Psicanálise: na Velhice o Sujeito deve Envelhe-Ser

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March 6, 2015
Psicanálise: na Velhice o Sujeito deve Envelhe-Ser

a06img01Neste artigo pretende-se examinar o idoso como um todo, desde o social até as questões subjetivas. A população terrestre em números está aumentando cada vez mais o que pode se tornar um problema. No mês de novembro de 2011 de acordo com a ONU, ultrapassou-se os sete bilhões de pessoas na Terra. Segundo Ana Amélia Camarano, O envelhecimento populacional é resultado da manutenção por  um  período razoavelmente longo, de taxas de crescimento da população idosa superiores às da população mais jovem. De acordo com o site do jornal R7(Record) “o número de idosos em um futuro bem próximo ultrapassará o de jovens e crianças, e o Brasil terá que repensar políticas públicas para dar qualidade de vida aos idosos”. Isto deixa várias questões a serem resolvidas, uma delas é: O sujeito que se torna idoso está envelhe-sendo?

Palavras chaves: Envelhecer, Psicanálise, Sujeito, Contemporaneidade, Desejo.

O termo velhice é tratado de várias formas por inúmeras teorias e conceitos do senso comum. Neste artigo, velhice é idade numérica avançada, pois, o jovem de hoje está no idoso de amanhã. Considerar o inconsciente da psicanálise, o inconsciente atemporal, onde conseguimos viver com grande potência situações vivênciadas desde nossa tenra infância, faz-nos descartar os rótulos por idade colocados no ser humano. A situação populacional atual faz surgir algumas questões inerentes à velhice que são de suma importância.  O mundo contemporâneo tem como características a evolução, transformação e necessidade de brevidade, porém, estas ocorrem em meio a uma sociedade altamente capitalista, que não deixa espaço para  quem não produz, para aquele que não acompanha com devida velocidade os demais. No caso dos idosos, o mundo atual não está preparado para acolhê-los com dignidade, respeito e ética. Quanto a ética da psicanálise, ou seja, a ética do desejo, esquece-se muitas vezes que eles ainda carregam em si a delícia e a essência de ser humano.

Evoluímos drasticamente nas questões eletrônicas e virtuais, assim como, também em saúde, conforto e prazer; a tão desejada sensação de completude, ou de alívio imediato, muitas vezes nos faz cair numa busca ‘cega’, sem reflexão e egoísta, gerando desmedidas consequências a nós mesmos e à população em geral. Poder-se-á chegar a um estágio de ‘falta da falta’ como dizia Lacan, ou num gozo em sua última instância, que é causador de dor e sofrimento, pois, paga-se um preço para gozar; muitas vezes, este preço pode ser a própria vida ou a do outro. No caso da civilização contemporânea este preço parece estar diretamente ligado à vida do outro, o idoso, ao seu encosto, à desconsiderações acerca de sua subjetividade, do seu eu, de seus desejos e de sua vida.

O mundo arquitetônico também sofre rápidas transformações e mudanças, mas, aquelas voltadas ao idoso ocorrem lentamente; são poucas as cidades que se preparam para a chegada da velhice. É também característico do ser humano sofrer transformações durante toda a vida, corporais e psíquicas, e com o passar do tempo fica-se mais lento e a sociedade mais rápida. Será que a sociedade está preparada para que os idosos se locomovam com segurança, ou estamos simplesmente preparados para nos locomovermos mais rápidos? Deveríamos estar voltados principalmente para a questão protecional, a falta de rampas e de sinalizações adequadas, de apoio e o crescente aumento de acidentes envolvendo idosos, confirma nosso despreparo no trato com os idosos.

A velhice vem acompanhada por inúmeras questões impostas pelo biopsicossocial.  A questão tempo, parece surgir como inimigo; a morte e as perdas começam a ser algo escancaradamente presentes na vida do sujeito, dispondo o idoso frente ao luto, o que ocasiona mecanismos de defesa.

“Os mecanismos de defesa não representam apenas o conflito e a patologia, eles são também uma forma de adaptação. O que torna “as defesas” um aspecto doentio é sua utilização ineficaz ou então sua não adaptação às realidades internas e externas” (Bergered, 2006).

Estes mecanismos podem ajudar a tamponar ou fantasiar aquilo que dizem ser nossa própria morte, pois, como disse Freud “somos incapazes de imaginar nossa própria morte”.

 A falta de agilidade faz com que o sujeito fique atrasado e não consiga acompanhar o social. Na cultura atual, para se respeitar um idoso é necessário leis, normas, imposições. O que  antes era feito por educação e respeito, hoje quando e se é feito é por obrigação. Dois nítidos exemplos disto são, filas em bancos e assentos em ônibus. Constam no Estatuto do Idoso, 118 artigos destinados aos direitos das pessoas com mais de 60 anos. Dispõe de 10 capítulos, estes sendo respectivamente voltados aos seguintes direitos; à vida, à liberdade, à alimentação, à saúde, à educação, cultura esporte e lazer, à profissionalização do trabalho, à Previdência Social e Assistência Social, à habitação e ao transporte. Aqueles que maltratarem os idosos, conforme a lei, serão punidos pelos seus atos, perpassando por multas e aprisionamentos. Na teoria o estatuto é rígido e protetor, mas será que nossos idosos conhecem os seus direitos para reivindicá-los?  Os idosos, assim como todos os cidadãos, devem conhecer seus direitos e deveres, e usufruí-los, afim de terem uma vida mais justa e tranquila perante a lei.

Com a chegada da degeneração física e mental, conceito da evolução humana, e muitas vezes por lei, o idoso é expulso ou retirado do campo de produção, ou seja, do âmago do mundo capitalista, é muitas vezes visto como encosto e ‘boa vida’, sem nem mesmo ter, consideração a seus desejos e questões particulares, atingindo-se aí, questões narcísicas e egoicas que mais uma vez podem favorecer mecanismos de defesas. Freud diz que “entre os mecanismos de defesa é preciso considerar, por um lado, os mecanismos bastante elaborados para defender o ego, e por outro lado, os que estão simplesmente encarregados de defender a existência do narcisismo” (Freud, 1937).

Outra visão do senso comum que é bastante questionável e para a Psicanálise inaceitável, diz  respeito à sexualidade do idoso. O senso comum coloca o idoso em um lugar de um ser a-sexual, mas Freud vem mostrar o contrário: “é necessário fazer uma distinção nítida entre os conceitos de ‘sexual’ e ‘genital’, o primeiro é o conceito mais amplo e inclui muitas atividades que nada tem a ver com os órgãos genitais.” (Freud, 1940). A sexualidade se manifesta por meio da libido, termo oriundo da teoria das emoções e é de origem da palavra alemã liebe(amor) e que pode ser comparada ao eros dos filósofos e poetas.   Nossa pulsão sexual, que em primeiro momento é narcísica, encontra-se em nosso ego inconsciente e em um segundo momento é objetal, transferimos e conseguimos ter prazer no objeto, no outro, e o prazer pode ser alcançado por todos os nossos poros, inclusive quando se tem a idade avançada. “As partes  mais proeminentes do corpo de que esta libido se origina são conhecidas  pelo nome de ‘zonas erógenas’, embora, de fato, o corpo inteiro seja uma zona erógena desse tipo” (Freud, 1938). O toque, o olhar, fantasias, passeios, conversas, dentre outros atos, fazem parte desta sexualidade podendo fazer com que o casal alcance satisfação, prazer e gozo, independente da idade.

O corpo sofre transformações e muitas vezes perdas. Estas quando vistas sob a ótica social colocam o sujeito no fim da vida, como se não pudesse mais viver e sonhar. O idoso que aceita esta perspectiva do outro, pode por falta de informação perder momentos de sublime prazer na vida. “O luto pela perda de algo que amamos ou adimiramos se afigura tão natural no leigo, que ele considera evidente por si mesmo.” (Freud em seu artigo sobre a transitoriedade). Ainda sobre a transitoriedade, Freud vem nos dizer sobre o valor e o tempo:

“a beleza da forma e da face humana desaparece para sempre no decorrer de nossas próprias vidas; sua evanescência, porém, apenas lhes empresta renovado encanto. Uma flor que dura apenas uma noite nem por isso nos parece menos bela. Tampouco posso compreender melhor, porque a beleza e a perfeição de uma obra de arte ou de uma realização intelectual deveriam perder seu valor devido à sua limitação temporal” (Freud, 1915).

Quer obra de arte mais perfeita que o ser humano? Não é pelo passar do tempo que temos valor e podemos ser felizes? O aceitar o lugar de ‘encosto’ e de sujeito cristalizado que a morte espera, pode fazer com que o futuro que ainda resta seja apreendido no presente.

Considerações Finais

Uma certeza todos os seres humanos têm: a morte é certa. Mas não temos que nos cristalizar e esperar; devemos aproveitar a vida. Será que temos só que ficar idosos ou podemos envelhe-ser sendo? Esta questão que teoricamente parece óbvia, tem sua resposta na prática complicada. Não é nada afável ir de frente com o social, o senso comum e o capitalismo, onde produção exacerbada é o ideal, nem mesmo com o estranho. “O estranho não é nada novo ou alheio, porém algo familiar e há muito estabelecido na mente, e que somente se alienou desta através do processo do recalque”(Freud 1919). Perde-se na produção e no valor capitalista, mas será que também é necessário perder os valores?

Muitos idosos, acabam adoecendo psiquicamente com sintomas de paranoia, medo de perseguição familiar, questões de herança, depressão. Esta surge nos casos de isolamento, mania, ausência de produção; afinal, isto é quase que proibido, é uma imposição. Outra saída para evitar o sofrimento e também uma tentativa, talvez frustada do aparelho psíquico se arranjar é a influência do químico, das drogas, dos medicamentos: o intoxicar-se. Este ilusório consumo traz consigo alívio imediato, um verdadeiro ‘amortecedor de preocupações’ como disse Freud e ainda seguiu dizendo que, “é exatamente essa propriedade dos intoxicantes que determina o seu perigo e sua capacidade de causar danos,” e para concluir postulou “são responsáveis pelo desperdício de uma grande quota de energia que poderia ser empregada para o aperfeiçoamento do destino humano.” No caso dos idosos do seguimento da vida e de seu destino.

O viver em grupo é uma ótima saída para o atual mal estar. É como disse Freud em Psicologia dos grupos e análise do eu:

“O indivíduo que faz parte de um grupo adquire, unicamente por considerações numéricas, um sentimento de poder invencível que lhe permite render-se a instintos que, estivesse ele sozinho, teria compulsoriamente mantido sob coerção” (Freud, 1921)

Que grupos são estes?, pode ser social, familiar, religioso dentre tantos outros. Para sair deste mal estar, há que se preparar o social e a família para recebê-los e assim, interagir com a vida e o mundo externo.

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