A Questão da Dependência Química Associada à Função Paterna e Outros Conceitos da Psicanálise

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March 9, 2015
A Questão da Dependência Química Associada à Função Paterna e Outros Conceitos da Psicanálise

menino-fumando-maconhaA abordagem desse artigo surgiu a partir de observações em uma comunidade terapêutica religiosa, acerca de atendimentos de acolhimento individual psicológico com indivíduos que faziam uso de drogas, principalmente álcool, crack e cocaína, assim como alguns que se encontravam em situação de rua. Apresentar-se-á o tema sobre a dependência química relacionada com alguns conceitos psicanalíticos, de forma não muito minuciosa, tais como, pulsão, sendo este estimulante de carga energética na vida de qualquer pessoa, será relatado também sobre a transferência e sobre o luto relacionado à execução ou não, da função materna e paterna. Podemos dizer que o pai é o representante da lei, da regra, é o que proíbe. Sendo que, se essa função falhar o sujeito vai estar exposto aos mais variáveis conflitos psíquicos.

Palavras-chave: Dependência química, função paterna, comunidade terapêutica.

Introdução

Uma vez que é importante ressaltar nesse contexto é olhar sugerido voltado para o sujeito, enquanto sua subjetivação e sua funcionalidade, e não o focar em substâncias químicas enquanto isoladas, assim também, como tentar perceber para além da cristalização do diagnóstico que esses dependentes químicos geralmente recebem. “De qualquer forma, entramos em terreno pouco confortável para um debate na perspectiva da Psicanálise, que é o tema da felicidade e o modo como obtê-la. Ainda mais: o que cada um pode fazer para sustentá-la ao seu modo” (CIRINO e MEDEIROS, 2006, p. 101).

O abuso de drogas seria uma busca por alguma solução, que produz efeito imediato de satisfação, podendo fazer com que algum tipo de sentimento desagradável se recolha momentaneamente do estado presente do sujeito. Sabe-se que o desejo do prazer constante é uma falsa ideia do real, pois a relação que estabelecemos com o mundo é caracterizada, também, por acontecimentos de desprazer associados ao prazer.

Uma vez que o ser humano em sua grande parte, tem como proposta para si, a busca da felicidade permanente que vai se relacionar com a ausência de dor e desprazer e a vivência de grandes prazeres, onde o sujeito pode se relacionar estritamente com esta última, enquanto talvez uma busca de sentido de algo que escapa dele. Segundo Freud, no seu texto: “Os instintos e suas vicissitudes” em 1915 vai dizer que, o princípio de prazer, enquanto à série prazer-desprazer está ligada ao poder dos estímulos que, enquanto sentimentos desagradáveis aumentam , os sentimentos agradáveis diminuem. Esses estímulos que tem origem no organismo referem-se, principalmente, ao que diz respeito às pulsões, estas como sendo uma força constante. Onde o sistema nervoso tende ao máximo reduzir ou tentar eliminar esses estímulos. Porém nesse texto Freud deixa essa suposição aberta a novas descobertas possíveis relacionadas, ficando assim, um pouco indefinida. Mas podemos dizer que essa tendência do princípio do prazer, com busca de evitar a sensação de dor e desprazer, o Eu tende a ser contra toda fonte de desprazer, e isso pode se dar através de métodos utilizados do mundo exterior, como por exemplo, o uso de substâncias tóxicas, onde estas, além de produzir efeito imediato, como já mencionado, elas podem proporcionar uma maneira de ‘descolamento’ do mundo externo, no sentido de certa independência, podendo criar assim para o individuo que usa, seu próprio mundo.

“A clinica psicanalítica na urgência denuncia a ilusão de completude e de eternidade, afirmado a finitude. O sujeito está diante de um mundo que lhe aponta muitas impossibilidades e, diante do desamparo e do real da castração, a insegurança e a angustia se multiplicam, revelando para ele sua dimensão dolorosa e sangrenta” (SILVA, p. 14).

Para melhor entendimento a partir dos pontos referidos até aqui, é válido ressaltar o conceito de pulsão, que se dá sobre os termos utilizados sobre sua ‘pressão’ que compreende como fator motor enquanto seu nível de exigência, a sua ‘finalidade’ que é a eliminação de uma necessidade, ou seja, o fornecimento de satisfação, que não será total, o seu ‘objeto’ que é a via pela qual a satisfação vai acontecer que pode ser por meio de alguma coisa ou pelo próprio corpo, e a sua ‘fonte’ que é uma relação somática. Esses termos também são abordados por Sigmund Freud no mesmo texto citado anteriormente.

No caso, poderíamos dizer que essa pulsão se passa no ato, sobre um objeto. Diante do que foi visto até agora, pode-se dizer então que a intoxicação seria um tipo de defesa, uma saída desses dependentes químicos, ou até mesmo, talvez em algum momento a bebida possa nos dizer da impotência para lidar com o real, relacionado também a algo que lhe falta.

Quando Freud relata, em 1904 no seu livro “Os chistes e sua relação com o inconsciente”que as origens do alcoolismo e uso de outras drogas estaria associado à fase oral do desenvolvimento do sujeito, ou seja, em seu estado primário, relacionando-o assim ao conceito de regressão, nos faz associar a ideia da relação mãe-bebê, e secundariamente remete a relação pai-filho. De forma geral o que vamos destacar agora, para o objetivo desse artigo, sem dar ênfase em outros detalhes importantes da teoria psicanalítica, seria a mãe enquanto primeiro contato de prazer e desejo que o filho teve pela via do seio materno. Nesse momento a relação mãe-filho é incestuosa, no imaginário do filho, pois a mãe proporciona por essa zona erógena aquilo que o satisfaz, depois o pai entraria nessa relação, como aquele que viria a fazer essa ‘separação’ entre o filho e mãe, simbolizando aquele que é o representante das proibições, das normas, das regras e das leis. Em relação ao pai e sua função de soberania “a instância do pai simbólico, é antes de mais nada a referência à Lei da proibição do incesto(…)”,(DOR, 1991, p. 16)  podemos também citar:

No sentido habitual do termo, o embaixador representa seu governo junto ao estrangeiro, a fim de assumir a função de ali negociar todas as operações entre eles. Não poderia haver definição mais adequada no que diz respeito aos pais, compreendidos na sua realidade e na sua história. Aproximando-nos da metáfora, designemos então o pai, no real de sua encarnação, como devendo representar o governo do pai simbólico, encarregado por ele de assumir a delegação desta autoridade junto à comunidade estrangeira mãe-filho. (DOR, 1991, p. 14)

Nesse sentido a psicanálise vai dizer que o pai tem grande elevação determinante na vida futura de um filho, sobre vários significantes, “que vão do afetivo ao sexual, e que estes moldam a cognição do individuo e sua relação com o social” (KARDOUS, 2012, p. 19).A função paterna enquanto realmente faltosa, pode levar o filho a querer buscar nas drogas uma manifestação, no que tange uma esperada estrutura familiar, que essas questões interpessoais não vão bem, podendo vir a ser também como uma forma de apelo o uso de álcool e outras drogas, para uma contenção, como no caso quando as atitudes do sujeito fogem a normas regidas pela sociedade como, o desacato à autoridade, por exemplo, quando acontece de os policiais serem agredidos. “O homem de ação não largará o mundo externo, no qual pode testar sua força”(FREUD, 2011, p. 28).

Baseando no acolhimento dos sujeitos que se encontram em uma comunidade terapêutica, observou-se que grande parte teve ausência do pai e/ou da mãe, no sentido da relação faltosa da função deles. Alguns apresentaram em seu contexto familiar conflitos estressantes, causadores de tensão e angústia, no que se refere a discussões entre os próprios pais presenciadas pelo filho, ou somente com este último. Outros diziam do pai alcoólatra, mas a grande maioria dos acolhidos dessa comunidade apresentou perda do pai ou da mãe, e até mesmo de ambos, pelo falecimento, diante esse nível de morte se mostrar elevado, seria interessante enfatizarmos agora na questão da perda, em relação ao luto e sua elaboração:

“A ansiedade em relação à perda vê-se confirmada, enquanto a demanda de amor segue pulsando e exigindo satisfação: isso cria uma atmosfera de falta de segurança, de tristeza e de suspeitas terríveis de ter sido responsável pelo abandono, causador invisível da desgraça. É medo terrível de ser um dos responsáveis pelo estrago das coisas boas ou gerador de morte. (PINTO, 2009, p. 87).

Geralmente, no enlutado, o seu mundo se estabelece com pobreza de sentimentos agradáveis associados com o mundo externo. Então o sujeito supostamente tem-se o pensamento de que ‘algo’ o foi tirado, alguma coisa se perdeu ou, o sujeito sabe que perdeu alguém, mas de fato, não sabe o que, foi perdido dele próprio nesse alguém. No luto, precisa de certo tempo para elaboração da reação à perda para poder se fazer eficaz a compreensão desta, e se esta for bem elaborada pode trazer compreensões internas. Assim vai dizer Freud em 1915 no seu texto sobre “Luto e Melancolia”. Mas a todo o momento estamos a perder ‘alguma coisa’ então, o importante para o papel do analista seria tentar perceber de que maneira essas perdas são internalizadas e reconhecidas pela subjetividade de cada ser humano tentando ajudá-lo a dar um novo significado para sua vida.

“Curar as dores psíquicas não é se anestesiar. Ao contrário, é ampliar as capacidades de suportá-las e transformá-las em beneficio de si e dos outros” (PINTO, 2009, p. 88).

Ao que pertence o papel do analista frente esses sujeitos em posição de tratamento podemos ter em mente o conceito de transferência, que se dá na relação de amor, assim como em qualquer relação, como no caso do analista e analisando, esse primeiro vai ser atribuído pelo segundo com símbolos importantes para ele, ou melhor, dizendo, o analista vai ser imputado pelo paciente, como objeto que tem o que lhe falta, como sendo ele, uma pessoa de suposto saber. Essa relação tem papel muito importante para o tratamento, e quando bem desenvolvida pode proporcionar ressignificação para a vida do sujeito, “toda via, o instrumento principal para reprimir a compulsão do paciente à repetição e transformá-la num motivo para recordar reside no manejo da transferência” (FREUD, 1914, p. 169).

A condução do tratamento depende principalmente de quem esta sendo analisado, mas vai caber ao analista à maneira de como irá relatar as resistências apresentadas, e de não solucionar o problema que vai ser demandado, mas sim, indagar o paciente fazendo possível que o mesmo questione-se sobre sua própria função. Maurano (2006) vai dizer que “Dar o que não se tem é dar a falta. Mas isso só é indício de amor se dar a falta for oferecer de operar com ela, de produzir a partir dela.” (p. 47).

Considerações Finais

Frente a essas questões e conceitos brevemente desenvolvidos no artigo, sugere-se segundo a psicanálise que o sujeito sempre estará em movimento para realização dessa incompletude da qual se nasce, buscando assim, algo a ser construído, algo a ser preenchido. No caso dos indivíduos intoxicados analisados na comunidade terapêutica religiosa, como hipótese, a finalidade da pulsão que regem nestes pode também, estar associada na não elaboração da morte do pai e/ou da mãe, enquanto real ou imaginário, sendo que na maioria dos casos esses faleceram entre a infância e adolescência dos filhos.

Entretanto em geral, o que é de intenção maior desse artigo, é a ênfase na função do ‘Pai símbolo’ enquanto universal, o encarnado como ‘Pai real’, que possivelmente só existiria enquanto ‘Pai imaginário’, nas relações de fantasias ou até reais da criança relacionada ao seu ambiente familiar, assim explica Joel Dor em seu livro: “O pai e sua função em Psicanálise”. Então, supostamente conclui-se que se essa função de Pai simbólico for faltosa, o sujeito exposto a isso pode passar por conflitos internos, e que possivelmente, pode desejar buscar fora do diálogo interpessoal algo que lhe falta, que pela via do contexto do artigo seria pelo álcool e por outras drogas. Sobre a função do analista:

“Não cabe ao psicanalista devolver à família ou ao paciente a harmonia perdida, mas sim possibilitar que eles adquiram mais recursos para lidar com sua angústia. E através da escuta, perceber como o desejo dependa da relação corpo-doença-saúde” (MOURA, p. 18).

FREUD, S. (1996) Luto e melancolia . Edição Standart das Obras Psicológicas Completas.(Vol.: XIV, pp. 243-263). Rio de Janeiro: Imago (Obra original publicada 1917[1915])

FREUD, S.(2011) O mal – estar na civilização. São Paulo: Schwarcz

FREUD, S. (1996) Os instintos e suas vicissitudes. Edição Standart das Obras Psicológicas Completas. (Vol.:XIV, pp. 115-149). Rio de Janeiro: Imago ( Obra original publicada em 1915)

FREUD, S. (1996) Os chistes e sua relação com o inconsciente. Edição Standart das Obras Psicológicas Completas. Vol.: VIII.  Rio de Janeiro: Imago ( Obra original publicada em 1905)

FREUD, S. (1996) Recordar, Repetir e Elaborar : novas recomendações sobre a técnica da psicanálise II. Edição Standart das Obras Psicológicas Completas. (Vol.: XII, pp. 159-171). Rio de Janeiro: Imago. (Obra original publicada em 1914)

Coleção memória da psicanálise : Melaine Klein. Pinto, Graziela Costa. (2009) Vol.: IV. São Paulo : Duetto Editorial.

DOR, J.  (1991). O Pai e sua Função em Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor Ltda. (Obra original publicada em 1989)

Revista Psique – ciência e vida, AnoVI- Edição 80- Agosto/2012 Editora Escala Ltda.

MAURANO, D.( 2006) A transferência: uma viagem rumo ao continente negro.-  Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

MOURA, G. M.. Psicanálise e Hospital 3- Tempo e morte : Urgência subjetiva e Tempo- o que É Isto?

SILVA, D.D.  Psicanálise e Hospital 3- Tempo e morte : A Apropriação Imaginária do Tempo na Práxis da urgência.

CIRINO, O;. M, R. (2006) álcool e outras Drogas : escolhas, impasses e saídas possíveis.Belo Horizonte : Autêntica.

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