Novas Configurações Familiares e o Desafio Materno em ser Suficientemente Boa

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March 10, 2015
Novas Configurações Familiares e o Desafio Materno em ser Suficientemente Boa

familia1As complexidades encontradas
quando um genitor precisa assumir as funções que normalmente seriam assumidas por ambos os genitores, quanto ao arquétipo mãe, duas funções se destacam que são o nutrir e o proteger; e ao mesmo tempo essa mãe precisará ser a introdutora de si mesma, sendo ela mesma a metáfora paterna. A relação fusional mãe-bebê no momento oportuno precisa ser castrada, para que essa mãe seja de fato suficientemente boa precisará ser também introdutora da lei, ou seja, a lei simbólica. Este artigo traz uma discussão sobre o papel materno na sociedade contemporânea no que se refere ao desafio que as mães têm em ser ao mesmo tempo, o arquétipo mãe do inconsciente coletivo de Jung e a lei simbólica, repensando o conceito winnicottiano de mãe suficientemente boa. Trata-se de uma revisão literária com pressupostos psicanalíticos onde se discute as mudanças ocorridas no papel da mulher na sociedade contemporânea, ressaltando na família monoparental.

Palavras-chave: família monoparental, arquétipo mãe, complexo de castração, mãe suficientemente boa, arquétipo materno

1. Introdução

O presente artigo se propõe a discutir o papel materno na sociedade contemporânea no que se refere ao desafio que as mães têm em ser ao mesmo tempo, o arquétipo mãe do inconsciente coletivo de Jung e a lei simbólica, repensando o conceito winnicottiano de mãe suficientemente boa.

Essa revisão da literatura traz à reflexão sobre como essas mães lidam com seus filhos para atenderem a expectativa social em ser a mãe que nutri e que protege seus filhos, como também ser a figura da lei, colocando limites para esses infantes. Tal discussão se vale dos pressupostos psicanalíticos de Jung com seus conceitos de inconsciente coletivo e arquétipo mãe; Lacan, com suas releituras freudianas, com a função introdutora da lei desempenhada pela mãe; culminando a problemática no pensamento winnicottiano sobre o conceito da mãe suficientemente boa.

É de grande relevância o estudo sobre o tema proposto quando se observa que diante das novas configurações familiares, é cada vez mais comum a configuração tida como monoparental, sobretudo a que tem como figura provedora a mãe, atentando-se para seu papel na sociedade contemporânea e a atual conjuntura onde são cada vez mais frequentes os desafios para as mulheres em serem provedoras e matriarcas. Elas vêm assumindo o papel que historicamente vinha sendo característico dos homens, saindo de um contexto exclusivamente doméstico para o mercado de trabalho e adquirindo cargos de confiança e liderança. Dessa maneira, essas mudanças refletem diretamente na dinâmica familiar onde essas mães também precisam desempenhar um papel de lei nessa família, sobretudo com seus filhos.

Este artigo trata-se de um trabalho de revisão na literatura, através de livros de bibliotecas de faculdades com curso de psicologia da cidade do Recife, sites como scielo e google acadêmico, tendo como recurso de busca palavras como: mãe, arquétipos, papel materno, função paterna, metáfora paterna, mãe suficientemente boa, novas configurações familiares e holding. Este trabalho utilizou-se também de ideias surgidas a partir de discussões ocorridas no CEF (Centro de Estudos Freudianos do Recife).

Faz-se importante atentar, no discorrer sobre o tema aqui proposto, que quando colocado o termo função paterna ou função materna, entende-se como de fato uma função e não uma figura masculina para a função paterna e uma figura feminina para a função materna, considerando que nas dinâmicas familiares, uma mulher pode exercer a função paterna e um homem pode exercer a função materna.

2. Alterações do Papel Materno nas Novas Configurações Familiares

Prado (1981) ressalta que há apenas esclarecimentos através de estudos antropológicos sobre as formas de evolução sofridas pela instituição família ao longo dos tempos. Ou seja, não existe uma definição unânime, consensual do que é família, considerando a história da humanidade. Existe um significado social que marca os indivíduos que institui laços dentro de um mesmo grupo de interação, o que vem ao longo do tempo caracterizar a instituição família. Se analisarmos desde os primórdios da humanidade, não encontraremos nenhum dado que comprove a existência de uma sociedade que tenha existido sem uma noção mínima de família, seja qual for a configuração ou representação social ela sempre existirá através de alguma ligação institucional através de pessoas do mesmo sangue ou afetivamente equivalente.

Roudinesco (2003) aponta três períodos distintos na evolução da família: o primeiro foi marcado pela família tida como tradicional, que se caracterizou pela autoridade patriarcal, pela transmissão de um legado e por casamentos arranjados sem que os desejos dos futuros cônjuges fossem levados em consideração. Num segundo, entre o final do século XVIII e meados do XX, a família foi intitulada como família moderna, permeada por um modelo de amor romântico, baseado numa troca mútua entre os cônjuges dos sentimentos e desejos carnais pela mediação do casamento, passando a existir a divisão do trabalho entre os cônjuges. Mas é a partir da década de 60 que a família passa a ser tida como família contemporânea, caracterizada pela busca de relações íntimas ou realização sexual, declínio vertiginoso da autoridade paterna, crescente autonomia feminina, aumento do número de divórcios, diversificação das formas de uniões conjugais e surgimento da procriação médico assistida, ou seja, o casamento outorgado pelo divino passou a não ser mais garantia da perpetuação da família, tornando-se cada vez mais um pacto livre e facultado pelos indivíduos da relação.

Prado (1981) afirma que dentre os vários tipos de família existentes na atualidade, a mais conhecida e valorizada em nossos dias é aquela formada por pai, mãe e filhos, a nomeada família nuclear.

Hintz (2001) aponta que com a família contemporânea surgem novas configurações familiares, considerando que o contexto social atua de maneira significativa na evolução e transformação da mesma. Dentre as quais a autora cita as seguintes configurações: (1) famílias reconstituídas, que são remanescentes de recasamento, trazendo filhos do primeiro casamento. A mesma é constituída por filhos do casal atual e filhos do(s) outro(s) casamento(s), que podem levar o casal atual a uma série de conflitos severos; (2) famílias de uniões consensuais, originada na sua maioria por divorciados, separados ou viúvos, casais que preferem morar juntos sem formalizar suas uniões ante ao matrimônio legal, preferindo morar em casas separadas; (3) família constituída por casais sem filhos por opção, proveniente de casais que dão preferência ao crescimento profissional, social e a independência financeira, sem optar por filhos; (4) famílias unipessoais, (Meler, apud HINTZ, 2001) é uma designação para aquelas pessoas que escolhem um lugar físico individual. São inúmeras as razões para essa constituição, dentre elas oportunidade de trabalho fora do domicílio, independência individual, onde não fazem trocas emocionais compartilhadas; (5) família por associação, que são formadas por amigos sem vínculo de parentesco, onde as pessoas optam por formar uma rede fundamentada na amizade; (6) família homoafetiva, formada por casal homoafetivo instituída por uma união estável entre pessoas do mesmo sexo, casal de gays ou lésbicas, com questões complexas de tornar assimilável mediante os preconceitos, coações, mitos e realidades que cercam estes casais; e por fim, a família mais importante para o desenvolvimento deste trabalho, com enfoque na mesma, a (7) família monoparental que pode ser proveniente do divórcio ou separação, onde um dos pais toma para si o cuidado dos filhos e o outro não é eficaz na parentalidade, ou famílias onde um dos pais é viúvo ou solteiro. Algumas das complexidades encontradas por essa família é de um genitor assumir as funções que normalmente seriam assumidas por ambos os genitores. “Isto pode acontecer também, quando frente às características da personalidade de cada um dos membros do casal, a mulher assume a liderança da família com o pleno consentimento do companheiro” (HINTZ, 2001, p. 14).

Para Moura e Araújo (2004), o papel paterno experimentou, a partir do séc. XVIII, alterações marcadas pelo forte declínio de seu valor fazendo com que, nas camadas diversas da sociedade, a ausência paterna e o descumprimento de suas funções fossem progressivamente assumidos pelo Estado através de suas instituições.

3. O Arquétipo Mãe que Nutre e Protege

Segundo Hall, Lidzey e Campbell (2000), considerando que todos os seres humanos sempre tiveram mães, toda criança nasce predisposta a perceber e a reagir a uma mãe. O conhecimento da mãe, individualmente adquirido é a realização de uma potencialidade herdada, que foi perpetuada pelas experiências da raça.

Moura e Araújo (2004) consideram que o papel materno deve ser visto de forma relativa e tridimensional, sendo impossível compreender as modificações nele ocorridas sem fazer referência aos demais membros do grupo de interação familiar (pai – mãe – filho). Mas para este trabalho, importa o enfoque dado pela psicanálise a essa tal função materna.

Jung (1973 apud FADIMAN; FRAGER, 1986) vem refletir sobre o arquétipo mãe e o simbolismo que existe em torno dele, no que se refere ao inconsciente coletivo e seus arquétipos. Segundo ele o inconsciente coletivo é constituído numa proporção mínima, por conteúdos pessoais, que não são adquiridos individualmente, são na sua essência os mesmos em qualquer lugar, não variando de homem pra homem. Esse inconsciente é como o ar que respiramos que é o mesmo em todo lugar, respirado por todo mundo, mas não pertence a ninguém. Seus conteúdos, chamados arquétipos, são condições ou modelos prévios da formação psíquica em geral.

Como bem dito, os conteúdos do inconsciente coletivo são modelos prévios da formação psíquica em geral, ou seja, algo que é repassado de geração a geração, introjetado pela memória dos indivíduos de forma universal. Sendo assim, existe uma idéia que permeia o inconsciente coletivo. A morte, por exemplo, atrelada ao sentimento de tristeza e dor ou ainda os suínos, que desde os primórdios, são atrelados a um ambiente sujo e úmido. Essa universalidade aqui mencionada, por si só, não é suficiente para perpetuar o inconsciente coletivo, é necessário que seja reforçado por experiências do próprio indivíduo, e o que torna a pessoa mais suscetível são os modelos prévios herdados por ela. Sendo assim, o inconsciente coletivo influencia o comportamento de um povo e possui uma estrutura, uma fôrma, definida a partir dessas experiências coletivas e individuais chamadas de arquétipos.

Fadiman e Frager (1986) ressaltam que o arquétipo materno compreende não somente a mãe real de cada indivíduo, mas também todas as figuras de mãe, figuras nutridoras (Vênus, Virgem Maria e mãe Natureza) e símbolos de apoio e nutrição (a Igreja e o Paraíso), mas que em dado momento da história também possuiu aspectos negativos. Na idade média, por exemplo, o arquétipo mãe estava cristalizado na imagem da bruxa. Sendo assim, cabe problematizar que lugar tem o arquétipo mãe na sociedade contemporânea?

Além do contexto histórico, duas funções se destacam em se tratando do arquétipo mãe que são: nutrir e proteger. O primeiro termo, nutrir, revelado pela deusa Vênus, também tida como a Mãe Terra ou ainda Mãe Natureza, de onde provém o sustento de um povo; e o segundo termo, proteger, sustentado pela representação religiosa da Virgem Maria introduzida pela Igreja, com a função de intervir pelos fiéis, seus filhos, protegendo e guardando-os de todo o mal (FADIMAN; FRAGER, 1986).

4. A Mãe Enquanto Figura da Lei

Lacan (1999) afirma que a mãe é a introdutora do pai para fazer limite e função da lei, ou seja, ela preparará o campo simbólico dessa criança para que esse pai real seja tido como a lei. Mas quando esse pai real não existe ou de alguma forma se faz ausente, como na família monoparental, aí então essa mãe precisará ser a introdutora de si mesma, sendo ela mesma a metáfora paterna.

Mas, por que o pai? A experiência prova que a mãe também o faz tão bem quanto ele. Lembrem-se da observação do Pequeno Hans, onde é a mãe quem diz: – Ponha isso para dentro, isso não se faz. Em geral, na maioria das vezes, é a mãe quem diz: – Se você continuar a fazer isso, vamos chamar o doutor para cortá-lo fora (LACAN, 1999, v. 5, p. 177-178).

Eis então o grande desafio: atender ao inconsciente coletivo enquanto arquétipo, com a função de nutrir e proteger, e ainda ser ela a figura da lei. Para dar conta desse desafio, a mãe precisará ter vencido um complexo anteriormente instaurado, o complexo de castração. Especificamente no tempo final desse complexo, a mesma tem três saídas para o complexo de castração, culminando no nascimento do complexo de Édipo: (1) ausência de inveja do pênis; (2) vontade de ser dotada do pênis do homem; (3) vontade de ter substitutos do pênis (ter um filho), sendo essa última, a saída mais plausível, uma vez que esse filho torna-se o falo imaginário da mãe e identifica-se com esse falo, ou seja, aceita esse lugar para preencher o desejo materno de ter o falo (NASIO, 1997).

Para Nasio (1997) a castração se caracteriza fundamentalmente pela separação entre a mãe e a criança. A castração em geral é feita pelo pai, que representa a lei da proibição do incesto, pois vem lembrar à mãe que ela não pode reintegrar o filho em seu ventre, e ao filho, que ele não pode possuir a mãe, ou seja, castra o Outro materno (grande outro materno) de ter o falo e castra a criança de ser o falo. Vale salientar que o ato de castração mesmo sendo assumido pelo pai, na realidade não é produto de uma pessoa física, mas sim a operação simbólica da fala paterna, é obra da lei à qual mesmo o pai como sujeito está submetido. Desta feita, ressalta-se a importância dessa mãe reconhecer-se como castrada para que a ideia onipotente de possuir o falo não impeça esse corte.

Nasio (1997) afirma que na concepção lacaniana a castração não se define somente pela constatação de uma falta na origem da inveja do pênis na menina, ela se define, fundamentalmente, pela separação entre a mãe e a criança, logo, a castração é o corte produzido por um ato que cinde e dissocia o vínculo imaginário e narcísico entre a mãe e o filho.

5. Papel da Mãe Suficientemente Boa

O cuidado suficientemente bom proveniente de um ambiente facilitador, segundo Winnicott (1983), refere-se à oferta de condições físicas e psicológicas que favorecem o desenvolvimento do bebê. Para ele durante a fase de dependência absoluta, no início da vida, a mãe suficientemente boa promove condições de confiabilidade permitindo que se estabeleça segurança para o bebê poder ir se integrando e constituir-se no mundo. É essa confiança gerada pelo ambiente facilitador (a mãe), que possibilita, na visão winnicottiana, o amadurecimento saudável.

Celeri (2005) nos relata que o lactante no início da vida está em um estado de fusão com a mãe, sendo absolutamente dependente da provisão física e emocional que ela lhe proporciona. A autora propõe ainda três aspectos no processo de desenvolvimento emocional do bebê: (1) a hereditariedade (impulsos biológicos para a vida, para o crescimento e para o desenvolvimento); (2) o ambiente (cuidado materno), que pode apoiar, falhar ou traumatizar; (3) e no meio está o bebê, crescendo, vivendo e acumulando experiências. Inicialmente a mãe suficientemente boa é o ambiente favorável. A autora aponta que o ambiente, quando suficientemente bom, possibilita o processo de maturação, isto é, a evolução do ego e seus mecanismos de defesa, o desenvolvimento do self, a história do id, das pulsões e de suas vicissitudes.

Bleichmar e Bleichmar (1992) afirmam que para Winnicott o que capacita a mãe a proporcionar estes cuidados iniciais é um estado psicológico vivido nos últimos meses de gestação e primeiras semanas posteriores ao parto, chamado preocupação materna primária. A mãe adquire, graças a essa sensibilização, uma capacidade ímpar de se identificar com as necessidades do bebê e essa disposição especial alcança sua intensidade máxima imediatamente depois do parto e tende a diminuir pouco a pouco à medida que a criança cresce.

Celeri (2005) atesta que durante os primeiros momentos de contato mãe-bebê, uma relação de ego entre os dois participantes dessa dupla se constitui. Esse relacionamento favorece a identificação do bebê com sua mãe, apesar de, do ponto de vista do bebê, ainda não existir nada além dele próprio, pois a mãe é parte dele mesmo. Essa habilidade materna cria de forma natural um ambiente designado por Winnicott (2001) de holding, cuja tradução para o português seria sustentação ou colo. O holding é o somatório dos cuidados físicos, do aconchego, da proteção da sustentação que a mãe oferece à criança na fase onde ela ainda desconhece a existência de tudo que não seja ela própria. Para Celeri (2005) a função de holding associa-se à confiabilidade (do bebê para com a mãe) e responsabilidade (da mãe para com o bebê). O holding satisfatório não pode ser ensinado, uma vez que se assenta na capacidade de a mãe se identificar com o bebê. É através de um holding adequado que a mãe: (1) protege o bebê de agressões fisiológicas, levando em conta a sensibilidade cutânea, auditiva, visual e do órgão vestíbulo-coclear; (2) protege o bebê de invasões ambientais, uma vez que ela sabe da falta de conhecimento de qualquer coisa que não seja ele mesmo; (3) protege o bebê de coincidências e choques capazes de levá-lo a um sentimento de confusão e angústia; (4) possibilita ao bebê uma transição gradativa entre o estado calmo e o estado excitado, entre o sono e o estado desperto etc.; (5) cria uma rotina específica para o bebê, modificando-a a cada dia à medida que ele cresce e se desenvolve física e psiquicamente.

Considerando que o lactante, no início da vida, está em um estado de fusão com a mãe, sendo absolutamente dependente da provisão física e emocional que ela lhe proporciona e embasado no pensamento winnicottiano, que Celeri (2005) nos afirma algo de extrema importância para a relevância deste artigo e que nos dá uma ponte discursiva ante ao pensamento lacaniano sobre figura da lei, já mencionado neste trabalho.

Para desempenhar essa tarefa, a mãe, permanecendo adulta, assume a vulnerabilidade do bebê, passando a necessitar, ela própria, de amparo. É o pai da criança, sua família ou o ambiente social próximo que assumem a função de ajudá-la a deixar-se envolver pela experiência de saber quais são as necessidades do bebê, nos menores e mais sutis detalhes, chegando próximo de se perder nessa identificação. (CELERI, 2005, p. 30).

É essa relação fusional que no momento oportuno precisa ser castrada, para que essa mãe seja de fato suficientemente boa e não mais que boa, apenas o suficiente. Moura (2008) afirma que se no início a tarefa da mãe é adaptar-se de forma absoluta às necessidades do bebê, em seguida, será de fundamental importância que ela possa fornecer um fracasso gradual da adaptação para que a função mental do bebê se desenvolva satisfatoriamente.

6. Considerações Finais

Considerando os aspectos culturais aqui envolvidos, parece que a mãe da sociedade contemporânea conta com uma força coercitiva no sentido de que se espera dela que nutra e proteja seu filho, ou seja, espera-se que ela enquanto mãe, cuide, proteja e eduque a criança. É esse pensamento que está sustentando pelo inconsciente coletivo. Por isso que, de uma forma geral, quando se ouve a palavra mãe, logo vem à mente outros adjetivos como ternura, cuidado, colo, proteção e afeto. Sendo assim, parece ser mais comum, mais fácil para a mulher ser a mãe do inconsciente coletivo de um povo, pois culturalmente existe essa coercitividade relacionada ao papel materno.

Outro ponto que norteia a problemática aqui proposta é a questão da função paterna e a função materna, pois socialmente já estão definidas as atribuições tidas como masculinas e femininas. Considerando o ponto de vista psicanalítico, a função paterna e a função materna perpassam pelo campo simbólico, seja na metáfora paterna, seja na introdução feita pela mãe para instauração da lei.

Um contexto interessante é o papel feminino na sociedade contemporânea. Esse papel vem se modificando desde a antiguidade até hoje, com enfoque nos papéis assumidos por elas em situações que historicamente vinham sendo assumidos por homens, saindo de um contexto que outrora era exclusivamente doméstico para o mercado de trabalho capitalista. Logo, cabe refletir sobre essas mães que assumem cargos de liderança no trabalho, que supervisionam grupos, viabilizam projetos e lideram homens a elas subordinados, se vêem ante a necessidade de no lar também serem essa figura de autoridade. E não obstante pensar, embora não seja esse o foco desse trabalho, nas consequências que essas mudanças trazem para essas mulheres, no que se refere à figura masculina que compõe a dinâmica familiar de cada uma delas, mesmo que este abdique desse lugar, a figura masculina ali está.

O fato que desde os primórdios não exista uma definição unânime sobre o conceito de família e considerando que o que existe é um significado social que marca os indivíduos que instituem laços sanguíneos ou afetivos dentro de um mesmo grupo de interação, corrobora para existência de novas configurações familiares, onde a família parece ter passado, no decorrer do tempo, de uma essência patriarcal para uma essência matriarcal, embora em algumas configurações não apresentem nem a figura patriarcal nem a figura matriarcal.

A família tradicional, a partir da década de 60, deixou de ser um padrão, e o declínio vertiginoso da autoridade paterna, somado a crescente autonomia feminina marcam as famílias contemporâneas, em especial a família monoparental, alicerçada pela mãe. Outro desdobramento interessante para relevância deste trabalho é quando, frente às características da personalidade de cada um dos membros do casal, a mulher assume a liderança da família com o pleno consentimento do companheiro.

É nesse contexto matriarcal que surge então o olhar psicanalítico desse artigo com base na ideia lacaniana dessa mãe introdutora da lei, preparando o campo simbólico da criança, sendo a mãe introdutora de si mesma quando existe a ausência do pai. De maneira que quando essa mãe está introduzindo, propiciando a existência da interdição, ela mesma já estaria sendo a lei. Para tal, ela precisa ter vencido seu complexo de castração e reconhecer-se como castrada. Reconhecer que não pode reintegrar o filho ao seu ventre e assim fazer a proibição do incesto. Isso seria possível graças ao fato que o ato de castração não é produto de uma pessoa física, o pai, por exemplo, mas sim uma operação simbólica da fala a qual todos estão submetidos.

É de suma importância então que essa mãe de fato se reconheça como castrada para que a ideia onipotente de possuir o falo (o filho) não impeça esse corte. Mas esse corte deve instaurar-se de maneira gradativa, o que abre diálogo com o pensamento winnicottiano, sobre a relação fusional ocorrida desde o início da vida do lactante, no período em que há uma fusão da criança com a mãe, em que o bebê está numa absoluta dependência da provisão física e emocional que a mãe propicia. É essa fusão que, no devido tempo, precisa ser castrada. Se no início a tarefa da mãe é adaptar-se às necessidades do bebê, posteriormente é de suma importância que ela permita um fracasso gradativo dessa adaptação para que a função mental desse bebê se desenvolva de maneira satisfatória. Isso implica num corte na ideia dessa criança ser o falo dessa mãe e na ideia onipotente dessa mãe possuir o falo.

Considerando as novas configurações familiares, bem como os novos desafios ligados ao papel materno na contemporaneidade, pensemos no conceito dado por Winnicott para mãe suficientemente boa. Colocando o pensamento winnicotiano no contexto atual das famílias contemporâneas cabe acrescentar a esse holding, ou seja, a essa preocupação materna primária, a necessidade dessa mãe também ser a lei simbólica. Isto é, para ser de fato suficientemente boa, ela precisaria ser também a própria lei. Desta feita, surgiu o tema deste artigo: Novas configurações familiares e o desafio materno em ser suficientemente boa, para discutir justamente o desafio que as mães têm em ser ao mesmo tempo, o arquétipo mãe que nutre e que protege; e a lei simbólica, sendo assim, desafiada a ser suficientemente boa.

Como finalização desse trabalho abre-se perspectivas para outros estudos tais como: Que sentimentos e/ou desafios essas mães vivenciam em ter de assumir a função paterna? – Que implicações incidem sobre essas crianças, adolescentes e jovens que não tiveram uma mãe suficientemente boa? – Quando essa mãe não consegue vencer o desafio de ser suficientemente boa, incluindo lei simbólica, como isso reflete na sociedade contemporânea, sobretudo no campo das psicoses e da perversão?

Para concluir, este trabalho cumpriu seu objetivo de discutir o papel materno na sociedade contemporânea no que se refere ao desafio que as mães têm em ser ao mesmo tempo, o arquétipo mãe do inconsciente coletivo de Jung e a lei simbólica, repensando o conceito winnicottiano de mãe suficientemente boa. Longe de trazer conclusões fechadas sobre o tema, trouxemos algumas reflexões para serem discutidas e aprimoradas.

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