Literatura e Psicanálise: algumas associações

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March 6, 2015
Literatura e Psicanálise: algumas associações

escrita04Este artigo visa explanar sobre a temática da literatura associada à prática clínica psicanalítica. Sabe-se que a aquisição da linguagem, aproximada ao conceito de inconsciente, é para a Psicanálise, um fator decisivo para a formação e estruturação do sujeito. É justamente a linguagem que “funda” o sujeito e que  faz diferenciar as estruturas clínicas: a neurose, psicose e perversão.  O uso da arte faz emergir fantasias e toca em questões subjetivas, já que a verdade do sujeito pode estar subjacente a uma ficção.  Pensaremos, neste artigo, sobre como a figura do personagem, a poesia, a prosa, enfim, como a literatura é capaz de promover processos inconscientes, na medida em que o trabalho intelectual consiste em uma forma sublimada de obter prazer.

Palavras-chave: Literatura, arte, psicanálise, psicose, sujeito e inconsciente.

Cinco elementos são indispensáveis para que haja literatura. Compagnon (1999) assim os enumera: um autor, um livro, um leitor, uma língua e um referente. A fronteira entre o que é literário e não literário varia consideravelmente segundo a época e a cultura. Ou seja, para que um texto seja “literário”, é preciso que ele seja assim classificado conforme todo um contexto histórico e social. O nome literatura é, certamente, novo (data do início do século XIX); anteriormente, a literatura, de acordo com a etimologia, eram as inscrições, a escritura, a erudição, ou o conhecimento das letras. Porém, o seu conceito sofreu transformações e foi subvertido nos tempos atuais:

[…] Barthes renunciou a uma definição, contentando-se com esta brincadeira: ‘ a literatura é aquilo que se ensina e ponto final’ […] No sentido mais amplo, literatura é tudo o que é impresso ou mesmo manuscrito (COMPAGNON, 1999, p. 31-32).

A literatura é, dentre outros muito significados para o termo, a arte de criar e recriar textos. Num texto literário, a dimensão estética das palavras está ampliada, estabelecendo entre o leitor e a obra um efeito de intensidades subjetivas e significantes.  A grande diferença entre o texto científico e o texto artístico é que o primeiro não exige como finalidade a transmissão do “belo”.   Considerando que o “belo” não é obeder estritamente um padrão proporcional, a algo convencionalmente organizado ou simétrico. Porque a beleza provocada pelo texto literário remete a um tipo de estranhamento semelhante a alguém que diante do espelho duvida das suas expressões mais familiares. Assim também é o processo de análise. O sujeito começa a abrir espaço para um outro muito próximo de si mesmo que se apresenta antes de tudo como um desconhecido. A psicanálise abre espaço para o não saber, para as desconstruções e principalmente para a criação de formas mais reconciliadoras de se lidar com os sintomas.

Mas para que haja análise, o que é necessário? Um analista, um analisando, uma língua, uma demanda… Podemos traçar então algumas relações e semelhanças entre psicanálise e literatura. Beckel (2006) sobre as proximidades entre estes dois campos do saber ressalta que essas disciplinas aprendem uma com a outra no momento em que ambas oferecem um acesso à sublimação das pulsões, atendendo aos desejos de expressão. A literatura é expressão do inconsciente e desperta a associação livre do leitor. Ao nível do não dito, o escritor, assim como na análise, endereça suas palavras, escolhendo significantes das suas histórias pessoais.

A literatura pré-existe a psicanálise e Freud sempre deu importância às artes em geral por considerar que o inconsciente é alimentado pelo universo simbólico da linguagem e pelas fantasias. O conceito chave da Psicanálise, o Complexo de Édipo provém da literatura antiga grega.  Toda a teorização sobre o inconsciente baseia-se no processo de inscrição do sujeito no mundo simbólico, através do qual a linguagem funda as relações interpessoais no campo social. Ainda sobre a inscrição do sistema simbólico no universo da criança, Freud exemplifica com o “Fort-Da”, que é certamente o primeiro vazio que, sendo significante, produz um efeito de significado para algo enigmático, algo desconhecido. Para existir no simbólico, é necessário ter ocorrido uma operação de esvaziamento. A mãe, inicialmente é um objeto que existe no real e torna-se simbólica quando sua ausência é simbolizada a partir da falta.

Mais tarde, reelaborando a psicanálise e acrescentando novas perspectivas teóricas, Lacan, pensando a psicose de maneira mais atenta, considera que a inscrição do sujeito psicótico no simbólico é uma operação bem diferente do que acontece na neurose. Essa condição fundante na psicose está, ela mesma, ausente e faz com que coincidam o sujeito e a imagem de si e o Outro aos objetos.

Neurose, psicose, e a perversão são nomes das estruturas clínicas que formam isoladamente a resposta do sujeito diante do impasse da castração. São soluções subjetivas que encontramos para tratar a impossibilidade de a linguagem apreender a experiência com o corpo e com a realidade. Lidamos com as representações de objeto ao falarmos e ao nos expressarmos. Na esquizofrenia, por exemplo, as palavras podem ser tomadas como coisas. Há aí um superinvestimento na representação das palavras como forma de suprir a não inscrição das representações das coisas no inconsciente, aí a representação da coisa se torna hiperinvestida através da ligação com a representação da palavra (GUERRA, 2010).

Lacan diz que a foraclusão, faz com que o Nome-do-Pai  torne certas funções simbólicas inoperantes. A presença-ausência materna aparece como um dom e permite à criança simbolizar a falta, a partir do seu desejo. Essa operação diz de uma introdução da Lei interditora, castradora, que impede o filho de ser reintegrado à completude com a mãe e à mãe de fazer do filho seu falo. Mas quando o apelo ao Nome-do-Pai  corresponde a carência do próprio significante no campo do Outro,  então ocorre a foraclusão. O significante Nome-do-Pai é rejeitado simbolicamente e não produz metáfora. O psicótico não está fora da linguagem, mas se relaciona com ela de maneira particular, pois ela lhe é exterior.

Freud conceituou em sua obra, vários mecanismos psíquicos que se fazem correlacionados à linguagem e às estruturas clínicas. Aqui falaremos do “juízo de atribuição” e o “juízo da existência”. O juízo de atribuição implica introjetar o que é bom e descartar o que é mau. No juízo da existência, não está em jogo o dado percebido, a coisa, que deve ou não ser escolhido, mas sim a algo existente como representação que pode ser encontrado também na realidade, na percepção. A prova da realidade, portanto, seria encontrar na percepção real de um objeto (desde sempre perdido), a sua correspondência de representação. É nesse intervalo que o inconsciente se institui como diferença, como um lugar que porta esses hiatos.

O psicótico não simboliza essas representações, o que é vivido como traumático ou como afetivamente muito intenso (perda de objeto de amor, um estímulo muito prazeroso, etc.), não ganha representação capaz de favorecer o escoamento energético. A foraclusão rejeita a representação do afeto. Já na neurose, o conteúdo aflitivo é recalcado, mandado para o inconsciente, onde ele continua a se associar com derivados, produzindo as chamadas fantasias. Há na neurose, um laço simbólico, e na psicose, uma negação da realidade (GUERRA, 2010).

A abordagem lacaniana para as estabilizações psicóticas aproximam-se muito da literatura e das artes em geral. De acordo com Guerra (2010), Lacan ao abordar as diferentes possibilidades de saída na psicose, localiza mais dois movimentos subjetivos além do trabalho delirante já destacado por Freud. São eles a passagem ao ato e a obra (escrita). Muitas vezes, esses caminhos traçados pelo psicótico prescindem da presença de um analista e de cuidados institucionais. No terceiro aspecto, a obra, Lacan diz que ela pode ser escrita, conforme o estudo sobre Joyce e no caso da pintura em Van Gogh. Há um trabalho real sobre o real através de uma obra inédita. A criação artística é uma saída na psicose. Na verdade, em qualquer estrutura clínica. Há também as sublimações criadoras, a identificação imaginária e a própria transferência podem funcionar como veículos que favorecem a estabilização na psicose.

Guerra (2010) afirma que a sublimação criadora aproxima-se da metáfora delirante, mas diferente dela, faz pacto social. Longe de ser um sujeito marcado por déficits e precariedade subjetiva, os estudo de Lacan vêm reconhecer que o psicótico é capaz de inventar saídas criativas e encontra soluções aos embaraços que sua posição particular na linguagem provoca.

No texto, “Escritores criativos e devaneios”, Freud busca na infância alguns fundamentos para compreender o caráter imaginativo dos artistas. As crianças, assim como os poetas levam a sério a fantasia, investem nela emoções, distinguido-a da realidade. Perder o prazer de brincar está associado à entrada no mundo adulto, e às castrações. Desejos proibidos e fantasias sobre a vida do outro aparecem na literatura quando o sujeito se deixa evadir pelo uso de metáforas. O analista, assim como o analisando ou autor têm, através da literatura, a oportunidade de serem leitores atentos da sua própria história, porque o Outro do texto está constantemente representado.

Então perguntamo-nos, o que é exatamente um texto, o quê e a quem ele fala ou se refere? Barthes (1984), em “O Rumor da língua”, diz que o que lemos, em um sentido mais abrangente para a ação de ler, são os textos, figuras, lemos a cidade, os rostos, gestos, cenas, imagens, etc. O texto é, neste ângulo, algo muito amplo  que ultrapassa o formato de um texto impresso e manuscrito em palavras nas folhas de um livro. Mas sim, o texto é um composto de significantes, signos, símbolos, índices. Para Barthes, ler, escrever, falar e ouvir são ações que se fazem com o corpo e através dos gestos.

A leitura é um estilhaçar-se de ideias e a literatura encontra-se num campo plural de ações psíquicas: temores, desejos, gozos, opressões. Objetos tão variados, colocados em contexto analítico, não podem ser unificados por uma categoria substancial. Pode-se dizer que o objeto lido é fundado por uma intenção de ler, a demanda da leitura é criada.  A partir disso, Barthes (1984) cita o “objeto ler”, já que “toda leitura é penetrada de Desejo (ou de Repulsa)”.

Barthes identifica alguns “recalques da leitura”: O primeiro recalque relaciona a leitura como um dever. O ato de ler é determinado por uma lei: “a liberdade da leitura, […] é também a liberdade de não ler”. O segundo exemplo é o recalque da Biblioteca, em oposição ao Desejo, já que a tendência é nunca encontrar o livro desejado, ele sempre estará em falta, estando a biblioteca então num espaço para os substitutos do desejo. A biblioteca é um espaço que se visita e não que se habita. Barthes fala de certo movimento de burocratização da leitura porque tomar emprestado um livro é algo institucional e vai de acordo com a lógica da dívida.

Pode-se também identificar os “prazeres da leitura”: O primeiro diz de um leitor que obtém uma relação fetichista com a obra, ele tira prazer nas palavras, nos arranjos das frases, faz uma leitura metafórica ou poética, assim como a criança tira prazer no balbucio, é uma prática oral. O segundo prazer refere-se ao leitor que é puxado para a frente do livro, extraindo dele uma relação de suspense, num gozo de desvendamento. O terceiro prazer é a  leitura como condutora do desejo de escrever, em que o leitor deseja o desejo que o autor conseguiu enquanto escrevia, o leitor deseja esse “ame-me” que  está em toda escritura (BARTHES,1988).

Então agora, através destas explanações, é possível ir de encontro à questão que Barthes lança em “O rumor da língua”: O que há de desejo na literatura? O desejo, responde o autor, está presente junto ao seu objeto (ler), através do erotismo encontrado nas palavras. O leitor fecha-se para ler, faz da leitura um estado absolutamente separado, clandestino, onde o mundo é abolido, comparado ao que acontece com o sujeito amoroso e no sujeito místico que idealiza o paraíso. Na leitura, todas as emoções do corpo estão presentes do sujeito leitor, que se considera um ocupante privilegiado de um ponto de vista (ou de vários).  Além do efeito ou objetivo de erudição que a leitura provoca, podemos dizer que no ato de ler, o leitor se trata como um verdadeiro personagem que capta uma multiplicidade de sentidos tão vasta que a literatura torna-se o lugar onde a estrutura se descontrola (BARTHES, 1988).

Ao falar de descontrole, não nos referimos apenas à loucura. Estamos falando de um sentido figurado que a escritura assume quando a palavra, na literatura, auncia um caráter diferente da função usual de um linguajar simplesmente codificado. A mensagem perde seu contexto e  passa a evocar uma realidade que está pressuposta na relação distante entre a coisa (ou o objeto a ser nomeado) e o observador. Assim, a literatura aborda a irrealidade das coisas em seus sentidos impessoais, quando estas coisas ainda são apenas rumores, para depois serem transformadas pela linguagem. Cria-se assim, um espaço literário.

De acordo com Girotto(2010), pensando o conceito trabalhado por Maurice Blanchot de “fora”, a literatura é muito mais do que uma tentativa de representaçao ou de aproximação da realidade, sendo justamente a descontrução dessa idéia, ou seja, a construção de um mundo no mundo. Antes um mundo sempre porvir, de “fora”.  Eduardo Pellejero parece explicar mais detalhadamente esta questão:

Quando o escritor é capaz de situar-se no seu tempo, mas contra o seu tempo, em favor de um tempo por vir, como dizia Nietzsche, conectando as suas capacidades actuais, as armas da sua época, com as potências virtuais daqueles que habitam as margens da sociedade na que escreve, quando é capaz de aliar a sua erudição a esses saberes menores, como dizia Foucault, então escrever pode ser uma força efectiva para além da cultura e do mundo das letras, e começar a operar sobre o individual, o político, o social” (PELLEJERO, p. 70).

Escrever é estar no (e sobre o) limite da esfera pessoal e do outro. Comparavelmente, o analista é o profissional que deve estar sempre no território limite entre o eu/outro, um território “entre”.  Mergulhar na textualidade do outro seria, enfim, se render à impossibilidade de neutralidade diante de um objeto de estudo, que no campo da psicanálise é o ser humano. Mas claro, manejando o campo das transferências e identificações. Todo discurso se baseia numa interpretação e toda interpretação num discurso, porém, a tradução literal acaba por explicitar justamente uma possível não-correlacionalidade entre palavra e coisa, os significantes e os significados. As palavras estão também sempre no território “entre” um sentido e outro. As narrativas, as prosas, os romances e tudo o que é compartilhado e relatado diante de uma escuta clínica tomam sentidos que dão margens a interpretações diversas.

Considerações Finais

A prática clínica surge como um processo criativo de escrita, de reinvenção e renovação da subjetividade, onde a produção de textos se identifica a atividades artísticas, terapêuticas, profissionais, religiosas, educacionais, etc. Desta maneira, quem se submete a análise troca e compartilha com o analista suas experiências de vida, seus conhecimentos e sentimentos. A clínica é um ambiente de devir, de transformações:

Nada como a reflexão, o prazer e entretenimento, e a fruição estética que a Literatura pode proporcionar para alargar a nossa humanidade interior. Nada como a Literatura, essa experiência de milênios de encantamento da palavra promovida (e movida) pela humanidade para nos tentar a entrar para o mundo dos heróis, das aventuras, da exposição da alma humana e da exploração do sentido de tudo que há e nos cerca (RAMOS e AGUIAR, 2012).

A associação livre, método utilizado na análise, refere-se a um princípio psicológico segundo o qual as ideias, sentimentos, ações e palavras se apresentam e exprimem as experiências atuais e passadas dos indivíduos. Falar, associar livremente e escutar são também “criações literárias”, pelo ponto de vista de todas as ideias apresentadas neste artigo, pois há uma verdade inconsciente que é sincera na mesma proporção em que é fantasiosa, imaginária, onde “inspirar-se  acaba sendo nada mais nada menos que sofrer o sopro da alteridade para, em seguida, bafejá-lo numa criação” ( MAZARGÃO, p.18). Enfim, concluímos que a literatura é a linguagem carregada de significados e é matéria prima pra as associações livres.

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