Jacques Lacan

November 25, 2014
Jacques Lacan

Biografia – Jacques Lacan (1901-1981)

     Filósofo e psicanalista francês. Suas idéias de fundo estruturalista abalaram o cenário psicanalítico da França a partir da década de 1960.

     A influência de Lacan, tido como intérprete original da obra de Freud, estendeu-se além do campo da psicanálise e fez dele uma das figuras dominantes na vida cultural francesa na década de 1970.

     Jacques Marie Lacan nasceu em Paris, em 13 de abril de 1901, de família burguesa e católica. Formou-se em medicina, especializando-se em psiquiatria, e foi interno de Gaétean de Clérambaut, a quem considerava seu único mestre no campo psiquiátrico. Com a tese de doutorado La Psychose paranoïaque dans ses rapports avec la personnalité (1932; A psicose paranóica em suas relações com a personalidade), mostrou impressionante erudição e simpatia pela psicanálise, numa época em que preconceitos obstavam sua disseminação na França.

     Lacan buscou a companhia dos artistas do surrealismo, atraídos pelo caráter revolucionário das teses freudianas. Acompanhou o famoso seminário de Alexandre Kojève sobre Hegel e se ligou a intelectuais de ponta do pensamento francês, entre eles Raymond Aron, Maurice Merleau-Ponty e Georges Bataille. Em 1934, entrou para a Sociedade Psicanalítica de Paris. Em 1936, apresentou num congresso seu trabalho sobre o “estágio do espelho”. A partir daí, sua história se confunde com a da própria psicanálise.

     Conhecedor profundo da obra de Freud, Lacan empreendeu ao mesmo tempo um retorno e uma revolução em direção a uma psicanálise que para ele havia perdido o sentido original. O retorno visou resgatar os fundamentos psicanalíticos, que para Lacan se encontram no próprio conceito de inconsciente. Para empreender sua grande crítica às vertentes americana e francesa da psicanálise, cujo tema central é a discussão sobre o imaginário, pesquisou a linguagem e deduziu que é ela a condição de existência do inconsciente, que só existe no sujeito falante.

     Numa retomada crítica dos conceitos saussurianos de “significante” e “significado”, Lacan afirmou a autonomia do significante e o inseriu na origem simbólica, constituída pela linguagem. Afirmou que o significante preexiste ao sujeito e sobrevive a ele, faz do sujeito homem ou mulher, traça seu destino e o priva de qualquer relação natural com o mundo.

     Lacan não é um autor simples nem fácil. Seus conceitos demandam, além de uma carga exaustiva de leitura, uma inversão do pensamento racional e linear a que está habituada a cultura ocidental. Em seus Écrits (1966; Escritos) e vinte seminários abordou temas tão complexos quanto polêmicos, como a ética da psicanálise, a transferência, o princípio do prazer e conceitos fundamentais da psicanálise, entre outros.

     Em 1980, dissolveu a Escola Freudiana de Paris, que fundara em 1964, e criou a Escola da Causa Freudiana. Lacan faleceu em Paris, em 9 de setembro de 1981.

©Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.


Outra Biografia

     Nasceu em París em 13 de abril de 1901, sendo um dos quatro filhos de um comerciante de vinagres . Durante a primeira guerra mundial, o colegio a que asistia se transformou em uma especie de hospital de campanha, e é provavel que esta experiencia tenha arraigado nele o desejo futuro de uma carrera médica. No entanto, tambem por aquela época, Jacques-Marie era definido por quem o conheceu como altaneiro e distante, incapaz de organizar seu tempo e de comportar-se como os demais.

     A agitada vida intelectual de sua época, na qual figuras como André Breton, André Gide, Jules Romains, James Joyce atraíam cada vez mais sua atenção, é vivida por ele de forma tal que rechaça os valores familiares e cristãos nos quais havia sido educado. Em 1929, sofre uma profunda decepção pela partida de seu irmão Marc para a Abadia de Hautecombe. Havia decidido ordenar-se sacerdote e Jacques, que sempre havia sido seu protetor, não havia podido evita-lo.

Ao iniciar sua carreira médica, as ideias de Freud estavan ganhando cada vez más espaço dentro do pensamento frances. Havia sido criada a revista “Evolution Psichiatrique” e havia sido fundada, no mesmo dia em que Lacan fazia sua primeira apresentação como médico neurólogo, a SOCIETE PSYCHANALYTIQUE DE PARIS. Por outro lado, a literatura tambem havia acolhido com entusiasmo a nova concepção da sexualidade humana que provinha da psicanálise.

Entre 1927 e 1931 realizou os estudos necesarios para a especialização em psiquiatria. Desta época resaltam seus contatos com Henri Ey, Pierre Mâle e outras figuras daquele tempo. Tres mestres que deixaram sua influência nelel foram Georges Dumas, Henri Claude e G.Clérembault.

     Em junho de 1932 começa sua análise com Rudolph Loewenstein, quem por aqueles tempos era considerado como o melhor analista didático da SPP. Este único passo de Lacan por uma experiencia psicanalítica na qual ocupara o lugar de analizando, finalizaria abrupta e violentamente seis anos mais tarde. Na realidade, se presume que as razões que levaram Lacan a analizar-se com Loewenstein foram mais políticas que científicas, transformando-se assim a cura em algo mais parecido a um requisito que sabía indispensavel se quisesse ocupar posições de maior nivel dentro da SPP. Em alguma ocasião se ocupou de manifestar que, em verdade, Loewenstein não era o suficientemente inteligente para analiza-lo. Por seu lado, tampouco Loewenstein se privou de comentar entre seus achegados que Lacan era inanalizavel.

Logo após algumas relações amorosas vacilantes, em 1934 contrai matrimonio com Marie Louise Blondin, que era irmã de um antigo companheiro de estudos de Lacan, que este admirava profundamente. Da união nasceram tres filhos: Caroline (1936), Thibaut (1938) e Sibylle (1940). A paternidad não afetaria, no entanto, o tempo que dedicava a seus trabalhos e a divulgação dos mesmos.

Em 1941 se divorcia de M.L.Blondin e se une com Sylvia Bataille, ex-esposa de Georges, com quem tem uma filha: Judith Sophie(1941). Curiosamente, o criador do nome do pai, não pôde dar seu nome a esta nova filha, por que a lei francesa lhe proibia por não estar oficialmente divorciado até então de sua primeira esposa, e a criança foi inscrita como Judith Sophie Bataille

Em 1934 passa a ser membro aderente da SPP. Assiste ao congresso da ASOCIAÇÃO INTERNACIONAL DE PSICANALISE em Marienbad, onde apresenta seu trabalho sobre o estágio do espelho (1936). Lacan consegue, finalmente em 1938, ser nomeado titular da SPP, depois de exercer pressão para que não se tivera em conta algumas opiniões desfavoráveis a sua candidatura, entre elas as de Loewenstein.

     Sob o signo de um retorno a Freud, replantou conceitos psicanalíticos através do estruturalismo e a linguística, o que marca a influência de Saussure e da antropologia de Lévi-Strauss em sua obra. Assim mesmo, foram muito importantes para as conceitualizações teóricas que tenha desenvolvido as leituras de Husserl, Nietzche, Hegel e Heidegger. Poderia dizer-se que Lacan leu Freud desde uma exterioridade: psiquiatria, surrealismo e filosofía.

A partir do interesse comum pela obra de Hegel, começa uma amizade com Georges Bataille, de quem toma seu interesse por Sade, suas reflexões sobre o impossível e sobre a heterología, de onde toma o conceito de “real”, concebido primeiro como “resto” e depois como “imposível”.

A concepção lacaniana de inconsciente como estrutura também esta plena da influencia da obra de Lévi-Strauss. Por outro lado, os laços que Lacan estabelece com Koyré, Kojève, Corbin, Heidegger, Hyppolite, Ricoeur, Althusser e Derrida, mostran que para ele todo questionamento do freudismo devia passar por uma interrogação de tipo filosófico.

A notoriedade que lhe proporcionou a frequentação do meio intelectual parisiense havía aportado a Lacan uma pequena clientela privada, porém até 1947 não recibeu demasiados pedidos de análises didáticas. Foi o médico pessoal de Picasso.

Em 1953 apresenta sua demissão a SPP. As novas formulações que havia introduzido, em particular as relativas a prática da cura, fizeram que os setores mais ortodoxos da SPP o acusaram de semear a discordia na instituição e a rebelião nos que eram seus alunos.

Se une com Lagache para fundar a Sociedade Francesa de Psicanálise (SFP) e durante os dez anos que durou a SFP, encontrará em Francoise Dolto, que também se incorpora a nova instituição, uma interlocutora que valorava em forma notável. 1953 também assinala o começo de seus seminarios públicos.

Em 1963 foi expulso da ASOCIAÇÃO INTERNACIONAL DE PSICANALISE, e um ano máis tarde fundou a Escola Freudiana de París, junto a Dolto, Leclaire, Octave e Maud Mannoni. Seu objetivo, segundo suas proprias palavras, era a restauração da verdade no campo aberto por Freud, denunciando as desviações que obstaculizavan seu progresso. Para isto, dizia, estavam habilitados de participar unicamente aqueles que se havían formado con ele. O novo grupo esteve composto inicialmente por 134 membros, a maioría dos quais havía pertencido a SFP.

Paradoxalmente, a razão de sua posterior dissolução talvez haja estado em seu éxito: a partir de 1966 começou um processo de massificação incontrolavel, que produziu um grande incremento no número de membros, que para 1979 eram ja 609. Isto não era precisamente o desejavel para uma instituição que se havía proposto ser uma república das elites. Foi neste período que Lacan propôs o passe como nova forma de aceder ao título de didático, sustentando aquilo de que o psicoanalista não se autoriza senão em sí mesmo.

Havendo-se ja iniciado sua declinação física e intelectual, em particular logo depois de um acidente automobilístico que sofre em 1978, dissolve em 1980 a escola e funda a Causa Freudiana, que logo sería a Escola da Causa Freudiana. Nestas últimas dissoluções e fundações ja não atua sozinho, senão que seu genro J.A.Miller é quem toma a frente com seu consentimento.

Nesses tempos todavia dava alguns seminarios, porém sem a desenvoltura que tanto o havia caracterizado e que tão profunda fascinação provocava em seu auditorio. Padecía uma patologia vascular muito lenta em sua evolução, porém de origem claramente cerebral. Além disso, desde 1980 se lhe havia declarado um câncer de cólon.

Faleceu em 9 de setembro de 1981 em París.

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