Drogas, solidão e confusões

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January 5, 2017

A dependência química é uma das mais graves formas de adoecimento mental e seus efeitos, geralmente, se alastram para muito além do indivíduo que consome a droga. Trata-se de uma questão de saúde pública, que repercute nas diferentes esferas sociais. Recentemente, o jornalista britânico Johann Hari publicou um segundo trabalho acerca do tema, sugerindo novas hipóteses sobre o vício que, se corretas, transformariam toda a estratégia dos profissionais envolvidos no combate às drogas. O artigo abaixo, da psiquiatra e psicanalista Adriana Rotelli Resende Rapeli, faz uma breve análise sobre o estudo e as suposições de Hari. Para quem se interessa pelo tema, vale a leitura!

Drogas, solidão e confusões.  

Por Adriana Rotelli Resende Rapeli*

Um amigo pediu minha opinião sobre o livro “Chasing the Scream”, do jornalista britânico Johann Hari, tal como vinculado pelas redes sociais há algumas semanas.

Pelo que li na internet, o jornalista entende que há razões sociais e políticas para que as drogas tenham sido proibidas nos EUA, há aproximadamente 100 anos. Os argumentos do artigo se baseiam em entrevistas que ele fez ao redor do mundo com pessoas que foram ou eram dependentes químicos e em resultados de experiências com ratos de laboratório, que mostravam que estes consumiam menos a água que continha substâncias químicas se houvesse mais ratos e opções de atividades em suas gaiolas. Completa citando a diminuição do consumo de heroína quando os soldados que lutaram no Vietnã voltavam para casa. Conclui que a dependência química seria causada pela solidão, pelo estresse e pela falta de opções sociais. E que a guerra às drogas, portanto, estaria usando estratégias equivocadas.

Eu me dispus a refletir sobre o assunto, sabendo que corro o risco de, do mesmo modo que a informação descontextualizada da internet e com objetivos de propaganda, causar efeitos reducionistas e simplificadores.

Na geração atual ou em antecedentes, raro é que alguma família em nosso meio não sofra com problemas mentais, entre eles a dependência química. O discurso de culpa está presente em muitas das famílias de dependentes químicos que atendi. Culpa que sobrepõe à rejeição, mágoas e ressentimentos que o dependente químico provocou ao longo de décadas. As frustrações repetidas tanto em relações familiares quanto na sociedade provocam o pior de nós mesmos, e as reações muitas vezes são de vingança, raiva e crueldade. Há um impasse: ou não conseguimos cuidar e daí somos mal cuidadores, ou a pessoa é má e merece o mau tratamento. Oscilamos entre a culpa e a raiva e desenvolvemos defesas emocionais diante de sofrimento, como a negação.

A situação não é simples. Não dá para equiparar humanos a ratos de laboratório. Embora essas experiências ampliem o entendimento dos mecanismos de ação de drogas, não dá para equiparar humanos a ratos, não somos só pavlovianos. Há que se considerar questões de personalidade e questões psiquiátricas que, juntas, desencadeiam, se somam ou pioram o quadro. Há fóbicos e deprimidos que desenvolvem dependência do álcool. Assim como indivíduos com transtornos de personalidade antissocial podem desenvolver múltiplas dependências. São tantas as variáveis que não se pode restringir a questões sociais mesmo que elas sejam sim importantes fatores que agravam tais condições. A solidão pode ser causa, mas também consequência da dependência química.

Do ponto de vista mais psicodinâmico, mesmo na dependência do cigarro vemos uma condição emocional de regressão, baixa tolerância a frustração, dependência e passividade (ainda que travestidas de hiperatividade). Débil vitalidade, histórias pessoais com retalhos de vivências de perda parcamente elaboradas e um escasso sentido de individualidade estão entre as configurações emocionais que comumente encontramos nos dependentes químicos.

Os casos mais benignos respondem positivamente – como na experiência do ratinho da gaiola –, quando expostos a uma maior diversidade de opções e atividades. Ou como os soldados que voltam da guerra e saem do medo e privações para uma estrutura social mais segura e confiável.

Mas a maioria das pessoas continua em sua guerra implacável, em que não há vencedores. E se restringem a comportamentos de adição de drogas que se tornam irracionais e limitadores, como o rato da gaiola vazia. Seu mundo assim se torna, vazio, nada existe, mesmo que a família, amigos e profissionais de saúde ainda estejam por perto.

Somos seres despreparados para a vida emocional, quando esta requer recursos ainda não desenvolvidos. Usamos drogas. E somos também seres despreparados para cuidar dos que estão sofrendo e adoecendo. Teremos que continuar buscando o grito (chasing the scream), ouvi-lo entendê-lo, traduzi-lo e talvez continuar colhendo mais perguntas do que respostas.

*Adriana Rotelli Resende Rapeli é psiquiatra, psicanalista pela SBPSP e SBPRJ.