METAPSICOLOGIA E O MISTERIOSO REINO ENTRE O FÍSICO E O MENTAL

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January 3, 2017

Este texto tem o objetivo de apresentar a metapsicologia como um modo original de articular os processos psicológicos e os fundamentos biológicos para fundar uma nova ciência, a psicanálise. Freud considerava que os conceitos de inconsciente, pulsão, recalque, entre outros, eram indispensáveis para a psicanálise, a despeito das imprecisões e dificuldades que rondavam tais noções. Afinal, para desvendar o enigma das psicopatologias, seria necessário ultrapassar e ampliar simultaneamente: 1) os limites da psicologia clássica – cujo paradigma racionalista a orientava exclusivamente para o estudo das faculdades mentais conscientes “normais”, como a sensação, a percepção, a atenção, a memória, a cognição…, pouco se interessando por fenômenos relacionados à loucura; e 2) os limites da psiquiatria, que se dividia entre hipóteses explicativas orgânicas (impossíveis de serem demonstradas anatomicamente, pois nada se encontrava de anormal nos cérebros dos loucos) e hipóteses explicativas morais (o que deixava a psiquiatria em uma distância constrangedora da cientificidade médica).

Assim, para construir um edifício teórico coerente para as novas experiências psicanalíticas, Freud muitas vezes entregou-se a “especulações”, sem deixar de alertar para a ligação íntima entre suas teorias e a observação dos fenômenos clínicos.

Não gostaria de dar a impressão de que durante esse último período de meu trabalho voltei as costas à observação de pacientes e me entreguei inteiramente à especulação. Ao contrário, sempre fiquei no mais íntimo contato com o material analítico e jamais deixei de trabalhar em pontos detalhados de importância clínica ou técnica. (FREUD, 1925 [1924], p.62).

De forma que, ao longo de toda sua obra, os esforços para compreender a natureza e os processos que regem o funcionamento da vida psíquica, seja normal ou patológica, permaneceram costurados com a prática, e por isso mesmo, eram passíveis de sofrer renovações contínuas.

Assim foi desde que, no final do século XIX, sua tentativa de explicar a histeria levou-o a adotar a hipótese de que processos psíquicos inconscientes estavam na base da formação dos sintomas psicopatológicos. Esta hipótese tornou-se o disparador tanto de uma prática clínica diferenciada, quando da construção de um arcabouço teórico coerente com essa nova proposta.

Ao conjunto de modelos conceituais inferidos da experiência, Freud chamou de metapsicologia. Logo, o modelo de um aparelho psíquico dividido em instâncias, a teoria das pulsões, o processo do recalque, são hipóteses pertencentes ao registro de uma investigação teórica que pretende situar os conceitos básicos do empreendimento psicanalítico. O longo trecho abaixo, escrito em 1914, oferece uma ideia da posição dos conceitos metapsicológicos na psicanálise.

É verdade que noções como a de libido do Eu, energia pulsional do Eu e outras não são nem claramente apreensíveis, nem suficientemente ricas de conteúdo; assim, uma teoria especulativa a respeito das relações em questão teria sobretudo por meta formular conceitos rigorosamente delimitados que lhes servissem de fundamento. Todavia, acredito ser essa a diferença entre uma teoria especulativa e uma ciência construída sobre a interpretação de dados empíricos. Esta última não invejará da especulação o privilégio de uma fundamentação impecável e logicamente inatacável. Ao contrario, a ciência se dará por satisfeita com ideias básicas, nebulosas e ainda difíceis de visualizar, sempre, porém, com a esperança de mais adiante, no decorrer do seu desenvolvimento, vir a apreender tais ideias com mais clareza, mostrando-se ainda disposta a eventualmente trocá-las por outras. Afinal, o fundamento da ciência não são essas ideias, mas sim a observação pura sobre a qual tudo repousa. Elas não são a base, mas o topo do edifício, e podem, sem prejuízo, ser substituídas e removidas. Atualmente, vivemos a mesma situação na física, cujas concepções básicas sobre matéria, centros de força, atração e outros não são menos questionáveis do que as concepções correspondentes na psicanálise. (FREUD, 1914, p.100).

     Em vários momentos, Freud destaca que o caráter indeterminado e provisório de seus conceitos metapsicológicos não os torna menos válido. Pelo contrário, eles são fundamentais e indispensáveis na medida em que se constituem como os próprios instrumentos “científicos” utilizados na análise do material empírico. Mas estes instrumentos não podem ser rígidos e fixos, devendo se transformar toda vez que a experiência o exigir. Afinal, mais do que fornecer bases para as observações clínicas, as teorias são resultados que quando não são aperfeiçoados tornam-se estéreis.

Enquanto elas [as ideias] permanecem nesse estado [de indefinição], podemos concordar sobre seu significado remetendo-nos repetidamente ao material experiencial a partir do qual elas aparentemente foram derivadas; contudo, na realidade, esse material já estava subordinado a elas. (…) o progresso do conhecimento não suporta que tais definições sejam rígidas, e como ilustra de modo admirável o exemplo da física, mesmo os “conceitos básicos” que já foram fixados em definições também sofrem uma constante modificação de conteúdo. (FREUD, 1915, p.145).

      Entendida neste contexto, a metapsicologia tornou-se para Freud um aspecto essencial desta psicanálise que estava a se inventar, com a função não tanto de formular teses, mas de organizar e justificar o que deriva da experiência clínica.

      Freud fez suas primeiras menções ao termo metapsicologia em cartas para Fliess, no ano de 1896: “tenho-me ocupado continuamente com a psicologia – na verdade, com a metapsicologia” (MASSON, 1986, p.173). Um ano antes, Freud havia escrito o seu projeto de uma “psicologia científico-naturalista”, assentado sob princípios biológicos e mecânicos do sistema nervoso. Trata-se de uma psicologia que recusa a identidade entre o psíquico e o consciente e propõe que a explicação para os processos neuronais sejam buscados em “processos psíquicos inconscientes”. Inconsciente, neste caso, é um adjetivo para os processos fisiológicos que não podem ser acessados direta ou imediatamente pelos sentidos. Como esclarece Gabbi Jr (1995, p.123): “o naturalismo de Freud leva-o a conceber processos que, como os físicos, devem ser inferidos, visto que não são imediatamente apreendidos pela consciência”.

        Pois bem, a hipótese destes processos psíquicos inconscientes como determinantes causais dos sintomas patológicos, acompanha-se de outras, ou seja, que o funcionamento neuronal transcende os processos físico-químicos e que obedece a leis diferentes daquelas de seus componentes materiais. Abre-se então uma área inédita de investigação que exige de Freud instrumentos e métodos específicos, para além do físico e do orgânico, o que a neurologia ou a biologia não tinha condições de fornecer. Tampouco a psicologia clássica. A metapsicologia nasce a partir dessa exigência de se dirigir a investigação psicológica, independentemente da biologia, para este novo campo que se situa entre a esfera orgânica e psíquica.

Além disso, a psicanálise passa a ganhar contornos próprios quando abre mão da referência direta à biologia. Mas para Freud, essa independência da biologia não significará uma renúncia aos pressupostos biológicos e esses permanecerão como o fundamento [inacessível] da vida psíquica por toda sua obra.

Senhores, a psicanálise é injustamente acusada de apresentar teorias puramente psicológicas para problemas patológicos. (…) Os psicanalistas nunca se esquecem de que o psíquico se baseia no orgânico, conquanto seu trabalho só os possa conduzir até essa base, e não além. (1910, p.226).

       Embora Freud deixe de se apoiar tão explicitamente em um modelo neuropsicológico, este permaneceu como inspiração para o desenvolvimento de sua metapsicologia. Apesar de seus esforços para que as considerações biológicas não dominassem o campo psicanalítico, um dos conceitos mais fundamentais, a pulsão, sempre foi situada na fronteira entre o psíquico e o somático, “como um conceito fronteiriço entre as esferas da psicologia e da biologia” (FREUD, 1913, p.184).

     A metapsicologia enquanto um sistema teórico-científico para abordar a misteriosa articulação entre o orgânico e o mental permanece um caminho interessante e original para a superação de dicotomias infrutíferas. A despeito de existirem psicanalistas excessivamente técnicos que insistem em questionar: mas na prática, para que isto serve?

REFERÊNCIAS

BIRMAN, J. Freud e a filosofia. Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 2003

FREUD, S. (1910) A concepção psicanalítica da perturbação psicogênica da visão. Rio de Janeiro, Imago, 1996.

______. (1913) O interesse científico da psicanálise. Rio de Janeiro, Imago, 1996.

______. (1914) À guisa de introdução ao narcisismo. In: ______. Escritos sobre a psicologia do inconsciente. Vol.I Rio de Janeiro, Imago, 2004.

______. (1915) Pulsões e destinos da pulsão.In: ______. Escritos sobre a psicologia do inconsciente. Vol.I Rio de Janeiro, Imago, 2004.

______. (1925[1924]) Um estudo autobiográfico. Rio de Janeiro, Imago, 1996.

GABBI, O.F. Notas críticas sobre Entwurf Einer Psychologie. Projeto de uma psicologia. Rio de janeiro: Imago, 1995.

MASSON, J.M. (org) A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess. Rio de Janeiro: Imago, 1986.

Por Aline Sanches*