Palavras movem, exemplos arrastam

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November 25, 2014
Palavras movem, exemplos arrastam

paz-na-escolaSemana passada fui à uma escola fazer uma visita de rotina. No meu trabalho, acompanho as escolas e busco auxiliar a equipe escolar na resolução/melhoria dos problemas que a escola enfrenta.

A escola em questão fica num bairro periférico, numa região de invasão de uma grande cidade do interior de São Paulo. Logo, tem todas as dificuldades e contradições que o entorno social permite.

No dia da visita eu estava resolvendo algumas pendências com a Direção da Escola quando outro membro da equipe escolar chegou solicitando a intervenção do Diretor, que imediatamente largou tudo e foi atender à ocorrência.

A situação era a seguinte: dois colegas de classe haviam se estapeado e um deles deu um soco no nariz do outro e acabou quebrando-o. A solução foi chamar os responsáveis pelos meninos para analisarem a situação e definirem uma sanção aos dois, afinal quando um não quer, dois não brigam, não é?

Enquanto aguardavam a chegada dos pais, os meninos foram levados à sala onde eu estava. Olhei para eles e resolvi tentar entender o que havia ocorrido. Pedi a eles que se apresentassem e me contassem, cada um a seu tempo, os fatos. E assim eles fizeram.

Relataram que tudo começou quando o jovem “A” chegou à escola e o jovem “B” estava sentando em seu lugar. O jovem “B” afirma que não havia nome no lugar e que os alunos sentam onde querem. “A” argumentou que senta no mesmo lugar desde que as aulas começaram e que pediu com educação para “B” sair e ele ignorou. Então “A” resolveu contar um podre de “B” para o pessoal sentado nas imediações, era uma bobeira, mas deixava claro o quanto “B” era infantil! O grande problema foi que “B” não gostou da atitude de “A” e num acesso raivoso, levantou e empurrou o colega, que na defesa acabou dando um soco no nariz de “B”. Sangue e vergonha por todo lado! Ambos foram levados à Diretoria.

A história que me contaram, cada um na sua vez e sem direito de interromper o colega foi a mesma, construída por dois lados de um mesmo fato. O que fez com que “B” ficasse tão irado com “A”, a ponto de agredi-lo, quando se olharmos bem, “B” começou a confusão ao desrespeitar o colega, tomando-lhe o lugar? A resposta é simples: na frente da carteira “roubada” de “A”, senta-se uma linda rapariga… e “B” está enamorado dela… jogando charminho, na intenção de conquistá-la! E o que fez “A” com a imagem que “B” tentava construir? Jogou-a no lixo! Mostrou para a bonitona que “B”, embora quisesse parecer maduro, eram um meninão!

Ah, meu Deus! Imagem arranhada, auto estima abalada! Eis o motivo da agressão. Ambos não souberam respeitar, ambos não trataram o colega como gostariam de ser tratados! Refleti isso com eles e pedi que contassem um para o outro como se sentiram durante o evento e como estavam se sentindo após ele.

“B” estava tão chateado e envergonhado que até queria mudar de escola! Queria ir para Minas Gerais, cidade onde o pai distante mora. Perguntei porquê, afinal não era para tanto, brigas entre colegas são coisas da vida, acontecem cotidianamente e era desnecessário radicalizar! Era só pedirem desculpas e tentar se colocar no lugar do outro antes de perder a cabeça e estourar novamente.

Foi então que me surpreendi! “B” não estava envergonhado por ter desrespeitado o colega, achava que “A” agiu errado ao lhe cobrar o lugar, afinal não tem nome escrito na carteira, o que o incomodava tanto era o fato que ele teria que conviver com a vergonha de ter o nariz quebrado por “A” , bem no meio da classe e na frente da garota que tentava conquistar!

Falei com ele que logo todos esqueceriam a situação e que se ele ainda queria conquistar a gatinha, era preciso se mostrar um “homem de bem”. Acho que chovi no molhado. Logo as mães chegaram e foram todos para outra sala resolver o conflito.

Fiquei pensando na questão. Na verdade me penalizei com a situação de dureza no coração de “B”. Dureza esta gerada pela vida difícil que leva, onde a bondade e o perdão são palavras vazias e muitas vezes sinônimo de fraqueza.

Observei de longe os meninos irem embora juntos com suas mães. Mulheres cansadas, mulheres batalhadoras e… mulheres duras.

Pensei com meus botões que a vida é uma escola e logo me veio à mente exemplos de mães tão sofridas e tão doces, que conseguiram ensinar a seus filhos o valor do perdão e do auto perdão, tão necessários a uma vida emocional equilibrada.

Diga-me uma coisa, você tem ensinado com palavras e exemplos o valor do respeito e do perdão aos seus filhos desde pequeninos?

Estes são valores universais que devem ser aprendidos no exercício constante… como você pai/mãe tem exercitado o respeitar e o perdoar – aos outros e a si mesmo – no dia a dia? Assim como você é e faz, seu filho também será e fará!

Palavras movem, exemplos arrastam.

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