A ESPINHOSA RELAÇÃO ENTRE INDIVÍDUO E CULTURA

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January 3, 2017

*Por Samara Megume Rodrigues

Num dia de frio de inverno um grupo de porcos-espinhos se aconchegou bastante, para se esquentarem mutuamente e não morrerem de frio. Contudo, logo sentiram os espinhos uns dos outros, o que os fez novamente se afastarem. E quando a necessidade de aquecimento os aproximava de novo, repetia-se o segundo mal, de modo que eram impelidos de um sofrimento para o outro, até acharem uma distância média que lhes permitisse suportar o fato da melhor maneira. (Freud, 1921, p.56)

Essa parábola foi escrita originalmente por Schopenhauer e citada na íntegra em nota de rodapé por Freud em Psicologia de Massas e análise do Eu (1921). Em Freud ela é usada como alegoria para afirmar que toda relação sentimental íntima e prolongada entre pessoas contém afetos de aversão e hostilidade, que apenas devido ao recalque não podem ser percebidos.

Entendendo essa passagem como metáfora da relação indivíduo-cultura, temos de início dois impossíveis: o frio e o espinho. Pois o frio aparece como impossibilidade de sobreviver sozinho (uniam-se para não morrer), o espinho representa as dificuldades de se viver junto (separam-se para não furar uns aos outros). Tal como os porcos-espinhos, existiria para o sujeito em sociedade um meio-termo, em que ele possa viver em harmonia com a cultura?

Seguindo o pensamento freudiano, podemos encontrar as duas respostas: sim e não. A compreensão do vínculo incompatível entre sujeito e cultura não é linear e homogênea e a maneira como cada analista lê e responde a essa inicial incompatibilidade leva a diferentes posicionamentos clínicos, que se desdobram em determinada ética, estética e política da sua prática.

Freud(1930) define a cultura como a somas das realizações que distingue homens e animais, cuja finalidade seria proteger o homem da natureza e regular as relações deles entre si. Assim, ela compreende tanto o desenvolvimento material (instrumentos), quanto o simbólico: normas, leis, moral. O sujeito necessita da cultura, para se constituir como humano. Somos seres sociais, porém não sem dor e sacrifícios.

Nossa civilização repousa, falando de modo geral sobre a supressão dos instintos” (Freud, 1908, p.173). Para conseguir viver em sociedade cada indivíduo precisa renunciar uma parte da sua onipotência e da agressividade, sendo que dessa renuncia surgem tanto os sintomas/patologias psíquicas, quanto o acervo cultural de bens materiais e simbólicos.

Primeiramente, Freud revela em “Moral Sexual Civilizada” (1908) que a neurose não é apenas uma formação do inconsciente, mas produto da intersecção deste com a modernidade. O processo civilizatório doma as pulsões em impulsos de meta inibida, ou seja, eles são “anestesiados”, incorporados às grades do decoro social. Mas a repressão não ocorre sem um preço alto – o empobrecimento subjetivo/erótico/de prazer. A neurose acaba sendo a moeda paga para sair da barbárie. Portanto, [..] “se o neurótico possui sintomas, ele é também o sintoma vivo da cultura” (Assoun, 2012, p.15).

Neste período de seu desenvolvimento teórico Freud(1908) ainda se encontra dentro do pensamento iluminista, no paradigma da ciência moderna. Nesse contexto, ele irá enunciar a hipótese de que a psicanálise pode oferecer uma resposta resolutiva para o conflito indivíduo-cultura, podendo assim, aplacar os males gerados pela moral sexual civilizada (Freud, 1908). Essa hipótese será questionada na segunda tópica, sendo quebrada junto com o abandono da crença na racionalidade moderna e no iluminismo.

 Totem e Tabu (1913), Psicologia de Massas e análise do eu (1921), O Futuro de uma ilusão (1927), são trabalhos que problematizam as origens da cultura e da moralidade, a metapsicologia das instâncias ideais (normas, leis), o sentimento de culpa resultante dos laços de aculturamento, bem como o original desamparo do ser humano – Freud aprofundará a compreensão de que o ser humano não concebe a própria história isoladamente, necessitando sempre do vínculo afetivo do outro para viver e se desenvolver.

Em o Mal-estar na Cultura (1930), o impasse maior para a constituição de uma ordem social não será mais a oposição simplista entre exigências de trabalho pulsional que afligem o sujeito e as limitações impostas pela cultura, mas o próprio trabalho silencioso da pulsão de morte manifesta na agressividade, na força destrutivo-disjuntiva que existe em todo indivíduo. Inicialmente a vida é dispersão, o aparelho precisa realizar um intenso trabalho para capturar os processos psíquicos, ligando-os (pulsão de vida/princípio de prazer). A vida precisa ser conquistada, pois inicialmente ela tenderia ao inorgânico, exigindo do sujeito grande esforço para se manter e se desenvolver. Desta forma, a crença na cura do sofrimento em sociedade se mostrará insustentável. Pois dentro do sujeito existe uma força originária que o impele a destruição. Freud (1930) então quebra com as pretensões de uma harmonia possível entre indivíduo e sociedade, pois nada nos curará do desamparo e de nossa agressividade. Não existem fórmulas para aplacar os conflitos humanos. A ciência não pode curá-los. Cada um precisa construir as próprias saídas, cuidar dos espinhos, pois o ser humano é singular: “Não há conselhos que sirva a todos, cada um precisa experimentar a maneira particular pela qual pode se tornar feliz” (Freud, 1930).

Em Considerações atuais sobre a Guerra e a Morte (1915) Freud abandona a pretensão de colocar a psicanálise como salvadora dos conflitos da humanidade. Aliás, ele faz críticas ao próprio saber científico, entendido como promessa ilusória. Todo saber é falho. É justamente nesse ponto que subjaz a verdade do sujeito: onde ele se perde, tropeça na linguagem, onde o sujeito não pensa, ele é. O campo dos lapsos é o espaço da verdade do inconsciente, para além da razão.

Se existe estabilidade na situação dos porcos-espinhos ela é provisória e instável. Onde há vida, há conflito. Viver é se movimentar, insistir e resistir no e diante do desamparo. A morte e a doença, ao contrário, são paralisia. Nessa compreensão, o objetivo da psicanálise não seria de adaptar o sujeito, resolver suas desordens, abafando seus desejos.  Entre indivíduo e cultura não há distância intermediária pré-fixada que sirva de modelo.

Na alegoria de Schopenhauer a existência dos espinhos pode ser vista como uma barreira contra a simbiose – a fusão completa com o outro – mas ela também diz fundamentalmente do mais áspero que há em nós: a sexualidade e agressividade, bem como os caminhos pelos quais foram construídos seus destinos. Daí a complicação: como propor um modelo de harmonia sendo que tudo irá depender dos espinhos e do seu poder de incomodar os outros?

A psicanálise não pode ser um código para aplacar as incertezas humanas. Mas sim, um instrumento de crítica aos códigos. Guiado por essa compreensão, o ofício da interpretação é mover o sujeito, no sintoma ou na transferência, do lugar daquele que repete para o lugar daquele que cria. Para isso, o sujeito tem que renunciar à tendência, demasiada humana, de buscar amparo em substitutos do pai (moralidade), movimento que gera vínculos espinhosos, calcados em um supereu de culpa e mortificações.

Freud iniciou seu percurso com um Projeto e terminou com um Esboço. A Psicanálise para ele não foi uma teoria dogmática, pois a todo o momento problematizava-a. Sabia-a falha, incompleta. Ela não dá a receita para cada sujeito. Ela precisa ser criada e redescoberta a cada sessão. Nessa aventura, só não nos tornamos temerários, se a prática estiver bem fundamentada em uma teoria. O inconsciente permanece como eterna pergunta, onde sobra sempre um impossível de dizer. Esse vazio, pode ser uma ameaça de encontro com o nada, mas também é potência. Ele pode vir a ser (e é) o índice de criação, o que nos move. Do caos pulsional à palavra, do adverso narram-se os versos, ampliamos os lados: con-versamos! A análise abre caminhos, erotiza a vida, movimenta o circuito pulsional. Psicanalisar é inacabar.

*Samara Megume Rodrigues é psicóloga clínica, mestrando em Psicologia (PPI/UEM), idealizadora e colaboradora da Roda de Psicanálise

Referências Bibliográficas:

ASSOUN, P, L. Freud e as Ciências Sociais: Psicanálise e Teoria da Cultura. São Paulo: Edições Loypla, 2012.

FREUD, S. (1908). Moral Sexual Civilizada e Doença Nervosa Moderna. In:____Obras Psicologicas Completas de Sigmund Freud. Vol.IX. Rio de Janeiro: Imago, 2006.

FREUD, S. (1913) Totem e Tabu. In___Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol.XIII. Rio de Janeiro: Imago, 2006.

FREUD, S.(1915) Considerações atuais sobre a Guerra e a Morte. In:___Introdução ao Narcisismo, Ensaios de Metapsicologia e Outros textos. (P.C, de Souza, Trad.) São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

FREUD, S. (1921). Psicologia de massas e análise do eu. In:_______. Psicologia de massas e análise do eu e outros textos. (P.C, de Souza, Trad.) São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

FREUD, S. (1927) O Futuro de uma IlusãoIn:___Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol.XXI. Rio de Janeiro: Imago, 2006.

FREUD, S. (1930). O mal-estar na cultura. (R. Zwick, Trad.). Porto Alegre: L&PM, 2011.