Luto e Melancolia nas Teorias de Freud e Melanie Klein

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March 10, 2015
Luto e Melancolia nas Teorias de Freud e Melanie Klein

O presente trabalho pretende apresentar os resultados de um estudo das obras de Sigmund Freud e Melanie Klein, sobre o luto e melancolia. A metodologia utilizada foi baseada em pesquisa teórica e duas entrevistas que possibilitaram a coleta de dados de uma profissional da Psicologia, especialista no tratamento das psicopatologias citadas e um individuo enlutado que descreve sua dor pelo ente perdido. Segundo os autores Entende-se que luto é uma fase transitória em que o sujeito, se depara com a perda do objeto de amor, e a superação desta fase se dá com a substituição do mesmo, e é, a libido antes investida no material perdido, será emprega em um novo objeto. Já melancolia é classificada como uma patologia descrita por Freud como psiconeurose narcísica, nesse quadro o individuo se identifica com o objeto perdido, o que proporciona o empobrecimento do ego. Freud e Melanie Klein relataram que no luto há dois aspectos o de preservação da espécie humana, ou seja, a sensação de ter perdido “o objeto” introjetado no ego desencadeia no individuo o temor de sua própria morte e um triunfo sobre o objeto perdido, ou seja, o fato de ter permanecido vivo produz inicialmente no individuo certo gozo satisfatório diante do que perdeu.

Palavras-chave: luto, melancolia, triunfo, preservação da espécie.

1. Introdução

Em nosso cotidiano tanto pessoal como profissional enfrentamos situações conflitantes perante as perdas, o corpo que muda perante as fases da vida, os amigos conquistados e os amigos “perdidos”, os amores que mesmo sem nossa vontade saem de cena, mudança de emprego e de cidade.

Em todas essas ocasiões, dependendo da estrutura psíquica do sujeito, há uma igualdade de sintomas representativos que nos remetem a refletir a posição do mesmo, e a tentativa de se reorganizar psiquicamente diante da falta.

Segundo Freud (1920) que no luto, entendido como uma constelação de reações psíquicas, conscientes e inconscientes, há uma perda da libido antes investida no objeto amado, porém a perturbação da autoestima esta ausente (Freud,1920. p,250), já na melancolia não há necessariamente uma morte e sim uma perda inconsciente do objeto de amor, levando o ego a um estado de pobreza da libido… Dessa forma uma perda objetal se transformou na perda do ego… (Freud, 1920.p, 255).

Considera-se que a melancolia esta classificada para Freud (1920) como uma “psiconeurose narcísica” e o luto como período transitório do sujeito. Diante dos dados expostos, buscamos a luz da psicanálise para embasar a hipótese de como se direciona o tratamento do indivíduo, por considerar o mesmo como um ser detentor de sua historia e palavras e o terapeuta na posição de escuta, como um mediador do mecanismo de retificação do eu e da elaboração do luto.

Nas primeiras etapas desse trabalho, foi apresentada uma pesquisa de cunho bibliográfico onde se retirou dados importantes e significativos acerca das obras de Sigmund Freud e Melanie Klein que nos proporcionou um melhor entendimento, diferenciação e classificação dos períodos de perda relatados anteriormente. Para Melanie Klein (1971) no luto “normal” que segundo ela não é a melancolia, pois esta última é o “luto patológico” o sujeito consegue restabelecer o objeto amado e perdido no ego enquanto que na melancolia essa reorganização fracassa.

Para Freud em algumas pessoas o processo do luto pode desencadear um caso de melancolia, pela pré-disposição a uma suposta patologia, porém, ele ressalta que o luto, considerando que os objetos perdidos eram de importância para o que perdeu, não pode ser descrito como uma patologia, “… embora o luto envolva graves afastamentos daquilo que constitui uma atitude normal para com a vida, jamais nos ocorre considerá-lo como uma condição patológica e submetê-lo a tratamento médico…” (Freud, 1920.p, 249).

Melanie Klein (1971) se refere ao luto como a capacidade que o indivíduo possui de processar ou dirigir a quantidade de afetos ligados à perda, e que parte dessa capacidade começa desde cedo no mecanismo infantil, ou seja, começa quando o bebê percebe que o seio da mãe pode fazer-se ausente mesmo contra sua vontade.

Essa ausência produz na criança um estado de frustração, tal como Freud relata em seus escritos, porém, Melanie Klein introduz em sua literatura, termos não utilizados por Freud, são eles, o mecanismo de reparação, que para ela significa a “culpa” de “odiar” o objeto “amado”, e a posição de triunfo que é vitória sobre o objeto “perdido”.

Ao usar o termo por ela aplicado, “mecanismo de reparação” a autora faz uma colocação de divergência com Freud, “… Neste ponto, divirjo com Freud, quando diz. A aflição normal supera também a perda do objeto absorve igualmente todas as energias do ego, enquanto dura…” (Klein, 1982, p.405). Ela explica que Freud não referencia mecanismo de triunfo no luto “normal”, como a função de poupar psiquicamente o individuo enlutado, segundo ela o triunfo é uma emergência no caso de economia psíquica por permitir um efeito de retardar o processo do luto.

A partir desses dados realizaram-se duas entrevistas: uma com um profissional da psicologia, mais precisamente uma psicanalista membro da APC (Associação Psicanalítica de Curitiba), mestre em História pela UFPR com atuação clínica; onde foi abordado os pontos básicos para análise do tratamento de um indivíduo melancólico ou enlutado e outra com uma pessoa enlutada que descreve sua dor e sentimentos por seu ente querido.

A psicóloga descreve em sua entrevista que o luto é muito mais recorrente do que a melancolia na clinica e que na fala dos pacientes aparece uma lamentação pela perda e dificuldade, num primeiro momento, de investir sua libido em outras coisas do mundo externo. Segundo ela é comum expressões como  – a de que tudo era melhor quando se tinha o objeto perdido – eu era feliz e completo com aquela pessoa, ou aquele trabalho ou a condição de saúde, e o desejo de ter aquilo de volta.

Ela comenta que a melancolia é um processo mais sério, a lamentação pela perda é maior e o paciente fala como se ele próprio tivesse se perdido junto com o objeto. Segundo ela (geralmente eles não sabem o que é que perderam) a desmotivação é grande, a tristeza profunda.

Ela descreve um paciente melancólico com essas palavras; “Lembro de uma paciente que me contava com fala muito lenta e baixa (monótona) que passava as tardes na poltrona da sala sem fazer nada, olhando o vazio e às vezes sentia vontade de ir ao banheiro urinar, mas não tinha força nem para isso, somente ia quando não aguentava mais”.

Os dados retirados na entrevista com a pessoa enlutada, uma senhora de 54 anos  que havia perdido o marido há 2 meses até o momento da entrevista é de que a tristeza referente a perda é muito intensa, ela relata que a morte de um ente querido após muito tempo passa a ser uma saudade, mas que é muito difícil se habituar com essa realidade e que impressão que se tem é de que a pessoa foi em algum lugar e que irá retornar a qualquer momento.

2. Pressupostos Teóricos

Para começar a relacionar os pensamentos teóricos sobre o tratamento do luto e melancolia nos pressupostos psicanalíticos, descrevemos um trecho dos escritos de Freud “… O luto profundo a reação de perda de alguém que se ama, encerra o mesmo estado de espírito penoso a mesma perda de interesse pelo mundo externo…” ( Freud,1920.p 250). O autor refere-se ao fato de que a força do ego perante a realidade imposta pela perda diminui, e que há uma necessidade de se adotar um novo objeto para que a libido volte a transitar entre o ego, o objeto e o mundo externo, diante dessa conexão se estabelecerá novamente um equilibro entre eles.

Freud (1969, p.345)“… Não! É impossível que toda essa beleza da Natureza e da Arte, do mundo de nossas sensações e do mundo externo, realmente venha a se desfazer em nada. Seria por demais insensatos, por demais pretensioso acreditar nisso…”. Freud relata que é difícil para o ser humano crer que um dia tudo aquilo que esteve em seu alcance possa vir a desaparecer e que a percepção do eu sobre o mundo externo é de que isto tudo são constituintes do mesmo, aceitar, portanto que pode existir um “nada” no lugar antes composto de objeto externo é ter que aceitar que um dia o “eu” pode também deixar de existir.

(…) O que lhes estragou a fruição da beleza deve ter sido uma revolta em suas mentes contra o luto. A idéia de que toda essa beleza era transitória comunicou a esses dois espíritos sensíveis uma antecipação de luto pela mortedessa mesma beleza; e, como a mente instintivamente recua de algo que é penoso (Freud, 1969, p.346).

Nessa citação, Freud descreve a necessidade que alguns indivíduos têm em não se deparar com a perda, porque a perda requer um investimento de energia psíquica que talvez não esteja ao alcance de uso no devido momento, ou talvez, a estrutura psíquica do individuo não suporte lidar com o vazio.

O luto pela perda de algo que amamos ou admiramos se afigura tão natural ao leigo, que ele o considera evidente por si mesmo. Para os psicólogos, porém, o luto constitui um grande enigma, um daqueles fenômenos que por si só não podem ser explicados, mas, a partir dos quais podem ser rastreadas outras obscuridades (Freud, 1969, p.346).

Freud (1969) classifica que o trabalho do psicólogo com o processo do luto no sujeito não pode ser rotulado, porque pode existir uma cadeia de fenômenos psicológicos atrás dos sintomas expostos.

Isso nos remete a leitura de Melanie Klein (1969, p.236), no que aborda os escritos de Freud sobre os instintos vitais

Por que, em resumo, assim que nos esforçamos pela mortalidade ou, pelo menos, uma imortalidade indireta e por procuração? Ou como poderemos descrever aqueles momentos de profundo abatimento e desânimo, a que ninguém escapa, senão como um sentimento de que não há alegria em combater um inimigo que, em última instância, nos derrotará inapelavelmente.

Ela descreve o doloroso processo pela luta da preservação dos “objetos” introduzidos e identificados na psique, e que suas perdas provocam sentimentos de tristeza.

E tais fatos da observação analítica sugerem a hipótese de que os mecanismos paranóides, que são fundamentais em nossas vidas e que observam tão nitidamente em suas formas exageradas, podem constituir os mecanismos inatos por cujo intermédio é obtido o comportamento autoconservador em face de um perigo externo, pelo menos nas espécies superiores ou talvez em todas  (Klein, 1969, p. 238).

Klein descreve que o “medo” da perda, ou a perda em si para o sujeito é como se fosse uma desintegração do ego, e por consequência do eu, e a luta contra essa perda, seja qual for à instância: o abandono, o distanciamento, ou até mesmo a morte do objeto amado desequilibra o mecanismo psíquico, desintegra o “ego”, e o esforço de reintegração é também um modo de preservar o “ego”.

(Klein 1971, p. 141) “… A sensação de tê-la perdido equivale ao medo de que ela tenha morrido. Em razão da introjeção, a morte da mãe externa significa igualmente a perda do objeto interno bom, e isso reforça na criança o temor de sua própria morte…”. A morte da mãe, ou dos objetos introjetados através da identificação da mesma que constituem partes do ego, representa no psiquismo do individuo a sua própria morte, e isso dá ao luto um aspecto de preservação da espécie humana, ou seja, o temor da morte equivale ao temor do “fim” e desencadeia a incerteza da continuidade.

Freud ainda discute que embora o ser humano tenha um temor sobre a morte à mesma desencadeia em todo individuo um principio de prazer, ou seja, a vontade de voltar ao estado inicial, i.e, estado inorgânico “… Se tomarmos como verdade que não conhece exceção de tudo o que vive morre por razões internas, torna-se mais uma vez inorgânicos, seremos então compelidos a dizer que objetivo de toda vida é a morte, e, voltando o olhar para trás, que as coisas inanimadas existiram antes das vivas…” (Freud, 1996).

“… O que nos resta e o fato de que o organismo deseja morrer apenas do seu próprio modo. Assim, originalmente, esses guardiões da vida eram também os lacaios da morte…” (Freud, 1996). O autor se refere nesse trecho sobre os dois instintos intrínsecos do ser humano, ou seja, o instinto de vida e o de morte, o instinto de vida ele nomeia de instinto sexual, de conservação ou de Eros e o instinto de morte como sendo aqueles que exercem pressão no sentido da morte.

Freud (1969, p. 347) relata que “… Não pode surpreender-nos o fato de que nossa libido, assim privada de tantos dos seus objetos, se tenha apegado com intensidade ainda maior ao que nos sobrou…” A necessidade do indivíduo de que sua espécie prevaleça, faz com que ele invista uma quantidade maior de libido a aquilo que lhe resta, isso depois que se deu conta do que perdeu, salvo no caso de luto. Esse processo torna-se transitório na vida do sujeito enlutado “normal” e auxilia o mesmo a lidar com suas perdas.

Para a melancolia ele relata que “… Na melancolia, as ocasiões que dão margens á doença vão em sua maior parte, além do caso nítido de uma perda por morte, incluindo as situações de desconsideração, desprezo ou desapontamento, que podem trazer para relação sentimentos oposto de amor e ódio..” (Freud, 1920, p, 256). Para ele  se o individuo não pode abrir mão de seu amor, se não há renuncia desse sentimento, ou dos instintos amorosos, o ódio entra em ação e há uma satisfação em torturar, espezinhar o objeto escolhido.

Segundo Freud (1920, pag. 257) “… A autotortura na melancolia, sem dúvida agradável, significa do mesmo modo que o fenômeno correspondente a neurose obsessiva, uma satisfação de tendências do sadismo e do ódio relacionadas a um objeto que ao próprio eu do indivíduo…” Há para Freud um certo gozo nessa condição melancólica,  e esse sadismo desvenda o mistério da tendência ao suicídio porque é vasta a quantidade de libido narcísica liberada perante uma ameaça a vida.

A catexia erótica do melancólico no tocante a seu objeto sofreu assim uma dupla vicissitude: parte dela retrocedeu a identificação, mas a outra parte, sob a influência do conflito devido a ambivalência foi levada ao sadismo que se acha mais próxima do conflito (Freud.1920, p.261).

O autor relata que o ego só pode matar-se quando ele puder tratar-se a si mesmo como um objeto fazendo com que haja uma reversão da escolha objetal narcísica, ou seja, se o ego agora é o objeto, este ultimo passa a ser mais poderoso que o primeiro e no caso do suicídio é então eliminado.

3.  Considerações Finais

Ao elaborarmos esse trabalho de cunho acadêmico, nossa pretensão foi, de além da revisão bibliográfica nas obras de Sigmund Freud e Melanie Klein sobre o luto e melancolia, também a de proporcionar um olhar do lado de quem trata da perda e de quem passou por ela.

Podemos observar então, que no luto o indivíduo se depara não somente com a perda do objeto, mais com uma ameaça a sua própria completude. A perda significa ao indivíduo enlutado, perder parte de seu “ego”, seu “eu” o que gera um desequilíbrio psíquico, pelo fato do sujeito ter que investir a libido antes investida no objeto perdido, em um novo objeto. Esse novo objeto por sua vez reconstitui novamente o “ego” o que favorece a pessoa enlutada na forma de investir novamente a libido. Por isso Freud diz que o luto é um processo transacional, e Melanie Klein da o nome de luto “normal”, porque o indivíduo enlutado investe sua libido em outro objeto. Nota-se esse processo na parte da entrevista em que a psicóloga descreve a fala do enlutado “… Expressões como eu era feliz e completo com aquela pessoa, ou aquele trabalho ou a condição de saúde, e o desejo de ter aquilo de volta…”. O desejo de ter aquilo de volta, nada mais e do que ter parte do seu eu novamente.

E também na narração da pessoa enlutada “… Se eu não fosse acho que uma pessoa como eu sou. Eu de repente não estaria aqui…”.  Essa parte  descreve que o sofrimento pela perda, faz com o ego em primeira instância se identifique tanto com o objeto perdido, que sua força vem a ter um declínio o que pode possibilitar um estado de tristeza profunda e na sequência uma patologia.

A fala do paciente segundo a psicóloga possibilita a simbolização da perda, e por sua vez permite que ele saia do processo de luto e o elabore; assim ele poderá perceber o que perdeu com objeto. “… Eu realmente não fico pensando assim… Ai! eu vou morrer; como eu posso viver com essa dor. Não! Eu quero viver, eu quero criar meus filhos e não vou ficar chorando pelos cantos…” A esse trecho da entrevista vale ressaltar os escritos de Freud (1916[1915]) em seu artigo sobre transitoriedade que foi citado nesse trabalho, que o luto para os psicólogos constitui um grande enigma, que por si só não pode ser explicado por haver vários fenômenos psicológicos embutidos no mesmo.

Pois para o autor junto ao objeto perdido ha uma quantidade de afeto representada, que somente se o paciente falar da perda poderá se conscientizar do que realmente perdeu. “… Você sabe que eu acho não caiu a ficha ainda, às vezes a gente conversando aqui em casa parece que ele foi para a hemodiálise e vai chegar..”.

Cabe salientar como Freud e Melanie descreveram que o processo do luto, pode ser um dispositivo para preservação da espécie humana, vendo dessa forma o medo de perder algo próximo a si afeta o psiquismo do sujeito, porque representa para o mesmo o seu próprio “fim”. Esse trecho da entrevista com a pessoa enlutada descreve claramente que se a pessoa ainda estivesse presente “tudo estaria bem”, ou seja, esse fator (morte) que possibilitou o desequilíbrio por mostrar que a mesma (morte), esta próxima a minha pessoa não teria acontecido “… Se ele tivesse me escutado ele podia estar vivo, com saúde e estar todo mundo bem…”.

Entre tantas leituras sobre luto e melancolia fora das teorias de Freud e Klein estes trechos merecem destaque em particular, por descrever com palavras sucintas o processo intrapsiquico da melancolia e do luto normal e permite uma discussão a parte.

“… Eis o fato Clínico. Um certo crescimento libidinal por ocasião da morte do objeto seria um fenômeno expandido, para não dizer universal…” (Nicolas Abraham, p.219, 1995), aqui o luto aparece claramente como um aspecto de auto preservação, pois ele provoca no individuo enlutado uma invasão de instintos libidinais, isso porque o mesmo causa no sujeito uma percepção de sua “vida”, ou seja, o fato de presenciar a morte do objeto, desencadeia nele um certo gozo por ter permanecido “vivo”, e esse “gozo” é revestido de instintos de vida, instintos sexuais que por via das duvidas lhe entregam a certeza de que seu “eu” esta preservado e mantém seus instintos pulsando.

É cultural choramos por nossos mortos, e se não somos capazes disso podemos alugar as lágrimas de alguém para que o velório tenha um timbre de pêsames, de tristezas para que as pessoas sintam que a perda é algo muito tocante e de certa forma irreparável. E essa percepção de que o luto é um ritual histórico e cultural em respeito a nossos entes perdidos, tem um alto custo, que é o de se compreender que enquanto choramos por nossos entes queridos, um desejo nos invade, um desejo de permanecer vivos e porque não dizer que vai de encontro a essa mesma morte, na busca incessante do que Freud descreve como  principio de prazer e do estado de nirvana, a busca do fim.

Já para a melancolia, a tristeza se perpetua por um tempo maior, pelo fato do “eu” ter se desintegrado quase que total, podemos observar através da entrevista com a profissional que o melancólico faz sua reorganização do simbólico através de seus delírios, percebe-se então que os delírios, e a sublimação dos instintos através da arte, formam também uma ponte para o paciente melancólico, porém, não acontece como no luto e sim de maneira diferente, uma ligação entre o simbólico e o real. Uma maneira louvável de sair do mundo interno para o externo. Para o paciente é a possibilidade de simbolizar a perda que permite que ele saia do processo de luto e consiga fazer a elaboração do mesmo.

… Seu idílio vergonhoso, mas puro de toda agressão cessou, não por infidelidade, mas por constrangimento; é por isso que ele pôs cuidadosamente a lembrança em conserva como seu bem mais precioso e isso ao preço de lhe construir uma cripta com as pedras de ódio e agressão. Alias enquanto a cripta resiste não há melancolia. Ela se declara no momento em que as paredes se abalam (…), “Então diante da ameaça de desmoronamento da cripta, o ego inteiro se torna cripta…” (Nicolas Abraham, 1995, p.255).

A cripta nos releva uma imagem de um lugar onde este depositado os cadáveres, que na citação acima os mesmos mudam de figura e passam a ser na verdade as lembranças, na tentativa de manter o “ego” aprisionado; o melancólico cria para essas lembranças uma cripta e a enfeita com pedras de ódio e agressão; para o autor enquanto as lembranças que estão mantidas dentro dessa cripta resistem, não há melancolia e sim o luto transitório, pois essas “lembranças” se tornam acessíveis a consciência e possibilita ao individuo o luto normal. Então para que essas lembranças não sejam acessíveis o ego inteiro se torna cripta, ele passa a conter e ser o objeto perdido, porém, ele terá a imagem de que esse objeto é isolado de si, ou seja, esta fora de seu núcleo o que permite então um luto interminável. Atrevo-me a fazer uma comparação com o que Freud escreve em seu texto, luto e melancolia que o melancólico sabe “que perdeu”, mas não sabe “o que perdeu”.

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