Carnaval e Rolezinho… que país é esse?

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November 25, 2014
Carnaval e Rolezinho… que país é esse?

roleEstamos a poucos dias de uma das festas mais populares do nosso país. O Carnaval é um evento nacional. Multidões se espremendo, pulando, dançando… se divertindo. Liberando o Superego numa boa, afinal “Carnaval é hoje só “ e para ser “feliz e se dar bem” tudo pode!

Tanto brilho, tanta alegria, tanta liberdade… Quanta gente espremida no mesmo espaço.

Gente espremida, cantando, pulando, se divertindo? Carnaval ou Rolezinho?

Hoje, aproveitando os festejos carnavalescos quero falar um pouquinho dessa situação que assombrou os grandes shoppings paulistas recentemente. Em dezembro de 2013 jovens da periferia de São Paulo invadiram o Shopping Metrô Itaquera e o Shopping Guarulhos, causando medo e uma grande confusão. Lojistas se apavoraram, seguranças se atrapalharam e a repressão comeu solta! Não deu outra, o fenômeno se espalhou com a ajuda da internet e virou um pandemônio que fez até a presidente do país entrar em ação.

Tempos modernos!

Os rolezinhos são o resultado de uma “justiça social injusta”, que faz com que os jovens, tão incentivados ao consumo, queiram também um lugar ao sol!

Certo, os convites que bombaram no facebook foram um convite ao pânico das autoridades e dos preconceituosos do país. Após o susto do primeiro rolezinho,foi possível ver páginas e mais páginas do “face” com dizeres rebeldes que convidavam outros jovens a “subir a escada rolante que desce”, “apertar todos os botões do elevador”, “entrar no cinema pela porta de saída”, fazer “guerra de comida”!

Ir ao shopping e “meter bronca” era o passeio ideal e traduzia a insatisfação dos adolescentes da periferia paulista com a falta de uma política de cultura e lazer de qualidade nos bairros focada nesta faixa etária.

Como sempre São Paulo foi a “locomotiva da história”, mas muito provavelmente não foi, nem é a única unidade federativa a ter este tipo de problema. Se puxarmos mais pela memória, lembraremos de episódios como os arrastões nas praias carioca em anos passados.

Muito bem, somos pela ordem e progresso… não queremos a instauração da desordem! Mas… quando lembro do mundo e de alguns movimentos que marcaram a história da humanidade, vejo que eles, guardadas as devidas transformações sociais e tecnológicas, tiveram a atuação maciça de adolescentes! Muitos dos quais hoje condenam e reprimem os rolezinhos.

Que é isso minha gente? Eu tenho um nome para isso: hipocrisia!

Somos uma sociedade hipócrita que anuncia que o Brasil é o país do futuro (ou já foi), mas que quer que os jovens estranhos da perifeira – como se só adolescentes pobres fossem “estranhos”, como se só jovens da periferia participassem deste fenômeno, como se a capacidade de fazer algo impensado fosse só de jovens advindos das camadas populares – permaneçam longe dos nossos olhos e não invadam “nossa”praia… “nosso” shopping,  nossas vidas!

Como mãe e como adulta também condeno a anarquia e a necessidade de impor medo ao se organizarem para a ida em bandos aos shoppings, mas como ser humano, entendo perfeitamente, porque nos idos anos de adolescência, também já busquei um bando e fiz  besteiras apoiadas por ele! Também já quis ter meu lugar ao sol para poder consumir tudo aquilo que as jovens de famílias mais abastadas tinham! Eu também achava que era tendo que eu seria… vista, amada, reconhecida!

Na minha memória seletiva, tudo que eu fiz de errado não foi errado (será?),  lutei com as armas que minha geração tinha e no meu entendimento não fui desordeira, não estraguei nada e…Meu Deus! Quanto cresci fazendo besteirinhas! Me senti a “mais mais”! Mas se perguntassem aos adultos desta época se o que fazíamos era certo, com certeza eles diriam que era uma verdadeira baderna!

Como foi bom para a minha autoestima oscilante “badernar”, quebrar limites, estabelecer novos limites, ser apoiada por um grupo tão infantil e “perdido” quanto eu! Todas as besteiras que minha mãe jamais poderia saber que eu fazia me ajudaram a ser a pessoa que sou hoje, para o bem e para o mal! Transgredir era o máximo! A gente se sentia grande! E isso nos fez crescer, aprender, escolher.

Ouvindo depoimentos de alguns destes jovens, não vejo muita diferença na motivação que existe entre eles e a que existia em minha geração… e se dermos uma busca no passado, nas grandes “rebeliões da juventude”, que marcaram uma época, veremos que ainda somos os mesmos e buscamos a mesma coisa: todo jovem (todo ser humano!) que ser alguém, quer se amado, valorizado, aceito e testa seus limites para crescer, muitas vezes com dor.

Alguns dirão, mas hoje são mais violentos! Será? Pelo que me lembro na minha juventude também existia violência, talvez com uma divulgação menor.

Portanto, atire a primeira pedra aquele que nunca se juntou a outros iguais para exercitar o poder de ser alguém em construção fazendo “besteira”.

Embora a cultura e a sociedade possam dizer que não… na minha cabecinha, Carnaval bem poderia ser chamado de rolezinho… porém regado a muuuuiiiita luxúria e com a permissão da nossa censura!

Me contem… nestas circunstâncias não liberamos o jovem reacionário que um dia fomos?

Nada errado nessa situação. O que precisamos é parar de dar aos jovens falsas lições de morais. Educação se faz com palavras, mas se constrói com exemplos!

Pense nisso e ótimo feriado para você!

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