Amar o Outro em Freud

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March 9, 2015
Amar o Outro em Freud

Neste trabalho a ser apresentado pretendemos fazer uma análise breve a partir do texto escolhido, O Mal-Estar na Civilização, escrito por Sigmund Freud em 1929, obra constituída por textos que marcam uma nova concepção de pensamento centrado na reflexão sobre as relações do homem enquanto indivíduo, pressupondo que, tanto o desenvolvimento individual quanto social, articula o dualismo instintivo numa tentativa de manter o desenvolvimento do individuo e da civilização sob pressão através do controle das energias instintivas. Freud busca tecer sua teoria entre a força de autopreservação e autodestruição, remetendo-a para o dualismo instintivo entre amor e agressão. Para explicar a vida mental do individuo, Freud recorre à psicologia nietzschiana e fundamenta sua psicanálise.

Palavras-chave: instinto, amor, neurose, agressão.

1. Introdução

Para compreender e avaliar a natureza do homem, Freud parte do comportamento mental e suas perturbações ocasionadas pelo impulso instintivo que pode, segundo ele, originar o caráter de sintoma normal ou patológico. Para explicar a vida mental e as causas do mal-estar do indivíduo, Freud analisa a evolução da cultura, religião e dos fenômenos sociais. Por agora, tencionamos estudar sobre o conceito moral do amar o próximo como a si mesmo, para desvelar qual a relação entre amar a si mesmo e amar o outro na mesma intensidade, considerando que o amor é instintivo e remonta à origem da vida, um processo de evolução que molda a personalidade individual.

2. Da Psicologia à Psicanálise

Na psicologia nietzschiana, o valor moral imposto pela cultura, afasta o individuo sempre mais de si mesmo. A falta de reflexão sobre a influência cultural faz o homem agir comorebanho. Freud, equilibrando-se a partir da psicologia nietzschiana, trata de fundamentar sua psicanálise firmando, com outras palavras, o que Nietzsche já havia dito. Freud, escondendo debaixo do orgulho psicanalista questões psicológicas centrais pensadas por Nietzsche, compila as noções da origem do instinto da vida e avança sua análise sobre os instintos primitivos e sua força compulsiva associados ao intenso desejo da realização ligado ao organismo humano de modo amoral. Anotemos este caráter inumerável dos instintos em Nietzsche, pelo menos na origem: há instintos por toda parte, como havia, para Heráclito, deuses por toda parte, pelo menos em toda parte onde sucede algo de certa importância. Também não é por acaso que esta evocação inicial da idéia de instinto esteja ligada a algo misto. Toda a atividade considerada unitária revela-se um mar de instintos mantidos unificados. Nietzsche descobre uma diversidade heterogênea dos instintos, cada qual pressionando de modo egoísta para realizar-se.

Por isso, os instintos, afirma Freud, são amorais e intensamente egoístas, porque não estão subordinados às regras morais da sociedade, mas radicalizados à função fisiológica, pulsando para potencializar e preservar a vida. A causa do penoso dilema neurótico do homem civilizado é o desvio do instinto do seu fim original. O mal-estar, uma espécie de sublimação mistificada, na qual os instintos se adaptam aos fins não instintivos imposto pela realidade, assim, a força cega do instinto faz da cultura sua possibilidade de realização, causando um estado alterado de consciência, a neurose. A teoria da neurose pensada por Freud afirma que, desde sua origem, há certa perturbação mental, o que relativiza a antinomia saúde-doença, mas por um caminha diferente do de Nietzsche. Em Nietzsche, na verdade, os conceitos não deixam de ter uma função valorizadora.

3. Amor, Estado de Prazer Individual

Para Freud, a emoção é o efeito instintivo primitivo e as relações de recordação do início da vida vinculadas ao desenvolvimento sexual. Como um sentimento de impulso, passa por vários estágios psicológicos, iniciando na sexualidade infantil à sexualidade adulta, equivale dizer que, os sentimentos instintivos vinculados à consciência refletem como sinais fisiológicos. O impulso instintivo e a experiência do mundo externo, dois fatores que exercem influência imediata à totalidade psicofísica do individuo, e, desde sua origem, se ajusta ao estado psicológico e orgânico da natureza humana.

A mente do individuo, segundo a teoria freudiana divide-se em Id, Ego e Superego, onde os vários impulsos instintivos movem-se interligados para satisfazer necessidades orgânicas. O Id é o motor do Ego e do foco pulsional, mas é contido na relação com as regras. Por isso, volta-se contra o Ego e limita o Superego.  Por ex., o Id é a representação dos instintos biológicos e se ocupa em satisfazer as pulsões de preservação; o Ego é autônomo e age como extensão interna do homem:

Uma reflexão mais apurada nos diz que o sentimento do ego do adulto não pode ter sido o mesmo desde o inicio. Deve ter passado por um processo de desenvolvimento, que, se não pode ser demonstrado […] uma criança recém-nascida ainda não distingue o seu ego do mundo externo como fonte das sensações que fluem sobre ela. Aprende gradativamente a fazê-lo, reagindo a diversos estímulos […] certas fontes de excitação, que posteriormente identificara como sendo os seus próprios órgãos corporais, poderem provê-la de sensações […] entre as quais se destaca a mais desejada de todas: o seio da mãe (FREUD, 1978, p. 133).

Essa espécie de entidade metal inconsciente (FREUD, 1978, p.133), faz distinção entre consciência e organismo, mantendo em si o Id em um só estado, embora não patológico. Quando o instinto de amor aumenta, a fronteira entre o Ego e o Id desaparece e o instinto do Superego passa a agir como regulador dos desejos de prazer, deixando transparecer no indivíduo, visíveis perturbações psicológicas divididas entre sexualidade orientada pela sensação de prazer e o problema da repressão moral externa.

O amor é um estado de prazer individual e superior ao prazer dos órgãos genitais. Nietzsche distingue o amor como realização do ser e procriação como preservação da espécie. Para ele, o instinto sexual nega a igualdade geral e busca seu devir, a procriação não, ela é essencialmente orgânica e quer perpetuar-se. O paradoxo consiste em que, a pulsão sexual é composta de várias pulsões parciais, sua unificação fornece intensa hesitação caracterizada por uma atividade sexual atribuída a uma zona erógena. A mentira moral faz do prazer um dever, assim, o instinto de sobrevivência orgânica ultrapassa a natureza instintiva, transforma o prazer do amor como realização plena do ser em desejo de perpetuação da espécie. Quando o instinto sexual sofre pressão racional, adquire uma nova valoração. Para superar o paradoxo, Freud distingue a pulsão sexual (amor) da pulsão genital (ato da procriação).

4. Entre o Amor e a Agressão

Embora parecesse remontar bem antes do cristianismo, amar o próximo é uma expressão no mínimo paradoxal e estranha em seu próprio conteúdo. Segundo a concepção freudiana sobre a perplexidade do amar o outro, fica evidente que o amor para o individuo, é algo valioso e não deve ser lançado fora sem reflexão (FREUD, 1978, p.165). A máxima impõe amar o outrocomo um dever. O deve amar o outro, soa como uma regra moral, é como estar na obrigação de restituir ao outro algo que não lhe pertence, é como estar em dívida com o outro, é amar o outro por obrigação. A máxima deixa claro que, amar o outro implica até mesmo sacrificar-se por ele.

Para amarmos o outro, segundo Freud, no mínimo, o outro deve merecer nosso amor. Esse mínimo merecer deve anteceder o deve amar o outro. Examinando de perto o conceito do dever, evidencia-se uma não reciprocidade entre intenção e ação. Amar o dessemelhante é não refletir a diferença entre intenção e ação. Amor é um estado mental, uma energia vital instintiva que não se lança fora simplesmente porque a regra impõe: deve amar o outro. Tanto Nietzsche, quanto Freud pensa tal regra como uma ação vazia de valor moral. Uma ação desvinculada da intenção. Porque o amor é egoísta, individual. É a realização do ser.

Para Freud, a pulsão instintiva orienta o individuo para o amor, uma maneira de realização natural do ser ao encontrar compatibilidade no outro. A partir da expressão: amar o outro, inferimos ver no outro o reflexo do nosso amor e merecê-lo, por ser ele igual ou melhor do que nosso amor, um modo de amar mais perfeito que o nosso, nosso ideal, nosso próprio eu! Como amar o outro, se este não tem nada a ver com o nosso eu? Não havendo compatibilidade ao nosso valor, e por serem estranhos, seus valores não nos atraem, neste sentido, fica claro o paradoxo do amar ao outro:

Na verdade, se aquele impotente mandamento dissesse: ‘Ama a teu próximo como este te ama’, eu não lhe faria objeções. E há um segundo mandamento que me parece mais incompreensível ainda e que desperta em mim uma oposição mais forte ainda. Trata-se do mandamento ‘Ama os teus inimigos’ (FREUD, 1978, p.165)

É difícil amarmos o outro, quando este é tão antagônico e incompatível ao nosso amor. É injusto colocar um estranho valor de amor não sinalizando a harmonia espiritual entre ambos. Negar a vida é não termos liberdade de retermos em nós mesmo o valor supremo, o amor! Compartilharmos com alguém que não demonstra a mínima consideração é frustrar a possibilidade de realização da própria vida. Amar é um compartilhar mútuo, um mesmo nível de sentimento, um ato recíproco, jamais pode ser unilateral. Amarmos o outro como um ser da natureza e não mais do que isto, é a forma mais autêntica do amor ao próximo.

O elemento de agressividade do instinto do homem, lobo do homem, é um bom começo para discutirmos a questão do amor ao próximo. Partindo da questão do outro ser um individuo agressivo, o amor ao próximo, obviamente, ficará em desvantagem, caso o outro, não estiver predisposto ao nosso amor. Conforme Freud, a natureza humana é inclinada mais para a agressão. O fator principal e perturbador nas relações com o outro é exatamente a agressão. Há uma hostilidade, uma ação conflitante e contraditória primitiva na existência humana, ligado à consciência e a constituição orgânica. O ideal de amor ao próximo, em outras palavras, justifica o fato de o homem amar a si mesmo e assim não causar dano ao outro. Aquele que vive em estado consciente de amor, não causa dano à natureza, vive em harmonia consigo mesmo e com o todo.  Assim, o termo correto de amor ao próximo é: ama a teu próximo como este te ama (FREUD, 1978, p.166), porque no instinto de amor, há de certo modo, um instinto de morte. Os fenômenos da vida podem ser explicados, pelo movimento de forças opostas desses dois instintos. Porém, como a atividade do instinto de morte, age como um meio de destruição que, em parte se mantém latente, e em outra, se manifesta no sentido de agressividade. Assim, o instinto de morte, é compelido para o serviço do amor. Ao invés de destruir o eu consciente, destrói parte do organismo. Se tal agressividade mantivesse contida a autodestruição ganharia força. Os dois tipos de instintos estão mutuamente mesclados em oposição.

Neste sentido, o instinto da sensualidade, mantém em si uma tendência para o amor e autodestruição.  A libido, Freud fez dela, enquanto força variável, no campo da excitação sexual, relacionando com tudo que se pode entender como amor e denota as manifestações do amor a fim de distingui-las da energia do instinto da morte. A morte, por se ocultar no instinto de amor é mais difícil apreende-la, sua inclinação para a agressão, constitui uma disposição instintiva original que atravanca a civilização. O instinto de agressão é o representante da morte, e, ao mesmo tempo, o mais próximo do amor e com este divide o domínio da existência. Significando que as evoluções da civilização já não são mais obscuras, pois a luta dos opostos: amor e morte, definem o curso e o fundamento da vida: a luta da espécie humana pela vida (FREUD, 1978, p.176).

5. Conclusão

O medo de perder o amor traz consigo a insegurança de sentir-se só, desprotegido, exposto ao perigo do mais forte. Fica estabelecido que, mal é tudo aquilo que, com a perda do amor ameaça à vida. Quando o homem fracassa e não consegue superar limites e frustrações, esgota a consciência e esta o aflige, pois se sente ameaçada. Os infortúnios do mundo exterior, os sofrimentos, são formas de potencializar a vida. Sempre que o homem os castra, o círculo de evolução da vida é interrompido, impedindo que o fluxo da existência perpetue seu curso natural.

O artifício criado pelo homem de amar o próximo é um mecanismo que inibe a realização da própria vida. Construir a vida a partir de artimanhas que manipulam a própria natureza da existência é construir um método de conhecimento que orienta o homem sempre mais ao vazio obscuro e ilimitado do nada, vazio e nada, que antecede o princípio da geração do mundo. Retornando ao niilismo, o homem retorna a grande confusão e desordem do caos.

O instinto primitivo humano, alterado pela civilização, causa o mal-estar, que em outras palavras, é estar mal em si mesmo por não conhecer sua intrínseca natureza. Nos tempos remotos, o homem primitivo seguia seu curso natural em relação com sua existência. Posterior, a civilização age como reflexo de uma continua severidade externa que coíbe as ações do instinto, daí surge o mal-estar, as neuroses e o desamor, porque organismo e consciência estão ligados entre si. O dever moral, suprimindo o instinto, altera a consciência, e, a consciência por sua vez compromete o organismo. No passado, o homem primitivo, ligado ao seu instinto natural atribuía os infortúnios ao seu fetiche por não cumprir seu dever, mas jamais culpava a si mesmo, assim reprimia seu fetiche, mas nunca punia a si mesmo, porque o homem primitivo não tinha a neurose que tem o homem civilizado.

ALLERS, Rudolf. Freud, estudo crítico da psicanálise. Porto, 1970.

ASSOUN, Paul-Laurent. FREUD & NIETSCHE, semelhanças e dessemelhanças. São Paulo, 1991.

FREUD, Sigmund. O mal estar na civilização. IN: Os Pensadores. São Paulo, 1978.

NIETZSCHE, F. W. Obras incompletas.  IN: Os Pensadores. São Paulo, 1983.

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