Ampliando as Visões sobre a Formação da Neurose

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March 9, 2015
Ampliando as Visões sobre a Formação da Neurose

PlanejamentopessoaldeacoesO presente artigo visa apresentar e discutir algumas visões diferentes no entendimento da formação da neurose. Nesse aspecto, o trabalho objetivou compreender o olhar da psiquiatria frente à neurose, bem como os seus subtipos e ainda sistematizar a compreensão da psicanálise sobre esse fenômeno. Desse modo, foi possível examinar as principais características, além de verificar o processo de formação da neurose no sujeito.

Palavras-chave: neurose, formação, sujeito

Considerações Iniciais

A palavra “neurótico” tem sido usada pelo senso comum, como sinônimo de loucura, o que classifica um pensamento impróprio. Nesse sentido, entende-se neurose como uma determinada forma de subjetividade, ou seja, como o indivíduo reage e interpreta às situações da sua vida.

Define-se neurose ou psiconeurose como quadros de origem psíquica que podem estar relacionados a situações externas na vida do sujeito, os quais provocam desordem na saúde mental, física ou da personalidade do indivíduo, podendo gerar angústia e ansiedade em vários contextos.

Do ponto de vista psicanalítico a neurose é decorrente de tentativas ineficazes para lidar com conflitos e traumas inconscientes. Por assim dizer, o que diferencia a neurose da normalidade é a intensidade do comportamento e a incapacidade do sujeito em resolver conflitos de maneira satisfatória.

O conceito de neurose foi estabelecido em 1769 pelo médico William Cullen para fazer menção a “desordens do sentido e ação”. Para ele, a neurose descreve várias desordens nervosas e sintomas que não poderiam ser explicados psicologicamente.

Neurose deriva da palavra grega neuron (nervo) com o sufixo osis (doença ou condição anormal). Entretanto, o termo neurose foi mais influenciado por Sigmund Freud e Carl Jung mais de um século depois.

Para a teoria psicanalítica pode ter origem nos mecanismos de defesa do ego, e podem ser classificados nesse aspecto pessoas que possuem alguma desordem psíquica que as impede de ter uma vida saudável.

Do Ponto de Vista da Psiquiatria

A psiquiatria compreende as neuroses como transtornos menores em relação às psicoses. Isso é atribuído ao fato de o neurótico preservar em sua personalidade alguns critérios de avaliação da realidade semelhante ao padrão comum.

O termo neurose tratava-se de um conjunto heterogêneo de doenças atribuídas a um ataque de nervos e foi introduzido no século XVIII, em 1777, por um médico escocês chamado Willian Cullen (MIJOLLA, 2005).

O termo aparece em um tratado de medicina desse médico escocês, no qual a segunda parte da obra era intitulada “Neurose ou doenças nervosas”. Na referida seção eram apresentadas não só as doenças mentais, mas também palpitações cardíacas, cólicas e hipocondria. Já no século XIX, o termo abarcava doenças de três campos: neurose, psicossomática e neurologia (Parkinson, epilepsia, por exemplo) (POLETTO, 2012).

No entanto, ao mencionar em “transtorno menor”, não estamos nos referindo a algum critério de prognóstico. O mais comum é que a neurose tenha um curso crônico e, se não tratada, pode levar a algum grau de incapacidade social e/ou profissional.

Tipos de Neurose

De acordo com Mijolla (2005), as neuroses são transtornos psíquicos sem substrato anatômico detectável. Sua sintomatologia está relacionada à expressão simbólica de um conflito intrapsíquico entre ideias fantasmáticas inconscietes, associadas ao complexo edípico, e às defesas que elas provocam, que possuem raízes na história infantil do sujeito.

Existem formas específicas de manifestação da neurose, dentre elas: neurose obsessiva, histérica, (na qual a ansiedade pode ser descarregada através de sintoma físico), e grandes variedades de fobias.

Nesse ínterim, o estudo abordará apenas os tipos de neurose mais comuns na bibliografia.

  • Neurose Fóbica – o sujeito exterioriza sua angústia através das fobias, que é resultante da fixação da angústia sobre situação ou objeto, o neurótico fóbico aproxima-se do sujeito angustiado, porém, mantém um comportamento de evitação do objeto que teme, como meio para escapar da sua angústia.
  • Neurose Obsessiva – se caracteriza por uma elevada freqüência de pensamentos obsessivos, que mantém o sujeito em conflito permanente; estabelece uma relação com o mundo exterior que se manifesta por meio de ritos conjugatórios.
  • Neurose Histérica Dissociativa – reação histérica em o que o paciente se defende de seus conflitos por meio de dissociação: confusão, personalidade múltipla, amnésia, etc.
  • Neurose de Angústia – um dos tipo mais simples de neurose, em que a angústia é o sintoma principal; a evolução ocorre a partir de crises mais ou menos próximas (sempre diante de um perigo simbólico ou real).

Como a Psicanálise Compreende a Formação da Neurose

De acordo com a psicanálise, a maioria das pessoas é afetada de alguma forma pela neurose, seja a partir de uma angústia ou ansiedade, alguma expectativa desagradável ou ainda um medo sem causa, indefinível, mas que toma o sujeito completamente.

Os primeiros escritos da obra freudiana categorizavam os transtornos emocionai em três grupos e Freud os denominava de psiconeuroses (ZIMERMAN, 1999).

As neuroses atuais compunham o primeiro agrupamento, caracterizando-se como transtornos emocionais resultantes da ausência ou inadequação da satisfação sexual; seus sintomas não eram de natureza simbólica. Para tal transtorno a investigação deveria ser direcionada para as desordens sexuais atuais e não em acontecimentos importantes da vida passada. Sua etiologia, neste sentido, é somática e não psíquica (LAPLANCHE; PONTALIS, 1998).

As neuroses de transferência são referenciadas como o segundo o grupo dessa classificação, assim, foram chamadas também de psiconeuroses de defesa. Nesse enfoque, abrange as histerias, as fobias e as neuroses obsessivas.

Segundo Freud, apenas estas poderiam produzir a transferência, pois para isso seria necessário dirigir catexias libidinais às pessoas (FREUD, 1916-17).

O terceiro grupo compreende as neuroses narcísicas, ou seja, as psicoses. De acordo com Freud, a psicanálise não reunia condições para tratar pacientes acometidos desse tipo de neurose (ZIMERMAN, 1995).

A justificativa usada pelo fundador da psicanálise era a de que tais pacientes não conseguiam a revivescência do conflito patogênico e a superação da resistência devido à regressão. Freud supunha que essas pessoas abandonavam as catexias objetais e que sua libido objetal se transformava em libido do ego (FREUD, 1916-17).

A princípio, Freud estudou a neurose sobre a perspectiva da teoria do trauma, cuja natureza da neurose estava contida em um trauma sexual vivenciado pelo sujeito, porém com o abandono dessa teoria, surge o conceito empírico do Complexo de Édipo no entendimento dessa formação.

Nesse momento houve uma ruptura em que Freud passa a perceber a importância do conflito psíquico na produção dos sintomas e percebe que a criança tem sentimentos ambivalentes com seus pais, que são em parte, reprimidos.

Laplanche e Pontalis (1998, p.296) definem a neurose como uma “afecção psicogênica em que os sintomas são a expressão de um conflito psíquico que tem raízes na historia infantil do sujeito e constitui compromissos entre o desejo e a defesa”.

Para a psicanálise as neuroses podem ter origem a partir de conflitos interiores, cujo significado inicial lhe escapa, remetendo para os conflitos infantis recalcados que podem ser acessíveis pelo processo de transferência.

Considerações Finais

As discussões apresentadas nesse trabalho são alicerçadas na investigação da formação na neurose que visa esclarecer a essência da neurose a partir do ponto de vista psicanalítico e psiquiátrico, bem como a partir das reflexões teóricas que abrangem esse estudo. De tal modo, pôde-se verificar que a formação da neurose ocorre a partir de conflitos interiores dados na infância que por vezes são recalcados por gerarem angústia para o sujeito, e, posteriormente, são manifestados em forma de sintoma em algum momento da vida. A revisão de literatura mostra-se relevante no que concerne a ampliar visões e mostrar novos pontos de vista com base nas afirmações já existentes. Portanto, é significativa para o aporte psicanalítico, bem como para a construção do saber na psicanálise e psicologia.

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