A teoria da angústia na psicanálise

Comments 0 by in Psicanálise
March 9, 2015
A teoria da angústia na psicanálise

angústia1A angústia tanto fenomenologicamente quanto em termos de teoria vem a fazer articular todo o discurso psicanalítico, o discurso do sujeito e o acesso ao real – aquilo que não engana. Se em Freud a angústia é caracterizada pela ausência do objeto, ou pela perda de um objeto, em Lacan ela se relaciona à presença do objeto. Contudo, a um objeto particular, o objeto da psicanálise, o objeto a.

Aqui será feita uma reflexão sobre o conceito de angustia e sua importância na construção da teoria e prática psicanalítica e na constituição do sujeito em sua individualidade e subjetividade frente ao mundo.

Angústia vem do latim – angor, que quer dizer ‘angustura, estreitamento, apertamento’.

Desde seus primeiros trabalhos Freud vinha se preocupando com a questão da angústia. “Como se origina a angústia? Tudo o que sei a respeito é o seguinte: logo se tornou claro que a angústia de meus pacientes neuróticos tinha muito a ver com a sexualidade” (Freud, 1894, p. 229).

No Manuscrito E (1894) a abstinência sexual é apontada como causa de angústia. Ela ocorreria devido ao acúmulo de tensão sexual. Então, a angústia aqui também (1893), surgiria como uma transformação direta dessa tensão. No Manuscrito B ele também relaciona aneurose de angústia com a excitação sexual retida.

Em seu ‘Projeto para uma Psicologia Científica’, 1895 Freud fala que a neurose de angústia teria sua etiologia na má ou não utilização da libido, que assim, se transformaria em angústia de uma forma direta. Nesse trabalho, Freud aborda a angústia procurando nela uma explicação para o recalcamento; e afeto (affect) aí é a reprodução da vivência desagradável. Os estados traumáticos –estimulação excessiva e desamparo – se inscrevem de tal forma que deixam uma tendência a serem revividos, a reprodução da dor que então levaria a uma repulsa do objeto, o que levaria ao que Freud chama  de defesa primária ou recalcamento. O que temos então é uma angustia que leva ao recalcamento. Desde o início do seu trabalho Freud tenta entender essa relação tão importante e tão primaria que é angustia e recalcamento. Em “O Homem dos Lobos” (1915) pode-se ver esse recalcamento se definindo de forma bem mais clara.

Teoria das Pulsões

Para dar continuidade a discussão sobre a angústia, faz-se necessário abordar brevemente os conceitos de pulsão (trieb) e recalque (verdrangung), pois estes podem ajudar a lançar luz sobrea consecução do trabalho.

“A teoria das pulsões é por assim dizer, nossa mitologia” (Freud, V. XXII, p.119)

A pulsão é o instinto que se desnaturalizou, a pulsão se apóia no instinto, mas não se reduz a ele. Ela é meio física e meio psíquica.

Em seu artigo metapsicológico sobre o inconsciente (1915) – Das Unbewusste no capitulo III – ‘emoções inconscientes’- Freud declara que a antítese entre consciente e inconsciente não se aplica às pulsões (Trieb). Se a pulsão não se prendeu a uma idéia ou não manifestou como um estado afetivo, nada se pode saber sobre ela. A pulsão nunca se dá por si mesma – nem a nível consciente, nem a nível inconsciente, ela só é conhecida pelos seus representantes: representante ideativo (vorstellung) – são catexias, basicamente de traços de memória; e o afeto (affekt) e as emoções correspondem a processos de descarga, cujas manifestações são percebidas como sentimentos. Ela é meio física e meio psíquica. Rosa (2005) aponta que o afeto “é a expressão qualitativa da quantidade de energia pulsional. O afeto e o representante ideativo são independentes”.

Não existe afeto inconsciente, pois a nível inconsciente o afeto tem de se ligar a uma idéia (vorstellung). A pulsão tem uma fonte (quelle); uma pressão (drang); um objetivo (ziel); e um objeto (objekt). Não existe pulsão passiva, mas apenas pulsões cujo objetivo é passivo. O objetivo da pulsão é sempre a satisfação, sendo esta definida como a redução da tensão. Uma pulsão não pode ser nem destruída nem inibida; uma vez tendo surgido, ela tende de forma coerciva para a satisfação.

Aquilo sobre o qual vai incidir a defesa é sobre os representantes psíquicos da pulsão (Rosa, 2005, p.126).

Os destinos do afeto: transformação do afeto (obsessões); deslocamento do afeto (histeria de conversão); troca do afeto (neurose de angustia e melancolia). O afeto não pode ser recalcado, como já foi citado em “Esboço de Psicanálise” ele é função do ego e pertence ao sistema pré-consciente. Apesar de sofrer vicissitudes diversas o que o recalcamento produz é uma rupturaentre o afeto e a idéia a qual ele pertence, mas não a transformação de afeto em afeto inconsciente.

A incidência do recalcamento

A teoria da repressão é a pedra angular sob a qual repousa toda a estrutura da psicanálise. (Freud, 1914)

Segundo Freud para que haja o recalcamento (verdrangung) não é suficiente a ação exercida pelo sistema Pré-consciente – consciente é também necessário a atração exercida pelo inconsciente.

Antes de serem formados os sistemas inconsciente, pré-consciente, consciente, certas experiências cuja significação inexiste para o sujeito são inscritas no inconsciente e têm seu acesso à consciência vedado a partir de então. E essas inscrições vão funcionar como o recalque original (urverdrangung) que servirá de pólo de atração para o recalcamento propriamente dito.

Em “o Homem dos Lobos” (Freud, 1914) a cena primitiva com um ano e meio de idade que não teve significação na época, e só obteve resignificação no sonho aos quatro anos de idade e sofreu recalcamento. O representante ideativo foi desligado do afeto.

O desejo sexual pelo pai é recalcado e reaparece como uma fobia de um animal. O afeto étransformado em ansiedade. O recalcamento foi ineficaz, pois embora tenha substituído um representante por outro, não evita o desprazer provocado pela angústia.

A parte quantitativa da pulsão só se exprime em afetos; daí ser possível, pelo recalcamento, manter no inconsciente o representante ideativo da pulsão, mas não ser possível impedir o desprazer que resulta da liberação da carga de afeto que estava ligada a ele.

Lembrando que, as regras que regem a lógica não têm peso no inconsciente. “Impulsos com objetivos contrários coexistem lado a lado no inconsciente sem que surja qualquer necessidade de acordo entre eles. Ou não  têm nenhuma influência um sobre o outro, ou se têm, nenhuma decisão é tomada, mas acontece um acordo que é absurdo, visto envolver detalhes mutuamente incompatíveis” (Freud, 1940, p.39).

Em seus Escritos, Lacan fornece a idéia da dimensão a qual se estende essa Pulsão (Trieb) – tão falada e da qual nunca se fala tudo. ‘As pulsões são nossos mitos’ disse Freud. E Lacan lembra-nos que “não se deve entender isso como uma remissão ao irreal. É o real que elas mitificam, comumente, mitos: aqui, aquilo que produz o desejo, reproduzindo nele a relação do sujeito com o objeto perdido” (Lacan, 1998, p.867)

A pulsão, tal como é construída por Freud a partir da experiência do inconsciente, proíbe ao pensamento psicologizante esse recurso ao instinto com que ele mascara sua ignorância, através de uma suposição moral na natureza (Lacan, 1998, p.865).

Em Novas Conferências Introdutórias Sobre Psicanálise XXXII – ansiedade e vida instintual – Freud fala de forma despreocupada e decidida que “as pulsões são entidades míticas, magníficas em sua imprecisão.” No caminho que vai desde sua origem até sua finalidade, a pulsão torna-se atuante psiquicamente (Freud, 1932-33, p. 99)

Ainda em Das Unbewsste, Freud (1915) declara que suprimir o desenvolvimento do afetoconstitui a verdadeira finalidade do recalque (verdrangung). E que seu trabalho fica incompleto se essa finalidade não for alcançada. O controle do consciente sobre a motilidade voluntária se acha firmemente enraizada e só cessa na psicose; já o controle do consciente sobre o desenvolvimento dos afetos é menos seguro. E que inclusive ocorre uma luta constante pela primazia sobre a afetividade entre os sistemas consciente e inconsciente; que certas camadas de influencia são eliminadas de cada um deles e que ocorrem misturas entre forças operativas. E é possível ao desenvolvimento do afeto proceder diretamente do inconsciente; nesse caso o afeto tem sempre natureza de angustia, pela qual são trocados todos os afetos “suprimidos”.

Freud no cap. IV desse artigo faz-nos vislumbrar uma relação entre recalque e angústia através de uma descrição. Tem-se a situação em que um impulso se encontrava no inconsciente exigindo ser transposto para o pré-consciente – o que consideramos como uma pulsão em busca de sua satisfação, tentando dirigir para o ego, que controla a motilidade e que pode levá-la para essa satisfação; mas a catexia libidinal a ele exigida retrai-se do impulso (pulsão) e a catexia libidinal inconsciente da idéia rejeitada é descarregada sob a forma de angustia. Por ocasião de uma repetição desse processo, dá o primeiro passo no sentido de dominar o desenvolvimento inoportuno da angustia. A catexia [do pré-consciente] que entrou em fuga se apega a uma idéia substitutiva – que, por um lado, se relaciona por associação da idéia rejeitada e, por outro, escapa a repressão em vista de sua distância daquela idéia.

A angústia passa a desempenhar o papel de uma anticatexia para o sistema consciente protegendo-o contra a emergência da idéia reprimida do consciente. Por outro lado, é, ou age como se fosse, o ponto de partida para a liberação do afeto revestido de angústia, que agora se tornou inteiramente desinibida.

Em o “Pequeno Hans”, Freud fala que “uma vez que o estado de ansiedade se estabelece, a ansiedade absorve todos os outros sentimentos; com o progresso da repressão, e com a passagem ao inconsciente de boa parte das idéias que são carregadas de afeto e que foram conscientes, todos os afetos podem ser transformados em ansiedade” (Freud, 1909, p.39)

No pequeno Hans “o material patogênico foi remodelado e transposto para o complexo do cavalo, enquanto os afetos acompanhantes foram uniformemente transformados em ansiedade”.  (Freud, 1909, p. 122)

Nesse livro Freud ainda relaciona a ansiedade à libido. Sua ansiedade correspondia a um forte anseio reprimido. A libido é posta em liberdade na forma de ansiedade.

Ele declara que ainda que uma fobia se forma como mecanismo para evitar a angústia. Mas ela pode trazer como ônus sérias restrições e inibições.

Angústia e recalque

Em 1925 em “Inibição, Sintoma e Ansiedade” Freud retoma o pequeno Hans e “O Homem dos Lobos” dizendo que “em ambos os pacientes a força motriz da repressão era o medo da castração” (Freud, 1925, p. 110) A ansiedade é apenas um sinal afetivo e não ocorreu nenhuma alteração na situação econômica. “A ansiedade pertencente às fobias animais era um medo não transformado de castração” (Freud, 1925, p.110). Foi a ansiedade que produziu a repressão

Nas fobias animais o ego tem de opor uma catexia libidinal que provem do id porque acredita que lhe ceder lugar acarretaria a castração..”A ansiedade nas fobias de animais é, portanto uma reação afetiva por parte do ego ao perigo.” (Freud, 1925, p.126)

A ansiedade é uma reação a uma situação de perigo. “Ela é remediada pelo ego que que faz algo a fim de evitar essas situação ou afastar-se dela”. Em seguida ele emenda dizendo que “se criam intomas a fim de eitar uma situação de perigo cuja presença foi assinalada pela geração de ansiedade.” (Freud, 19925, p.128)

As múltiplas origens da angústia

Na XXV Conferência de Psicanálise Freud tenta definir alguns dos termos usados como angústia e garantir um lugar de destaque para esse afeto na sua teoria. Aí também ele aponta a relação entre angústia e o nascimento. Infere ainda, que, a sede da angústia é o Ego – que pode inclusive produzi-la. Essa última idéia é recapitulada em ‘Esboço de Psicanálise’ (1932 – 1969), quando o autor esclarece as funções do Ego, Id e Superego. Nesse livro, Freud diz que nenhum intuito tal como o de manter-se vivo ou de proteger-se dos perigos por meio da angústia pode ser atribuída ao id. Essa é tarefa do ego, cuja missão é também descobrir o método mais favorável e menos perigoso de obter satisfação, levando em conta o mundo externo. O superego pode colocar novas necessidades em evidência, mas sua função principal é a limitação das satisfações.

No começo da neurose, quando o ego, a serviço da realidade, faz o recalque de um impulso pulsional. Porém isso não é a neurose em si. Ela consiste nos processos que fornecem uma compensação à parte do id danificada – isto é, na reação contra o recalque e no fracasso do recalque.

Em Inibição, Sintoma e Ansiedade, Freud (1925) analisa os fatores que desempenham papel crucial na causação das neuroses ‘e que criam as condições sob as quais as forças da mente são lançadas umas contra as outras’. Ele elege três que se destacam: um fator biológico, um filogenético e um puramente psicológico.

O fator biológico é o longo período de tempo durante o qual a espécie humana está em condições de desamparo e dependência. “O fator biológico, então, estabelece as primeiras situações de perigo e cria a necessidade de ser amado que acompanhara a criança durante o resto de sua vida” (Freud, 1925, p. 151). O fator filogenético baseia-se apenas em inferência. A vida sexual humana não realiza um progresso firme desde o nascimento até sua maturidade; mas após um aflorescimento, sofre uma irrupção até ser retomada na puberdade. Esse fator deve seu significado patogênico ao fato de que a maioria das exigências instintuais dessa sexualidade infantil são tratados pelo ego como perigos e desviados como tais, de modo que os impulsos sexuais ulteriores da puberdade, que no curso natural das coisas seriam egocêntricos, correm o risco de sucumbir a atração de seus protótipos infantis e de segui-los até a repressão (Freud, 1925)

O fator psicológico reside em uma característica do nosso aparelho mental que tem a ver precisamente com sua diferenciação em um id e um ego, e que é portanto também atribuível, em ultima análise, à influencia do mundo externo. “Em vista dos perigos da realidade [externa], o ego é obrigado a resguardar-se contra certos impulsos instituais no id e a trata-los como perigos. Mas não pode proteger-se dos perigos instituais internos tão eficazmente quanto pode de alguma realidade que não é parte de si mesmo.” Intimamente relacionado ao id como está, só pode desviar um perigo instintual restringindo sua própria organização e aquiescendo na formação dos sintomas em troca de ter prejudicado o instinto. Se o instinto rejeitado renovar o ataque, o ego é dominado por todas aquelas dificuldades que nos são conhecidas como males neuróticos (Freud, 1925, p. 151).

A angústia e a posição identificatória do sujeito: do unheimlich a Lacan

Em ‘Unheimlich, 1917 Freud faz importantes inferências sobre a relação entre o recalcado e a angústia. O termo acima, indica a introdução de algo no eu que abala a posição identificatória do sujeito, culminando no aparecimento da angústia. O recalque torna o que é familiar estrangeiro e o seu retorno provoca angústia. “(…) esse estranho não é nada novo ou alheio, porém algo que é familiar e há muito estabelecido na mente, e que somente se alienou desta através do processo de repressão” (Freud, 1917, p. 258).

Se a teoria psicanalítica está certa de sustentar que todo afeto pertencente a um impulso emocional, qualquer que seja a espécie, transforma-se, se reprimido em ansiedade, então entre os exemplos de coisas assustadoras, deve haver uma categoria em que o elemento que amedronta pode mostrar-se ser algo reprimido que retorna.  Essa categoria de coisas assustadoras constituiria o estranho (Unheiliche). (Freud, 1919, p. 258).

O espelho tem limites. A angústia é enquadrada. “É o surgimento do heimlich no quadro que representa o fenômeno da angústia, e é por isso que constitui um erro dizer que a angústia é sem objeto” (Lacan, 1962, p.87). O objeto que se trata na angústia é esse objeto que é apenas um lugar, mas que tem o estatuto especial de causa de desejo: o objeto a.

A relação da imagem especular encontra-se dependente do fato de que o sujeito se constitui no lugar do Outro, pelo significante. O investimento especular se dá no interior da dialética do narcisismo, a partir da identificação.

O significante gera o mundo, o mundo do sujeito falante, “cuja característica principal é que nele é possível enganar” (Lacan, 1962, p.87). A angústia aparece como um corte.

Todos os desvios são possíveis a partir da angústia. O que esperávamos, afinal de contas, e que é a verdadeira substância da angústia, é o aquilo que não se engana, o que está fora de dúvida (…) a angústia não é a dúvida, é a causa da dúvida. A dúvida, o que ela depende de esforços, serve apenas para combater a angústia, e justamente através de engotos. Porque o que se trata de evitar é aquilo que, na angústia, assemelha-se a certeza assustadora (Lacan, 1962, p. 89).

A angústia é esse corte que abre e deixa aparecer o inesperado – antes mesmo do nascimento de um sentimento. Deixa aparecer o heimlich, esse conhecido feito desconhecido. Não é o irreal atormentando o real, pelo contrario, o inquietante é que, no irreal, é o real que os atormenta. O real se faz aparecer, burlando a teia de significantes que o recobre.

Nosso corpo não nos é dado de maneira pura e simples em nosso espelho. “Mesmo na experiência do espelho, pode surgir um momento em que a imagem que acreditamos estar contida nele se modifique. (…) Sobretudo quando há um momento em que o olhar que aparece no espelho começa a não mais olhar para nós mesmos. Initium, aura, aurora de um sentimento de estranheza que é a porta aberta para a angústia” (Lacan, 1962, p. 100). O homem encontra sua casa num ponto situado no Outro, para além da imagem de que somos feitos e este lugar representa a ausência em que estamos.

Lacan declara que “muitas coisas podem produzir-se no sentido da anomalia, e que não é isso que nos angustia. Mas se, de repente, faltar toda e qualquer norma, isto é, tanto o que constitui a anomalia quanto o que constitui a falta, se esta, de repente não faltar, é aí que começará a angustia” (Lacan, 1962-63, p.52). O sujeito não tem mais onde se agarrar, falta o apoio da falta.

A angústia não está relacionada ao desamparo inicial, mas sim ao amparo que o sujeito recebe, onde se faz enigmático algo que diz respeito ao desejo do Outro. A perda do objeto não está relacionada a uma ausência mas a uma presença portadora de um enigma. Ali onde o sujeito não se vê. “Che vuoi?” Isto é, aquilo que escapa a identificação

A angústia como expectativa, antecipação, se situa em relação à incerteza do que sou como causa do desejo do Outro (Jacques Laberge)
Lacan afirma que antes de chegar ao resultado da operação que é o sujeito barrado, castrado, há um nível mítico, anterior (préalable) a todo este jogo da operação “(…) não se pode, de nenhuma maneira, isolá-lo como sujeito, e, miticamente, o chamaremos, hoje, sujeito do gozo”. E Lacan se refere aos três níveis aos quais respondem os três tempos desta operação, são respectivamente o gozo, a angústia e o desejo. Ele especifica que se trata de uma função, não mediadora, mas mediana, da angústia, entre o gozo e o desejo. “(…) esta hiância do desejo ao gozo; é ali que se situa a angústia”.

Lacan afirma : Falei da angústia enquanto tempo intermediário entre o gozo e o desejo, enquanto, uma vez atravessada a angústia, é fundado sobre o tempo da angústia que o desejo se constitui.
Angústia enquanto distância do gozo e anúncio do desejo.

“A angústia, esta estranheza de não saber que objeto a sou para o desejo do Outro marca a passagem do gozo ao desejo. Indica que o sujeito não está preso no gozo e dele se distancia. Gozo, angústia, desejo, três momentos do tempo lógico. Gozo do sujeito impessoal do instante de ver, angústia associada aos sujeitos recíprocos do tempo de compreender, desejo do sujeito da enunciação do momento de concluir.” (Jacques Laberge)

E ainda, “aquilo de que tudo parte com efeito é a castração imaginária, porque não existe, por bons motivos, imagem da falta. Quando aparece algo ali, portanto, é que, se assim posso me expressar, a falta vem a faltar” (Lacan, 1962-63, p.51).

Considerando ainda que, “na análise, às vezes existe o que é anterior a tudo o que podemos elaborar ou compreender. Chamarei a isso presença do Outro (A).” (Lacan, 1962-63, p.31). E isso não pode ser ignorado, a ligação original do sujeito com o desejo do Outro.

O Outro segundo Lacan sofrendo o mesmo que o sujeito, atormentado pela castração, refletirá a mesma negatividade na falta. O Outro também é barrado. Não há um Outro do Outro. Aquilo diante do qual o neurótico recua não é a castração; ele recua ante o fazer da castração, a sua, aquilo que falta ao Outro.

Freud indica o tropeção do neurótico na angústia de castração e Lacan esclarece que não é a angústia de castração em si que constitui o impasse supremo do neurótico. Ele se perde na sua busca. “Dedicar sua castração à garantia do Outro, é diante disso que o neurótico se detém” (Lacan, 1962-63, p. 50). O sujeito neurótico não consegue dar uma dimensão positiva – garantia da função do outro – a sua angústia.

O neurótico busca é uma demanda que ele quer que lhe seja feita: quer que lhe façam súplicas. “A única coisa que não quer é pagar o preço” (Lacan, 1962-63, p. 62). Na neurose o que ocorre é uma falsa demanda. O neurótico faz da demanda o seu objeto. A angústia surge quando se dá a esta falsa demanda uma resposta que não preserva esse vazio, causa do desejo.

Freud falava que uma análise começa por uma configuração de sintomas. O neurótico se recusa a dar a sua angustia, “toda a cadeia da análise consiste em que, pelo menos, ele dê o equivalente, pois começa por dar um pouco o seu sintoma.” (Lacan, 1962-63, p.62). Ele quer que lhe peçam algo. Como não lhe pedem nada, começa a modular as demandas dele, e, é essa a primeira entrada na análise.

E sobre a importância do aparecimento desse sintoma fala-nos Lacan (1979) em suas considerações sobre os fenômenos lacunares (o sonho, o ato falho, o chiste e os sintomas: “o que nos chama a atenção nesses fenômenos lacunares não é apenas a descontinuidade que eles produzem no consciente, mas sobretudo o sentimento de ultrapassagem que os acompanha” (Lacan, 1970, p.30).

Lacan, 2005, anuncia que, é na medida em que se esgotam até o fim, até o fundo da tigela, todas as formas de demanda, até a demanda zero, que vemos aparecer no fundo à relação de castração.

Lacan lembra que o tema da angústia leva-nos, portanto ao plano crucial que chamarei de lei moral, ou seja, o de que qualquer formulação sadia da lei moral deve ser buscada no sentido de uma autonomia do sujeito (Lacan, 1962, p.167).

Ali, onde existe no discurso o que se articula como o EU (Je), é justamente aí, que no nível do inconsciente, situa-se a. “Nesse nível, vocês são a, o objeto, e todos sabem que isso é intolerável.” (Lacan, 1962, p. 116). O objeto a não é especularizável. O a é o que resiste a significatização – a não é assimilável a um significante -, o objeto perdido, fundamento do sujeito desejante, mas não do sujeito do gozo.

Em última instancia, a angustia seria a única tradução subjetiva possível deste objeto que, em seu enigma tem também uma paradigmático como causa impossível do desejo.

Tags: