Histeria e Suas Manifestações no Masculino

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March 9, 2015
Histeria e Suas Manifestações no Masculino

histeria_masculina-1Pela sua designação de origem grega, histeria que traduz útero, era considerada uma manifestação da frágil e carente mulher. Era impossível falar da histeria masculina, sem um útero, e ainda hoje não se faz sem reservas, tanto pelo homem afetado como pelos médicos que diagnosticam. Este artigo discorre justamente sobre homens que tiveram suas vidas significativamente comprometidas pelos diagnósticos equivocados, e também incita uma reflexão sobre o translado da predominância da histeria feminina para a masculina, principalmente pelo fator agravante de aspectos socioculturais contemporâneos.

Palavras-chave: Histeria, masculino, psicanálise

Nos estudos psicanalíticos, desde minha formação em psicologia, sempre me intrigou a ênfase dada às mulheres na histeria, que apesar de ter predominantemente suas manifestações no gênero feminino, em diversos pacientes masculinos de Freud podemos encontrar seus traços e manifestações.

No caso Hans, por exemplo; uma histeria de angustia recebe de Freud a denominação de zoofobia histérica infantil e também a citada loucura histérica analisada por Freud em 1923, no trabalho “Uma neurose demoníaca no século XVII”.

Na literatura contemporânea, poucas são as referencias sobre histeria masculina, entretanto seus sinais são observados frequentemente.

Para abordar as questões que me envolvem, gostaria de lembrar que para Charcot, um dos pioneiros nas investigações sobre histeria, este distúrbio era atribuído à hereditariedade. Freud sendo seu aluno e discípulo não se contentou com esta tese, dedicando-se incansavelmente na questão até chegar aos processos de conflitos inconscientes como deflagradores de sintomas.

Suas pacientes, através da evocação de ideias, conseguiam reviver emoções, fantasias e situações que possibilitavam a emergência de seus conflitos para o campo da consciência e na medida em que se tornavam conscientes de tais conflitos, estes eram suprimidos.

No final do século 19 a histeria ainda era considerada uma manifestação da frágil e carente mulher, a considerar pela sua designação de origem grega histeria, que traduz útero, acreditava-se que o sangue contaminado do útero chegando ao cérebro era a causa das convulsões, e não apenas estas ganhavam expressão nos quadros histéricos, manifestações diversas como sabemos entre paralisias, crises respiratórias, taquicardia e uma constelação de outros sintomas que poderiam revelar, a grosso modo, a angustia das repressões, castrações, resistências, enfim.

Falar da histeria masculina na ausência de um útero, era impossível, ainda hoje o é, não se faz sem resistências e reservas, tanto dos homens afetados quanto dos médicos que diagnosticam segundo Alonso e Fuks (2004).

No decorrer do século 20 a histeria deixa de ter a atenção médica em função das sucessivas reformas nosológicas na saúde mental, recebendo outras nomenclaturas nos consultórios médicos de diversas especialidades, principalmente na psiquiatria e neurologia. As convulsões ganharam status de distúrbios psíquicos como transtorno de pânico ou de ansiedade, podendo também ser confundidas com epilepsia de controle difícil. Entretanto esta, em geral, tem origem orgânica bem definida e a histeria não.

Portanto ainda que a histeria tenha suas facetas, ainda se revela em alto índice nas clinicas de neurologia, estudos por oito centros médicos em diversos estados do Brasil, que contam com o videoeletroencefalografia (V-EEG) instrumento que possibilita a diferenciação do que é epilepsia e o que não é, apontam por ano cem casos de pacientes que apresentam as crises conhecidas como “Não-epiléticas psicogênicas”, ou seja, além da histeria outros distúrbios psiquiátricos podem apresentar estas crises, como anorexia, bulimia, pânico, bipolaridade e transtorno de ansiedade.

Estudos recentes do Hospital das clinicas em São Paulo, indicam prevalência na histeria. Encaminhados pela neurologia trinta e cinco pacientes para o tratamento psicoterápico, apenas 26 concluíram o processo e vinte e cinco receberam diagnóstico de histeria, entre eles as mulheres representam 23 casos e homens dois, sendo que um deles apresentava tanto crises epiléticas quanto emocionais.

Freud já fazia referencias a histeria como manifestação em homens e mulheres, e ao ser questionado porque só apresentava mulheres histéricas, dizia que os histéricos poderiam ser encontrados como maltrapilhos nas ruas, acometidos pelo mal cronificado do alcoolismo. Cujas manifestações outras, em geral estão maquiadas, disfarçadas pelos traumas honrosos, pela coragem, heroicidade e não revelada claramente como tal, mas através de “síndromes honrosas” como invalidez, por exemplo.

Hoje, porém, pouco se fala do mal que multifacetado acomete gravemente a vida desses homens, por vezes impossibilitando-os de trabalhar e garantir o sustento próprio e ou de suas famílias, entre outras dificuldades e prejuízos em suas vidas de modo geral, a partir inclusive de diagnósticos equivocados. Neste campo a neurologia tem prestado grandes contribuições para o diagnóstico diferencial nas investigações com a videoeletroencefalografia (V-EEG).

Em referencias citadas por Fioravante (2005) diz o psiquiatra e psicanalista Fábio Hermann, pesquisador e membro da USP e do HC de São Paulo, que visualiza neste novo cenário, grande oportunidade para investigações em alto nível, “num campo estagnado por repetição teoria”.Aposta na equipe multi-profissional, com neurologistas, psicólogos (Psicanalistas) e psiquiatras juntos para descobrirem a melhor forma de lidar com estas expressões do inconsciente.

Mas a questão que me instiga no tema é pensar no cenário sociocultural em que estamos vivendo, a ditadura pela igualdade dos sexos implicando diretamente o lugar, os papéis, funções já estabelecidas e arraigadas, na psique feminina e masculina, há séculos.

Em minhas reflexões penso no fenômeno cultural como significativo deflagrador da histeria masculina, quantos lares apresentam estes papéis e funções trocadas, outros casos em que o homem já não se mantém como o grande provedor, e ao dividir esta tarefa com a mulher é intimado a contribuir com atividades antes atribuídas exclusivamente ao sexo feminino.

Penso que de certa forma isso agride profundamente o narcisismo masculino, ao se perceberem destituídos de um lugar que lhe garantia uma condição de poder na sociedade e na família e jogados a outro que por séculos fora considerado por eles de pouquíssima valia.

Segundo Silvia Alonso e Fuks autores de “Histeria”, no homem está menos em jogo o corpo e ou imagem do que na mulher, visto que honra ou desonra está mais ligada ao narcisismo, atualmente com as mudanças dos representantes do masculino os sintomas se diversificaram. Suas manifestações aparecem através de taquicardia, distúrbios gastrointestinais, ideias hipocondríacas, crises ansiosas com alterações cardíacas entre outras, diferentemente da mulher que com mais frequência apresentam paralisias, anestesia, encefaléias.

Estudos apontam que a histeria masculina se manifesta também em crises de ira, agressividade, violência contra mulher, em alguns transtornos que envolvem a compulsão como jogo patológico, endividamento exacerbado, na bipolaridade, ou seja, vários estudos apontam que os histéricos se encontram nas delegacias e as histéricas nos consultórios médicos.

Atualmente os homens encontram mais espaço para expressar seus sofrimentos neuróticos e procuram ajuda com mais frequência. Mas pouco ainda se fala sobre a histeria entre eles, e minhas questões aumentam a esse respeito.

Freud nos diz que a sexualidade é mais ampla que a atividade sexual em si, e compreende todo processo cíclico de prazer e desprazer que envolve desejo e experiência humana. Na psicanálise entendemos a histeria como funcionamento psíquico caracterizado pela busca incansável e inconsciente do sujeito em ser o objeto de desejo do outro.

Na literatura encontramos também a metáfora de Don Juan cuja manifestação histérica é não estabelecer vinculo amoroso com uma mulher, estas representam um numero numa lista, como o desejo insaciável de “realizar” um desejo. O desejo, a conquista é o objeto, por isso mais um numero, na aquisição dos desejos, estes perdem atrativos, levando o histérico a uma nova busca.

Logo me pergunto se o objeto do desejo pode estar localizado no fenômeno transitóriode Winnicott, ou na falta de um olhar vivo da mãe, ou ainda na falta de representação fálica do pênis, cujo homem não se sente capaz de ser objeto de desejo ou realizar, satisfazer as necessidades da mulher. Dito de outra forma, não se estabeleceu como falo da mãe.

Com efeito, observam-se algumas expressões histéricas no masculino, como na sedução e não realização efetiva de uma relação amorosa sexual e até mesmo nas relações sociais, assim como na histeria feminina. Já observei em alguns relatos na clinica, pacientes masculinos afirmando uma necessidade de ter o olhar das mulheres sobre ele, que a ideia de que o desejam o satisfaz. Parece-me também que existe uma angustia escamoteada, de não conseguir sustentar este desejo do outro se houver uma aproximação maior.

“Podemos compreender as constantes visitas dos histéricos aos hospitais como um contínuo apelo para que a mãe volte a cuidar deles e para que ela redescubra o corpo do bebe como algo agora desejável”. (Bollas, apud Fioravante, C.; 2005)

Vale lembrar as referencias psicanalíticas que não atribuem a etiologia da histeria apenas à mãe, mas também ao pai, pois ambos podem dar condições para o desenvolvimento em seus filhos de uma identidade que não lhes são próprias. A histeria também é fomentada quando, deixando de realizar a castração simbólica, via omissão nas funções paternas não se define limites que auxiliam no estabelecimento da identidade e dos papeis sociais e sexuais dos filhos.

Voltamos então ao contexto sociocultural, cujos papeis e funções sociais e sexuais estão em intensa transformação, de modo que o lugar antes estabelecido para homens e mulheres já não são definidos com o rigor precedente.

Podemos indagar que para o homem o avanço nas conquistas do sexo feminino foi a destituição de um lugar, que até então, estava de algum modo confortável ou adaptado e justificado, sendo lançado a uma zona desconhecida que lhe impõe outras funções deflagradoras de conflitos intensos e inconscientes, principalmente às gerações transitórias que sofrem uma forçosa adaptação nas ultimas décadas.

Com base nesta prévia de estudo e reflexão, questiono ainda se a histeria no masculino poderia ter suas origens nas fases primitivas do indivíduo, numa possível falha da “narcisização” deste sujeito ou a não ocorrência dela, deflagrando os estados regredidos, motivados pelo contexto social e expressos nos sintomas…

Poderíamos conjecturar a possibilidade da predominância da histeria transladar do feminino para o masculino?

Estas reflexões me apontam o vasto campo de possibilidades e necessidade de estudos e pesquisas mais aprofundados no tema, mas o que me parece muito claro é que o tempo nos impele sempre à descoberta, ao desconhecido, não há fim, mas transformação continua, assegurando ao ser humano de modo geral, as possibilidades inimagináveis do devir, do poder estratégico de continuidade que caracteriza a essência humana.

ALONSO,S. L.; FUKS, M. P.; “Histeria” – Clinica Psicanalítica; São Paulo: Casa do Psicólogo, 1ª Ed., 2004. – (Coleção Clinica Psicanalítica / dirigida por Flávio Carvalho Ferraz).

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FIORAVANTE, C.; “As Máscaras da Histeria”. Distúrbio psíquico que ajudou a gênese da psicanálise é confundido no presente com epilepsia . Edição impressa 117; 2005. Disponível no site: http://revistapesquisa.fapesp.br/?art=2785&bd=1&pg=1&lg=Pesquisa Online Fapesp; Acesso em 25 de stembro de 2010.

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