Depressão e Subjetividade Contemporânea

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March 9, 2015
Depressão e Subjetividade Contemporânea

mulher-deprimida-depressao-tristeza-tormento-1295633368805_300x230O presente trabalho trata de estabelecer algumas relações entre as exigências da sociedade contemporânea e a posição que o depressivo ocupa na estrutura social. Primeiramente, entenderemos como a psiquiatria trata tal sujeito, para depois verificar como a via de tratamento adotada por ela pôde se adequar às demandas da sociedade atual. Após isso, nos deteremos em entender como o depressivo se põe à frente das exigências sociais e dos ideais que lhe aparecem como objeto de satisfação.

Enquanto a psiquiatria está atrelada à farmacologia e possui como paradigma de intervenção o uso de medicamentos, na psicanálise é o uso de um trabalho terapêutico baseado na fala do sujeito que se configura (Daniel e Souza, 2006). A psiquiatria, concebida como o saber-poder médico que visa à saúde do sujeito, concebe o sofrimento, justamente pela ética que visa, como um desvio, como algo fora do padrão de normalidade exigido pelo homem-saudável, como aquilo que deve ser tratado, como doença (Daniel e Souza, 2006). É interessante perceber que aqui há uma espécie de dualidade entre o homem, a princípio saudável, e a “coisa” que causa sofrimento, que o desequilibra, que altera o nível dos neurotransmissores em seu cérebro independentemente do sujeito, abrindo, com isso, o espaço para a possibilidade de tratamento pela via farmacológica.

Essa visão médica e biológica do sofrimento humano é muito criticada por não levar em conta os fatores sociais que agem tanto como produtores de subjetividade, como produtores de sofrimento (e aqui a psicanálise nos ensina que não há uma produção de subjetividade separada da produção do sofrimento, mas sim uma relação dialética entre os termos, concebendo a subjetividade como ela mesma um sintoma da apropriação da linguagem, e o sofrimento como a condição da emergência da subjetividade ela mesma; mas isso é uma outra questão, que não será abordada aqui). Desta forma, o lugar da subjetividade, da história de vida e dos fatores sociais acaba caindo no esquecimento.

Assim, uma terapêutica pela fala só seria possível incluindo-se como determinante da condição subjetiva o contexto sociocultural. E considerar a subjetividade como imersa no universo linguístico de uma determinada sociedade demanda ir além do discurso calcado na pura descrição dos sintomas (Daniel e Souza, 2006). Dentro de nossa sociedade, portanto, temos de considerar o sofrimento como inseparável da ideologia moderna que opera dentro das relações sociais, como a busca incessante pela satisfação, a exaltação do valor da liberdade, a valorização do consumo, e da rapidez, etc.

O importante para se conceber a visão farmacológica da psiquiatria, no que diz respeito ao tratamento, é lembrar que também os médicos fazem parte de uma sociedade regulada pela ordem da produção, da fluidez, e da rapidez (Barbosa, 2008). Desta forma, uma intervenção pontual, baseada na receita de um psicofármaco cai como uma luva para uma sociedade que demanda atendimentos cada vez mais rápidos e eficazes em curto prazo. Como Tavares e Hashimoto (2010) indicam, os discursos predominantes sobre a depressão refletem sempre um ideal de saúde que obedece, por sua vez, a uma lógica consumista e mercadológica, típica da modernidade. Assim, não só os pacientes, invadidos pela mercantilização que infiltrou todas as experiências humanas, querem respostas rápidas para aplacar o sofrimento e voltar à rotina incessante de produção, como o discurso médico também está imerso nesta lógica mercantil e consumista (Homem, 2003). A conclusão lógica disso tudo é a reificação radical do sujeito, sua alienação na figura do ideal do saudável, da alta performance, da felicidade ilimitada, do poderio, da riqueza, da beleza, etc. (idem).

É interessante notar como determinadas formas sociais produzem certas patologias. Na época de Sigmund Freud, por exemplo, o caso mais comum era a histeria, definida como um transtorno puramente psíquico, sem causas orgânicas, cujos sujeitos acometidos, geralmente mulheres, expressavam dores, gritos, pseudoparalisias e outros signos, que não poderiam ser explicados por causa biológica, como afirma Barbosa (2008). A questão que a mesma autora propõe é a seguinte: a histeria cedeu lugar à depressão na sociedade contemporânea? Para ela, o sujeito histérico ainda existe, mas travestido na forma da depressão. Isso significa que a depressão é, hoje, a metáfora da sociedade contemporânea, é aquilo que perpassa seu discurso a todo instante, e que não pode ser concebida separadamente da estrutura que regula as relações sociais.

De acordo com Gonçalves (2000), os sintomas produzidos por uma determinada sociedade são configurados a partir de uma estrutura discursiva que se mantém por conta da satisfação de suas exigências. O autor aponta ainda que estas exigências condicionam o lugar e a posição do sujeito nesta sociedade, configurando um regime de gozo; ou seja, é a estrutura discursiva que detém os meios de gozar. É importante notar que não há um dualismo de discurso e realidade; o discurso não é uma abstração da realidade, mas esta aparece já a partir de uma determinada estrutura discursiva que oferece as significações que irão operar na realidade.

Diante da demanda da sociedade e das relações estabelecidas a partir de tais exigências, o diagnóstico se transformou no refúgio daqueles que sofrem. De acordo com Barbosa (2008), por exemplo, há um estreito vínculo entre o excesso de diagnósticos de depressão, a necessidade de medicamentos, e a identificação do sujeito ao diagnóstico concedido. É muito mais cômodo, por exemplo, me identificar com um diagnóstico de depressão, comum a tantos outros, do que me pôr à frente da complexidade social que está por trás daquilo que me causa sofrimento. Isso faz parte também do esquecimento do sujeito, do esquecimento da singularidade, trazendo à tona uma homogeneização de subjetividades: é mais conveniente silenciar aquilo que em mim causa sofrimento, aceitando uma identidade que não singulariza, mas que compartilho com todos os outros (Barbosa, 2008), como cúmplices de um sofrimento coletivo do qual não me responsabilizo. Como o diagnóstico da psiquiatria está atrelado a uma concepção biologizante do homem, o sujeito contemporâneo não possui mais o direito de se apropriar de outros modos discursivos que poderiam levá-lo a alterar seu estado de sofrimento (Bolguese, 2004): não há mais comprometimento subjetivo com aquilo que me incomoda (Tavares e Hashimoto, 2010).

É importante notar que tal concepção farmacológica, submersa no ideal da modernidade (cuja característica, entre outras, é a exacerbação da individualidade), rompe com a fronteira do público e privado (Tavares e Hashimoto, 2010). Não há mais espaço para pensar as desigualdades sociais quando o que se busca são soluções particulares para problemas individuais. Tanto a psiquiatria como teorias psicológicas que visam a adaptação do sujeito à sociedade excluem de seu campo de vista os determinantes sociais, e se preocupam exclusivamente com a cura dos sintomas. O que não percebem, entretanto, é que tais sintomas fazem parte, eles mesmos, da estrutura discursiva que constitui as relações sociais. Isso significa que os sintomas não são independentes do contexto social, mas produzidos pelas relações que operam dentro da sociedade. Pode-se observar que há, portanto, um paradoxo no que diz respeito à responsabilidade do sujeito por seus sintomas. Ao mesmo tempo em que a exacerbação da individualidade, típica de nossa era, transforma o sujeito no único responsável por seus males, a função de diagnóstico opera transformando-o em mais um, excluindo as particularidades de sua história de vida e do contexto social no qual está inserido, que operaram na formação do sintoma. Entretanto, tal paradoxo é apenas aparente, pois se o indivíduo se identifica com um diagnóstico de depressão, por exemplo, é para justamente se defender da ideia de “covardia subjetiva” que impera em nossos tempos. Ele não está preocupado com as condições sociais que determinaram seu estado subjetivo, e se as considera é para utilizá-las simplesmente como modo de defesa. Uma citação do trabalho de Tavares e Hashimoto (2010) parece ser muito ilustrativa:

“Diante da angústia do desamparo, facilmente as individualidades têm predileção por encontrar um nome que identifique sua fraqueza, e que, de preferência, seja uma dessas ‘patologias da moda’, pois assim é garantia certa de que sua dor e insuficiências podem ser tratadas pelo arsenal medicamentoso disponível. Somado ao alívio imediato e imaginário explícito no pensamento muito comum de que ‘ainda bem que se tem remédio para isso hoje em dia’, tem-se ainda a ‘vantagem’ de se poder evitar o trabalho psicoterápico, pois ‘pega mal’ hoje em dia precisar do outro” (p. 96).

Atualmente, vivemos numa sociedade em que a tristeza não tem mais espaço, em que o sentimento de perda e de dor não tem vez. Como afirma Kehl (2002, p. 81-82), “o sujeito moderno sofre de sua culpa neurótica, acrescida da culpa por estar sofrendo”. Nessa sociedade, não há mais espaço para o humano, demasiadamente humano; há uma fuga constante daquilo que evidencia a fragilidade da natureza humana (Barbosa, 2008). E isso ao mesmo tempo em que os ideais propostos pela sociedade, ou seja, os modos de gozar são cada vez mais inatingíveis.

Ao mesmo tempo em que o sujeito contemporâneo tem uma demanda de felicidade ilimitada, em que o imperativo “Carpe Diem” se presentifica incessantemente, a grande distância do sujeito em relação a esse ideal longínquo se revela como fracasso; ou como falência, se levarmos em conta a mercantilização de todas as relações sociais. Bauman (1997) destaca, por exemplo, como a liberdade individual é extremamente valorizada em nossos tempos. Entretanto, a contrapartida de tal predicado hoje é que os indivíduos não querem ser livres, mas buscam a figura de um ideal que diga-lhes os modos de gozar, os modos de se satisfazerem. Isso porque a liberdade envolve a responsabilidade, e nada é mais pavoroso em nossa era do que poder escolher por sua própria conta como dirigir sua vida. Arrisco-me a dizer que hoje há o imperativo de uma liberdade aparente: o que importa é parecer ao Outro estar tomando livres decisões, quando na verdade sempre há debaixo das mangas a possibilidade de culpá-lo pelas consequências imprevistas. Este é justamente o paradoxo da norma que diz: “seja você mesmo”; “ser eu mesmo” hoje em dia significa apenas parecer ao Outro estar tomando livres decisões.

Diante de todas as demandas e os imperativos de nossa era, Ehrenberg (1998 como citado em Mendlowicz, 2009) afirma que o indivíduo está cansado e incapaz de dar conta destas exigências. Para ele, a depressão é a resposta patológica ao imperativo de busca destes ideais. É por isso que podemos considerar a depressão como a metáfora de nossa sociedade. Entretanto, entendemos que o sujeito depressivo aparece não no reconhecimento do fracasso em atingir o ideal, mas na desistência de ir em sua busca e na ideia de que o único propósito de sua vida é alcançar este ideal. O depressivo é aquele que reconhece as facetas do jogo que a sociedade propõe, e assume sua desistência perante ele. É aquele que diz a todo instante: “me deixe em paz, eu não quero mais jogar isso, sou um fracasso!”. O que se lhe revela, entretanto, é que sua única possibilidade de existência é participar do jogo que lhe propõem, ou seja, se alienar no objeto que a sociedade lhe impõe como objeto de satisfação, e se subordinar ao discurso operante. Ao abandonar o pacto que fez com a estrutura discursiva em ação, o depressivo entende que não possui mais o direito de lutar para mudar suas regras, e o elemento narcísico de tal posição impossibilita-o de se subordinar ao discurso novamente, virando as costas para o mundo e voltando-se para si mesmo. Assim, o depressivo possui um elemento passivo em relação ao mundo, pois não concebe a possibilidade de ser-sujeito estranho ao discurso que o perpassa; ou seja, sua existência aparece para ele como tendo de necessariamente se submeter às exigências sádicas da sociedade contemporânea.

Podemos também entender a posição do sujeito depressivo em relação ao lugar que ele ocupa no Complexo de Édipo. Kehl (2009) nos ensina que tal posição decorre de uma escolha (no sentido de “escolha das neuroses” de Freud) que se dá no momento em que o Pai se apresenta como rival para a criança:

“A escolha precoce do futuro depressivo seria a de se retirar do campo da rivalidade fálica: em vez de disputar o falo com o pai (e perder para ele…), o depressivo teria preferido recuar, permanecendo sob o abrigo da proteção materna. Em consequência desse recuo (…), o depressivo defende-se mal da castração (…). (…) ao invés de enfrentar a rivalidade fálica, na tentativa de reverter os efeitos da perda que já ocorreu, os depressivos “escolhem” permanecer na condição de castrados. Isso não significa que tenham simbolizado a castração. (…) Se eles recuam, é porque não admitem o risco da derrota nem a possibilidade de um segundo lugar. Ao colocar-se ante a exigência de “tudo ou nada”, acabam por instalar-se do lado do nada. O depressivo não enfrenta o pai. Sua estratégia é oferecer-se como objeto inofensivo, ou indefeso, à proteção da mãe. O gozo dessa posição protegida custa ao sujeito o preço da impotência, do abatimento e da inapetência para os desafios que a vida virá lhe apresentar” (p. 15).

Diante do que chamamos de imperativo de gozo e das exigências cada vez mais sádicas da sociedade moderna, não é surpresa o fato de a depressão estar aumentando. “O mundo contemporâneo demonizou a depressão, o que só faz agravar o sofrimento dos depressivos com sentimentos de dívida ou de culpa em relação aos ideais em circulação” (Kehl, 2009, p. 16). Diante da posição passiva que o depressivo assume, e de sua escolha por não enfrentar a castração, podemos entender facilmente como o tratamento farmacológico atendeu às demandas destes sujeitos, uma vez que poderiam se adequar às exigências da sociedade sem ter de lidar com suas questões subjetivas.

Barbosa, S. R. da C. S. (2008). Transformações sócio-culturais contemporâneas e algumas implicações nos diagnósticos na área de saúde mental. Mudanças – Psicologia da Saúde, 16(1), 1-9.

Bauman, Z. (1997). Mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Bolguese, M. S. (2004). Depressão & doença nervosa moderna. São Paulo: Via Lettera/FAPESP.

Daniel, Cristiane; Souza, Mériti de. (2006). Modos de subjetivar e de configurar o sofrimento: depressão e modernidade. Psicologia em Revista, 12(20), 117-130. Belo Horizonte.

Gonçalves, L. H. P. (2000). O discurso do capitalista. Uma montagem em curto-circuito. São Paulo: Via Lettera.

Homem, M. L. (2003). Entre próteses e prozacs. O sujeito contemporâneo imerso na descartabilidade da sociedade de consumo. Estados Gerais da Psicanálise: Segundo Encontro Mundial. Rio de Janeiro.

Kehl, M. R. (2002). Sobre ética e psicanálise. São Paulo: Companhia das Letras.

Kehl, M. R. (2009). O tempo e o cão: a atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo.

Mendlowicz, E. (2009) A sociedade contemporânea e a depressão. Recuperado em 03 de Novembro de 2011 em: http://www.uva.br/trivium/edicao1/artigos-tematicos/4-a-sociedade-contemporanea-e-a-depressao.pdf.

Tavares, L. A. T. e Hashimoto F. (2010). A relativa legitimidade da depressão na atualidade: contribuições para uma ética psicanalítica do sujeito. Lat. Am. Journal of Fund. Psychopath. Online, 7(1), 88-100.

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