Considerações sobre o luto e a morte na perspectiva infantil

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March 10, 2015
Considerações sobre o luto e a morte na perspectiva infantil

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O homem costuma apresentar medo diante de situações desconhecidas, e a morte apesar de sabidamente inevitável é um evento que desperta angústia Em nossa sociedade não são poucas as tentativas de afasta-la e esquece-la.

O desconforto quando se trata de morte é bem visível, a busca pela “eterna juventude” e a crença em nossa imortalidade pessoal nos afasta ainda mais de qualquer referência a terminalidade ou qualquer coisa que a ela remeta.

Serão demonstradas aqui as mudanças constatadas no enfrentamento da morte desde a Idade Média, denominada por Philippe Áries (1977) de “morte domada” até o morrer contemporâneo: a “morte invertida”. O modo como a criança introjeta as situações a ela relacionadas bem como seu processo de enfrentamento e luto.

A morte tem tido diferentes representações a cada época, sendo assim, os medos e angústias referentes a ela vêm mudando também. Como afirma Kovács ao citar Philippe Áries:

A morte era esperada no leito, numa espécie de cerimônia pública organizada pelo próprio moribundo. Todos podiam entrar no quarto, parentes, amigos, vizinhos, e, inclusive, as crianças. Os rituais de morte eram cumpridos com manifestações de tristeza e dor, que eram aceitas pelos membros daquela comunidade. O maior temor era morrer repentinamente e sem as homenagens cabidas. (1977, p. 67)

Era um evento a ser compartilhado e havia uma familiaridade com a finitude, embora essa mesma ainda fosse acompanhada do medo dos mortos. A “morte domada”, como assim a denominou Ariés era aceita como parte indissociável da vida e eventualmente até desejada. Fazendo um apanhado do “morrer” atual pode-se verificar a inversão de valores que ocorreu desde então. Kovács (1992, p.47) cita Ariés:

O século XX traz a morte que se esconde, a morte vergonhosa, como fora o sexo na era vitoriana. A morte não pertence mais à pessoa, tira-se sua responsabilidade e depois sua consciência. A sociedade atual expulsou a morte para proteger a vida. Não há mais sinais de que uma morte ocorreu. O grande valor do século é o de dar a impressão que “nada mudou”, a morte não deve ser percebida. A morte boa atual é a que era mais temida na Antiguidade, a morte repentina, não percebida. A morte “boa” é aquela que não se sabe se o sujeito morreu ou não.

Dona Morte, a Turma da Mônica de Maurício de Sousa - divulgaçãoO “lugar de morrer” foi transferido para o hospital tirando-o do alcance dos olhos da sociedade, incluindo-se ai as crianças. Dentro dos hospitais o rastro da morte é silenciado de tal forma que tudo o que se quer após uma ocasião a ela ligada é esquecer e fingir que nada aconteceu.

A criança em processo de formação de significações não tem acesso a vivências que permitam uma devida elaboração de seus conceitos de morte, de perda e de dor já que situações referentes a isso são sempre evitadas e disfarçadas. Elas encontram, portanto o pacto de silêncio que a sociedade constitui em torno de assuntos considerados desagradáveis. Como a criança é o reflexo dessa sociedade, a menos que seja trabalhada também terá dificuldades para lidar com a finitude.

Com a “invenção da infância” (ARIÈS, 1977), surgiu uma tendência a separar o mundo dos adultos do mundo das crianças. A infância como a conhecemos tem sua gênese na tomada do poder pela burguesia simbolizada pela revolução francesa.

Os valores burgueses repassados em doutrina ideologicas implícitas pelas escolas, a diminuição do número de filhos e a nuclearização da família em torno dos mesmos, como conseqüência da urbanização, deu origem a infância como a conhecemos hoje: um templo isolado onde qualquer evidência da realidade considerada dura demais é logo afastada. Áries aponta que

Na Idade Média a educação das crianças era garantida pela aprendizagem junto aos adultos e a partir de sete anos, as crianças viviam com uma outra família que não a sua. Dessa época em diante ao contrário a educação passou a ser fornecida cada vez mais pela escola. A escola deixou de ser reservada aos clérigos para se tornar o instrumento normal da iniciação social. (1981, p. 84)

Apresentou-se nesse novo contexto a necessidade de isolar a juventude do “mundo sujo dos adultos” mantendo-os na inocência primitiva. A concentração da família em torno das crianças ficou em evidência bem como o sentimento de infância. Devido a essa proteção da qual se passou a fazer uso, as crianças tornam-se ainda mais suscetíveis ao sofrimento e medo diante da morte visto que são resguardadas de qualquer contato prévio com assuntos que a ela fazem referencias, que são “assunto de gente grande”.

Antes ela adquiria seu conhecimento para lidar com o mundo bem como seus valores morais pelo contato direto com os adultos, do cotidiano com a família e dos espaços coletivos da sociedade, tinha consciência do “morrer” e ao longo do seu desenvolvimento cognitivo elaborava esse conceitos com base em experiências concretas.

Para a sociedade moderna contemporânea, a morte está sendo transformada numa representação externa a nosso eu (e pouco importa aqui que esta seja uma representação banalizada ou não). Nas sociedades pré-modernas, as pessoas sofriam, sentiam e refletiam sobre a própria morte, na ocasião da morte dos outros; então todo mundo tinha intimidade com a morte, ninguém precisava de uma representação simbólica para saber de que se tratava. (LEIS, 1999)

Sendo assim, a partir do contato direto com a experiência alheia podia-se vir a elaborar a sua própria. Não era muito difícil, por exemplo, que crianças fossem levadas ao leito de morte ou fossem a enterros, situações que atualmente não são muito comuns. Hoje apesar de ter contato com ela em desenhos, filmes violentos ou noticiários de jornal não realiza essa realidade como próxima, ela se limita à fantasia televisiva.

As crianças constroem seu conceito de morte juntamente com o desenvolvimento cognitivo. Ao longo desse processo vão introjetam características que parecem ser inerentes à morte. São três dimensões indissociáveis: Irreversibilidade, não-funcionalidade e universalidade (TORRES, 1999).

A irreversibilidade segundo Torres (1999) diz respeito à compreensão de que o corpo físico não pode viver depois da morte, ou seja, uma vez que se morre não se pode voltar a viver. A não-funcionalidade corresponderia ao entendimento de que todas as funções definidoras da vida cessam com a morte. A universalidade refere-se à compreensão de que tudo o que é vivo morre.

Torres (1980) apud Nagy (1948), defende que a criança de até cinco anos não entende a irreversibilidade da morte e a tem como temporária. Não possui a noção de não-funcionalidade também atribuindo vida e consciência ao morto. Nessa fase o animismo infantil (que dá vida ao sol, aos brinquedos, etc…) acaba por impossibilitar a compreensão da morte de fato.

A Morte de Clotilde de VauxNo período que vai de três a cinco anos, segundo Vendruscolo (2005), quando frente à situações de morte já ocorrem questionamentos e devido a seu egocentrismo podem inclusive associar algum ato seu como causador da morte da qual teriam sido responsáveis de alguma forma. Nesse período a diferenciação entre vivos e mortos se dá basicamente pelo padrão de mobilidade. O que “se move” está vivo, o que “não se move” está morto.

Existe muita correlação entre o sono e morte nessa fase, tanto que alguns eufemismos utilizados para comunicar a morte de alguém para a criança como “vovô está dormindo”, por exemplo, podem confundi-la e eventualmente deixá-la com medo de dormir ou mesmo podem levá-la a querer “dormir” para encontrar quem morreu. Ainda não há a noção de “irreversibilidade”.

Sobre a criança de cinco a nove anos, Nagy (1948) citado por Torres (1999) afirma que ela já a entende como irreversível mas não como inevitável tendo uma forte tendência a personificá-la. Acima de nove anos há o entendimento da morte como cessação das atividades do corpo e como inevitável. Através da compreensão dessa universalidade começa a entender que ela mesma está suscetível.

A perda de algo seja real ou simbolicamente leva sempre a um processo de elaboração dessa perda, processo esse chamado luto, o qual pode dar-se sob diferentes formas e intensidade.

Ao se falar de morte, inevitavelmente, o tema nos conduz ao processo do luto, que se refere ao conjunto de reações diante de uma perda. Lembramos que existem mortes e processos de luto por ausências, separações e vivência de desamparo. O processo de luto se dará diferentemente. Quanto maior o investimento afetivo, tanto maior a energia necessária para o desligamento. (TEIXEIRA,2003)

Observa-se que o impacto mediante situações que envolvam perdas como morte ou doença dos pais e mesmo a criança que se encontra doente é maior, embora dependendo do estágio cognitivo e histórico de vida possa manifestar-se de diferentes formas.
Mesmo diante da reação específica que pode vir a ser apresentada notam-se certos padrões comuns de reação descritas por Torres (1999) quando cita Bowlby (1984) se refere à três fases principais do luto infantil.

A primeira fase do “protesto” quando a criança não acredita que a pessoa esteja morta e tenta reavê-la. Ela chora, se agita e a procura nos lugares onde normalmente estaria. Há a fase do desespero e desorganização da personalidade, quando ela começa a aceitar a perda. Embora não tenha sua angustia diminuída a esperança de recuperar o que perdeu se dispersa. De agressiva pode vir a ficar apática e retraída. Na terceira fase, fase da esperança, ela começa a buscar novas relações reorganizando sua vida sem a presença da pessoa morta.

Mentir para a criança ou ocultar-lhe fatos importantes podem, portanto, atrapalhar o seu processo de luto e re-elaboração da afetividade que outrora investia naquela pessoa. Nos casos da criança doente o luto é pelo “corpo” bem como seu cotidiano até então. Sem saber com a clareza adequada ao seu estágio de desenvolvimento o que está acontecendo, o processo de desligamento pelo qual todos nós temos que passar ao perder algo importante fica prejudicado bem como nossa qualidade de vida.

Morrer, envelhecer, ficar doente não são metas de vida, mas tudo o que é vivo está sujeito a perecer. Esse aspecto indissociável de nossa existência é negligenciado e contato com a morte se dá de forma velada e distanciada tanto quanto possível, colocando essa “fatalidade” como uma realidade muito distante e nos dando uma ilusão de imortalidade.

Toda criança absorve os valores que sua cultura pelo contato com as pessoas que a cercam, porém, em relação aos temas que são tabus em nossa sociedade, como a morte e o sexo, por exemplo, ela não encontra esclarecimento suficientes para suas dúvidas. Ela passa por perdas simbólicas, sente frustrações, mas essa perda permanente da qual até os adultos, suas figuras de referência demonstram incômodo ainda se mostra uma incógnita que mais tarde irá lhe trazer a mesma aversão.

É importante conversar abertamente e de forma adequada a seu nível cognitivo não apenas em casos onde ela realmente perde alguém, a consciência sobre a sua própria finitude e a naturalidade diante da morte, dada a sua inevitabilidade devem fazer parte de sua formação

ARIÉS, P. História social da criança e da família, 2ª edição. Rio de Janeiro: LTC (Livros Técnicos e Científicos Editora S.A.); 1981

KOVÁCKS, MJ. Morte e desenvolvimento humano. São Paulo: Casa do Psicólogo; 1992.

TORRES, WC. A criança diante da morte: desafios. São Paulo: Casa do Psicólogo;1999.

LEIS, HR. A sociedade dos vivos. Trabalho apresentado na Mesa Redonda “Temas e Polêmicas da Sociologia Contemporânea”, IX Congresso Brasileiro de Sociologia, SBS. Porto Alegre; 1999.

VENDRUSCOLO, J. Visão da criança sobre a morte. Medicina (Ribeirão Preto) 2005; 38 (1): 26-33.

TEIXEIRA, C. M. F. S. – A criança diante da morte. Revista da UFG, Vol. 5, No. 2, dez 2003 on line.

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