/MINI Plus foi comparado a questionários padronizados com características distintas, empregados em pesquisas internacionais – o CIDI e o SCID-P – e com a apreciação de psiquiatras. Além disso, foram realizadas análises quantitativas e qualitativas, pela metodologia do LEAD Standard.

2.1.1 Aplicação do MINI e os resultados obtidos junto a Dependentes Químicos

A dependência química é o resultado de uma relação doentia entre um indivíduo e uma substância psicoativa (SPA). Inicialmente o consumo pode ter diversos motivos que possivelmente prosseguirão após o desenvolvimento da dependência. O abuso do uso de SPA, frequentemente desenvolve a dependência e esta, traz consigo, comorbidades psiquiátricas, o que é desfavorável ao tratamento da dependência química. O episódio de um transtorno adicional pode comprometer o diagnóstico, tratamento e prognóstico de ambos os problemas (SILVA; KOLLING; CARVALHO; CUNHA; & KRISTENSEN, 2009, p.102).

Estudos afirmam que um terço dos alcoolistas demonstra ansiedade em níveis significativos. Uma média de 50 a 67% dos alcoolistas e 80% dos dependentes de outras drogas apresenta características semelhantes ao transtorno do pânico, dos transtornos fóbicos ou do transtorno de ansiedade generalizada. Conforme Silva, “pacientes com comorbidade psiquiátrica, principalmente aqueles com transtornos psiquiátricos graves, apresentam maiores taxas de suicídio, agressividade, detenção por atos ilegais, recaídas, internações, mais gastos com tratamento…” (SILVA et al, 2009, p.104).

Para a aplicação do instrumento, Silva realizou uma pesquisa, a partir de 31 pessoas, diagnosticados dependentes de álcool ou cocaína / crack a partir do CID-10 e DSM-IV. O trabalho foi realizado em um hospital de Porto Alegre – Hospital Parque Belém – tendo como critérios de exclusão: 1) a idade abaixo de 18 anos; 2) estado de abstinência de duas semanas; 3) experimentadores e ex-usuários; 4) dependência de outra substância; 5) menos de um semestre de uso regular de SPA.

A pesquisa foi realizada predominantemente por:

  • pessoas do sexo masculino (84%)
  • entre 20 a 56 anos de idade
  • sendo que, 19,4% dos participantes tinham ensino fundamental incompleto
  • 16,1% terminaram o ensino fundamental
  • 16,1% afirmavam ter ensino médio incompleto
  • 29% concluíram o ensino médio
  • 12,9% tinham ensino superior incompleto
  • e 6,5% possuem ensino superior completo.

 Em média, os envolvidos apresentaram 25 dias de abstinência. A coleta de dados durou em torno de 60 minutos e os instrumentos utilizados foram: formulário padronizado, elaborado por Silva, e o MINI Plus (SILVA et al, 2009, p.106).

Como resultado da aplicação do instrumento foi observado que: 1) os participantes do sexo masculino apresentavam maior tempo de abstinência; 2) os dependentes de cocaína / crack, são mais jovens que os alcoolistas; 3) 67% dos envolvidos na pesquisa, afirmavam ter parentes próximos que faziam uso abusivo de álcool e/ou drogas; 4) 38,7% tem pais dependentes químicos; 5) 25,8% são sobrinhos de dependentes; 6) 22,6% são primos de dependentes; 7) 19,4% são netos de dependentes; 8) 12,9% tem irmãos dependentes; 9) 6,5% tem mães dependentes de SPA; e 10) 3,2% tem filho dependente químico. Transtornos mentais foram percebidos em 83,9% dos participantes, além da percepção de comorbidades múltiplas em grande parte do grupo estudado (SILVA et al, 2009, p.108).

A partir da observação e avaliação dos resultados da aplicação do MINI, é possível que a intervenção psicológica seja mais adequada. Ou seja, torna-se mais difícil que o terapeuta promova um direcionamento errado, de modo a prejudicar o dependente. Tanto em relação ao desenvolvimento do tratamento, quanto no que diz respeito ao surgimento de novos problemas. A partir da avaliação, o passo seguinte é a intervenção.

2.2 Intervenção: Entrevista psicológica

A entrevista psicológica é uma ação entre duas pessoas – das quais, um deve ser profissional da psicologia – onde ocorre uma troca de informações, por meio de diálogo em uma comunicação informal e por tanto, os nomes e conceitos atribuídos a esse diálogo são muitos, de maneira que os teóricos da área ainda discutem o tema com intensidade (ALMEIDA, 2004, p. 34).

A expressão entrevista psicológica é efetuada por psicólogos no exercício de suas atividades. E levam em conta, perspectivas e fatores psicológicos percebidos anteriormente, com o objetivo de resolver problemas que habitualmente fazem parte do quadro da psicologia, ou seja, seleção e orientação profissional, pesquisas psicológicas, estudos de opinião pública, exame de personalidade, etc. No entanto, a avaliação psicológica não é uma prática independente de amarrações teóricas que a direcionem, é necessário identificar as perspectivas teóricas adequadas, de acordo com o que deve ser avaliado e o modo como deve ser analisado, além de forma de utilização dos resultados obtidos (SPARTA; BARDAGI; &  TEIXEIRA, 2006, p. 19).

De acordo com Sullivan (1970), a entrevista psicológica é uma comunicação vocal a partir de duas pessoas, integradas numa estrutura terapeuta-cliente e que se desenvolve progressivamente com objetivo de clarificar situações de vida dos entrevistados, vividas de modo especialmente penoso ou valioso, com objetivo de que esta clarificação possa gerar algum benefício para o cliente (p. 4).

Assim, nos atemos ao estudo da entrevista psicológica, com a intenção de pontuar sobre regras que auxiliam para que a aplicação da técnica seja mais adequada, de modo a facilitar o desenvolvimento da análise. Isto porque, só o cliente realmente tem condição de expressar sobre o próprio sofrimento e, portanto, se faz necessário que o terapeuta consiga identificar o problema e conduzir o cliente no processo de ajuda, a partir desta identificação (OLIVEIRA, 2005, p.1).

A entrevista psicológica deve ser realizada através de procedimentos e técnicas próprias e empíricas. É o ponto de encontro entre a ciência psicológica e a prática. Por tanto, é a partir da entrevista que se é possível aplicar de modo prático, os conhecimentos elaborados sobre as perspectivas psicológicas, por meio de um processo de interação (BLEGER, 1998, p. 1).

Todo o aparato instrumental do profissional da psicologia consiste no resultado das elucubrações do paciente, que voluntariamente ou impulsionado por facilitações do terapeuta, se dispõe e falar sobre aquilo que lhe é problema, ou motivação que o levou à clínica psicológica. As palavras do paciente são na verdade o material sobre o qual irá trabalhar na tentativa de uma melhor compreensão do caso (AUGRAS, 2002, p. 82).

As técnicas da entrevista são ferramentas de auxílio para que o paciente se sinta mais a vontade para expor suas questões e para que o terapeuta tenha maior acesso às informações essenciais na elaboração do processo de ajuda. Por meio da entrevista, é possível testar limites, contrapor, confrontar e buscar esclarecimentos para as respostas do sujeito. Por isso, a entrevista clínica tem lugar de destaque incomparável entre as demais técnicas de avaliação (TAVARES, 2002, p. 75).

2.2.1 Primeiras Entrevistas

O objetivo das primeiras entrevistas é identificar os aspectos mais relevantes do caso e a partir disso, identificar a melhor maneira de deseenvolver o acompanhamento.

No decurso destas primeiras entrevistas, o analista deve: 1) escutar e tentar peceber na historia de vida do paciente, os problemas e perturbações a serem trabalhados; 2) avaliar o nível de vontade e condição do paciente para o acompanhamento terapêutico; 3) observar as características psiquicas, bem como a habilidade de verbalizar e tolerar a condição de analise.

A partir disto, se a analise for realmente indicada ao caso, deve ser fixado um modo de acompanhamento, ao estabelecer a duração, a frequência das sessões, a postura do analisado (divã, por exemplo) e a postura do analista (DAVIES & HARRÉ citado por PINHEIRO, 2004, p.186).

O trabalho do analista é o de observar, escutar, compreender, saber esperar e calar-se e no momento oportuno e dar a interpretação que convêm. Após isto, o terapeuta deve comunicar ao paciente o conteúdo latente do discurso deste.

Esta comunicação deve ser elaborada a partir da reunião de elementos separados do discurso. É um trabalho de reorganização e de atribuição de sentido à narrativa do paciente.

Essa devolução organizada das informações do sujeito precisa ser realizada em momento adequado, que este tenha condição de ouvir e de assimilar as informações apresentadas pelo terapeuta. É um trabalho de cooperação na construção de questões interenas do individuo  (DAVIES & HARRÉ citado por PINHEIRO, 2004, p.186).

É importante saber que, as primeiras entrevistas podem desencadear alguns fatores psicológicos. É imprescindível estar atento a:

  • Resistências – dificuldades gerais que o paciente possa apresentar em relação ao desenvolvimento do processo terapêutico.
  • Transferência – ação inconsciente de vivência momentânea das questões que afligem o paciente, de modo que as emoções sejam transferidas do evento, para o terapeuta.
  • Contratransferência – ação de deslocamento das emoções do terapeuta para com o paciente, ante alguma vivência comum ou situação específica do momento vivencial do terapeuta.

Estas situações podem ocorrer em meio a qualquer processo terapêutico e precisam ser consideradas com cuidado para que o tratamento não seja prejudicado (NETO, A.C.; DAL-BÓ, M. J.; BREDA, R. L.; & CRESTANA, T. 2003, p. 266)

2.2.2 Entrevista nas psicoterapias breves

A psicanálise influenciou a psicologia tanto em questões teóricas quanto a nível de exemplo. Por outro lado, a psicologia auxiliou na propagação da psicanálise em países que demonstravam indiferença à atuação psicanalítica. Ainda assim, é notória as especificidades de cada uma das disciplinas.

Ferenczi, psicanalista contemporâneo de Freud, é um dos precursores das psicoterapias breves. Decidiu por buscar novas maneiras de ajudar os seus pacientes, e para isso, experimentou um certo número de mudanças técnicas. É assim que ele começa por atuar a partir da técnica activa, fundada na observação atenta e empática, que consiste em intervenções directivas por parte do analista: formular, por exemplo, ordens e interdições (OLIVEIRA, 1999, p.10).

Michael Balint propõe a psicoterapia focal; trata-se de entrevistas face a face, cujo número é limitado no tempo, com uma focalização no problema do paciente (PSICOTERAPIA BREVE, 2003-2011).

Alexander e French propõem modificações técnicas da psicanálise e desenvolvem aexperiência emocional correctiva. Alexander propõe trabalhar com base no método das associações livres, mas associa igualmente entrevistas mais directas e dá directivas ao paciente, ele pensa também que as atitudes do terapeuta devem ser suficientemente flexíveis para se adaptarem caso a caso (OLIVEIRA, 1999, p.11).

De um modo geral, podemos dizer que, por meio da entrevista psicológica, o cliente precisa alcançar o relaxamento suficiente, para que o terapeuta consiga perceber as situações que lhe causam desconforto, ansiedade e outros problemas que o motivaram a procurar ajuda terapêutica e apartir disso, seja possível a elaboração – por parte do profissional da psicologia – de um processo terapeutico adequado, considerando as abordagens psicologicas cabiveis.

O objectivo é, portanto, fazer com que o sujeito tome consciência dos seus pensamentos, reconhecer aqueles que são inexactos e substitui-los por ideias positivas.

Para que a entrevista psicológica tenha resultados adequados, não basta a  compreensão ou domínio teórico de utilização deste instrumento de avaliação. É impressindível que o profissional tenha adquirido sensibilidade adequada para observação do paciente, seja através de estágio, supervisão, laboratório ou oficinas.

É necessário desenvolver sensibilidade e empatia, saber lidar com a própria subjetividade e com a subjetividade do outro (entrevistando). O entrevistador deve ser capaz de adentrar esse universo, sem juízo de valor, sem preconceito, para que assim possa estar com o outro, conhecer, não temer, se perder e se achar e, finalmente, voltar à realidade do contexto. E agora, de posse de sua bagagem técnica tecer suas observações, ponderações e considerações, de modo axiomático, considerado que a utópica da neutralidade sempre deverá ser perseguida.

Os princípios éticos serão avivados em cada encontro, e nenhum instrumento poderá adquirir uma aura de prevalência sobre a pessoa do entrevistado, que é mais importante e assim deve ser respeitado.

É fundamental que o profissional se conheça e que tenha como rotineiras, as reflexões sobre suas próprias atitudes, postura e comportamento. É preciso que tenha também flexibilidade em modificar-se, quando a necessário. Muito do trabalho do psicólogo certamente vem em conseqüência do auto conhecimento, que lhe dará a base na qual se apóiam à sua atuação e intervenção com toda transparência.

2.3 Abordagens

No campo da Psicologia, são muitas as abordagens existentes para tratamentos de conflitos. Há aquelas em que o cunho está mais voltada para o autoconhecimento do sujeito, seus traumas e conflitos internos, existem aquelas que trabalham com as crises e suas repercussões no momento, e, há também as de fundo filosófico que vêem o sujeito não somente como uma psique em crise, e sim como um todo levando em conta seu lado social e seu relacionamento com consigo mesmo e com o mundo.

As abordagens que pontuaremos, devido ao reconhecimento e destaque geral no campo da psicologia são quatro: Abordagem Fenomenológica; Abordagem Humanista; Abordagem Sistêmica; e Abordagem Cognitivo Comportamental.

2.3.1 Abordagem Fenomenológica

A perspectiva fenomenológica surge como reação às teses e à maneira de compreender questões patológicas no início do século XIX.

A abordagem surge a parir da filosofia, em particular da filosofia a alemã. Tendo como precursor Edmund Husserl, que elaborou os fundamentos desta idéia. Ele propõe compreender o homem e a sua psicologia a partir da análise dos estados de consciência, das questões vivenciais, da experiência e dos modos de relação do sujeito com o seu meio. Martin Heidegger, discípulo de E. Husserl, propõe uma filosofia que prioriza o conhecimento do ser humano no mundo, da realidade humana a partir da descrição das coisas na sua essência sem qualquer pressuposto teórico (VILA-CHÃ, 1988, pp.357-365).

A filosofia fenomenologica destaca a necessidade de um retorno à experiência humana como objecto de uma descrição; esta enfoque marcou profundamente a psicologia e a psicopatologia. Karl Jaspers é um dos primeiros a introduzir a dimensão fenomenologica em psicopatologia (RODRIGUES, 2005, pp. 754-768).

Karl Jaspers desenvolveu uma abordagem descritiva da fenomenologia; o seu método consistia em descrever as vivências psíquicas conscientes dos doentes mentais, classificar esses estados entre si e compara-los com as vivências psíquicas do homem normal (RODRIGUES, 2005, pp. 754-768).

Os fenomenologistas têm como referencia essencialmente Ludwig Biswanger, que pensa que é preciso ampliar a compreensão do doente tal como ele se encontra, mais do que compreende-lo a partir das teorias pré estabelecidas, que pertencem ao terapeuta e não ao doente; ele propõe uma análise que se baseia mais na relação e na experiência vivencial (CHAMOND, 2011, pp. 3-7).

A abordagem fenomenologica não propõe qualquer técnica psicoterapeutica particular, mas insiste na noção de comunicação, a partir de uma comunicação e uma relação verdadeira entre o clínico e o seu paciente. O ênfase está na relação terapêutica, que é considerada como uma relação inter-humana, portanto uma possibilidade de encontro, um face-a-face e uma troca com o outro. Não está baseado em regras técnicas, mas, uma reflexão teórica sobre a noção de psicoterapia e uma reflexão sobre a prática da entrevista, insistindo na experiência comunicativa entre os dois interlocutores (LESSA &  SÁ, 2006, pp. 393-397).

2.3.2 Abordagem humanista: Carl Rogers

As percepções de C. Rogers tiveram grande influência no que diz respeito à psicoterapia. Elas integram uma abordagem humanista bastante próxima do ponto de vista fenomenologico, assumindo uma posição face às teorias psicanalítica e behavioristas, a partir do interesse pela nosografia e pela estrutura da personalidade.

Conforme Rogers, em todo o ser humano existem potencialidades que podem ser desenvolvidas numa relação interpessoal, a partir da aceitação, compreensão empática, e, não diretividade, por meio de uma relação interpessoal e construtiva.

O processo terapêutico, segundo C. Rogers, envolve uma libertação dos sentimentos a partir da experiência vivencial e a percepção disto durante a terapia, para que o indivíduo tenha como modificar sua prática de atitudes e assim, desenvolver congruência consigo próprio (AMATUZZI, & CARPES, 2010, pp. 11-25).

2.3.3 Abordagem Sistêmica

A terapia centrada na família compartilha dos mesmos pressupostos da terapia centrada na pessoa, ou seja, o foco do terapeuta não está no problema, mas, nas pessoas e, deste modo, o trabalho é desenvolvido em dois momentos específicos. Num primeiro momento, o terapeuta direciona seu trabalho para o cliente que lhe procura e, portanto, a atuação é centrada na pessoa. Num segundo momento, é realizada uma reflexão para o desenvolvimento de uma intervenção adequada ao contexto antropológico. A partir disso, podemos entender a família como um “sistema multidimensional de relações sociais interdependentes em que estas diferentes dimensões se encontram presentes em grau e correlações variáveis” (HIPÓLITO, 2010, p.76).

A pessoa nesta perspectiva é ao mesmo tempo, o centro e um dos pólos de cada uma das relações familiares. E por isso, o terapeuta deve se utilizar da resposta de compreensão empática para refletir em todo o sistema familiar, as vivências expressas de cada pessoa envolvida no processo terapêutico. Desse modo, é possível que cada membro da família consiga alcançar uma visão mais adequada de si e em si, ou seja, que cada um se observe interna e externamente, e que a partir dessa visão, seja possível um crescimento mais adequado ou haja um enriquecimento familiar por meio das potencialidades individuais (HIPÓLITO, 2010, p 76).

A terapia familiar sistêmica é originária da década de cinquenta e tem como alicerce, aspectos da biologia, química, cibernética, teoria sistêmica e outras. O início das considerações sobre a terapia familiar surge, quando estudiosos começaram a questionar a perspectiva conhecida, até então, sobre a doença mental, pois, acreditava-se que a psicopatologia se desenvolve e é mantida apenas pelo indivíduo e esta interpretação não se sustentava mais, devido à observação das influências do contexto na construção do indivíduo (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

De modo geral, as famílias são percebidas como grupos de pessoas com laços consanguíneos, com intenções de procriação. Na perspectiva sistêmica, as famílias simbolizam sistemas que se relacionam com o meio e/ou com outros sistemas semelhantes (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

A terapia é centrada no sistema e não em cada indivíduo que compõe a família. Por isso, acredita-se ser impossível entender o funcionamento de uma família conhecendo apenas uma de suas partes. Portanto, podem ser desenvolvidas várias técnicas para a ampliação da compreensão das relações familiares, o que favorece na reorganização do grupo (FERES-CARNEIRO, 1994, p.57-58)

 A facilitação terapêutica deve ser desenvolvida de modo que o discurso de cada pessoa seja integrado ao discurso da família, a fim de que o indivíduo não abandone suas perspectivas pessoais e seja respeitado com todas as suas idiossincrasias, e, assim, sinta-se restituído ao grupo familiar identificando o seu valor em relação ao mesmo (HIPÓLITO, 2010, p 78).

O papel do terapeuta é de vivenciar o quadro apresentado pela família e a partir disso comunicar sua compreensão, de modo sensível, respeitando a expressão da vivência de cada um, juntamente com as projeções, mudanças e significados atribuídos por cada pessoa do grupo (HIPÓLITO, 2010, p 79).

Além disso, a família apresenta uma especificidade terapêutica: cada membro, estando presente ou não no momento terapêutico, tem um lugar especial e influencia no desenvolvimento das potencialidades do grupo e, por isso, o terapeuta precisa considerar o indivíduo ausente e atribuir-lhe o lugar conferido pelas pessoas presentes, contando com estas atribuições durante todo o período de acompanhamento (HIPÓLITO, 2010, p 79).

A proposta é auxiliar a família a alcançar o enriquecimento proporcionado pela consciência de que o tema da colusão não afasta ou divide a família, mas, serve de oportunidade para o desenvolvimento da flexibilidade e equilíbrio (FERES-CARNEIRO, 1994, p.54).

2.3.4 Abordagem Cognitiva e Comportamental

A abordagem cognitiva e comportamental representa um conjunto de técnicas baseadas nas teorias da aprendizagem e nos contributos da psicopatologia cognitiva. Todas elas têm em comum um certo número de características: O estabelecimento de um contrato entre o paciente e o terapeuta; A definição clara e precisa dos objectivos terapêuticos, com uma definição das condutas que vão ser alvo das tentativas de mudança; A duração do tratamento, que é geralmente bastante breve, de três a seis meses; A medida quantitativa e qualitativa da mudança obtida.

Têm por objetivo suprimir o comportamento inapropriado para o substituir por um comportamento adaptado, segundo as leis do condicionamento. Por exemplo, a técnica da dessensibilização, utilizada para tratar as fobias (BAHLS; & NAVOLAR, 2004, pp.1-11).

A Psicologia é uma área muito ampla e as abordagens são diferentes entre si. Elas diferem em filosofia, objeto de estudo, teoria, linguagem, formas de pesquisa, dados científicos e práticas de intervenção. Todas essas características resultam em perspectivas muito particulares de como perceber o homem e como lidar com ele profissionalmente, e resultam em certas expectativas de postura do psicólogo, portanto, é necessário cuidado ao escolher a abordagem mais adequada.

3 Psicologia & Religião: Caminho terapêutico para o dependente químico?

Uma das características do processo terapêutico está relacionada ao valor e lugar que o do processo catártico em meio ao tratamento escolhido. Pode-se dizer que catarse é um processo de liberação de angústias e emoções reprimidas, ou de algum modo contidas, que, a partir de certo ponto podem causar distúrbios psicológicos (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

O termo Catarse surge com Aristóteles. Por meio da ação poética, o palco tornava-se lugar de liberação das expressões emocionais por meio do drama e da tragédia. Posteriormente a ação catártica de purificação das emoções passa a ser vivenciada também pelo expectador (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

Após o estabelecimento do processo catártico, por anos, esta ação foi vivenciada como ritual de purificação de espíritos malignos e/ou influências negativas externas sobre a vida das pessoas, por meio de ações como exorcismos, hipnose e semelhantes (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

O processo foi utilizado a partir de diferentes perspectivas, passando por Freud, Diderot, Lessing, Goethe, etc. (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

Em cada perspectiva a catarse ganhou um nome diferente como: análise do caráter, Gestalt-terapia, terapia primal, analise bioenergética, etc. (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

De modo geral pode-se dizer que a catarse atua claramente em três perspectivas humanas: médica, moral e religiosa (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

No que diz respeito ao aspecto médico, a catarse pode ser compreendida como ação homeopática de purificação do corpo (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

A perspectiva moral entende que, ao purgar as malignidades por meio da catarse, a conduta do indivíduo seria equilibrada e não haveria riscos de ações imorais / malignas (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

A ênfase religiosa da catarse aparece desde o teatro grego, onde a tragédia era compreendida como excitação religiosa e êxtase báquico. É possível citar também a influência hebréia no que diz respeito às experiências de sofrimento de personagens bíblicos como Ana (1 Sam 1:12-16), que não podia ter filhos e por isso, chorava e sofria diante de Iahwe. A oração sofrida acompanhada por movimentos de lábios que lembravam embriaguês, tiveram como resultado, a resposta do clamor, alívio e cura da alma. Além disso, Inácio de Loyola afirmou que a prática da glossolália (dom de línguas) resulta em paz e crescimento (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

Ainda hoje é possível perceber que, algumas linhas de orientação religiosa são desenvolvidas a partir de processos terapêuticos, que promovem reações com caráter catártico, especialmente em comunidades terapêuticas para recuperação de dependentes químicos (em maioria, apresentam fundação religiosa). Diante disto, torna-se imprescindível a observação da prática terapêutica psicológica, paralela ao sistema de orientação religioso que ocorre em meio à essas comunidades.

É fácil perceber a importância da relação de ajuda, desenvolvida por meio do aconselhamento, ante a necessidade humana de apoio e orientação em situações de crise e conflitos de modo geral.

O aconselhamento psicológico é um trabalho realizado por meio de encontros regulares e de caráter profissional, entre um cliente e um psicoterapeuta, com vistas a proporcionar suporte para que o indivíduo ultrapasse dificuldades relacionais ou pessoais. A compreensão de uma situação em particular, pode levar o indivíduo a aceitação ou a mudança de conduta,  de modo que, a pessoa tenha suas questões internas resolvidas (MACEDO; FONSECA e; HOLANDA, 2007, p.207).

 O aconselhamento religioso é um processo de mediação, realizado por um conselheiro, que neste caso, exerce a função de terapeuta, no sentido do grego antigo, que tem a conotação de cuidar, servir, tratar e também render culto. Ou seja, o terapeuta não é responsável pela cura, mas, é quem facilita o encontro entre àquele que cura e o necessitado, seja por meio de orações, de orientações, de imposição de limites ou simplesmente pelo direcionamento, para que o necessitado caminhe em direção àquele que tem o poder de curar (MACEDO; FONSECA e; HOLANDA, 2007, p.208).

Algumas linhas de aconselhamento relacionam, propositalmente ou não, a bíblia ou princípios morais do cristianismo, com linhas psicológicas específicas, como apresentaremos adiante.

3.1 Psicanálise & Cura do Passado

A psicanálise é uma metodologia desenvolvida por Freud, que considera como essencial, compreender o inconsciente do indivíduo e integrá-lo ao consciente, por meio da interpretação das ações e palavras, bem como de produções imaginárias, sonhos, delírios, associações livres e atos falhos (BOCK, 1999, p.70).

Esta interpretação visa promover um equilíbrio que auxilie no ajuste da conduta humana, de modo que seja possível a eliminação do mal-estar e do sofrimento. A idéia central é de que o autoconhecimento desenvolve a capacidade de lidar com as adversidades e superar as dificuldades (CATALDO NETO; GAUER e; FURTADO, 2003, p. 776).

Desse modo, é possível adquirir autonomia, por meio de uma capacidade criativa de cada indivíduo, grupo e instituição, por meio de um processo onde seja possível desfazer calmamente as barreiras do paciente (BOCK, 1999, p.80).

O princípio da desmontagem das resistências do inconsciente, está relacionado ao fato de que Freud considera que experimentamos a ansiedade já no primeiro momento da vida humana e a causa desta angústia é o parto (MEZAN, 2006, p. 527). Portanto, todo o passado do indivíduo, mesmo as coisas que de modo natural não são lembradas, como a sensação do nascimento, são importantes no trato das doenças desenvolvidas por meios de traumas.

A cura do passado é uma metodologia cristã, que afirma a cura por meio de uma volta ou de um relembrar o passado. É conhecida também como cura interior, cura das memórias, cura da árvore genealógica (SEAMANDS, 2007, p.12) dentre outros.

A metodologia foi desenvolvida por um psicanalista austríaco, Otto Rank, discípulo direto de Freud, que se aproxima da psicanálise ainda na adolescência, após a separação de seus pais (HURDING, 1995, p.411).

O trabalho tem como base a terapia desenvolvida durante a imaginação pela fé e o aconselhamento desenvolvido por meio da oração (SHLEMON, 1986, p.12), que visa conduzir o  indivíduo de modo consciente, à uma situação de crise do passado, e, por meio da conscientização da presença de Jesus – enquanto Deus atemporal – no momento em questão (HURDING, 1995, p.416), curar feridas e suas consequências na vida prática da pessoa que se dispõe a ser acompanhada.

A ênfase da cura interior ganha maior repercussão a partir dos estudos de alguns nomes como Anne White, Francis MacNutt e Ruth Stapleton, sendo que esta, afirma a cura interior como ação de restauração das emoções por meio das orientações do Espírito Santo (HURDING, 1995, p.416).

A partir da década de 1960, influenciado pela metodologia da cura interior, Frank Lake, médico missionário com treinamento em psiquiatria, desenvolve o que posteriormente ganha o nome de Teologia Clínica (EVANS, 2002, p.186).

O trabalho considera o princípio freudiano do trauma no nascimento e por isso, Lake utiliza teorias “reichianas e bioenergéticas de respiração profunda” (HURDING, 1995, p.420) para conduzir o indivíduo a reviver a experiência do nascimento e outras experiências traumáticas, na tentativa de resolver os problemas adquiridos durante a gestação e parto.

Lake, afirma que os sentimentos da mãe, sejam bons ou ruins, são transmitidos à criança durante a gravidez e a angústia da separação do bebê com a mãe por meio do parto, é relacionada a angústia gerada pela separação de Cristo com o Pai no Getsêmani e Gólgota.

Nesta pesrpectiva, pode-se entender que, a cura acontece por meio da realização do ego, mas, não o ego como compreendido por Freud, o ego do indivíduo, e sim, um tipo de ego ideal, que é gerado por meio da realização em Cristo, ou seja, o desenvolvimento de uma nova pessoa ou personalidade, ante ao convívio e comunhão com Deus (HURDING, 1995, pp.426,427).

Relação entre Psicanálise e Cura do Passado

Percebemos de modo claro a influência da psicanálise no desenvolvimento da cura do passado, a partir de um ponto específico: o fundador da teoria de cura do passado é de formação psicanalítica.

Diante disso, fica mais fácil identificar a semelhança na compreensão do ser humano enquanto indivíduo fragilizado desde o nascimento e necessitado de apoio para o autoconhecimento, para que este conhecimento auxilie no desenvolvimento do ego – seja o ego freudiano ou o ego ideal de Lake – e a partir disso, o indivíduo seja capaz de constituir forças para superar as adversidades e frustrações, sejam essas forças do próprio indivíduo ou da presença de Deus neste.

Ambas as linhas de orientação, conduzem o indivíduo a olhar para dentro de si, com dois objetivos: compreender a si mesmo, e buscar forças internas para continuar vivendo.

3.2 Logoterapia & Aconselhamento Pastoral

A logoterapia, desenvolvida por Viktor E. Frankl, é a terceira escola de psicoterapia de Viena, também conhecida como Psicologia do sentido da vida, devido a experiência de Frankl no campo de concentração, onde compreendeu o sentido do sofrimento (EINSFELD, 2000, p.18).

A logoterapia pode ser compreendida em três categorias de valores: criadores, vivenciais e de atitudes. Os valores criadores são referentes a capacidade criativa nas questões intelectuais, artísticas, de trabalho, enfim, de toda a liberdade de ação humana; os valores vivenciais são adquiridos por meio das experiências afetivas, seja por meio do desenvolvimento das relações familiares, seja pela contemplação da natureza, de observação da arte e cultura ou mesmo, pelas vivências místicas; e por fim, os valores de atitude, caracterizados pelo posicionamento adequado ante os sofrimentos inevitáveis e a condição ou capacidade de sofrer (LUNA, 2005, p.26).

Einsfeld afirma ainda que, Frankl descobriu a liberdade de observar a vida – mesmo que em condições precárias – e conseguir encontrar um sentido, que não depende da realização pessoal, mas, da maneira como a pessoa se coloca diante da situação vivenciada. Esse sentido surge quando a pessoa transforma o sofrimento em conquista, quando a culpa é transformada em oportunidade de mudança, ou quando a transitoriedade da vida auxilia no desenvolvimento de ações responsáveis (EINSFELD, 2000, p.21.).

Segundo Clinebell, o aconselhamento pastoral considera três aspectos essenciais com vistas ao crescimento: luta, morte e renascimento. O trabalho de orientação pastoral é desenvolvido a partir de uma compreensão particular da vida cristã, ao entender que esta não é apenas uma maneira de crer, mas, uma maneira de vivenciar ou experienciar todas as coisas, logo, tem como objetivo, modificar a motivação do comportamento e não apenas da crença humana. E isto, ante a experiência de luta, morte e renascimento de Cristo (CLINEBELL, 1987, p.56).

Clinebell afirma que as pessoas devem encontrar sentido para a vida, em todas as suas circunstâncias, tendo no sofrimento, o crescimento, seja humano, seja espiritual. Isto, porque, o ser humano é tido como carente de sustento, apoio e cuidado.

Essa carência gera crise no indivíduo que, torna-se perdido em si mesmo, de modo que passa a ter necessidade de apoio externo, de uma relação de ajuda, de alguém que auxilie no processo poimênico de cura da alma, por meio do apoio na compreensão do propósito da vida e de suas crises fundamentais, que estão diretamente relacionadas às percepções de “pecado e salvação, alienação e reconciliação, culpa e perdão, juizo e graça, morte e renascimento espiritual” (CLINEBELL, 1987, p. 47).

Relação entre a Logoterapia e o Aconselhamento Pastoral

Ambas as estruturas consideram como base de trabalho o sentido da vida e tratam disto em três perspectivas. Enquanto a logoterapia considera os valores criadores, vivenciais e de atitudes, como fundamentais para o desenvolvimento da capacidade do indivíduo de suportar o sofrimento, o aconselhamento pastoral aponta a luta, morte e renascimento como princípios de fé que devem não apenas nortear a vida mas, dar sentido a ela.

Outra característica está associada a ideia de realização pessoal como processo logoterapêutico, motivador para a continuidade da vida, e o propósito de vida apresentado pelo aconselhamento pastoral, como suporte e estímulo da esperança ante o sofrimento.

Ambas as orientações consideram as vivências como determinantes, ou seja, as vivências podem favorecer para o desânimo e enfraquecimento, ou para o fortalecimento e esperança, dependendo de como o indivíduo se posiciona.

3.3 Behaviorismo & Aconselhamento Bíblico

O behaviorismo  também conhecido como  comportamentalismo ou análise do comporta-

mento, considera uma espécie de ação e reação. O organismo responde a um estímulo, ante a ajustes ambientais ou por hábitos desenvolvidos (BOCK, FURTADO, & TEIXEIRA, 1999, p.45).

Duas situações são utilizadas na análise, o comportamento respondente e o comportamento operante. O comportamento respondente é composto pelos atos involuntários, por estímulos antecedentes ao ambiente, como salivação ou contração das pupilas. Já o comportamento operante é tudo aquilo que o indivíduo escolhe fazer, tudo o que a pessoa pode realizar para influenciar ou afetar o meio em que está envolvido (SKINNER, 2006, p.59).

   Em síntese, podemos dizer que, o comportamento respondente ocorre quando o indivíduo sofre um estímulo, enquanto o comportamento operante acontece quando o indivíduo produz o estímulo.

Além disso, considera-se o reforço, o controle de estímulos, extinção, punição, discriminação e generalização, como ferramentas de identificação, orientação e avaliação de casos (BOCK, FURTADO, & TEIXEIRA, 1999, pp. 50-54), sendo cada categoria compreendida da seguinte forma:

  • Reforço é tudo o que pode modificar uma ação futura, seja positiva ou negativamente;
  • Controle de estímulos é relacionado aos controles como placas de trânsito ou sinais indicativos, que delimitam os espaços e orientam ações de modo objetivo;
  • Extinção é o mecanismo que capacita a redução de determinada ação até a completa extinção da mesma;
  • Punição, leva a redução temporária de certo comportamento;
  • Discriminação, auxilia na modificação de comportamento de acordo com o ambiente;
  • Generalização, dificulta as reações ante a estímulos semelhantes.

O aconselhamento bíblico é o método utilizado por Jay Adams, para confrontar pessoas por meio de textos bíblicos, com a intenção de promover mudanças comportamentais, na tentativa de ajustar o indivíduo à uma conduta considerada biblicamente adequada ou justa (ADAMS, 1999, pp. 58-59).

A metodologia é diretiva, com a intensão de moldar os padrões de comportamento, invertendo ações tidas como pecaminosas, em atitudes justas e positivas, tendo como estímulos, os exemplos dos personagens e as situações apresentadas nas histórias bíblicas (CRABB, 2000, pp. 80,81).

Os limites estabelecidos estão relacionados à questões éticas de uma cultura específica, e portanto, limita as possibilidades de discriminação ou generalização em situações sociofamiliares, de modo que esse limite pode gerar punição e em alguns casos, extinção de comportamentos.

Relação entre Behaviorismo e Aconselhamento Bíblico

O behaviorismoe oaconselhamento bíblico seguem padrões indutivos para influenciar ou mesmo determinar comportamentos. E tem como ferramentas básicas: reforço, controle de estímulos, extinção, punição, discriminação, e generalização.

O diferencial consiste na base de direcionamento. Enquanto o aconselhamento bíblico tem como determinantes os escritos, a moral e a tradição cristã, o behaviorismo trabalha a partir das extruturas individuais de cultura.

Ambas as perspectivas não se orientam a partir da capacidade individual de construção ou elaboração de superação, mas, conduzem o aconselhando à uma decisão e uma ação específica e padronizada.

3.4 Pessoalismo (ACP) & Aconselhamento Cristão

O pessoalismo ou terapia centrada na pessoa, desenvolvida por Carl Rogers, considera que o indivíduo tem em si uma tendência atualizante, ou seja, uma capacidade natural de se curar ou de se ajustar às mais diferentes situações, de modo a aprimorar o self. A importância deste aprimoramento se deve ao fato de que o self é tido como a essência da personalidade humana, de modo que, o autodiscernimento apresenta-se como chave para o desenvolvimento do indivíduo (SCHULTZ, 2002, pp.316-317).

Na perspectiva do pessoalismo, pessoas psicologicamente saudáveis percebem a si mesmas, então, não se sentem ameaçadas em seu autoconceito. Isto ocorre com aqueles que receberam considerações positivas e portanto, não sentem necessidade de “internalizar condições de merecimento” (SCHULTZ, 2002, p.321) para realizar o self e adquirir pleno funcionamento. Este fato indica também que o indivíduo não apresenta incongruência, que seria a dificuldade de perceber e vivenciar o verdadeiro self.

O trabalho de Rogers é auxiliar o cliente, através do aconselhamento centrado na pessoa e não no problema. A intenção é de desenvolver empatia em meio ao processo de acolhimento, criando uma identificação com o indivíduo, o que facilita para que o mesmo se compreenda e permita o processo natural de atualização do self, gradativamente, em meio ao processo terapêutico. Assim, o indivíduo adquire maior facilidade de se aceitar e a partir disso, gerar condições de enfrentar as dificuldades do mundo experiencial (MORATO, 1999, p.109).

O aconselhamento cristão, segundo Collins (2004, p.45-46), tem como objetivo gerar:

  • Autoconhecimento, porque compreende a necessidade do indivíduo de se entender,  para posteriormente alcançar cura;
  • Comunicação, porque reconhece a necessidade de expor os sentimentos, pensamentos e emoções de modo preciso;
  • Aprendizado e mudança de comportamento, pois entende que as pessoas agem de acordo com aquilo que aprenderam;
  • Auto-realização, devido à necessidade humana de desenvolver o próprio potencial;
  • Apoio, que é ferramenta facilitadora ante as dificuldades decorrentes no processo de realização pessoal; e
  • Integridade espiritual, por reconhecer a influência da dimensão espiritual em relação aos problemas humanos.

A idéia principal é de que o conselheiro deve: saber dar atenção; desenvolver habilidades de bom ouvinte; responder objetivamente àquilo que foi ouvido comprovando o comprometimento com a pessoa; saber como conduzir, comentar, perguntar, confrontar, informar e interpretar a fala do aconselhando, de modo que o mesmo possa aprender durante o processo de aconselhamento (COLLINS, 2004, p.48-51).

Relação entre Pessoalismo e Aconselhamento Cristão

O pessoalismo está alicerçado na construção e manutenção do self, ou seja, da característica individual que torna uma pessoa única. A idéia é de personalidade e de capacidade criativa, bem como de idiossincrasia e que precisa, na perspectiva rogeriana, ser reconhecida, aceita e desenvolvida, para que o indivíduo alcance cura e qualidade de vida em todas as perspectivas.

O aconselhamento cristão segue o padrão de autoconhecimento como base para o reconhecimento da dimensão espiritual e da necessidade da mesma para a constituição humana saudável.

 O conhecimento de si, de todas as mazelas e qualidades individuais formam a esfera de atuação destas linhas de aconselhamento, que consideram a liberdade e capacidade humana de decisão, como essenciais para o processo de formação, cura e saúde, mental e espiritual do ser humano.

Relação geral entre os processos

De modo geral, o acompanhamento religioso se apresenta como aconselhamento pastoral, porque tem como princípio a comunicação da palavra de Deus. Assim, difere-se de perspectivas como a psicanálise ou qualquer outra linha psicológica. No entanto, tem como objetivo, ajudar as pessoas a ajustarem-se melhor consigo mesmas e seus ambientes. E essa ajuda pode ocorrer individualmente, em família, ou em grupos afins, com ambiente estruturado, e programas de autoconhecimento, com vistas a superação de crises (MACEDO; FONSECA e; HOLANDA, 2007, pp.208,209).

Esta característica de atuação com ambientes estruturados e trabalhos individuais, familiares ou em grupos, também são adotadas nas orientações psicológicas, com objetivo de fundamentar as relações e constituir, indivíduo e sociedade.

Como se pode perceber é possível realizar o processo terapêutico de diversas maneiras, inclusive, em parceria com estruturas eclesiásticas. Para maior esclarecimento sobre a atuação do terapeuta que trabalha em comunidades terapêuticas confessionais, é importante que se fale mais detalhadamente, ao menos sobre uma, dentre as perspectivas citadas. O trabalho humanista, de Carl Rogers, apresenta duas especificidades que favorecem o acompanhamento ao dependente internado em uma instituição religiosa: 1) ênfase na valorização de Si, dificuldade característica do dependente, citada e explicada no capítulo primeiro deste trabalho; e 2) facilidade de aplicação das técnicas da ACP, devido ao fato de que a abordagem partilha de princípios estruturais semelhantes a características da ética cristã, em aspectos  gerais.

3.5 Abordagem centrada na pessoa ou pessoalismo cristão?

A abordagem centrada na pessoa é uma teoria sustentada pela compreensão de Carl Rogers de que as pessoas têm em si mesmas, a capacidade de resolverem seus conflitos internos, desde que consigam uma oportunidade e um ambiente adequado para isso. Rogers afirma que existe uma tendência, chamada de atualizante, que move o indivíduo em direção ao desenvolvimento de suas potencialidades, em busca da própria conservação e/ou enriquecimento. (ROGERS & KINGET, 1977, p.159).

Segundo Rogers, essa tendência atualizante é uma característica humana semelhante a princípios fundamentais das plantas e dos animais, no que diz respeito à constituição biológica, de maneira que, a capacidade de crescimento e desenvolvimento permanece inerente no ser e, portanto, sempre que o ambiente e as condições favoráveis existirem, essa capacidade entrará em funcionamento (MOREIRA, 2007, p.53).

A compreensão de Rogers se relaciona à visão cristã, no sentido de entender a existência humana, como parte da criação. Entender o indivíduo como um ser que compartilha das características de surgimento, manutenção e sustento vital, a partir de uma questão interna (no caso, a presença do Espírito de Deus no homem) que favorece a cura, crescimento, ajustamento, etc. desde que não haja empecilhos externos.

Por isso, o conselheiro deve favorecer para que o cliente alcance a condição de se aceitar, de expressar seus sentimentos e atitudes, identificando diferenças individuais, sem, no entanto, comparar-se a outros. É necessário que o terapeuta desenvolva uma compreensão empática, ou seja, não apenas ouvir, mas, tentar perceber as reações do cliente ante a cada situação compartilhada e transmitir essa percepção ao indivíduo (ROGERS, 1983a, p.33).

Rogers afirma que a importância da empatia no processo de aconselhamento, deve-se ao fato de que as pessoas conseguem apresentar maior consideração por si, quando percebem que outros a aceitam e a compreendem (ROGERS, 1983a, p.39). A compreensão empática reflete as informações apresentadas pelo cliente a ele mesmo. Esse reflexo proporciona o autoconhecimento e por consequência, ajuste vivencial (HIPÓLITO, 2010, p.44).

Em outras palavras, podemos dizer que, a função do conselheiro é de agir como um espelho no qual o cliente deve enxergar a si e suas vivências, de modo mais objetivo. A partir desta compreensão, o indivíduo torna-se capaz de assumir seus problemas de forma mais adequada e responsável, porque se sente em uma situação segura para caminhar em direção à maturidade e se libertar das dificuldades (ROGERS, 2000, p.11-19).

Este aspecto também pode ser percebido em algumas ações de Jesus, que, considerava o indivíduo com todas as suas mazelas, independente do que a sociedade da época considerava pecado ou erro. A aceitação de Cristo para com os outros era incondicional e isso proporcionava confiança na relação estabelecida, de modo que as pessoas sentiam-se livres para falar de suas dores e dificuldades. Sentiam-se acolhidas e consequentemente, curadas.

Schultz afirma que, para Rogers, os processos avaliativos da psicologia tornam o paciente dependente, porque cria uma atmosfera de autoridade em torno do terapeuta. E, a partir do momento em que o terapeuta toma conhecimento dos problemas do cliente, o paciente age como se não fosse mais necessário se preocupar com o problema, pois, o alvo agora é seguir a orientação do especialista com a certeza de que tudo será resolvido (SCHULTZ, 2002, p.325).

Por isso, o princípio de Rogers está sustentado na premissa de não contar com uma estrutura teórica determinada, a partir da qual o problema do cliente seria enquadrado, para o desenvolvimento de algum mecanismo de ajuda. O importante é entender e aceitar o valor da pessoa. Logo, o terapeuta não deve expressar julgamentos nem dar conselhos, apenas concentrar-se no cliente, para que este consiga se perceber no terapeuta, de modo a reavaliar suas relações e possivelmente mudar de comportamento (SCHULTZ, 2002, p.325).

O terapeuta atua como facilitador. A sensação de segurança produzida pela empatia do conselheiro será suporte para que o cliente encontre em si mesmo as condições de superação para os problemas (SCHEEFFER, 1976, p.26).

Rogers abre mão de qualquer tipologia de personalidade ou de conceitos psicológicos específicos sobre o ser. Mas, tinha como objetivo, esclarecer o que é e como se estrutura uma relação psicológica que colabore para que o cliente alcance uma visão adequada de si mesmo, para que este consiga progredir a partir de sua própria compreensão (ROGERS, 1987, p.14).

A personalidade, conforme Rogers é o resultado de experiências vivenciadas pelo indivíduo, sendo que a pessoa é o centro dos eventos e consequentemente, influencia e recebe influências destes.  Logo, estes eventos tornam-se concretos para aqueles que o vivenciam (ROGERS, 1961, p.23).

Porém, a construção deste ser, ou como Rogers afirma, a construção deste Si-Mesmo, não é apenas uma percepção de si, mas, uma relação entre a vivência e compreensão, ou a vivência a partir da compreensão (ROGERS & WOOD, 1978, p.197).

De modo semelhante, a visão geral do cristianismo considera que não se deve preocupar com a personalidade, como se fosse algo imutável, pois, a vivência proporciona mudança de conduta. Assim como o apóstolo Pedro, tornou-se grande homem de fé, a partir dos percalços da negação trina de Jesus e da aceitação que recebeu de Cristo ainda na cruz. Cada indivíduo é considerado único e necessitado de um processo distinto de apoio.

Assim, depois da compreensão da aplicabilidade do método de Rogers junto à instituições confessionais, é preciso pensar as duas vertentes de atuação do terapeuta. Dependente químico e familiares (co-dependentes).

3.5.1 Aconselhamento centrado no dependente químico

Podemos dizer que a empatia (ROGERS, 1983a, p.33), enquanto ferramenta do aconselhamento centrado na pessoa pode proporcionar ao indivíduo dependente químico, a segurança necessária para aceitar o mundo real como real (GIDDENS apud Bessa, 2005, p.44), porém, não a partir das relações humanas, mas, a partir da tendência atualizante, ou seja, a partir de si mesmo (ROGERS & KINGET, 1977, p.159).

Ao considerar a capacidade humana de crescimento e enriquecimento intrínseca, desde que se encontre o ambiente favorável (MOREIRA, 2007, p.53), é possível que o dependente consiga a partir do aconselhamento, tudo o que precisa para se estruturar e crescer, sem precisar esperar bons referenciais externos (SCHMIDT, 1976, p.25).

A partir do conhecimento pleno, desenvolvido por meio da ação reflexa do terapeuta, a pessoa dependente pode alcançar a condição de mudança e de reestruturação de vida (HIPÓLITO, 2010, p.44), de modo que não mais aguarda por referenciais, mas, torna-se referencial (ROUANET, 1987, p. 233).

Este conhecimento pleno proporciona também a diminuição da curiosidade (LIBÂNIO, 2004, p. 159), pois a mesma é sensação relacionada ao desconhecido. Portanto, o autoconhecimento promove a prevenção do uso de drogas, no que diz respeito à pessoa que ainda não utiliza, e redução de recaídas para os que estão diminuindo o uso.

Se a condição de dependência pode ser desenvolvida por diversos fatores como insatisfação com a vida, personalidade fraca, necessidade de prazer inerente ao ser humano e influências da modernidade (CARMO, 200, p.143), é imprescindível que seja desenvolvido um acompanhamento centrado na pessoa dependente e não nos problemas decorrentes da utilização de drogas, para que o dependente não redirecione a dependência de drogas para uma dependência do terapeuta (SCHULTZ, 2002, p.325).

3.5.2 Terapia familiar

A terapia centrada na família compartilha dos mesmos pressupostos da terapia centrada na pessoa, ou seja, o foco do terapeuta não está no problema, mas, nas pessoas e, deste modo, o trabalho é desenvolvido em dois momentos específicos. Num primeiro momento, o terapeuta direciona seu trabalho para o cliente que lhe procura e, portanto, a atuação é centrada na pessoa. Num segundo momento, é realizada uma reflexão para o desenvolvimento de uma intervenção adequada ao contexto antropológico. A partir disso, podemos entender a família como um “sistema multidimensional de relações sociais interdependentes em que estas diferentes dimensões se encontram presentes em grau e correlações variáveis” (HIPÓLITO, 2010, p.76).

A pessoa nesta perspectiva é ao mesmo tempo, o centro e um dos pólos de cada uma das relações familiares. E por isso, o terapeuta deve se utilizar da resposta de compreensão empática para refletir em todo o sistema familiar, as vivências expressas de cada pessoa envolvida no processo terapêutico. Desse modo, é possível que cada membro da família consiga alcançar uma visão mais adequada de si e em si, ou seja, que cada um se observe interna e externamente, e que a partir dessa visão, seja possível um crescimento mais adequado ou haja um enriquecimento familiar por meio das potencialidades individuais (HIPÓLITO, 2010, p 76).

A terapia familiar sistêmica é originária da década de cinquenta e tem como alicerce, aspectos da biologia, química, cibernética, teoria sistêmica e outras. O início das considerações sobre a terapia familiar surge, quando estudiosos começaram a questionar a perspectiva conhecida, até então, sobre a doença mental, pois, acreditava-se que a psicopatologia se desenvolve e é mantida apenas pelo indivíduo e esta interpretação não se sustentava mais, devido à observação das influências do contexto na construção do indivíduo (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

De modo geral, as famílias são percebidas como grupos de pessoas com laços consanguíneos, com intenções de procriação. Na perspectiva sistêmica, as famílias simbolizam sistemas que se relacionam com o meio e/ou com outros sistemas semelhantes (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

A terapia é centrada no sistema e não em cada indivíduo que compõe a família. Por isso, acredita-se ser impossível entender o funcionamento de uma família conhecendo apenas uma de suas partes. Portanto, podem ser desenvolvidas várias técnicas para a ampliação da compreensão das relações familiares, o que favorece na reorganização do grupo (FERES-CARNEIRO, 1994, p.57-58)

 A facilitação terapêutica deve ser desenvolvida de modo que o discurso de cada pessoa seja integrado ao discurso da família, a fim de que o indivíduo não abandone suas perspectivas pessoais e seja respeitado com todas as suas idiossincrasias, e, assim, sinta-se restituído ao grupo familiar identificando o seu valor em relação ao mesmo (HIPÓLITO, 2010, p 78).

O papel do terapeuta é de vivenciar o quadro apresentado pela família e a partir disso comunicar sua compreensão, de modo sensível, respeitando a expressão da vivência de cada um, juntamente com as projeções, mudanças e significados atribuídos por cada pessoa do grupo (HIPÓLITO, 2010, p 79).

Além disso, a família apresenta uma especificidade terapêutica: cada membro, estando presente ou não no momento terapêutico, tem um lugar especial e influencia no desenvolvimento das potencialidades do grupo e, por isso, o terapeuta precisa considerar o indivíduo ausente e atribuir-lhe o lugar conferido pelas pessoas presentes, contando com estas atribuições durante todo o período de acompanhamento (HIPÓLITO, 2010, p 79).

A proposta é auxiliar a família a alcançar o enriquecimento proporcionado pela consciência de que o tema da colusão não afasta ou divide a família, mas, serve de oportunidade para o desenvolvimento da flexibilidade e equilíbrio (FERES-CARNEIRO, 1994, p.54).

Considerações Finais

Durante o desenvolvimento desse trabalho ficou evidente a complexidade das situações que envolvem o dependente químico, bem como as dificuldades encontradas para propiciar um tratamento que seja apropriado.

Tal compreensão fica cada vez mais imprecisa devido ao fato de que a modernidade, marcada por relações momentâneas e utilitárias, influencia diretamente na fragmentação de conceitos e estruturas sociais.

Essa despreocupação para com o próximo gera uma busca individual que sofre influências do coletivo, pois, enquanto ser social, o indivíduo participa se envolve e responde de modo relacional às estruturas sociais em que está inserido, logo, o pensamento vigente na modernidade faz parte da formação do caráter do indivíduo. Por isso, o ser humano não se preocupa em como buscar aquilo de que necessita, de modo que, se entender que é preciso, abre mão de limites, ética e moral, para alcançar seu desejo.

É a partir do rompimento com esses limites, que o indivíduo geralmente, encontra, conhece, experimenta e se entrega à droga. Desse modo, passa a ser dominado por estímulos e sensações produzidas pelas substâncias químicas utilizadas, e, gradativamente, perde qualidade de vida em todos os aspectos, conforme os efeitos da substância escolhida pelo usuário. Esse abandono de si pode conduzi-lo a uma posição indesejável, pois, em muitos casos o usuário, adquire má aparência, passa a ter cheiro desagradável, modifica a maneira de conversar, torna-se inconveniente, e, por fim, pode chegar ao rompimento com as leis, numa tentativa de manter seu vício.

Pode-se afirmar que um acompanhamento compromissado, individual e relacional, possibilita ao dependente químico a organização pessoal necessária para um desenvolvimento integralizado.

É perceptível que a característica da dependência química, enquanto situação que considera a sujeição do indivíduo a algo ou alguém, bem como a necessidade humana de apoio para a organização temporal, social e psicológica – que deve ser desenvolvida em si, mas, a partir do outro – pode ser trabalhada em um processo terapêutico que leva em conta as necessidades intrafamiliares, a partir da compreensão empática. Isto porque, o terapeuta facilita ao grupo familiar, a interpretação das diferentes vivências e das necessidades de cada um.

Em relação aos referenciais que podem influenciar o indivíduo, podemos afirmar que, o enriquecimento familiar proporcionado pela aceitação dos papeis familiares e do valor de cada pessoa, pode promover condições para que cada membro do grupo torne-se referencial um para o outro, e assim, não haja mais a necessidade de busca de referenciais, mas, a potencialidade de ser referencial.

A compreensão de que as dificuldades devem ser aceitas e trabalhadas pela família – mesmo que num primeiro momento uma única pessoa busque o terapeuta e, posteriormente, o grupo se permita ser auxiliado – funciona como ferramenta de apoio contra a ideia de buscar soluções rápidas para os problemas em comprimidos ou ações emergenciais – ação esta que funciona como fator de risco para o desenvolvimento da dependência e codependência química.

A aplicação do MINI utilizada neste trabalho contribui para que os esforços no sentido de auxilio do tratamento dos dependentes tenham uma base mais concreta, a partir de interpretações gráficas sobre a direção e velocidade com que a dependência química está se desenvolvendo no país.

Além disso, o resultado da aplicação do MINI confirma argumentos apresentados por pesquisadores da área, sobre as características dos usuários e suas relações sócio familiares e isso confirma a necessidade de um apoio terapêutico familiar e não individual. A atenção voltada para com a família possibilita que o grupo desenvolva um ambiente equilibrado entre as múltiplas relações intrafamiliares e diminui o risco de que algum dos integrantes do grupo torne-se dependente químico ou mantenha-se em uso de substâncias químicas, como tentativa de refugiar-se de atritos e colusões.

Assim, a avaliação do genograma e a observância de possíveis farmacologias utilizadas em meio ao processo terapêutico devem ser observadas com cuidado, para que o terapeuta não deixe de perceber o quanto as identificações de família, realizadas por meio do genograma, ou os efeitos dos medicamentos, que por ventura o dependente esteja utilizando, interfiram nas ações do aconselhando, seja positivamente ou negativamente, de modo a afetar as intervenções do terapeuta.

É possível perceber o quanto os instrumentos de avaliação psicológica podem ser úteis para o desenvolvimento de uma intervenção eficaz, a partir da visão mais adequada do problema característico do indivíduo, grupo ou patologia específica.

Mas é importante lembrar que, para que a entrevista psicológica tenha resultados adequados, não basta à compreensão ou domínio teórico de utilização deste instrumento de avaliação. É imprescindível que o profissional tenha adquirido sensibilidade adequada para observação do paciente, seja através de estágio, supervisão, laboratório ou oficinas.

É necessário desenvolver sensibilidade e empatia, saber lidar com a própria subjetividade e com a subjetividade do outro (entrevistando). O entrevistador deve ser capaz de adentrar esse universo, sem juízo de valor, sem preconceito, para que assim possa estar com o outro, conhecer, não temer, se perder e se achar e, finalmente, voltar à realidade do contexto. E assim construir suas observações, ponderações e considerações, de modo mais neutro possível.

Assim, é possível perceber a presença de comorbidades psiquiátricas associadas à dependência de substâncias psicoativas e identificar a frequência em que ocorrem, bem como alguns dos sintomas que aparecem associados de forma especial a estas patologias, como sintomas de ansiedade e depressão.

A presença de transtornos psiquiátricos torna-se um dos fatores que compromete efeito do tratamento com pacientes dependentes químicos. Por isso, o diagnóstico apropriado desses transtornos associados pode proporcionar intervenções terapêuticas mais adequadas na interrupção da conduta de consumo de substâncias, amortecendo a ocorrência de recaídas e proporcionando melhora no funcionamento social e familiar.

Em relação às perspectivas religiosas que atuam como ferramenta de ajuda, notamos que alguns casos, a ligação entre as linhas religiosas e psicológicas de orientação ficam evidentes – como no caso da psicanálise e da cura do passado, onde se percebe a influência da psicanálise na vida do fundador da cura do passado. Em outros, essa ligação não fica tão clara, porém, pode ser percebido ante a semelhança no desenvolvimento de técnicas e mesmo na maneira como compreende o problema e pessoa ou cliente, como no caso do pessoalismo e o aconselhamento cristão.

A semelhança ocorre até mesmo no sentido em que a orientação é desenvolvida, ou seja, diretiva ou não, como no caso do behaviorismo e do aconselhamento bíblico, ambos diretivos, determinantes.

Diante disso, podemos afirmar que as linhas de aconselhamento e orientação relacionadas, podem ser apresentadas como estruturas ou processos da relação de ajuda, que, independente de serem psicologias, ou simplesmente terem influências psicológicas, atuam em direção à necessidade humana de apoio e orientação.

Pode-se dizer que a abordagem centrada na pessoa é uma ferramenta particularmente adequada para o cuidado com o dependente químico, porque considera a questão de maior significado para o indivíduo fragilizado e suscetível ao abuso do uso de drogas: a autoestima construída a partir do autoconhecimento, proporcionado pela compreensão empática do terapeuta.

A postura desenvolvida por Rogers, para auxiliar o ser humano em seu crescimento e enriquecimento, a partir das potencialidades intrínsecas, favorece para que o indivíduo se resolva sem necessitar de referenciais externos ou de condições sociais específicas, mas a partir daquilo que já existe dentro do ser e que, no caso do dependente químico, havia sido fragilizado ou momentaneamente impedido de se desenvolver.

Um diferencial desta abordagem está no fato de que, enquanto a mudança ocasionada por uma motivação externa pode ser revertida de acordo com futuras circunstâncias adversas, as alterações de comportamento, geradas por questões internas de auto compreensão, não ficam sujeitas as intempéries sociais ou crises de ordens familiares.

A segurança advinda dessa nova postura, além de proporcionar capacidade para superar adversidades, gera a motivação necessária para continuar se desenvolvendo e se enriquecendo por meio de novas compreensões, geradas a partir de novas vivências, formando um círculo eterno de compreensão e crescimento.

E esse movimento constante de vivência que leva à compreensão e compreensão que leva à vivência, forma uma estrutura de segurança para que o indivíduo não tenha necessidade futura de buscar refúgio em substâncias que produzem alívio passageiro das sensações sem, contudo, resolver o verdadeiro problema.

Logo, é perceptível que a abordagem centrada na pessoa realmente pode alcançar resultados extremamente positivos no acompanhamento para com dependentes e codependentes químicos, tornando-se um possível caminho de apoio. Seja unicamente pelos trilhos da psicologia, seja acompanhada pelo aconselhamento cristão.

ADAMS, J. (1999). Conselheiro Capaz. São José dos Campos: Fiel.

ALMEIDA, N. V. (2004). A entrevista psicológica como um processo dinâmico e criativo. PSIC – Revista de Psicologia da Vetor Editora, Vol. 5, nº.1, pp. 34-39.

AMATUZZI, M. M. & CARPES, M (2010). Aspectos fenomenológicos do pensamento de Rogers. Memorandum, 19, pp. 11-25. Retirado em 2011/10/06, da World Wide Web: <http://www.fafich.ufmg.br/memorandum/a19/amatuzzicarpes01>.

AMORIM P. (2000).  Mini International Neuropsychiatric Interview (MINI): validação de entrevista breve para diagnóstico de transtornos mentais. Revista Brasileira de Psiquiatria 22(3):106-15.

AUGRAS, M. (2002). O ser da compreensão. Fenomenologia da situação de psicodiagnóstico (10ª ed.). Petrópolis, RJ:Vozes.

AULETE, C. (1964). Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa. 2 ed. Rio de Janeiro: Delta.

ÁVILA-BATISTA, A. C. (2011). Construção e estudos psicométricos de uma escala para avaliação da impulsividade. Dissertação (mestrado) – Programa de Pós-Graduação  Stricto Sensu em Psicologia da Universidade São Francisco, 88 p., Itatiba, SP.

BAHLS, S; & NAVOLAR, A. B. B. (2004). Terapia cgnitivo-comportamentais: conceitos e pressupostos teóricos. In: Psicoutponline: Revista elerônica de psicologia [online]. nº 4, jul. pp. 1-11. Acesso em: 2011/ 10 / 08. Disponível em: <http://www.utp.br/psico.utp. online>.

BENEDICTO, M. (2007). Drogas Viagem Perigosa. Vida e Saúde: boas ideias para você viver bem. Tatuí, número especial sobre fumo, álcool e drogas, p. 16.

BESSA, D. B. (2002). Discurso Religioso em Olhai os Lírios do Campo. Teologia Prática, Belo Horizonte, ano 1, n. 1, p.31, jul – dez.

___________. (2005). A literatura de auto-aconselhamento: Recurso Pós-Moderno.  Teologia Prática, Belo Horizonte, ano 3, n. 5, p. 41, jul – dez.

BLEGER, J. (1998). Temas de psicologia: entrevistas e grupos. São Paulo: Martins Fontes.

BOCK, A. M. B., FURTADO, O. & TEIXEIRA, M. L. T. (1999). Psicologias: uma introdução ao estudo de psicologia. 13.ed. São Paulo: Saraiva.

BOWEN, M. (1978).Family therapy in clinical practice. New York: Jason Aronson.

CARMO, D. R. (2000). Prevenção ao abuso de drogas pela educação: Proposta da universidade estadual de Londrina. In: MARGARITA, A. V; SANTOS, Luis A. dos; SANTOS, Manoel A. dos (Org.). Ribeirão Preto: FIERP; EERP.

CATALDO NETO, A; GAUER, G. J. C. e; FURTADO, N. R. (2003) Psiquiatria para estudantes de medicina. Porto Alegre: EDIPUCRS.

CHAMOND, J. (2011). Fenomenologia e psicopatologia do espaço vivido segundo Ludwig Binswanger: uma introdução. In:Rev. abordagem gestalt. [online]. 2011, vol.17, n.1 [citado  2011-10-06], pp. 3-7 . Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script= sci_arttext&pid=S1809-68672011000100002&lng=pt&nrm=iso>. ISSN 1809-6867.

CLINEBELL, H. J. (1987). Aconselhamento pastoral: modelo centrado em libertação e crescimento. São Paulo: Paulinas; São Leopoldo, RS: Sinodal.

COLLINS, G. (2004). Aconselhamento Cristão: edição século XXI. São Paulo: Vida Nova.

CRABB JR, L. (1999). Aconselhamento bíblico efetivo. 2ª Ed. Brasília: Refúgio

CRABB, L. (2000). O lugar mais seguro da terra. São Paulo: Mundo Cristão.

DUTRA, Elza. (2004). Considerações sobre as significações da psicologia clínica na contemporaneidade.Estud. psicol. (Natal),  Natal,  v. 9,  n. 2, ago. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-294X2004000200021&lng= pt&nrm=iso>. acessos em  21 abr. 2011. doi:10.1590/S1413- 294X2004000200021.

EINSFELD, P. S. (2000). O Jó bíblico e Viktor E. Frankl: caminhos e atalhos na busca do sentido da vida. Estudos Teológicos, EST, ano 40, n. 3, pp. 16-32. São Leopoldo.

EVANS, A. R. (2002). O ministério terapêutico da Igreja: programas práticos para ministérios de saúde. São Paulo: Loyola.

FERES-CARNEIRO, T. (1994). Diferentes abordagens em terapia de casal: uma articulação possível? Temas psicol. [online]. vol.2, n.2, pp. 53-63 . Acesso em 26/06/2011. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_ arttext&pid=S1413-389X1994000200 006&lng=pt&nrm=iso>. ISSN 1413-389X.

GABEL, C. L. M. & SOARES, D. H. P. (2006). Contribuições da terapia familiar sistêmica para a escolha profissional. Rev. bras. orientac. prof [online]. vol.7, n.1 pp. 57-64 . Acesso em: 26/06/2011. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script= sci_arttext&pid=S1679-33902006000100007&lng=pt &nrm=iso. ISSN 1679-3390.

HIPÓLITO, J. (2010). Da complexidade à auto-organização: Evolução e desenvolvimento do pensamento rogeriano. Lisboa: EDIUAL.

HURDING, R. (1995). A cura do passado. In: ____. Árvore de cura. São Paulo: Vida Nova.

HUTZ, C. S. (2007). Prevenção e intervenção em situações de risco e vulnerabilidade. São Paulo: Casa do Psicólogo.

KALINA, E. (1983). Drogadicção: individuo, família e sociedade. Rio de Janeiro: Francisco Alves.

KELLERMANN, Peter Felix & HELLER, Eleny Corina. O Psicodrama Em Foco: e seus aspectos terapêuticos. São Paulo: Ágora, 1998.

KRISTENSEN, C. H. (2009). Comorbidade psiquiátrica em dependentes de cocaína/crack e alcoolistas: um estudoexploratório. In: Aletheia, Jul-Dez, núm. 30, pp. 101-112.

LEITE, E. A. F. (2005). Drogas, concepções, imagens: um comentário sobre a dependência a partir do modelo usual de prevenção. São Paulo: Annhablume; Fapesp.

LEON, G. D. (2003). A comunidade Terapêutica: teoria, modelo e método. São Paulo: Loyola.

LESSA, J. M. &  SÁ, R. N. (2006). A relação psicoterapêutica na abordagem fenomenológico-existencial. In: Análise Psicológica [online]. vol. XXIV, n. 3 [citado  2011-10-06], pp. 393-397. Disponível em: http://www.scielo.oces.mctes.pt/pdf/aps/v24n3/ v24n3a13.pdf

LIBÂNIO, J. B. (2004). Jovens em tempo de pós modernidade: considerações socioculturais e pastorais. São Paulo: Loyola.

LUNA, J. A. (2005). Logoterapia: un enfoque humanista existencial. Bogota: San Pablo.

MACEDO, D. S. de; FONSECA, C. M. M. e; HOLANDA, A. F. (2007). Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância. Um estudo comparativo de aconselhamento religioso em três vertentes religiosas brasileiras. Rev. abordagem gestalt.,  Goiânia,  v. 13,  n. 2, dez.    Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo. php?script=sci_arttext&pid=S1809-68672007000200004&lng=pt&nrm=iso>. acesso em  26  maio  2011.

MARZANO, C. (2007). Disfunções sexuais – Mais presentes do que pensamos. Disponível em: <http://www.psicopedagogia.com.br/entrevistas/entrevista.asp?e ntrlD=93> . Acesso em: 11 out. 2007.

MESSIAS, J. C. C.; CURY, V. E. (2006). Psicoterapia centrada na pessoa e o impacto do conceito de experienciação.Psicol. Reflex. Crit.,  Porto Alegre,  v. 19,  n.3. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&p id=S0102-79722006000300003&lng= pt&nrm=iso>. Acesso em  21 abr. 2011.

MEZAN, R. (2006). Freud, pensador da cultura. São Paulo: Companhia das Letras.

MORATO, H. T. P (1999) Aconselhamento psicológico centrado na pessoa. São Paulo: Casa do Psicólogo.

MOREIRA JR, J. (2011). Cultura desumanizante: uma observação da dependência e do dependente químico. Ethnic [online]. n.15, Ano 8, Jun 2011. pp. 74-93. Acesso em: 04/07/2011. Disponível em: <http://www.etnia.org.br/ethnic/ revista15/ethnic15.html?p ageNumber=74>

MOREIRA. V. (2007). De Carl Rogers a Merleau-ponty: a pessoa mundana em psicoterapia. São Paulo: Annablume.

NASCIMENTO R. S. G. F. (2005) A informática e a Avaliação psicológica. In: Psicologia e informática: desenvolvimento e progresso. – São Paulo: Casa do Psicólogo. pp. 215 – 223.

NETO, A.C.; DAL-BÓ, M. J.; BREDA, R. L.; & CRESTANA, T. (2003). Entrevista psiquiátrica. In: Psiquiatria para estudantes de medicina. NETO, A. C.; GAUER, G. J. C.; FURTADO, N. R. (Orgs.) – Porto Alegre: EDIPUCRS

NORONHA, A. P. P.;  BALDO, C. R.; ALMEIDA, M. C.; FREITAS, J. V.; BARBIN, P. F. & COZOLI, J. (2004). Conhecimento de estudantes a respeito de conceitos de avaliação psicológica. In: Psicologia em Estudo, vol.9, no.2, Mai-Ago,  ISSN 1413-7372, Maringá, SP.

OLIVEIRA JUNIOR, Antonio Wellington de. Glossolalia: voz e poesia. São Paulo: Editora PUC-SP (Educ), 2004.

OLIVEIRA, I. T. (1999). Psicoterapia psicodinâmica breve: dos precursores aos modelos atuais. Psicologia: Teoria e Prática, 1(2): 9-19.

OLIVEIRA, M. F. (2005) Entrevista psicológica – o caminho para aceder ao outro. Trabalho de Licenciatura / Monografia. Disponível em: <http://www.psicologia.pt/artigos/textos/ TL0031.PDF>.

PINHEIRO, O. G. Entrevista: uma prática discursiva. In: Práticas discursivas e produção no cotidiano: aproximações teóricas e metodológicas. SPINK, M. J. P. (Org.). 3 ed. São Paulo: Cortez, 2004.

PRADO, L. C. (2009). Terapia Familiar – ontem e hoje. In: Revista Brasileira de Psicoterapia; 11 (2) p. 231-243. – Porto Alegre: CELG. Acessado em: 2011-10-26. Disponível em: http://www.rbp.celg.org.br/attachments/article/79/revista_vol11_2.pdf# page= 103.

PSICOTERAPIA BREVE. (2003-2011). In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora. [Consult. 2011-10-06]. Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/$p sicoterapia- breve>.

REBELO, L. (2007). Genograma familiar: o bisturi do médico. In Rev Port Clin Geral;23:309-17. Acesso em: 2011-10-20. Disponível em: <www.fcm.unl.pt/departamentos/cligeral/docs/5ano/RPCG_Genograma_Familiar.pdf>

RODRIGUES, A. C. T. (2005).Karl Jaspers e a abordagem fenomenológica em psicopatologia. In: Revista Latino Americana de Psicopatologia Fundamental. ano VIII, n. 4, dez. pp. 754-768.

ROGERS, C. & KINGET, M. (1977). Relações Humanas e Psicoterapia. (2ª ed.). Belo Horizonte: Interlivros.

ROGERS, C. (1961). Tornar-se Pessoa. São Paulo: Livraria Martins Fontes.

ROGERS, C. (1983a). A Terapia Centrada no Paciente. (2ª ed.) Lisboa: Moraes Editores.

ROGERS, C. (1987). Psicoterapia e consulta psicológica. São Paulo: Martins Fontes.

ROGERS, C. (2000). Manual de Counselling. Fanhões: Encontro. (original publicado em 1946).

ROGERS, C. R. & WOOD, J. K. (1978). Teoria centrada no cliente: Carl R. Rogers. In: BURTON, Arthur. Teorias operacionais da personalidade. Rio de Janeiro: Imago.

ROUANET, S. P. (1987). As razões do iluminismo. São Paulo: Companhia das Letras.

ROVINSK S. L. R. (2005). A avaliação do dano psíquico em mulheres vítimas de violência. In: Avaliação psicológica e lei: adoção, vitimização, separação conjugal, dano psíquico e outros temas / Sidney Shine, (organizador). – São Paulo: Casa do Psicólogo pp. 175 – 179.

SAFRA, G. (2005). A fragmentação do éthos no mundo contemporâneo. In: NOÉ, Sidney Vilmar (Org.). Espiritualidade e saúde: da cura d’almas ao cuidado integral. 2 ed. São Leopoldo: Sinodal, p. 7.

SCHEEFFER, R. (1976). Aconselhamento Psicológico. (6ª ed.). São Paulo: Atlas.

SCHEFFER M.; PASA G. G.; & ALMEIDA R. M. M. (2010). Dependência de Álcool, Cocaína e Crack e Transtornos Psiquiátricos. In: Psicologia: Teoria e Pesquisa. Jul-Set Vol. 26 n. 3, pp. 533-541.

SCHMIDT, I. (1976). A ilusão das drogas: um estudo sobre a maconha, LSD e anfetaminas. Santo André: Casa Publicadora Brasileira.

SCHULTZ, D.P, SCHULTZ, S. E. (2002). Teorias da personalidade. São Paulo: Pioneira Thomsom Learning.

SEAMANDS, D. A. (2007). A cura das memórias. São Paulo: Mundo Cristão.

SHLEMON, B.L. (1986). A cura do eu interior. São Paulo: Loyola.

SILVA, C. R.; KOLLING, N. M.; CARVALHO, J. C. N.; CUNHA, S. M.; & SKINNER, B. F. (2006) Sobre o Behaviorismo. São Paulo: Cultrix.

SOUZA C. C.; BITENCOURTT S. A.; & OLIVEIRA M. S. (2006) Comorbidades em dependência química: transtorno de déficit de atenção / hiperatividade e fobia social. In: Temas em psicologia clínica / Blanca Susana Guevara Werlang, Margareth da Silva Oliveira (orgs.). – São Paulo: Casa do Psicólogo (pp. 107 – 111).

SPARTA, M.; BARDAGI, M. P.; &  TEIXEIRA, M. A. P. (2006). Modelos e instrumentos de avaliação em orientação profissional: perspectiva histórica e situação no Brasil Rev. Brasileira de orientação profissional vol.7, n.2, pp. 19-32.

SULLIVAN, R. S. (1970). The psychiatric interview. New York: The Norton Library.

TAVARES, M. (2002). A entrevista clínica. In: J. A. Cunha, Psicodiagnóstico – V (5ª ed., rev. e ampl.). Porto Alegre, RS: Artmed.

VILA-CHÃ, J. (1988). Edmund Husserl 1859-1938. In: Revista Portuguesa de Filosofia

T. 44, Fasc. 3, Edmund Husserl: no 50.° aniversário da sua morte, Jul. – Sep. – pp. 357-365.

WATERS, I. (1994). Genogramas. Canadian Family Physician; 40:282-7.

WENDT, N. C. & CREPALDI, M. A. (2008). A utilização do genograma como instrumento de coleta de dados na pesquisa qualitativa. In: Psicología Reflexão e Crítica, año/vol. 21, número 002. pp. 302-310. – Puerto Alegre, Brasil.

ZAMPIERI, M. A. J. (2004). Codependência: o transtorno e a intervenção em rede. São Paulo: Ágora.

Tags: