Anorexia Nervosa e Bulimia: uma abordagem interdisciplinar

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March 9, 2015
Anorexia Nervosa e Bulimia: uma abordagem interdisciplinar

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A adolescência, como período do desenvolvimento é marcado por conflitos e desafios na construção da identidade do sujeito. O processo social e econômico da atualidade traz desafios adicionais, que expõe o adolescente ao culto ao consumo e prazeres imediatos. A anorexia nervosa e a bulimia se apresentam como novos sintomas, surgidos dessas novas interações. Este artigo aponta a Psicanálise como uma abordagem capaz de propor uma escuta diferenciada dos novos sintomas, apontando caminhos para o acolhimento e tratamento do sujeito que sofre, nos novos tempos, com estes desconfortos.

Palavras-chave: Adolescência, Anorexia Nervosa, Bulimia, Interação Social, Novos Sintomas.

1. Introdução

Preliminarmente é necessário estabelecer um campo de entendimento do que venha a ser uma proposta de abordagem interdisciplinar de um tema. A Interdisciplinaridade parece ser uma solução para a reintegração da vida que se fragmentou ao longo dos anos, em função da complexidade trazida pela crescente especialização no domínio do conhecimento.

O progresso econômico e o processo de globalização criaram muitos paradoxos que são frutos da exploração dos mais pobres e das vantagens implicadas nos negócios financeiros dos mais desenvolvidos. Essa disparidade gerou o que Bauman (2001; 258) chama de depósito que comporta o excedente, ou melhor, o lixo desnecessário que precisa ser repelido, seja o lixo industrial ou as “pessoas residuais” numa sociedade de consumo.

Nesse contexto, o adolescente estrutura a sua identidade, sendo capaz de decidir sobre as direções de sua vida.  Quais os novos desafios do  vir a ser sujeito, íntegro e integrado que os novos tempos imputam ao adolescente? Que  sintomas surgidos a partir dessas novas interações com o consumo de valores do homem massificado e hipnotizado pelo prazer imediato e pelo consumo, são experimentados por ele nesse processo? Qual a visão da psicanálise no encaminhamento desses novos quadros, especificamente, o da Anorexia Nervosa e da Bulimia?

A proposta deste trabalho interdisciplinar é fazer a verificação de como algumas escolas oferecem seus saberes  na abordagem da Anorexia Nervosa e Bulimia na experiência do adolescente, usando como referências a Psicanálise, as Neurociências, e, buscando também,  enfocar os sintomas de um ponto de vista histórico e social, no que diz respeito a esta etapa do desenvolvimento humano.

 O Núcleo de Investigação em Anorexia e Bulimia-NIAB, na pessoa de um dos seus fundadores, ofereceu as referências no campo, que sustentam este trabalho, através da exposição do modelo de abordagem e tratamento dos sintomas.

2. O Período Da Adolescência no Desenvolvimento Humano

O período da adolescência apresenta vários caminhos para ser abordado, onde vários autores buscaram uma definição que visa conceituar, diferenciar e, sobretudo, limitar, onde iniciam e onde terminam o período caracterizado  como adolescência . Trata-se de uma busca que vem ocorrendo há séculos, e sem resultados que sejam satisfatórios à hegemônica linha de pensamento cartesiano, adotado pela maioria das academias.

Segundo Groisman (2012), desde a Grécia antiga até o século V, as raízes filosóficas tinham suas âncoras em Homero, Sócrates, Platão e Aristóteles. Neste período, a vida era organizada em função  do efebo. Por volta do século VI e VII, na idade média, as delimitações começavam a assumir características etárias, definidas como: infância (de 0 a 7 anos), puberdade (de 8 a 13 anos), adolescência (de 14 a 21 anos) .Na Roma antiga, que tem início em 753 a.C., os estudiosos consideravam  que os meninos de 16 anos eram inseridos em uma classe denominada “príncipes da juventude”.

No séc. XIX, a sociedade se tornou uma vasta população anônima, marcada pelo fortalecimento dos Estados Nacionais, pela redefinição dos papéis sociais de mulheres e crianças, pelo avanço acelerado da industrialização e da técnica, e, pela organização dos trabalhadores. Groisman (2012) aponta que este  movimento atinge a infância e a adolescência, pois estes indivíduos passam a ser encarados como pessoas. Este é período em que a figura do adolescente é encarada com mais precisão. A adolescência, então, passa a ser vista como momento crítico da vida humana. É temida como uma fase de potenciais riscos para o próprio indivíduo e para a sociedade como um todo, o que provocou um crescente interesse médico e de educadores, mobilizados pelos processos de amadurecimento biológico e pelas manifestações decorrentes de seu comportamento e pelas transformações sexuais.

O séc. XX, marcado pelas guerras, um novo estilo de mobilização e contestação social marca a vida do adolescente, que passou a negar todas as manifestações visíveis dessa sociedade vigente, usando ora o poder da “paz e do amor”, ora o poder das armas e da violência. Nos nossos dias, tempos em que as comodidades tecnológicas, de produção em massa, de mundo fragmentado e mecanizado, onde a separação dos saberes, da hipersensibilizarão e das linhas de montagem são a tônica do desenvolvimento de uma sociedade de bases capitalista, quais são os novos desafios do adolescer?

Bulimia e Anorexia, são reações patológicas mais comuns para as contradições e os desafios típicos de nosso modo de vida atual, vinculadas aos  aspectos egocêntricos e consumistas. O processo econômico criou paradoxos,  são frutos da exploração e das vantagens implicadas nos negócios, que no processo de amadurecimento, que para alguns adolescentes, torna-se um grande desafio de elaboração  (Bauman, 2004).

Em Vidas Desperdiçadas, Bauman (2005; 170) aponta que o principal nos tempos atuais é a crise das relações. Crê que o progresso econômico e o desenvolvimento urbano descontrolado geram uma imensa massa de “resíduos humanos”, “populações supérfluas” onde as pessoas, a mídia e as instituições que formam o aparelho estatal cobram e preveem o sucesso. Além disso, é um tempo que aponta para um mercado flutuante, porém rigoroso em suas exigências, que marcam em nossa existência laços,  compromissos e contratos permeados por essa fluidez:  “Não devemos nos prender a um trabalho, a um caso amoroso, pois as portas podem ser fechadas para as possibilidades” (Bauman, 2005; 170).

(Um autor importante para contextualizar a dinâmica do adolescer é Erik Erikson (2002, p. 84)), defende que a energia ativadora do comportamento é de natureza psicossocial, integrando não apenas fatores pulsionais biológicos inatos, como a libido, mas também fatores sociais, apreendidos em contextos histórico-culturais específicos.

Erikson (2002; 85) considera a adolescência como fase crítica do ciclo vital, apesar de considerar que a crise da identidade pode ocorrer em qualquer fase da vida do indivíduo, se evidenciando como um mal estar de quem não se sente bem na sua própria pele.

Afirma que um indivíduo deve construir a sua identidade na adolescência, mas que essa identidade não ocorre de forma padronizada e linear. A adolescência é uma etapa que impele o indivíduo a uma redefinição da própria identidade, ao avaliar sua inserção no plano espaço-temporal, integrando o passado, com suas identificações e conflitos, ao futuro, com suas perspectivas e antecipações (Erikson 2002; 85).

Outro autor, Knobel (2002; 115), afirma que, para a psicanálise, não se obtém a evolução normal da adolescência sem que o sujeito passe pelo grau de conduta patológica, denominada como patologia normal. Para Piaget, ninguém atravessa este período da vida sem conflito. O conflito marca o crescimento. O mesmo período  é qualificado por Erikson como crise ( Piaget,apud Knobel. 2002, p.116).

De acordo com Knobel (2002), a normalidade é um conceito que se altera em relação ao meio social, econômico, político e cultural. O autor deixa claro que esta normalidade não se constitui na submissão ao meio, mas sim na habilidade de aproveitar os dispositivos para atender às exigências circunstanciais do indivíduo a ele

Ana Freud menciona ser muito difícil encontrar o limite entre o normal e o patológico na adolescência, pois todo o entusiasmo, alvoroço deste período, deve ser avaliado como normal (Ana Freud apud Knobel. 2002; 116).

Em nossa cultura adolescente, Knobel (2002, p. 116) aponta para a Síndrome normal da adolescência, que se apresenta sob a forma de desequilíbrios e instabilidades extremas, audácia, timidez, desinteresse, apatia, conflitos afetivos, crises religiosas, intelectualização, postulações filosóficas, condutas sexuais orientadas para a heterossexualidade e mesmo para a homossexualidade ocasional,  entre outros. Esta sintomatologia pode ser assim apresentada: busca de si mesmo e da identidade; tendência grupal; necessidade de intelectualizar e fantasiar; desorientação temporal; evolução sexual do autoerotismo; atitude social reivindicatória; contradições sucessivas em todas as manifestações da conduta; separação progressiva dos pais; constantes flutuações do humor e do estado de ânimo.

2.1 A Anorexia e a Bulimia: Etiologia e Tratamento Médico

Atualmente o termo “anorexia” não é utilizado em seu sentido etimológico para a “anorexia nervosa”, visto que tais pacientes não apresentam real perda de apetite até estágios mais avançados da doença, mas sim uma recusa alimentar deliberada, com intuito de emagrecer ou por medo de engordar.

Durante a idade média, as práticas de jejum foram compreendidas como estados de possessão demoníaca ou milagres divinos conhecidos como “anorexia sagrada” que se expressavam pela supressão de necessidades físicas e sensações básicas de corpo para alcançar metas espirituais superiores.

Embora não se possa afirmar que a atual concepção de anorexia nervosa esteja relacionada aos casos de “anorexia sagrada”, em virtude de documentação falha e incerteza quanto às reais motivações, sentimentos e crenças das santas, alguns paralelos são evidentes: ambas não toleram as consequências do “comer”, ambas representam “estados ideais”

O primeiro relato médico sobre anorexia nervosa, data  de 1689, em livro sobre doenças consumptivas, o qual descreve dois casos de origem nervosa.

É ainda na segunda metade do século XIX que a anorexia nervosa emerge como uma entidade clínica independente, com sintomatologia e patogenia distintas, com os relatos quase que simultâneos em 1873, do médico inglês Gull e do psiquiatra francês Lasègue. É provável que Charcot tenha sido o primeiro a detectar, por volta de 1889, o aspecto psicopatológico central que motivava as mulheres anoréticas a jejuar: (a “idée fixe d’obesité”) ou fobia de peso.

A partir de 1914, ocorre uma mudança marcante na compreensão da anorexia nervosa, que passa a ser vista como uma doença puramente orgânica (somática) quando Simmonds descreveu um caso fatal de caquexia, no qual a autópsia revelou atrofia do lobo anterior da hipófise. A anorexia nervosa passou a ser confundida com a Doença de Simmonds (hipopituitarismo) com sérias implicações terapêuticas (Groisman, 2012). Outra forma de se conceber a anorexia nervosa foi como variante de outras doenças psiquiátricas, principalmente da histeria, da esquizofrenia, do transtorno obsessivo e da doença afetiva.

Na década de 1970, começam a surgir critérios padronizados para o diagnóstico da doença com base nos distúrbios psico biológicos e psicopatológicos, desenvolvidos para atender tanto as necessidades clínicas, como as de pesquisa. De modo geral, os critérios ressaltaram: a perda considerável de peso, a preocupação mórbida com o risco de engordar, alterações na percepção corporal e disfunções endócrinas.

Para manter o peso corporal relativamente constante,  vários mecanismos fisiológicos, periféricos e centrais atuam de maneira orquestrada. O peso corporal é mantido dentro de certos limites por vários anos através de sinais de feedback que controlam a ingestão de nutrientes. Grandes lesões no hipotálamo, além de fatores hormonais, plasmáticos de glicose, controle externo e neuroquímico do organismo, afetam invariavelmente muitos sistemas de controle alimentar. O comportamento alimentar, portanto, é um processo multimediado. Dentre as perturbações alimentares importantes do organismo, a Anorexia Nervosa e a Bulimia, envolvem as causas apontadas por este autor, de origem hipotalâmica (Brandão1995, p.65).

Para o diagnóstico da Anorexia nervosa, é necessária uma redução de 15% do peso físico original, e não pode existir qualquer doença física intercorrente. É uma das poucas doenças psiquiátricas que podem ter um curso progressivo até à morte. Acentuada queda do interesse sexual, comportamento obsessivo-compulsivo, ansiedade e depressão, frequentemente acompanham a anorexia nervosa. Acredita-se que o estresse seja o principal fator desencadeante da anorexia. E segundo o autor, em recentes estudos de casos, observou-se que,  subjacente ao estresse que precipitou a anorexia, estava o medo de um fracasso, baixo desempenho escolar e perfeccionismo.

O tratamento inicial é hospitalar e consiste na restauração do estado nutricional do paciente, uma vez que o seu desequilíbrio pode levar ao óbito.

A Bulimia, por sua vez, apresenta-se como um distúrbio caracterizado por comportamento alimentar excessivo, compulsivo e episódico. O desconforto físico, como dor abdominal ou sensações de náusea, que é seguido por depressão e pensamentos autodepreciativos, além de exercícios físicos em excesso, indução do vômito, uso regular de laxantes e diuréticos. A Bulimia e a Anorexia ocorrem geralmente na adolescência e início da idade adulta, e acomete principalmente indivíduos do sexo feminino.

2.2 A abordagem psicanalítica da Anorexia nervosa e da Bulimia

Freud (1904-1905) fala sobre as contradições e das contra indicações da psicanálise para os casos de anorexia, uma vez que a prática psicanalítica não visa a eliminação dos sintomas. Esta é uma tarefa médica. Entretanto, em 1893, nos Estudos sobre histeria, Freud e Breuer consideram a presença de vômitos crônicos e anorexia, levados ao extremo de rejeição de todos os alimentos como um dos principais sintomas que estariam ligados à histeria. Pouco depois, em 1895, Freud apresentou novamente a anorexia como sintoma histérico. A magreza decorrente de a restrição alimentar era entendida como sintoma conversivo, não podendo se separar da estrutura da histérica.

No rascunho G (1895), Freud estabeleceu a relação entre a anorexia e a melancolia, por um lado, e entre a melancolia e a histeria, por outro, e foi nesse trabalho que Freud também associou a anorexia nervosa como sendo análoga da anestesia sexual, evidenciando a relação entre a aversão sexual e à repulsa alimentar. A falta de apetite estaria presente, portanto em sua vertente alimentar e sexual, principalmente nas jovens nas quais a sexualidade não teria se desenvolvido, isto é, estaria recalcada. O recalque da sexualidade na melancolia e a alta incidência da anorexia no sexo feminino reforçam a relação entre esses quadros e a histeria.

Foi somente anos depois, com o caso do Homem dos Lobos (1918), que Freud voltou a mencionar a anorexia, onde relatou o distúrbio do apetite de seu paciente como resultado de algum processo de sexualidade, ocasião em que relatou que a anorexia nervosa como característica das meninas, cuja irrupção se daria no período pubertário.

Freud introduz algo novo, sugerindo uma relação ente a anorexia e a fase oral ou canibalesca do desenvolvimento libidinal.

É sabido que existe uma neurose nas meninas que ocorre numa idade muito posterior, na época da puberdade ou pouco depois, e que se exprime à aversão à sexualidade por meio da anorexia. Esta neurose terá   que ser examinada em conexão com a fase oral da vida sexual. (FREUD, 1918; 133)

Em Luto e Melancolia, (1917-1918)Freud apontou a recusa de alimentos como sendo decorrente de uma melancolia severa. Pela impossibilidade de investir libidinalmente em novos objetos, o sujeito ficaria reduzido ao seu próprio eu, se autoconsumindo. Portanto, a recusa de alimentos, seria um sintoma presente em formas graves de melancolia.

A partir da década de sessenta houve uma mudança na literatura sobre a anorexia nervosa. Alguns autores deixam de enfocar a relação com a fase oral e conflitos intrapsíquicos e passam a considerar as relações interpessoais, dando relevo à relação mãe e filha.

Nos dias atuais, a psicanálise discute a clínica dos chamados novos sintomas (Recalcati, 2004), apontando para o fato de que vivemos numa época, onde o discurso capitalista e o da ciência realizarem uma “expulsão-anulação do sujeito do inconsciente”. Os novos sintomas, segundo o autor, “configuram- se como um efeito desta expulsão, sendo produtos específicos do discurso capitalista em seu enredamento espectral com o discurso da ciência”. Ao valorizar o particular do sujeito, eixo de sua ética, a psicanálise promove um enfraquecimento das referências descritivas da Anorexia e Bulimia Nervosa como comportamentos, distúrbios ou transtornos observados a nível fenomenológico.

Com Freud e Lacan, pode-se afirmar que não se trata de uma disfunção nutricional a ser retificada por uma reeducação alimentar,  como se esses distúrbios estivessem ligados a uma desregularão das necessidades vitais. Diferentemente desse ponto de vista, a psicanálise aponta para a perspectiva de se considerar os sintomas anoréxicos e bulímicos a partir do campo  da linguagem e do gozo. Recalcatti (2004), a prática bulímica não é realmente uma formação do inconsciente no sentido clássico, mas apresenta-se como prática pulsional, como pura forma de gozo que contrasta com o sujeito do inconsciente.

Em Silva e Bastos, (2003), citando Lacan (1956; 57 \1995), a anorexia  apresenta-se como “um comer nada” e não como um “não comer”. Nesse sentido, ela se  constitui como um sintoma que coloca em ato a falta através “desse nada”. Comer nada é uma maneira encontrada pelo sujeito para introduzir uma falta no Outro, para interpor um “não” a “papinha” sufocante que o Outro oferece incessantemente. Essa forma do  sujeito colocar-se diante doOutro, cria uma defasagem  entre o que este sujeito tem  e o que ele de fato deseja, colocando em jogo algo de ordem estrutural, constitutiva do sujeito.

Com Lacan, a psicanálise buscou encontrar resposta para o fato de como este processo evolui, mais tarde para as formas de anorexia.  E, os autores apontam, a partir do ensino lacaniano, que na anorexia, ao ser convocado no lugar daquele que não tem, daquele marcado pela falta, o Outro primordial responde com o alimento, ou seja, “confunde seus cuidados com o dom de seu amor” (Lacan, 1958/1998: 634, apud Silva e Bastos)

Diante da angústia por não saber o que o sujeito lhe está demandando, por não entender o que o choro do bebê significa, o Outro responde com o alimento, ou seja, reduz a falta à falta de alimento. O sujeito, massacrado pelos cuidados do Outro, encontra como solução, como via de sustentação do desejo, a recusa do objeto oral. O sujeito propõe que o Outro busque um objeto de desejo além dele, fora dele, porque assim ele próprio encontrará o rumo do desejo. Recusar o alimento é, portanto, uma forma de assegurar que algo falta ao Outro, que a falta não pode ser reduzida à falta de alimento, e mais, que a falta é estrutural, não podendo ser suprimida por nenhum objeto (Silva e Bastos, 1958/1998).

2.3 A Clínica Psicanalítica Frente ao Sintoma

Este é o relato de uma entrevista realizada com Roberto Assis Ferreira, médico, fundador e coordenador do Núcleo de Investigação em Anorexia e Bulimia-NIAB, do Hospital das Clínicas da UFMG, e coordenador do Núcleo de pesquisa em Psicanálise e Medicina do IPSMMG.

O NIAB- Núcleo de investigação em anorexia e bulimia  funciona desde 1996 e não só investiga como também trata os casos de Anorexia e Bulimia.

A investigação do núcleo surgiu a partir de 2001, quando alguns profissionais que trabalhavam no NIAB fundaram um núcleo de estudos, para que fosse possível investigar e estudar mais profundamente os casos de anorexia e bulimia.

Segundo o seu coordenador, o objetivo não é apenas diagnosticar o paciente, mas realizar um acompanhamento ambulatorial, com um atendimento interdisciplinar, ou seja, cada profissional atende o paciente de acordo com sua formação e especificidade técnica. Um profissional interage com  o outro, e, dessa forma vai se construindo  a visão do quadro clinico do paciente.

A decisão pelo formato do trabalho com anorexia e bulimia aconteceu pelo fato de pacientes com os sintomas os procurarem. Nas palavras do Dr. Roberto, “

Na verdade eu não fui atrás da anorexia e da bulimia, elas vieram atrás de mim. Sou médico e sempre trabalhei com a questão da desnutrição infantil, no setor de pediatria. Em 1968 comecei a trabalhar com adolescentes. A partir daí foram  surgindo pacientes com quadros clínicos anoréxicos ou de bulimia.

Com o trabalho com os adolescentes, o médico começou a se interessar pela área de saúde mental e pela psicanálise. Em 1996 atendeu  o primeiro caso de anorexia, e depois veio outro, e assim por diante […] Ele relata ainda que a anorexia questiona o saber da medicina tradicional. “Qual atitude o médico vai adotar diante de um paciente anoréxico? Ele vai curar? Não existe essa possibilidade de cura, pois, a anorexia não é uma doença, ela é um sintoma”

O NIAB é um programa do SUS (Sistema Único de Saúde) o que dificulta definir o paciente quanto ao seu nível socioeconômico. A maioria dos pacientes chega através de encaminhamento dos postos de saúde, mas o NIAB também atende muitos pacientes do interior.

A faixa etária é bem abrangente, o medico relata já ter atendido pacientes com 9 anos e com mais de 40, mas a maioria (cerca de 80%) está na fase da adolescência (entre 12 e 20 anos), sendo que cerca de 90% dos pacientes são do sexo feminino.

Nos homens a anorexia parte da vigorexia, que é a vergonha do próprio corpo. Os estudos do núcleo apontam para um quadro de bullying acompanhando o histórico desses pacientes. É realmente, em sua  maioria, uma questão de estética. Já nas mulheres verifica-se uma outra realidade. A anorexia tem uma ligação muito forte com a recusa do corpo feminino, com o fato de negar o amadurecimento presente na  transição do período infantil para o adulto. Muitas vezes vem acompanhado com uma grande recusa da sexualidade. Para a menina se tornar mulher existe uma grande responsabilidade, e essa mudança se inicia pelo corpo.

Quadros de anorexia feminina podem vir acompanhados de um momento em que a menina tem que se separar da mãe sair do mundo protegido pela família e deslocar-se  para o social. A anorexia é uma grande recusa; recusa ao corpo, à sexualidade á maturidade, e a todas as responsabilidades sociais que essa mudança implica. A anorexia também pode ter como fundo alguma doença psiquiátrica.

Dr. Roberto afirma: “Nossa Orientação é a psicanálise, pois acreditamos que a anorexia é um sintoma e não uma doença”.A medicina parte do pressuposto de que a anorexia é um transtorno que gera uma doença. Pensando na anorexia como um sintoma estamos dando espaço para que o paciente se trate. O próprio paciente trabalha seu sintoma, pois, cada paciente, cada caso é único e singular.

Precisamos trabalhar a confiança dele para que ele sinta segurança em se abrir com um de nossos profissionais. É muito complicado e raro um paciente se abrir logo na primeira consulta, por isso os profissionais do NIAB vão, aos poucos conquistando espaço, sempre respeitando o limite do paciente […] Gosto muito de usar o termo “envelope. Cada paciente é como um envelope, pois a carta (o conteúdo) que está lá dentro ainda é desconhecida. A maioria dos pacientes chega com o mesmo discurso, de que queria emagrecer, estava fazendo uma dieta, e que quando percebeu já estava anoréxica.

Como profissionais, a equipe do NIAB sabe que não é tão “simples” assim: Dentro desse “envelope” existe uma carta, que  traz todo um histórico.

E é justamente esse histórico que vai interessar […] Não existe nenhuma possibilidade de intervenção com o paciente se não existir transferência, esse é o ponto principal e básico de partida. Sem a transferência o paciente não vai se abrir com o profissional. Em minha opinião, a psicanálise é a área do saber que mais ajuda a entender a anorexia.

A equipe do NIAB é composta por: Clínico, psiquiatra e nutricionista, alinhados com o mesmo paradigma de intervenção. O primeiro passo da equipe é o acolhimento, à primeira consulta: o paciente já chega através de um encaminhamento, com um diagnóstico médico. Esse profissional que acolhe o paciente na primeira consulta vai criando um laço de confiança com ele, e preparando o espaço para a entrada e intervenção de um próximo profissional:

Aqui temos um trabalho de intercâmbio, discutimos durante quase todos os fins de tarde sobre os atendimentos. Mensalmente acontece uma discussão dos casos mais sérios com toda a equipe, e, semestralmente uma apresentação de pacientes.

O NIAB aborda as questões sociais ligadas ao problema da anorexia nervosa, compreendendo que todas as pessoas vão passar pela puberdade, e que  cada pessoa passa por essa fase de uma maneira diferente da outra. Algumas conseguem passar de maneira mais tranquila, outras, por causa de barreiras encontradas (família, cultura, religião, etc.) apresentam maiores dificuldades. Essas barreiras podem causar sérios problemas na pessoa, e algumas dessas podem desenvolver a anorexia. “Por isso cada caso é extremamente particular”, conclui Roberto, é singular. “Não tem como generalizar. Por isso cada trabalho é único, procuramos ouvir e conhecer o paciente, para que possamos montar um quadro  e ai sim traçar o que é melhor para aquele paciente.”

3. Metodologia

Este trabalho de campo é parte de um projeto interdisciplinar, realizado por um grupo de quatro acadêmicas do curso de Psicologia da FCMMG.

Especificamente, explorou a prática do Núcleo de Investigação em Anorexia e Bulimia-NIAB , e buscou contextualizar esta prática dentro dos propósitos de análise temática. O sujeito da pesquisa foi o coordenador do referido Núcleo.

Do ponto de vista qualitativo, foi realizada uma análise temática, feita sobre os dados coletados em questionário semiestruturado que orientou a entrevista e a visitação ao Núcleo. Para a sua realização foi necessária a busca de dados na literatura que constituiu a base para a pesquisa, juntamente com a utilização do instrumento da entrevista. O referencial teórico foi elaborado com base em artigos coletados nas bases eletrônicas de dados científicos e específicos das áreas integradas nesta exploração. Os dados da entrevista foram tratados segundo a compilação das respostas oferecidas pelo entrevistado.

4. Discussão

A Anorexia e a Bulimia estão inseridas em um contexto, onde  um único campo do saber não é suficiente para abordá-las. Por se tratar de um quadro psiquiátrico, que pode inclusive levar o sujeito ao óbito, exige que a discussão interdisciplinar seja feita no sentido de garantir uma abordagem do sujeito em sua integralidade.

O que se demonstrou como grande obstáculo, no entanto, muito mais do que o sintoma, é a realidade atual que não favorece o surgimento do sujeito por trás da máquina do consumo, e também pelo fato da maior incidência de casos acontecer no período da adolescência, o que  pode oferecer espaço para  inferir  uma situação delicada e de risco para meninos e meninas, em processo de crise de crescimento marcada por tantos sobressaltos afetivos, sexuais e sociais.

Conforme abordado na clínica dos Novos sintomas, percebe-se a  necessidade de construção de uma nova postura  clínica capaz de superar o limite das interpretações positivistas e cientificistas dos sintomas, considerando, a partir disso, a implicação do clínico no processo de tratamento.

Expostos a uma força globalizante e massificadora, os adolescentes colocam em jogo  novos impasses à intervenção do analista, que no compreender de Lima ( 2002), o fazem na tentativa de fazer sobreviver uma singularidade ali, no lugar onde estão submetidos às demandas de um discurso social mercadológico, que tenta, de todas as formas, apagar as possibilidades de escolha e de desejo.

Não se trata, portanto, da busca de eliminação do sintoma, mas sim da leitura deste para uma compreensão mais aprofundada. Trata-se, por parte do clínico, da tomada de posição frente ao sujeito em  suas circunstâncias e contingências,  buscando uma rearticulação dos saberes afim de que a excelência de cada um opere a favor  da restauração da saúde em todos os níveis.

Recalcatti ( 2004) afirma que a questão preliminar é o manejo da expulsão ou  exclusão do sujeito do inconsciente, único capaz de garantir singularidade ao desejo. Trata-se de um empreendimento ético que ponta para uma mudança de perspectiva na abordagem clínica dos novos sintomas, capaz de resgatar a dignidade desses sujeitos.

5. Considerações Finais

A adolescência apresenta vários caminhos para ser abordada. Mas, nenhum deles parece ser tão importante quanto os que apontam para o  resgate da integralidade do sujeito, para que assim possa viver seus conflitos e diferenças.

A psicanálise talvez tenha tanto a dizer, pelo fato de Freud e Lacan terem sido grandes investigadores da cultura. Este talvez seja um legado científico capaz de propor saídas para tal resgate e para a construção de uma identidade capaz de não sucumbir diante dos descaminhos propostos pelos novos tempos.  Discutir os novos sintomas é também discutir novas posturas e posicionamentos diante da realidade atual.

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