O INQUIETANTE ESTRANHO EM NÓS

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January 3, 2017

Resultado de imagem para INQUIETANTE ESTRANHOQuem nunca foi tomado por uma sensação de estranheza diante dos próprios atos e das circunstâncias da vida? Algo que atrai e seduz, mas ao mesmo tempo também choca, provocando repulsa. Essa sensação inquietante está presente massivamente em filmes, na literatura fantástica, nas artes plásticas sombrias e também está em nosso cotidiano. Trata-se daquela sensação que surge quando, por exemplo, em um curto intervalo de tempo deparamo-nos com situações ligadas a um mesmo número ou a um mesmo nome de pessoa – algo que, principalmente para os indivíduos mais supersticiosos, pode adquirir um ar secreto de sina ou maldição. Em diferente grau, é a mesma sensação despertada pelo dito “mau-olhado”, agouro, em que tudo parece dar errado.  Ou ainda esse sinistro que aparece quando temos dúvida se um ser animado está realmente vivo ou, ao contrário, se um objeto aparentemente inerte não seria, na verdade, portador de vida. Essa sensação foi estudada por Freud (1919) e nomeada de Das Unheimliche, que foi traduzida em português como O Inquietante / O Estranho, em espanhol Lo Siniestro / Lo ominoso.

No artigo O Inquietante (1919), Freud faz uma análise psicanalítica no terreno da estética, pelo conto “O Homem de Areia” e também do romance “Os elixires do diabo”, ambos do escritor de E.T.A. Hoffmann. No primeiro conto, Hoffmann constrói a personagem Olímpia, que é destaque por sua graça, beleza e aparente vivacidade, o que a torna objeto de paixão do personagem principal, Nathaniel. Com o desenrolar da história o personagem descobre que Olímpia não passa de uma boneca, um autômato, fato que provoca certa estranheza no leitor. Não é apenas a personagem Olímpia que causa essa sensação, no conto Nathaniel é um personagem que possui um delírio de associação da morte de seu pai com uma figura mítica de sua infância: O Homem de Areia. Esse por sua vez corresponde a uma espécie de “bicho papão” da cultura alemã, figura que serve para auxiliar as mães a mandarem seus filhos para cama sob ameaça de terem seus olhos primeiramente feridos com areia e depois arrancados e roubados. No conto paira a dúvida sobre a existência real ou não do Homem de Areia.

Freud (1919) faz uma análise etimológica da palavra Unheimlich, bem como suas diferentes expressões em outros idiomas, como o latim, o grego, o inglês, o francês e o espanhol. Interessantemente, ele demonstra que em seus sinônimos essa palavra apresenta paradoxos, sendo que em variadas matizes ela coincide com seu oposto imediato, Heimlich (familiar/conhecido). Assim, Freud (1919) conclui que sempre atrás de algo aparentemente incompreensível ou atemorizante se esconde algo familiar, muito conhecido. Para que algo seja inquietante, não basta que ele seja diferente do convencional, mas que tenha sido algo anteriormente familiar. Ou seja, Freud (1919) conclui que existe sempre uma sombra no aparentemente conhecido, um inominável que foi afastado, deslocado (reprimido) da consciência. Citando Schelling “Unheimlich seria tudo o que deveria permanecer secreto, oculto, mas apareceu”. (Freud, 1919, p.338).

O desassossego causado pela dúvida de seres inanimados terem vida remonta a infância, a fase de desenvolvimento em que de fato a criança não consegue distinguir ser vivo de ser não vivo – em que ela dá vida aos seus brinquedos. A criança para conseguir expressar o que sente, transfere para seus brinquedos e fantasmas seus medos, amores e angústias. Assim como no conto o medo de Nathaniel de perder os olhos representa suas culpas infantis, que fazem com que ele tema sofrer retaliações: perda dos olhos (castração).

No romance “Os elixires do diabo”, de Hoffmann (1815-16), Freud (1919) mostra outra fonte intensa do inquietante. Trata-se do duplo ou sósia, o surgimento de pessoas que, pela aparência igual, devem ser consideradas idênticas, em que pode ocorrer a intensificação desse vínculo entre os sujeitos pela passagem de processos psíquicos de uma para outra (telepatia) – de modo que uma pessoa possui também o saber, e os sentimentos e vivências das outras pessoas. Por vezes a identificação com o duplo de si pode levar a confusão, ocorrendo a duplicação, divisão e permutação do Eu. A compreensão popular de alma imortal também representa o duplo, como uma medida de segurança diante da sempre eminente ameaça de destruição do Eu pela morte. Freud (1919) irá demostrar que esse duplo trata-se da formação de uma instância psíquica que, embora gerada a partir do Eu, dele se apartaria, exercendo sobre si uma atividade de observação e censura: a consciência moral – termo que será um prenúncio do conceito de Supereu, após os trabalhos de Além do Princípio de Prazer (1920) e O eu e o isso (1923).

O inquietante é a sensação causada pela percepção da compulsão à repetição, em diferentes situações. Como quando identificamos traços faciais entre pessoas, vicissitudes, nomes, situações de nossa vida, que se repetem. Trata-se do eterno retorno do mesmo, a aflitiva sensação de que existe uma determinação oculta em nossa vida. Freud (1919) demostra que essa é justamente a natureza própria da pulsão; cujo poder de subjugar nossa busca de realização e prazer confere um caráter demoníaco a certos aspectos de nossa vida anímica.
Nas diversas manifestações do estranho, em maior ou menor grau, paira uma relação íntima com a nossa onipotência de pensamento, pois cremos que o pensamento por si só é capaz de determinar as ocorrências da realidade. Freud (1919) analisa as raízes individuais e sociais dessa onipotência.

 O que é extremamente rico e inovador nesse trabalho de Freud é a forma como ele aborda o estranho (diferente) – que nunca é visto como um exato estrangeiro, mas detecta a estranheza do inconsciente, como aquilo que é inominável de nós mesmos. Desta forma, o estranho só nos choca, porque toca no sinistro que vive em nós. Como na música do Pink Floyd “Brain Damage”, o lunático que identificamos fora, na verdade vive em nossa mente, ele é o próprio Dark side of the moon, o nosso lado obscuro. Essa aflitiva estranheza é também a nossa! Daí o perigo de projetarmos o estrangeiro no outro, que encarnará os próprios conflitos. Assim, a psicanálise demonstra que todos nós somos estrangeiros e ironicamente habitamos o mesmo inquietante lugar: a condição humana de desamparo – que é a condição última de nosso ser conosco e de nosso ser com o outro.

O Unheimlich surge desse entremeio, o Eu e o outro, em que algo não pode ser nomeado e por isso os limites frágeis do nosso eu parecem ser extrapolados, o que é fonte do sobrenatural. Esse algo estranho parece nunca poder ser verbalizado, mas por vezes aparece simbolizado em formas belíssimas, como nos filmes de Alfred Hitchcock ou na literatura magnífica de Edgar Allan Poe.

Que ousadia – a psicanálise se aventura a adentrar esse estranho lugar! Busca dizer o indizível, por isso Freud (1925,1937) escreveu que ela é uma profissão impossível! Aliás, como é inquietante a figura do analista. É ainda mais estranho a existência do desejo do analisando que, a partir do divã ousa (se) perguntar. Por meio desse encontro, o sujeito que pergunta pode vir a se dar conta que esse outro a quem ele destina ódio não passa de um duplo de si mesmo. Por meio da transferência, ele pode vir a ser sujeito consciente de suas próprias diferenças, e sinta-se mais a vontade para conviver com as diferenças alheias. Somente escutando o monstro/louco que há em nós podemos nos implicar com os seus/nossos inquietantes desejos, com nossa agressividade e sexualidade, revivendo (e não só rememorando) esse outro de si mesmo. Nos permitindo assim dar novo estatuto à vida, criando possibilidades diante do impossível que é o inconsciente, readquirindo sua dimensão poética e de potência criativa.

*Samara Megume Rodrigues é psicóloga clínica, mestranda em Psicologia, colaboradora e idealizadora da Roda de Psicanálise.

** Imagem: gravura de Jacques Callot, “Le Deux  Pantalons” , de 1616.

Referências Bibliográficas

Freud, S. (2010) O Inquietante. In: Obras Completas de Sigmund (Paulo Cesar  Soura, Trad. Vol 14) São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Originalmente publicado em 1919)
Freud, S. (1996) Prefácio a Juventude desorientada  de Aichhom. In: Edição Standar Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XIX. Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1925)

Freud, S. (1996) Análise terminável e interminável. Edição Standar Brasileira das Obras Psicológicas Completas     de Sigmund Freud, vol. XXIII. Rio de Janeiro: Imago(Originalmente publicado em 1937)