Jacques Derrida

November 25, 2014
Jacques Derrida

Da infância pobre na Argélia até consagração e polêmicas, vida do filósofo é narrada em livro de Benoît Peeters, que vem ao Brasil para palestras em São Paulo, Rio de Janeiro e Juiz de Fora

 


Na noite de 14 de agosto de 2004, exatamente um ano e três meses após receber o diagnóstico de um câncer no pâncreas, o filósofo franco-argelino Jacques Derrida embarcava em um voo com destino ao Rio de Janeiro. Dois dias depois, para um auditório lotado de brasileiros e estrangeiros, Derrida proferiu a sua última conferência: “O perdão, a verdade, a reconciliação: qual gênero?”. O ponto de partida era a África do Sul pós-apartheid e o estabelecimento da Comissão da Verdade e Reconciliação. A participação no colóquio “Derrida: pensar a desconstrução” foi sua última palestra. Ele morreria apenas dois meses depois.

Debilitado, um mês antes da viagem Derrida confidenciou ao organizador do evento e seu amigo pessoal, Evando Nascimento, que talvez não conseguisse comparecer. Nascimento, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e seu ex-aluno, o deixou à vontade, mas o filósofo decidiu comparecer. É o que conta o escritor e crítico Benoît Peeters na biografia “Derrida” (Civilização Brasileira), publicada na França em 2010 e que será lançada em uma série de eventos em São Paulo (dia 13), no Rio de Janeiro e em Juiz de Fora (dia 16)) a partir de segunda-feira. No Rio, Peeters fará uma palestra na midiateca da Maison de France, no Centro, quarta-feira, dia 15, às 18h.

Para o biógrafo, a viagem foi a forma encontrada pelo maior pensador do desconstrucionismo de se sentir vivo.

— Ele estava muito doente, mas acho que Derrida se sentiria morto quando deixasse de ser ativo. Mesmo muito doente, com um câncer em fase terminal e sofrendo bastante, o fato de vir ao Brasil, participar de um colóquio inteiro, proferir uma longa conferência, responder aos debatedores, tudo isso foi a forma dele de se sentir vivo e esquecer da doença num primeiro momento. Outra coisa foi o respeito pela palavra dada — conta Peeters, em entrevista por telefone.

Arquivador obsessivo

Na biografia, Peeters descreve com riqueza de detalhes todas as etapas da vida de Derrida, desde a infância humilde na família judaica na Argélia, a chegada à França, o bloqueio sofrido na academia francesa, a consagração mundial a partir dos Estados Unidos e sua não menos intensa vida após a descoberta do câncer. Para reconstruir todos esses passos, Peeters entrevistou mais de cem pessoas que conviveram com o filósofo, reuniu todas as suas entrevistas e textos publicados na imprensa e realizou uma minuciosa pesquisa nos arquivos pessoais do pensador, divididos entre a Universidade da Califórnia, em Irvine, e o Instituto Memória das Edições Contemporâneas (IMEC), na França. Além de fazer uma busca obstinada pelas cartas trocadas pelo filósofo com amigos, jornalistas e editores espalhadas pelo mundo.

O trabalho foi recompensador pela própria relação obsessiva que Derrida mantinha com os seus arquivos, segundo o biógrafo, pois guardava até os bilhetes deixados em sua sala na École Normale Supérieure (ENS), em Paris, onde lecionou entre 1964 e 1984. Com o advento dos computadores, ele começou a produzir diversas cópias dos seus arquivos e tinha um medo terrível de perdê-los. Para Peeters, ao guardar esse rico material e mantê-lo aberto ao público, ele antecipou sua futura biografia.

— A biografia era irrepresentável para ele, pois a biografia coloca a morte. É a morte que confere sentido a uma vida e permite que esta seja considerada como um todo. Imaginar a sua biografia seria imaginar o seu próprio fim, imaginar o momento em que os outros entrarão naquilo que é mais íntimo, eventualmente com respeito, mas também com indiscrição e brutalidade.

A biografia permite compreender como a infância e a juventude no norte da África influenciaram toda a sua produção intelectual, mais notadamente a partir do final da década de 1980. O antissemitismo na colônia foi muito mais forte do que na metrópole, e Derrida e os irmãos ficaram anos proibidos de frequentar a escola.

Para Peeters, o que o marca é a falta de uma sensação de pertencimento, principalmente quando ele, aos 19 anos, é enviado a Paris para cursar o preparatório do liceu Louis-le-Grand, conhecido pelo grande índice de aprovação na ENS. No liceu, Derrida dividiu bancos e corredores com Michel Serres, Michel Deguy e Pierre Bourdieu, então jovens aspirantes como ele.

Os retornos durante as férias à Argélia foram duros. Sem se sentir francês, ele também não era mais argelino. Derrida era sempre um estrangeiro. Esse sentimento se reflete em seus trabalhos e é potencializado pelas dificuldades institucionais que enfrentou. De acordo com o biógrafo, seu pensamento radical e seu estilo de fazer filosofia, que beirava a literatura, não foram bem recebidos na academia francesa. A difusão do seu pensamento explode a partir de suas viagens a universidades americanas, onde teve calorosa recepção nos departamentos de Literatura, e depois de Direito e Belas-Artes. Apesar de preterido na sucessão de Paul Ricoeur na Universidade de Paris X-Nanterre e ter a entrada recusada no Collège de France, Derrida alcançou o posto de diretor da École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS).

A intensa vida intelectual do filósofo é contada no livro, incluindo as várias polêmicas com Michel Foucault, Claude Lévi-Strauss, Jürgen Habermas, entre outros. Peeters recusa, entretanto, o termo “biografia intelectual”, algo considerado impossível pelo próprio Derrida, notoriamente fascinado pela vida privada dos grandes filósofos. O autor explica que quis contar “a história de um homem inserida no seu contexto e de suas ideias em movimento”, sem mimetizar o peculiar estilo derridiano.

Derrida sempre manteve uma relação tensa com a morte, que sentia como “um espanto incansável diante daquilo que nunca compreenderei ou aceitarei”. No entanto, escreveu homenagens póstumas a amigos como Roland Barthes, Gilles Deleuze, entre vários outros. Os textos foram editados no livro “The work of mourning” (“A obra do luto”, em uma tradução livre), organizado por Pascale-Anne Brault e Michael Naas e lançado nos Estados Unidos em setembro de 2003, quatro meses após a descoberta do câncer. O filósofo cedeu farto material inédito, inclusive o que leu na cremação de Maurice Blanchot, em fevereiro daquele ano. Para amigos, Derrida apontava o dia da cerimônia como a origem simbólica da doença que o mataria.

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