A Identificação com os Pais na Busca do Parceiro Amoroso na Vida Adulta

Comments 0 by in Psicanálise
March 9, 2015
A Identificação com os Pais na Busca do Parceiro Amoroso na Vida Adulta

namoroEstamos constantemente buscando fazer ligações em nossa vida, encontrar alguém para namorar, casar, formar uma família. Diante desse tema, este trabalho teve a intenção de seguir os passos da teoria freudiana para investigar como e porque tendemos a escolher alguém que se assemelhe aos nossos pais ou cuidadores. A teoria de Freud, sobre o complexo de Édipo, mostra sua importância na infância, no que se refere ao desejo de sedução da criança pelo sexo oposto, a rivalidade após seu desapontamento diante da negação e também a destruição do complexo de Édipo, formando, a partir disso, a identificação e nossa estrutura psíquica para mais tarde encontrarmos alguém para nos unirmos e formarmos uma família. Para isso, nossa pesquisa foi feita com seis moradores de São Miguel do Oeste-SC, todos casados, sendo três homens e três mulheres, com idades de 20 a 40 anos. O objetivo principal foi analisarcomo a identificação com os pais influencia a escolha do parceiro amoroso na vida adulta. O método de pesquisa utilizado é qualitativo, com análise de conteúdo. As discussões e interpretações relacionadas ao tema foram baseadas na teoria psicanalítica. Ao final do trabalho, foram identificadas, nas falas dos entrevistados, como suas relações com os pais influenciam as escolhas na fase adulta. Além disso, como suas experiências infantis de cuidados e amor repassados pelos seus pais ficaram marcadas no psiquismo de cada um e influenciaram para, na vida adulta, encontrar alguém e formar uma relação amorosa.

Palavras-chave: Identificação. Relacionamento amoroso. Complexo de Édipo.

1. Introdução

Este trabalho tem o propósito de investigar como ocorre o processo de escolha dos parceiros na vida adulta, como nos identificamos com alguém, o porque nos identificamos com esse indivíduo que pouco conhecemos, e o que está atrás desta escolha que inconsciente fazemos.

A dúvida intrigante é porque escolhemos alguém que, muitas vezes, se assemelha aos nossos cuidadores ou a nós mesmos e como ocorre esta identificação com algo que não podemos ver e nem sequer pensar sobre o que está acontecendo.

Muitas pessoas que passam ao longo de nossas vidas se assemelham as que foram ou ainda são importantes para nós. A pessoa que escolhemos para namorar ou casar, em muitos casos, pode ser semelhante ou com nosso pai, ou com nossa mãe, ou com quem os substituiu em nossa vida. A identificação é exposta por Freud (1921, p. 115) como sendo “a mais remota expressão de um laço emocional com outra pessoa.”

Freud (1921) diz que podemos nos identificar com coisas boas do indivíduo, mas podemos, também, outras vezes, nos identificarmos com os sintomas das pessoas, problemas que se apresentam no outro, mas que reconhecemos como nosso, pois, para o autor, em algum momento da nossa vida, já passamos por aquilo que o outro está passando e tendemos a nos colocar no lugar dele. Neste caso Freud (1921) observa a escolha que o indivíduo faz, onde este anula o objeto, ou seja, a pessoa com quem iria se identificar e dá uma total importância ao sintoma do mesmo, se identificando com o sintoma e não com o objeto. A Psicologia chama este fato de empatia, mas, como Freud (1921) em seu texto, nós a colocamos como identificação, o que não deixa de ser uma nem outra.

Nesta perspectiva, Nasio (1999) diz que a pessoa pode identificar-se com o outro de duas maneiras, a primeira é através da vontade consciente, é o caso de você admirar uma pessoa, vestir-se como ela, falar com o modo da outra pessoa, enfim, traços que são visíveis e que você adota como seus. A segunda forma de identificação é inconsciente, pois ocorre um movimento ativo de ir em busca da pessoa que elegemos a fim de assimilar seus traços, se possível incorporá-la, mas, segundo esclarecimento do autor, não temos consciência porque fazemos ou porque escolhemos certa pessoa para adorá-la, amá-la ou odiá-la.   

A intenção neste trabalho é justamente investigar como acontece o processo de escolha do parceiro amoroso, como a nossa ligação com os pais traz, no decorrer de nossa vida, a determinação de escolher tal indivíduo para se unir e formar uma família.

Como consequências, exemplificamos a enorme procura por psicólogos ou por terapeutas de família para resolver conflitos dentro da relação e até mesmo para dar um entendimento para a vida e para a escolha daquele amor.

2. Desenvolvendo o Processo de Escolha do Parceiro Amoroso

Geralmente é por volta dos 20 a 40 anos que começamos a fazer nossas escolhas de vida, escolher com quem iremos nos casar, se teremos filhos ou não. Tais decisões devem ser muito bem pensadas, pois podem se estender pela maior parte de nossas vidas (OLDS; PAPALIA, 2000).

Para Olds e Papalia (2000), é nesta fase que ocorre a ideia de pertencer a alguém, é quando os relacionamentos se tornam fortes, íntimos e com amor, pois a maturidade individual já aconteceu, podendo assim formarmos uma relação, em que a troca será mútua, e cada um poderá dar ao outro o que ele necessita.

Segundo Erikson (apud OLDS; PAPALIA, 2000, p. 400), “desenvolver relacionamentos íntimos, é tarefa crucial do adulto jovem.” Na teoria proposta por Erikson, o adulto jovem que, durante a adolescência, desenvolveu um forte senso de identidade, já está pronto para a fase que é chamada intimidade versus isolamento, é aqui que os indivíduos estabelecem um senso de comprometimento um com o outro, tendo assim sua estrutura principal formada para ir em busca de uma companhia e formar sua relação. O jovem adulto que resolveu a crise de intimidade versus isolamento estará agora disposto a viver um relacionamento a dois, com quem escolheu partilhar sua vida, ter filhos e formar uma união saudável e duradoura (OLDS; PAPALIA, 2000).

Para Erikson (apud RAPPAPORT, 1981b), o sentimento adquirido de ser “eu”, estabelecido na etapa da identidade, possibilitará ao adulto unir sua identidade a outra, podendo ser este um amor, ou uma relação mais concreta, sem que se sinta ameaçado ou controlado pelo outro.

Conforme Olds e Papalia (2000), as pessoas tendem a buscar, para se unirem, parceiros semelhantes, na aparência física, inteligência ou, até mesmo, com preferências iguais, enfim, procuram uma semelhança para decidirem qual será a pessoa ideal para compartilhar suas vidas, além disso tentam buscar, na repetição, a semelhança da relação dos seus próprios pais, ou seja, a aproximação com a mesma felicidade e união se assim o tiveram.

Para Bee (1997), nós praticamos um processo de escolha antes de nos unirmos a alguém. Este processo é por ela descrito como sendo composto de três etapas. A primeira a ser observada são as características externas da pessoa. Neste primeiro momento, será observado se esta pessoa combina fisicamente, a idade e também se a classe social são compatíveis. No segundo momento, observamos as atitudes e crenças em relação ao sexo, religião, se as escolhas são semelhantes as suas ou não. Já, no terceiro e último momento, a compatibilidade relaciona-se aos ideais sobre sexo, relacionamento, família e filhos, aspectos que são fortes influenciadores para o escolhido. Portanto, para Bee (1997), somos atraídos por quem é parecido conosco. Também não podemos esquecer que a atração sexual exerce um poderoso papel na hora de atrair ou ser atraído por alguém.

 Freud (1910) coloca um ponto obscuro e ao mesmo tempo intrigante na forma de ver como é feita a escolha do objeto amado pelo homem. Evidenciando que o que tem por trás do objeto que escolhemos para amar na vida adulta, nada mais é que uma representação do amor e cuidado que recebemos na nossa infância, Freud apresenta quatro características que seriam fundamentais para a escolha do objeto que vai ser amado.

Para iniciar a escolha, o homem irá desejar, como objeto de seu amor, uma mulher que seja também cobiçada por outros, ou seja, que algum homem reivindique direitos ou posse sobre ela. Tendo isso como base, estes sentimentos que incidem ao homem procurar desta forma seu objeto de escolha, remonta do seu complexo de Édipo, em que a mulher cobiçada e desejada por outro é sua própria mãe e quem reivindica direitos sobre ela é seu próprio rival, o pai (FREUD, 1910).

O segundo passo é que a mulher pura, ingênua e que expressa extrema fidelidade, na teoria de Freud (1910), não é a mulher que vai ser a primeira escolhida por esses homens. Podemos achar um pouco complexa esta forma de escolha, mas, para o autor, o amor que dedicará a esta mulher deverá ter um certo dispêndio de energia, fantasiando seu bem-amado ao ser possuída por outro homem. Não que esta mulher vá traí-lo, mas a questão é que cause um certo ponto de incerteza e ciúme, provocando sua masculinidade de proprietário de um bem que, na verdade, não lhe pertence. Na verdade, na fantasia da criança, a mãe sempre será inocente e pura, ela sempre vai precisar do homenzinho para defendê-la, o que fica um tanto que contraditório na vida adulta. Assim o homem, com sua mentalidade machista, deseja ter uma mulher que poderá algum dia traí-lo. Para explicar essa possível escolha, retornaremos a fase edípica, pois, quando o menino começa a ter noções do que é o ato sexual, e que sua mãe também o pratica, mas ela o faz com o seu rival – o pai, gera no menino o sentimento de infidelidade. Podemos pensar que vem desta fase edípica o desejo deste homem possuir uma mulher que poderá traí-lo.

Chegamos a terceira condição, em que Freud (1910) explicaque a mulher é considerada do mais alto valor pelos seus dotes sexuais, sendo estes permitidos apenas a um único homem. Essas mulheres são consideradas como as únicas a serem amadas e serão descartadas com toda ira se este objeto de prazer for oferecido a outros. Na última condição para escolha, a mulher é vista como um objeto frágil e que necessita do homem para salvá-la, fechando, assim, a parte total e integrante de um objeto de escolha por parte de um homem.

Nas duas últimas condições para a escolha de objeto, retornando a fase edípica, a identificação de ver sua mãe como única e de apenas um único homem é transferida para sua vida futura, quando os outros podem desejar tê-la como mulher, mas apenas ele pode usufruir o amor desta. Quanto à ideia de que as mulheres devem ser salvas pelo homem, Freud (1910) diz que esta forma de salvamento é dar uma recompensa para esta mulher que lhe deu a vida, portanto, na vida adulta, este homem dará a sua mulher um filho que será igual a ele.

É possível identificar o que ocorre com o indivíduo para que ele estabeleça estas condições na busca do seu objeto de amor. No amor normal, algumas características da mãe permanecem na escolha do objeto, visto que o homem manifestará isso mais tarde na sua escolha, o que é bem visível quando um rapaz se apaixona por uma mulher com idade um pouco mais avançada que a dele, demonstrando, para Freud (1910, p. 174), que:

A libido permaneceu ligada á mãe por tanto tempo, mesmo depois do início da puberdade, que as características maternas permanecem impressas nos objetos amorosos que são escolhidos mais tarde, e todas elas se transformam em substitutos facilmente reconhecíveis da mãe.

Portanto, na teoria de Freud (1910), a nossa energia libidinal ou também chamada pelo autor de investimento [1] é liberada para o amor maternal na infância quando cria um elo, entre mãe e filho, e é esta energia que fará parte da nossa busca pelo parceiro da vida adulta, quando retornaremos a esta fase inconsciente para viver aquele amor e cuidado que ganhamos na nossa infância.

Podemos, neste momento, explicar o que Freud coloca como sendo um objeto em suas obras, e que neste trabalho aparecerá em grande número. Neste caso recorremos aoVocabulário de Psicanálise, em que Laplanche e Pontalis (2001, p. 326) explicam de forma pontual este termo utilizado como sendo um:

[…] correlativo da pulsão, é aquilo em que e por que esta procura atingir a sua meta, isto é, um certo tipo de satisfação. Pode tratar-se de uma pessoa ou de um objeto parcial, de um objeto real ou de um objeto fantasístico. Enquanto correlativo do amor (ou ódio), trata-se então da relação da pessoa total, ou da instância do ego, com um objeto visado também como totalidade (pessoa, entidade, ideal, etc.) (o adjetivo correspondente seria “objetal”).

Desta forma, compreendemos o significado da palavra “objeto” utilizada nas obras de Freud.

2.1 A Identificação

A identificação, segundo Freud (1921), pode ter um caráter de dois valores desde o início, pois a criança pode ter um sentimento enorme de ternura, identificando-se com seu objeto amado; ou o contrário, identificando-se com quem ela não ama. Ocorre, nesses casos, que o ego copia parte desta pessoa que não é amada. Vale lembrar que nos dois casos a criança não se identifica por completo com o outro e sim só com um traço deste, ou seja, uma identificação parcial, o que ocorre de maneira diferente e patológica quando um indivíduo se identifica com o todo de outra pessoa, não formando desta forma um eu pessoal (FREUD, 1921).

Referente a esse aspecto, Nasio (1999) fala da identificação parcial, em que o indivíduo se identifica com traços visíveis do outro, incorporando a maneira de andar, passa a se comunicar através de gestos como a pessoa idealizada, ou até na vida adulta exerce, por exemplo, a profissão de seu pai, logo, há uma identificação inconsciente.

Para Laplanche e Pontalis (2001, p. 226), a identificação é o “processo psicológico pelo qual um sujeito assimila um aspecto, uma propriedade, um atributo do outro e se transforma, total ou parcialmente, segundo o modelo desse outro.” E, segundo Nasio (1999, p. 80), “um sujeito se identifica com alguém ou alguma coisa quando ele se confunde com esse alguém ou essa coisa […].”

Conforme Nasio (1999), essa identificação de querer ser o outro, de assimilar o outro, é um desejo inconsciente, podemos demonstrar em pequenos atos esta intenção, mas nem sempre nos damos conta disso, geralmente são as pessoas a nossa volta que têm esta observação. Desta forma, podemos citar o menino que, quando pequeno quer ser como o pai, a menina usa as roupas da mãe, o menino pega a mala de trabalho do pai, ou seja, eles querem incorporar traços visíveis da figura paterna, materna ou seus substitutos.

O sujeito pode identificar-se não só com a parte integrante do outro que seja visível, mas também “com as emoções, sentimentos, afetos, desejos e até fantasias, ocultas na vida interior desse outro.” (NASIO, 1999, p. 82).

Para que a identificação seja parte integrante e normal do desenvolvimento da criança, Bee (1997) sugere que, tanto o ambiente, quanto os cuidados passados para esta, sejam pertinentes a cada fase, e que satisfaçam às suas necessidades primordiais relevantes ao período em que está vivendo, mas estes cuidados não podem ser exagerados e nem diminutos. A criança necessita de um pai presente para que se identifique com este e de uma mãe que a proteja e que ao mesmo tempo não seja tão sedutora com a criança, ou seja, a mãe não deve disponibilizar um cuidado extremo para a criança, impondo, também, quando necessário, limites para sua formação.

Se este ambiente inicial for alterado, não haverá um processo nas condições normais para o desenvolvimento sadio da criança, o que fará com que a estrutura do indivíduo cresça com resíduos de problemas não resolvidos e necessidades que não foram totalmente satisfeitas.

Para explicar a importância dos sentimentos e comportamentos repassados para a criança no início de sua vida, Rappaport (1981a, p.32) cita:

Diante de sentimentos de inadequação, o sujeito internaliza características de alguém valorizado, passando a sentir-se como ele. A identificação é um processo necessário no início da vida, quando a criança está assimilando o mundo. Mas permanecer em identificações impede a aquisição de uma identidade própria.

 Para Nasio (1999), a identificação é um ato de amor, em que só vai ocorrer a identificação quando tiver um envolvimento entre as pessoas, uma ligação de amor. O autor cita uma história de intensa identificação entre pai e filho, que, após muitos anos, o filho deixa a agricultura para ser definitivamente um marinheiro, e subitamente seu pai o lembra de que, quando jovem, este era seu sonho e, sem saber disso, o filho, quando adulto, vai realizar inconscientemente um sonho que era da infância de seu pai.

Segundo Rappaport (1981b), a identificação pode ser evolutiva, pois a criança vai adquirir em seu comportamento um valor de reforço secundário, sendo este a capacidade da criança auto-reforçar a repetir o comportamento do pai ou da mãe. Pode ocorrer também a identificação defensiva, quando a criança está sendo ensinada a viver em sociedade, e as exigências pessoais internas dos pais são passadas para o filho, a criança então forma sentimentos de punição, agressão, raiva, gerando um conflito interno e interiorizando estes padrões, formando, assim, um traço de caráter rígido.

O vínculo inicial com a mãe começa no processo de amamentação, com o seio e na incorporação do alimento na primeira mamada que é repassado pela mãe. Segundo Rappaport (1981a), é neste momento da incorporação, em que as simbolizações ainda não existem, que a criança sente ter a mãe dentro de si. Como há uma falta de simbolização, a criança precisa de algo que seja concreto para que ocorra a incorporação e assim sucessivamente ocorra a identificação que, neste caso, será o leite e o seio da mãe.

Para Freud (1921), os primeiros objetos sexuais da criança são as pessoas que as alimentam e que as cuidam, logo será sua mãe ou quem a substitua. Este tipo de relação é chamado de anaclítico ou de ligação, ocorre no primeiro momento em que a criança investe sua energia libidinal no objeto e não no ego.

Para Costa (2007), a identificação é a expressão de um laço emocional com o objeto identificado. A pessoa se identifica com características que se tornaram importantes para ela. Estas identificações podem ser projetivas, quando nos identificamos ou projetamos algo no outro que são questões nossas; e podem ser introjetivas, quando adquirimos algo do outro que valorizamos muito, sendo assim duas formas de usar o objeto que amamos.

Segundo Nasio (1999, p. 83):

A identificação é o movimento ativo e inconsciente de um sujeito, isto é, o desejo inconsciente de um sujeito apropriar-se dos sentimentos e fantasias inconscientes do outro. Essa definição, traduz bem, as turbulências e os movimentos muito vivos das forças íntimas que circulam entre dois seres e os aproximam sem que eles saibam.

Em sua definição acerca da identificação, Nasio (1999) diz que esta age no inconsciente do indivíduo sem que ele mesmo perceba que está acontecendo quando se identifica com alguém, o que mostra a força que este mecanismo tem, fazendo ligações na vida do indivíduo sem o seu conhecimento consciente dos fatos.

Segundo Freud (1914), ocorrem processos diferentes em relação ao homem e à mulher no processo de escolha do objeto. Para o autor, o amor objetal é propriamente masculino, pois a libido é sempre masculina e sempre ativa. O primeiro objeto de amor será a mãe a quem ele irá investir sua libido.

Para o gênero feminino, Freud (1914) diz que, na puberdade, o desenvolvimento dos órgãos genitais intensifica o próprio narcisismo da criança, quando ocorre um super investimento de energia libidinal, que é até prejudicial depois para um desenvolvimento normal e uma escolha de objeto sadio na vida adulta da menina, visto que, na maioria das vezes, essas mulheres futuramente vão amar com muita intensidade a si mesmas e, quando houver escolha de parceiro, seu interesse maior será no amor que estes dedicarão a elas. Assim estas não darão ao homem a mesma intensidade de amor, mais tarde a escolha de objeto desta mulher poderá ser uma escolha narcísica ou de ligação.

Esta escolha de amar o outro seguindo o tipo narcísico é encontrar no outro ela mesma, ou o que ela foi um dia ou o que ela gostaria de ser, buscando um ideal de ego idealizado no outro, o que pode acarretar em uma identificação patológica. No tipo de escolha de objeto de ligação, o indivíduo poderá procurar por alguém que o alimentou ou protegeu na sua infância, sua mãe, seu pai, ou os seus respectivos substitutos (FREUD, 1914).

2.2 Complexo de Édipo

Segundo Laplanche e Pontalis (2001, p. 77), o complexo de Édipo é denominado como sendo:

Conjunto organizado de desejos amorosos e hostis que a criança sente em relação aos pais. Sob forma dita positiva, o complexo apresenta-se como […] o desejo da morte do rival que é a personagem do mesmo sexo e desejo sexual pela personagem do sexo oposto. Sob a forma negativa, apresenta-se de modo inverso: amor pelo progenitor do mesmo sexo e ódio ciumento ao progenitor do sexo oposto.

Para Freud (1924), a criança, neste caso do gênero masculino, começa a ter interesse por seus órgãos genitais, sendo logo repreendida por este fato. Na manipulação do seu órgão sexual, a criança sente muito prazer e demonstra explicitamente tal comportamento. Assim, ela internaliza a repressão que é imposta pelos outros como uma ameaça, entendendo que, se continuar com tal atitude, pode perder seu órgão sexual. Esta repressão ganha mais força quando o menino visualiza a falta do objeto amado na menina, seu órgão sexual, sendo que se continuar com tais atitudes um dia também poderá perder o seu.

Surge então o conflito em investir sua energia nesta parte genital ou investir libidinalmente no objeto parental, geralmente aqui o menino dá as costas ao Édipo para iniciar a fase de identificação, pois sabe que não poderá investir sua energia para conquistar a mãe, podendo ser repreendido. Passa agora a introjetar a autoridade dos pais, dando início assim a formação do superego, que impossibilitará a criança de regredir e tentar novamente aplicar sua energia no objeto parental, provocando o incesto (FREUD, 1924).

Conforme Rappaport (1981a), por volta dos 4 a 5 anos, a libido está investida nos genitais, começando o processo do complexo de Édipo. Neste momento, o menino começa a ver o pai como um rival possuidor da mulher dos seus desejos, a mãe, portanto, tenta assemelhar-se a ele para conquistar o amor desta mulher.

Na teoria de Freud (1924) sobre o complexo de Édipo, a criança tem duas possibilidades de satisfazer seu desejo. Uma será ativa, em que ela vai utilizar sua fantasia para se colocar no lugar do outro e obter por completo o que tanto almeja, ter relação com sua mãe ou com o pai, o menino vai colocar-se no lugar do pai e ter relação com a mãe, e a menina colocar-se no lugar da mãe para ter a relação com o pai. Outra será forma passiva, assumindo o lugar da mãe ou do pai e, assim, sendo amada pelo sexo oposto a quem ela considera como um rival.

A organização do complexo de Édipo feminino acontece de maneira um pouco diferente que o masculino. A primeira diferença é que a menina não identifica a falta do pênis como um órgão sexual, ela entende como se o tivesse como parte integrante de seu corpo e que lhe foi tirado. No entanto, não aceita essa perda e, com o tempo, vê que não terá seu falo de volta. Então, a menina guarda inconscientemente este sentimento, ajudando a lhe estruturar, para mais tarde, construir uma relação e ter o filho deste homem que dará o presente que ela perdeu, o falo [2] (FREUD, 1924).

2.3 A Identificação no Complexo de Édipo

Freud (1940) inicia com as observações sobre a busca da pessoa que fazemos na vida adulta para nos casarmos ou nos identificarmos. Segundo o autor, buscamos “fenômenos acessórios ou atos introdutórios” para iniciar uma relação, sendo estes, outro corpo para desejá-lo ou tocá-lo. Todos esses pequenos estados dão seu aparecimento na fase em que começa a evolução corporal, e no aumento do desejo sexual, a puberdade, mas a forma para que aconteça a busca está sendo impressa muito antes no inconsciente de cada indivíduo.

A identificação do menino no primeiro momento inicia com a sua mãe, afinal é ela que mostra para ele o primeiro modelo de papéis, mas essa identificação deve mudar da mãe para o pai. A desidentificação, termo usado por Tyson e Tyson (1993), é muito importante para o menino, pois, ocorrendo este processo, ele se identifica com o pai, sendo para ele como um ideal adorado, esta identificação inicial começa a se manifestar como uma forma de proteção contra seus desejos incestuosos em relação à mãe e também contra desejos hostis projetados em relação a seu rival, o pai.

Freud (1924) apresenta, em sua teoria, que o menino deve escolher o caminho para aplicar seu amor, este poderá ser sua mãe ou o seu falo. Ocorrendo um conflito na criança, então esta começa primeiro a fazer identificações, isso para a sua própria sobrevivência, pois observa que seu pai é maior que ele e que, neste momento, não poderá conquistar o amor de sua mãe, abandonando aquela energia que empregaria a ela e introjetando a autoridade do pai para formar seu superego.

Freud(1921), diz que a idealização e identificação do menino com seu pai, é a preparação do caminho para a chegada do complexo de Édipo.

Agora, já no complexo de Édipo, a ligação do menino com sua mãe é diferente, ele quer ser mais masculino com relação à mãe, quer sair da ligação de mãe e filho para ter uma relação exclusiva com ela. Para Tyson e Tyson (1993, p. 220), “o movimento para a fase edípica não implica em mudança exterior do objeto amado, mas uma mudança nas fantasias sobre o objeto e uma mudança de papel em relação ao objeto amado.” Os impulsos sexuais em direção à mãe são elevados e é, neste momento, que o menino quer ter um pênis igual o do pai e substituí-lo, para ficar com ela.

Conforme Freud (1940), os meninos começam a manipular o pênis já com intenções de usar seu órgão em alguma atividade que envolva sua mãe, ao passo que percebem a ameaça de perder seu pênis e ter a visão de que a menina já perdeu o seu falo eleva sua angústia a níveis tão altos que ocorre um rompimento com o Édipo, investindo agora sua energia para os estudos, iniciando o período de latência.

Para Tyson e Tyson (1993), o desenvolvimento da fase edípica da menina acontece no estado de reconhecimento da castração. Com isto, volta-se com raiva para a mãe e a vê como uma rival, isto pelo fato de sua mãe não ter lhe dado um pênis como deu para o menino. Em seu pensamento, ela entende isso como uma rejeição, ela não foi a escolhida de sua mãe. Ocorre aqui a importância da ligação e do sentimento que a menina formou com sua mãe na fase pré-edípica, se ela resolveu sua fase diádica com sua mãe e formou um sentido valorizado de ser feminina, ao invés de se sentir inferior em relação àquela mulher, sua mãe.

Vale ressaltar que esta fase é muito importante para que a menina consiga passar para o complexo de Édipo mais bem resolvida com seus sentimentos em relação à mãe, pois agora ela vai voltar toda sua energia para conquistar o pai. Desta forma terá fantasias em relação ao pai, quer ser desejada e conquistar seu amor, logo, nesta fase, não tem medo de perder o amor de sua mãe, pois resolveu bem a fase diádica que antecedeu seu complexo de Édipo. Para que o complexo de Édipo feminino ocorra normalmente, a menina deverá mais tarde voltar-se a identificar com sua mãe, temendo perder seu amor (TYSON; TYSON, 1993).

 Tyson e Tyson (1993) dizem que o progresso do complexo de Édipo feminino implica a consideração que a menina vai fazer de seu pai vendo este como objeto de amor puro e incondicional, construindo, assim, fantasias em torno da figura do pai fálico.

 As turbulências que transformam o comportamento da menina, em relação aos seus desejos para com o pai, formam sentimentos de hostilidade para com sua mãe, interferindo na visão de identificação com a mãe ideal e no prazer de identificar-se com esta pessoa do mesmo sexo. Contanto que estas manifestações contra a mãe não sejam tão violentas, a menina conseguirá de forma normal separar-se da mãe e ao mesmo tempo identificar-se com ela, formando assim sua individualidade e um prazer em ser feminina (TYSON; TYSON, 1993).

Para Freud (1940), a menina tenta fazer tudo o que o menino faz, começa a manipular seu órgão sexual e fazer investidas sexuais para o pai. O próprio autor expõe que, no momento em que a menina percebe não possuir um falo como o menino, ela se reconhece numa posição inferior com seu clitóris, ou seu pequeno pênis, e começa a ver que não tem um falo e não terá um pênis igual ao do menino, surgindo então o desapontamento. Esta angústia de não ter um falo como o menino marca o início do complexo de Édipo para a menina.

3. Método

A presente pesquisa será realizada de forma qualitativa, procurando entender, desta forma, questões particulares da busca do indivíduo, buscando identificar como ocorre a busca do parceiro amoroso para se unir e formar uma família. Sendo assim, a pesquisa não pode ser medida ou quantificada (MINAYO, 1994).

Já, para Richardson et al. (1999, p. 90), a pesquisa qualitativa pode ser entendida como “a tentativa de uma compreensão detalhada dos significados e características situacionais apresentadas pelos entrevistados, em lugar da produção de medidas quantitativas de características ou comportamentos.”

Os dados apresentados foram analisados através da análise de conteúdo, que, segundo Richardson et al. (1999), é utilizada para melhor compreensão das discussões. Desta forma pode-se com mais facilidade captar os momentos mais importantes das falas dos entrevistados.

O processo para a criação das categorias para análise final do trabalho foi baseado no objetivo principal da pesquisa. Para as discussões foram encontrados quatro categorias, sendo elas: categoria relação com o pai, categoria relação com a mãe, categoria relação do casal e categoria semelhança pais e cônjuge. Entendemos que através da análise de conteúdo é possível entender todo o contexto de suas escolhas e não apenas o momento feito destas, através deste método conseguimos extrair os momentos mais importantes da fala dos participantes, como também interpretar suas vivências, sua realidade atual sendo contrastado com suas realidades vividas na infância.

O instrumento utilizado para a pesquisa foi a entrevista semi-estruturada, cujas as questões foram elaboradas de acordo com a pesquisa exposta na fundamentação teórica.

A entrevista semi-estruturada é assim denominada por Cunha (2000) como a forma mais apropriada para ser utilizada quando o entrevistador tem um conhecimento apropriado de seus objetivos, também sabe do que é necessário para atingir seu objetivo.

O critério para a seleção dos participantes foi por conveniência, e os escolhidos para as entrevistas foram três homens e três mulheres, todos casados, com idade de 20 a 40 anos. Entendemos que é nesta faixa etária que as pessoas começam a traçar planos para seu futuro próximo. Como diz Olds e Papalia (2000), é nesta fase, que temos definidos nossas escolhas de vida, temos planos concretos do que queremos, principalmente no que se refere a relacionamento amoroso.

 Após o contato feito com os participantes, foi apresentado o TCLE (Termo de Consentimento Livre e Esclarecido), que continha todas as informações referentes ao trabalho, e após o consentimento dos entrevistados, foi realizado as entrevistas, que foram todas gravadas e logo após transcritas.

4. Apresentação e Discussão dos Resultados

4.1 Categoria Relação com o Pai

Estão agrupadas, nesta categoria, as unidades de análise que constam a relação de pai e filha, seu relacionamento, afetividade na relação do pai com a filha e como o complexo de Édipo se mostra evidente em todas as entrevistas. Elas colocam os pais numa posição de superioridade, não vendo defeitos em seus comportamentos, propriamente sendo ídolos de suas vidas, pois o consideram como sendo seu ideal de homem, seu ideal de amor.

A relação de pai e filha é sempre intensa, principalmente nos anos em que inicia, como já citamos anteriormente, o complexo de Édipo, mas o amor que é desejado pela menina não poderá ser realizado com este homem, deixando-a com raiva, ou seja, ódio deste indivíduo que foi seu objeto de amor, fantasiado até o momento. Com esta revolta e hostilidade, torna a matar internamente aquele a quem ela tanto amou, possibilitando assim tornar-se uma mulher e ser livre internamente para encontrar um amor que seja verdadeiro e não apenas uma fantasia.

No complexo de Édipo feminino, a menina vai ver seu pai como objeto de amor, construindo, ao longo desse processo, fantasias em torno da figura fálica que seu pai representa em seu inconsciente (TYSON; TYSON, 1993).  Segue um trecho da entrevistada C.

– “Ele sempre foi meu ídolo, admiro ele, respeito ele… o pai, ele tem defeitos, ele tem muitas falhas, mas eu não consigo enxergar essas falhas nele sabe, para mim parece a perfeição de pai, eu respeito muito o que ele fala e ele influencia muito minhas decisões… eu confio muito na posição dele.” Mulher C- 33 anos.

Podemos observar no relato da entrevistada C, onde ela expõe o que admira em seu pai, a “posição dele”, sendo isto a lei, a superioridade dele. Observamos que isto pode de alguma maneira ter influenciado algumas escolhas em sua vida. Quando adulta, se tornou uma policial, incorporando ela mesma a ordem e a lei, neste passo, não foi preciso ela encontrar um homem que fizesse a lei, mas sim ela mesma internalizou aquela posição em que o seu pai detinha, ou seja, não precisou mais que ele ditasse as leis, as regras, e sim ela mesma pode agora, enquanto mulher adulta, fazer isso. Em seu relacionamento, o marido também é policial, mas mesmo assim, como ela mesma coloca em sua fala, foi ela que assumiu a relação, a posição de homem dentro da casa, ou seja, podemos chamá-la de mulher fálica, assumiu a posição do homem, o que podemos observar, também, na fala abaixo.

– “O (esposo)…. assim tem uma aura feminina sabe, ele gosta de discutir a relação, gosta de fazer comida, ele gosta de cuidar, e eu já, sabe quando as coisas são ao contrário, eu assumir o papel de homem e ele assumir o papel de mulher.” Mulher C- 33 anos.

Já a entrevistada A conta um pouco de como era sua relação com o pai, como ela sentia a falta do “colo do pai”, do amor perdido daquele que ela tanto amou, tanto que sua voz modificou-se no momento da entrevista, remetendo a uma época distante em que ela ainda era uma menininha e fantasiava sua relação com este que era simplesmente seu pai. Mas, para ela, em sua imaginação, ela detinha uma mulher num corpo de menina, querendo conquistar o amor incondicional deste homem fálico.

– “ […] quando era criança, era aquela coisa da colo né, sabe até os dez anos tive o colo do meu pai, aí depois que termino o colo [fala tipo criança] não tinha aquela coisa de abraço, beijo, era tudo mais distante assim né.” Mulher A- 28 anos.

Foi possível, através dessa entrevistada, observar como era sua relação com o pai e, após um tempo em que não ganhou mais o carinho deste, o vê de uma maneira como se estivesse distante de si, sem abraços ou beijos. O pai desta entrevistada ainda estava presente, ainda lhe dava carinho, mas não da forma que ela queria, desta maneira cessou todo aquele amor que ela achava que ele lhe dava.

4.2 Categoria Relação Com a Mãe

Nesta categoria estão agrupadas as unidades de análise onde consta a relação de mãe e filho.

Para Bee (1997), a criança necessita de uma mãe presente, que sirva de referência, desta forma ela não deve desenvolver um cuidado extremo, exagerado para este indivíduo, que vê nesta pessoa sua própria imagem e necessita dela para crescer e formar seu ego, portanto não pode ser muito sedutora, assim impondo limites no momento certo para a sua formação.

Na entrevista feita com o homem C, perguntei como foi à relação com a mãe na infância, e por um momento ele deixou escapar em sua fala algo que me chamou a atenção, quando ele estava falando de como foi exemplar o cuidado de sua mãe para ele, um ato falho irrompeu, e sua fala retornou para o fato dos cuidados dele com sua mãe e não como deveria ser a resposta de sua mãe para ele.

– “[…] olha acho que o normal de mãe para filho, sem muito exagero, ah dentro do que é, do que se procura, do que se espera de um filho, acho que é um, que ela tenta me transpassar né, olha bem, bem próximo do excelente, entre minha mãe e eu.” Homem C- 40 anos.

  Analisando o dado apresentado na fala do entrevistado acima, podemos perceber que esta foi uma parapraxia ou ato falho, sendo uma manifestação do id, conforme cita Freud (2006, p.18), “elas podem ocorrer em qualquer altura quando, em certas circunstâncias especiais, a vigilância do ego é afrouxada ou desviada e um impulso inconsciente (devido também a circunstâncias especiais) é subitamente reforçado.”

Neste caso, o fato do entrevistado lembrar de momentos tão especiais vividos em sua infância com relação a sua mãe, o ato falho se mostrou presente no momento em que ele fala de como eram os cuidados da mãe com ele. Podemos verificar, neste lapso de memória, que ele, como filho, sempre deu para sua mãe muito prazer, e fez esta se sentir uma mãe realizada por ter um filho exemplar, logo, sendo isso que sua mãe esperava dele como filho e também o que ele esperava em troca de sua mãe.

A ligação da mãe com o filho é sempre forte, principalmente, no início onde está o começo da ligação mãe-filho, os cuidados, carinhos, e ainda, o momento certo de chegar ao filho são passos muito importantes para a criança formar um senso de união com esta mulher e com todas as futuras ligações que ele terá pela vida.

O entrevistado A também mostra uma ligação forte com a mãe, o que podemos observar na fala abaixo, pois como ele mesmo diz, “eu até tinha duas mães”, pois na sua infância ele convivia também com sua tia desde pequeno morando em sua casa. Podemos levantar a hipótese de que isto possa tornar sua ligação com a esposa mais forte ainda.

– “Éh eu até tinha duas mães, uma é uma tia minha que não casou e ela ficou morando sempre junto com meus pais… eu não passo um dia que eu não ligo, falo um pouco com a mãe, com minha tia, final de semana deu uma folga eu to lá.” Homem A- 36 anos.

Até mesmo hoje, depois de casado, sua ligação com a família, as mães, é muito forte, como ele diz, “minha mulher já é mais desmamada”, se tiver que sair, viajar ou morar em outro lugar ela vai, mas ele fica doente se tiver que fazer isso e ficar longe da família.

– “[…] ela é menos ligada né a família do que eu, por exemplo se tem que mora em Florianópolis e ficar três meses sem ver a família dela ela vai, é tranquilo, eu fico doente no terceiro dia… ela é mais desmamada risos…, ela é mais tranquila nesse sentido, eu não sei o que é melhor e o que é pior, porque eu sofro quando eu vou, quando saio de casa assim e tenho que ficar alguns dias, três, quatro dias longe, acabo sofrendo né.” Homem A- 36 anos.

Já em relação ao seu casamento, a sua ligação com a esposa não poderia ser diferente, como citado acima, seguindo os passos ao longo de sua construção na infância, os cuidados que ganhou de duas mulheres, logo a ligação que ele tem com sua esposa é bem forte, como ele mesmo admite que “geralmente é mais a mulher.” Neste caso ele quis se referir ao fato de que a mulher tem mais apego ao homem, essa ligação mais forte com o homem, mas no caso dele é o inverso.

– “Eu [tose] eu sou bem mais, é eu talvez sou muito sei lá sabe, junto a ela, ali grudado esse tipo de coisa, geralmente é mais a mulher [e ela com vc], ela é mais na dela, mais na dela…” Homem A- 36 anos.

A tosse apresentada pelo entrevistado A nos leva a pensar como se isto fosse uma resistência que ele demonstra ao falar sobre o assunto, a “tosse” pode denotar uma dificuldade que ele tem em admitir que é apegado à mulher.  Isso ainda parece ser difícil para o homem, assumir que é ligado ou dependente afetivamente da mulher, mais difícil ainda se o homem for dependente financeiramente, principalmente ocorre isto com aqueles homens que receberam uma educação rígida e machista na infância, quando foram ensinados com barreiras para não demonstrar essa igualdade de sentimento, gostos e de seres humanos iguais.

No que se refere a admitir a relação íntima da sua mãe com o pai, foi mais complicado para este entrevistado, pois, conforme segue abaixo, ele começou a falar o que lembrava da infância e começou a tossir, não conseguia dar continuação a sua fala. Podemos analisar esta reação como uma resistência, pois na infância seu objeto de desejo é a mãe, e quem a possui é o pai, esta resistência demonstra uma forma de defesa para o ego, pois em sua fantasia ele não aceita que o pai possua sua amada, assim cria inconscientemente este mecanismo para defendê-lo desta realidade, ele não conseguirá ter a mãe e a relação da mãe com o pai vai ser inevitável.

[e na intimidade] – “Pouco, eu via muito pouco, até porque eu acho o pai de ser mais tradicional, eu acho que ele tá (tosse, tosse), ele tal, às vezes, talvez na nossa frente (tosse, tosse, tosse), me desculpe, eu to saindo de uma gripe, então eu vejo mais assim, mas assim de, de, de preminho na nossa frente é o beijo, o abraço coisa assim, muito pouco, e confesso que eu não tenho lembrança.” Homem A- 36 anos.

Nesse trecho da entrevista, a forma do entrevistado em falar que seria um “preminho” para ele ver os beijos e abraços que o pai dava em sua mãe, nos impressiona visto identificarmos aí como a fantasia infantil é repleta de momentos marcantes para a criança. Neste caso, as cenas do cotidiano dos pais servia como prêmio para ele (a criança), dando suporte para ele se imaginar como se estivesse dando um beijo em sua amada, a mãe.

Freud (1924), em seu texto sobre A dissolução do complexo de Édipo, diz que a criança utiliza o mecanismo da fantasia para se colocar no lugar do outro e obter a satisfação que tanto almeja através da imaginação, neste caso sendo reforçada pela experiência dos pais na sua frente.

Ressaltamos, ainda, o fato do entrevistado A dizer que não tem lembrança desses momentos, visto ser proveniente do recalque, explicado por Freud (1905, p.164) como uma amnésia infantil:

[…] durante esses anos, dos quais só preservamos na memória algumas lembranças incompreensíveis e fragmentadas, reagiamos com vivacidade frente às impressões, sabíamos expressar dor e alegria de maneira humana, mostrávamos amor, ciúme e outras paixões que então nos agitavam violentamente, e até formulávamos frases que eram registradas pelos adultos como uma boa prova de discernimento e de uma capacidade incipiente de julgamento. E de tudo isso, quando adultos, nada sabemos por nós mesmos.

Portanto, podemos compreender, de uma forma clara, a possível amnésia da criança ocorrida em fase adulta dos eventos de sua infância.

4.3 Categoria Relação do Casal

Aqui estão agrupadas as unidades de análise em que consta a relação do casal.

Conforme Olds e Papalia (2000) é em torno dos 20 a 40 anos que começamos a fazer as ligações pensando no futuro, em ter uma relação duradoura, ter família, se vamos querer ter filhos ou não. É neste período, em que a maturidade pessoal já ocorreu, que o indivíduo, se tiver e desejar ter uma relação, terá a consciência das responsabilidades e de que a troca será mútua entre os dois, visto que cada um saberá o que se quer da relação e saberá dar o que o outro necessita.

Muitos casais, tanto o homem como a mulher, mas em geral, é mais a mulher que tem a fantasia de que o casamento será para sempre, que o amor vai durar eternamente, não que isso não possa ocorrer, até pode, mas deve acontecer uma construção diária para que este processo se desenvolva e não acabe.

No relato da entrevistada C, que segue abaixo, quando perguntada sobre o que mudou na relação depois do casamento, a resposta, com a fala arrastada, sem ânimo, em que ela se referiu de seu casamento, nos dá a impressão que ela esperava algo a mais, alguma mudança após o casamento e que não ocorreu.

– “Depois de assinar o papel e coisa, olha não mudou em naaada, absolutamente em nada, do jeito que nós éramos antes e agora assim, não tem o que dizer de ter mudado alguma coisa a gente continua se dando bem.” Mulher C- 33 anos.

E a entrevistada A demonstra, em sua fala, a monotonia de sua relação, que podemos analisar mais como uma repetição do casamento de seus pais, ou ainda um indício de que pode haver a identificação em sua relação.

“O que tu me pergunto (riso)… depois de um tempo acaba ficando meio morno né…. na verdade, tipo ele tá muito acomodado na parte da mulher sair, eu vou fazer e acaba tudo num canto, as vezes eu mesmo tenho que toma a iniciativa.” Mulher A -28 anos.

Para Olds e Papalia (2000), as pessoas tentam buscar uma repetição na sua vida adulta, buscando a mesma felicidade e união de seus pais se assim o tiveram. Observamos a entrevista feita com o entrevistado C, a possível identificação feita com o relacionamento de seus pais na escolha de sua parceira para a união futura.

[relacionamento esposa] – “A gente se dá bem, a gente tem uma boa conversação, a gente se entende bem né, pensamos de forma parecida na maioria das coisas, é dá para botar um 9,5 aí na relação.” [relacionamento pai e mãe] –“Nunca tiveram muito atrito, sempre se deram bem, eu acho que se gostavam muito, eles eram bem ligados, sempre juntos e isso aí, eu acho que foi uma coisa boa que eles passaram para os filhos, eles na verdade se completavam.”  Homem C- 40 anos.

No caso da entrevistada A, que segue abaixo, também observamos tais aspectos. Ela fala de uma possível repetição com a monotonia da relação de seus pais, pois, com os anos de casamento, seu marido já tinha atitudes que se assemelhavam ao comportamento de seu pai.

– “Éh mais na parte afetiva até acho que é meio, meio que igual, [você observa alguma semelhança com o seu pai no comportamento do esposo], pois é agora que tu falo, é me enganei nem havia me tocado risos… se deixar [o esposo] fica o fim de semana todo deitado no sofá assistindo televisão e meu pai é a mesma coisa, fica em frente a televisão e não sai para fazer nada.” Mulher A -28 anos.

4.4 Categoria Semelhança Pais e Cônjuge

Nesta categoria falaremos da semelhança que os entrevistados encontraram em seus parceiros com relação aos seus pais.

A teoria freudiana nos diz que tendemos a buscar alguém que se assemelhe aos nossos pais ou quem os substituiu para formarmos nossas relações amorosas. No momento que estamos a procura de alguém, não estamos pensando em encontrar alguém com semelhanças do pai ou da mãe, apenas acontece, somos atraídos por um olhar, um sorriso, uma amizade, até que encontramos a pessoa certa e pronto, a ligação foi feita, as semelhanças sempre vão existir e há, também, ligações em que nos identificamos com o oposto de nossos cuidadores. Refletindo esses apontamentos, apresentamos o trecho da entrevistada C.

[tu tinhas colocado em mente conseguir alguém que desse mais afetividade que o pai] – “Não… só queria alguém que me desse carinho, mas não, não fiz essa ligação com meu pai não, mas eu tinha isso na minha cabeça de forma inconsciente sei lá, alguma coisa estava me dizendo, mas não que eu sabia assim conscientemente né.” Mulher C- 33 anos.

Na entrevista feita com o entrevistado B, perguntamos se para ele teve alguma influência a ligação com a sua mãe, na escolha de sua parceira amorosa? Ele começa a falar e leva um susto, já se desculpando dizendo que não tinha entendido a pergunta feita. Podemos analisar este comportamento como sendo outro ato falho, lapsos da memória do entrevistado, como apareceu em algumas das entrevistas acima. O entrevistado B, no primeiro momento, não toma conhecimento do que foi falado, logo após ele responde de forma súbita que sua esposa é praticamente sua mãe.

–  Nenhuma, ah a assim, o oque, que, desculpa eu entendi errado, a semelhança, se tem semelhança, é, é praticamente a mesma coisa que a, a minha mãe…A minha mãe, éée seca e dura e a [esposa] é o mesmo jeito, ela é reta ao ponto, nesse sentido as duas são iguais.” Homem B- 32 anos.

Para Freud (1910), nossa energia libidinal está na infância ligada à mãe quando esta cria um elo entre mãe e filho. Na fase adulta, essa energia será investida na busca do nosso parceiro amoroso, já que inconscientemente retornaremos a fase infantil em que ganhávamos todo aquele amor e cuidado da nossa mãe, gerando uma procura por alguém que se assemelha a esta que deu tanto cuidado e carinho. Já o entrevistado C avalia a união com sua esposa de forma mais consciente, acreditando que as uniões futuras podem vir a ser baseadas em seus cuidadores da infância.

– “Eu acho que tem sim porque na verdade acho que dentro do homem ele sempre busca alguma coisa próximo do que a gente já tem, a gente tem medo do, do que é muito diferente, do que é muito estranho e acho que a minha esposa tem muita coisa da minha mãe sim.” Homem C- 40 anos.

Conforme Bee (1997), antes de iniciarmos um relacionamento, passamos por etapas de escolha, sendo que nesse processo avaliamos as características do indivíduo, idade, se as atitudes em relação à família, ao sexo, aos filhos são compatíveis ou não, se os planos de vida são semelhantes com os seus, até decidirmos se esta é a pessoa certa ou não para nos unirmos a ela. Observamos, então, a importância do papel de nossos pais, tanto para a nossa formação, quanto para nos identificarmos e termos futuramente uma união amorosa.

Encontramos, contudo, como cada um dos entrevistados se identificaram com seus pais, como muitos se encontraram surpresos com a descoberta de que seus parceiros tinham semelhanças com os seus cuidadores da infância. A maneira como eles se relacionaram e foram criados deixaram marcas em suas vidas, e ainda, como estes vínculos tão fortes foram sendo criados ao longo de sua evolução. Puderam analisar que seus relacionamentos possivelmente foram baseados em suas relações infantis com aqueles que disponibilizaram todo cuidado, carinho e atenção, formando sua estrutura psicológica para mais tarde poder se identificar com o outro e ter uma relação amorosa.

5. Considerações Finais

“A identificação é o movimento ativo e inconsciente de um sujeito […]. Essa definição traduz bem, as turbulências e os movimentos muito vivos das forças íntimas que circulam entre dois seres e os aproximam sem que eles saibam.” (NASIO, 1999, p. 83).

Este tema que nos propomos a escrever apresentou algumas dificuldades, pois as teorias freudianas nas quais nos embasamos para escrever são complexas, mas de total importância para chegar a este final, uma vez que foi feito com muita dedicação, em busca de elucidar, se possível, detalhes deste enigma que ocorre na vida de todos os indivíduos humanos e que amam. Assim, este trabalho tentou esclarecer algumas questões referentes a relacionamentos e algumas dúvidas que muitos de nós temos, tais como: “porque ele(a) é tão parecido com meu pai ou mãe.” Vale ressaltar que este trabalho não se encerra aqui, pois todos nós que estamos em constantes transformações e buscamos fazer ligações devemos estar sempre em busca de saber mais sobre como ocorrem as ligações, porque escolhemos este indivíduo ou o porquê escolhemos alguém para formar família, ter filhos, será que não somos tão auto-suficientes que procuramos alguém para estar ao nosso lado, pois sozinhos nem todos conseguem ficar?

O que o trabalho procurou investigar é como acontece o processo de escolha do parceiro amoroso e, diante disso, o que motiva o indivíduo a buscar esse parceiro. Para tentar compreender esta questão, partimos da hipótese da teoria freudiana que explica que todos nós somos movidos por uma força interna e que também, por influência de nossos cuidadores, escolhemos parceiros semelhantes ou opostos aos nossos pais ou substitutos.

Sendo assim, somos movidos por impulsos que fazem com que o parceiro escolhido seja uma substituição de nossos cuidadores, mas o que devemos analisar nesses relacionamentos é como esta identificação é assimilada e desenvolvida pelo indivíduo. Portanto, através de um processo terapêutico e conhecimento de si mesmo, estas pessoas encontram subsídios internos para ver de outra forma suas relações, e assim para que a relação seja construtiva para ambos.

Entretanto, chegando ao final de mais esta etapa prazerosa de nossa formação, observamos que este trabalho tentou elucidar como as identificações nos movem para escolhermos determinada pessoa. Acreditamos, no entanto, que parte de nós, parte da nossa experiência de identificação com nossos pais interferiram nesse processo e tentamos colocar sucintamente nestas páginas, visto que partimos dessa experiência para realizar este estudo. Fica o desejo de que as investigações sobre relacionamentos, sobre o amor, sobre família continuem, pois são estes os sentimentos, atitudes e valores que jamais devem se extinguir.

“É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar para pensar na verdade não há… sou uma gota d’água, sou um grão de areia, você me diz que seus pais não entendem, mas você não entende seus pais…você culpa seus pais por tudo, isso é absurdo, são crianças como você, o que você vai ser quando você crescer?.” (VILLA-LOBOS; RUSSO; BONFÁ, 2010).

BEE, Hellen. O ciclo vital. Porto Alegre: Artmed, 1997.

COSTA, Gley P. O amor e seus labirintos. Porto Alegre: Artmed, 2007.

CUNHA, Jurema A. Psicodiagnóstico-V. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2000.

FREUD, Anna. O ego e os mecanismos de defesa.  Porto Alegre: Artmed, 2006.

FREUD, Sigmund. (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: _______.Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 7.

________. (1910). Contribuições à psicologia do amor. In: _______. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 11.

________. (1914). Sobre o narcisismo: uma introdução. In: _______. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 14.

_______. (1921). Psicologia de grupo e a análise do ego. In: _______. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 18.

_______. (1924). A dissolução do complexo de Édipo. In: _______. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 19.

_______. (1940). O esboço da psicanálise. In: _______. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 23.

LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean B. Vocabulário de psicanálise. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

MINAYO, M. C. S. (Org). Pesquisa social: teoria, método e criatividade. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.

NASIO, Juan-David. O prazer de ler Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.

OLDS, Sally Wendkos; PAPALIA, Diane E. Desenvolvimento humano. 7. ed. Porto Alegre: Artmed, 2000.

RAPPAPORT, Clara Regina (Coord.). Psicologia do desenvolvimento: teorias do desenvolvimento: conceitos fundamentais. São Paulo: EPU, 1981a. v. 1.

RAPPAPORT, Clara Regina (Coord.). Psicologia do desenvolvimento: a idade escolar e a adolescência. São Paulo: EPU, 1981b. v. 4.

RICHARDSON, Roberto J. et al. Pesquisa social: métodos e técnicas. 3. ed. São Paulo: Atlas, 1999.

TYSON, Phyllis; TYSON, Robert. Teorias psicanalíticas do desenvolvimento: uma integração. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.

VILLA-LOBOS, Dado; RUSSO, Renato, BONFÁ, Marcelo. Pais e filhos. Disponível em: <http://letras.terra.com.br/legiao-urbana/22488/>. Acesso em: 15 out. 2010.

Tags: