Psicanálise Infantil: nuances do atendimento à criança com necessidades especiais

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March 9, 2015
Psicanálise Infantil: nuances do atendimento à criança com necessidades especiais

sindrome[1]A prática clínica infantil constitui-se em grandes desafios para o psicanalista. Embora a Psicanálise seja a clínica do sujeito, a clínica com crianças nos coloca frente a algumas questões relevantes. Receber uma criança para tratamento já nos coloca diante da interrogação: de quem se trata, quando se trata de uma criança?

Há que se considerar a relação de transferência, fundamental num processo analítico, atravessada por algumas especificidades que são diferentes para o sujeito adulto. A demanda, comumente, não nos chega enquanto demanda da criança, mas do casal parental, de um técnico ou de uma Instituição. Sendo necessário que haja um desdobramento transferencial para possibilitar o surgimento da demanda da criança.

É preciso lembrar que estamos diante de um corpo-sujeito em processo de formação biológico e psico-estrutural (necessariamente não correspondentes), atravessado por uma multiplicidade de saberes a ele destinado, quais sejam: a Pediatria, a Pedagogia, a Psicologia, entre tantos outros das áreas de Saúde e de Educação; existe uma demanda social estabelecida. Os clichês de normalidade já estão montados quanto aos ideais de desenvolvimento, enquadrando como patologias ou desvios os indivíduos fora dessa ordem preestabelecida, obturando exatamente a possibilidade de subjetivação desse corpo sujeito em formação.

Considerando esse contexto social e de desenvolvimento humano, peculiar a condição e de ser da criança, o desafio é ainda maior em se identificar e sustentar a demanda quando o atendimento é solicitado para um portador de necessidades especiais. É recorrente que os pais tragam a criança, em seu discurso, como um objeto real, excluída de sua subjetividade.  Também é frequente buscarem o atendimento infantil, ainda, tomados pelo lamento ou angústia sobre a perda do filho “ideal”, aderidos à marca real no corpo de seu filho; perdidos em sua função tutelar, buscando orientações em como proceder.

Nesse sentido, já fica explicita uma demanda do par parental, e a existência implícita ao atendimento infantil, de que há um luto a ser trabalhado e elaborado pelo grupo familiar. Há uma tentativa de recobrir a falta, há um pedido de algo seja curado, retirado. Como manejar com o pedido dos pais de homogeneizar a heterogeneidade do pequeno sujeito em formação?

O bebê humano nasce em condições precoces, inscreve-se na cultura sempre pela via do desejo de “um” outro, é Desejo de Desejo; a linguagem incide sobre o corpo engendrando as pulsões. A criança não traz inscrito no corpo nenhum sistema ou código que lhe defina com o que acalmar seu mal estar. A priori é um feixe pulsional fragmentado e é uma ação psíquica de fora, ou seja, os significantes da mãe, ou de quem ocupe esse lugar, que age sobre ela na tentativa de responder às suas insatisfações (JERUSALINSKY, 1989).

 No plano imaginário, um bebê é engendrado para obturar a falta, ser o falo da mãe. O investimento narcísico de uma mãe faz de sua criança o resumo de suas idealizações, mesmo não o sendo. O nome do pai precisa fazer-se presente, operando enquanto barra ao gozo da simbiose mãe e filho. A função paterna em alguma medida vai ser falha, visto que, a demanda imaginária que ela engendra é total e a resposta possível é sempre parcial.

O filho desejado, idealizado, é incompleto.  Qualquer humano ao nascer o que traz em termos constitucionais é a atividade reflexa com expressões do tônus muscular; existindo assim no nascimento a dimensão de um luto, o filho, obturador da falta é faltante. Essa dimensão de luto se agrava, quando essa criança traz no corpo algum impedimento de conferir aos pais a ilusão de resposta esperada; devolver ao retorno do investimento libidinal feito sobre o mesmo.

Acolher ao discurso dos pais é a abertura para que um processo possa ser constituir. Sustentar a relação transferencial com esses é a condição de assegurar, pelo menos um espaço para que a criança possa advir. É a possibilidade de fazer emergir o lugar desse filho no mito familiar. “O sintoma da criança se encontra no lugar de responder àquilo que há de sintomático na estrutura familiar” (Lacan 1998).

Um filho ao ser desejado e idealizado vem com a “missão” impossível de preencher um lugar, atender a suposição de que há um objeto apaziguador que recobre a falta. Visto que, o objeto adequado não existe e é como faltante que um sujeito se constitui, é preciso que haja uma queda desse lugar idealizado viabilizando o pequeno ser a construir as próprias respostas, escapando do lugar a ele destinado no desejo do mito familiar.

O casal parental procura tratamento para seu filho com uma demanda recoberta pela prevalência do imaginário. Eles vêem queixar-se de alguma coisa. “O sintoma, eis o fato fundamental da experiência analítica, se define nesse contexto como representante da verdade” (Lacan, 1998). Há que se possibilitar de que possam se utilizar da linguagem e depositar, pela via da transferência, seu “mal estar” no sujeito suposto saber, eleito por eles para o tratamento de seu filho.

O desdobramento da fala dos pais constitui-se em campo aberto para o deciframento da verdade desse par no projeto a que foi destinado esse filho. “O sintoma pode representar a verdade do casal. Aí está o caso mais complexo, mas também o mais aberto às intervenções” (Lacan, 1998). Qual a verdade do casal que o sintoma da criança oculta?

Quando a criança nasce com qualquer indicativo orgânico que a impede de responder as expectativas imaginárias dos pais, o embotamento da verdade da estrutura familiar torna-se mais mistificado ainda e com maior resistência a sua decifração. Uma vez que há dificuldade de um reconhecimento narcísico e, conseqüentemente de investimento libidinal.

É inevitável que haja certo impasse nesse contexto, não se trata de negar a realidade dos fatos. Porém, é preciso que o analista atente para esse embotamento e que não se coloque também aderido a essa demanda imaginária da impossibilidade orgânica da criança. “O sintoma somático dá a máxima garantia a esse desconhecimento; ele é o recurso inesgotável conforme os casos, a testemunhar culpabilidade, a servir de feitiço, a encarnar uma primordial recusa” (Lacan, 1998).

Outra questão peculiar nesses casos, testemunha da recusa, e da vacilação da parceria, é um dos pares se ausentar da cena e deixar a cargo apenas de um, a procura incessante por diversos profissionais “da infância” na busca da cura do incurável. É importante intervir acolhendo a quem vier fazer-se cargo dessa função e convocar o genitor ausente a vir depor sua queixa, falar de seu luto e colocar-se a trabalhar a sua própria decifração.

Muitas são as nuances que se apresentam na clínica infantil. O mito da estrutura familiar se reedita não apenas no casal que representa a criança, mas ainda pertinente ao mito das gerações passadas na família de cada genitor em particular.  No infantil que repercute na estruturação desses sujeitos que agora respondem pela continuidade do romance familiar.

Sustentar a demanda dos pais é importante, tem sua função, mas segue até o limite que viabilize a escuta da criança. Faz-se necessário preservar o espaço próprio para a análise da criança, na medida em que ela suporte o corte e a ausência dos pais da cena. Atentando para a singularidade de cada situação, às vezes, para que a escuta continue profícua, é preciso encaminhar os pais para o próprio tratamento, fato que favorece a separação e a análise da criança.

Refletir a clínica psicanalítica com crianças é aprender e produzir na singularidade de cada caso. Nessa medida é recorrer à experiência própria que fundamenta a psicanálise, a experiência do inconsciente do sujeito aprisionado em sua verdade, uma verdade da qual ele nada quer saber e menos ainda se haver com ela. Em se tratando da criança, é sempre ameaçador o encontro desse pequeno sujeito com sua verdade diluída no mito familiar.

Cito a poeta Lya Luft:

Fruto de enganos ou de amor,
Nasço de minha própria contradição.
O contorno da boca,
A forma da mão, o jeito de andar
(sonhos e temores incluídos)
Virão desses que me formaram.
Mas o que eu traçar no espelho
Há que se armar também
Segundo o meu desejo.
Terei meu par de asas
Cujo vôo se levanta desses
Que me dão a sombra onde eu cresço
– como, debaixo da árvore,
Um caule
E sua flor.

ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. 2. Ed. Rio de janeiro: LTC, 2006.

CAZENAVE, Liliana. “O que cura o psicanalista nas crianças” in: A criança no discurso Analítico. Rio e Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1991.

FERNANDEZ, Alícia. A inteligência aprisionada, abordagem psicopedagógica clínica da criança e sua família. Tradução: Iara Rodrigues. 2ed. Porto Alegre: Artes médicas, 1991.

JERUSALINSKY, Alfredo. Psicanálise e desenvolvimento infantil. Porto Alegre: Artes médicas, 1989.

LACAN Jacques. Duas notas sobre a criança. In: Opção Lacaniana, nº 21/ Abril 1998.

MILLER, Jacques-Alan. A criança entre a mulher e a mãe. In: Opção Lacaniana, nº 21/ Abril 1998.

RODOLFO, Ricardo. O brincar e o significante: um estudo psicanalítico sobre a constituição precoce. Tradução de Francisco Franke Settineri. Porto Alegre: Artes médicas, 1990.

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