A DESPEDIDA DA INFÂNCIA, SUAS DORES E SEUS LUTOS

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January 3, 2017

por Aline Sanches*

No final da infância, a personalidade encontra-se relativamente estável: há autonomia em certas funções, as capacidades intelectuais e cognitivas desenvolvem-se progressivamente; a criança constrói crenças sobre o mundo onde os pais são as principais referências e a relação de dependência com estes é uma condição natural altamente satisfatória. Com a puberdade, modificações corporais se manifestam incontrolavelmente, acompanhadas de impulsos sexuais e agressivos que irrompem no mínimo contato com o outro. O recém-adolescente passa a estranhar a si mesmo, assim como estranhar as sensações que dele se apossam. Os imperativos do mundo externos também começam a se modificar e a exigir novos modos de convivência. Inicia-se uma fase de confusão, instabilidade e conflitos devido às perdas infantis. Lenta e dolorosamente, o adolescente caminha em direção à maturidade, oscilando entre progressos e regressões, ora responsável, ora totalmente dependente, ora carinhoso, ora agressivo. Seu corpo assemelha-se cada vez mais ao de um adulto, mas seu comportamento permanece infantil. Por não controlar e não conseguir produzir sentidos sobre as mudanças que ocorrem em seu corpo, o adolescente sente-se impotente e ansioso e defende-se através da intelectualização, que se expressa por meio de desejos de reformas políticas, sociais ou religiosas. Assim, compensa a insegurança relacionada ao corpo através de ideais de transformações do mundo, sem que necessariamente suas ações caminhem neste sentido e sem sentir-se agindo de forma contraditória quanto ao seu discurso e prática. Isto é possível porque sua imagem corporal está confusa, como se corpo e mente estivessem em diferentes ritmos de desenvolvimento. No entanto, estas experimentações intelectuais aos poucos vão se confrontando com a realidade e integrando-se, permitindo a aceitação do novo esquema corporal e a elaboração do luto pelo corpo infantil.

Apesar das expectativas e desejos de crescimento, é com tristeza que o adolescente despede-se dos tempos da infância. Há muito mais pesar pelo que está se perdendo do que alegria pelo advir, misterioso e incerto. Segundo Aberastury e Knobel (1981, 1983), as transformações corporais e psíquicas em que o adolescente encontra-se imerso se assemelham ao estado de luto: luto pelo corpo, pelos papéis e identidade infantil e pelos pais da infância.

A turma tem uma importância fundamental nesta fase: é um alívio descobrir no outro as mesmas estranhas transformações; os sentimentos de vergonha, medo, culpa e inferioridade diluem-se, ao mesmo tempo em que há uma discriminação dos adultos e a afirmação de uma identidade adolescente. A família e a turma tornam-se instâncias sociais rigidamente separadas, frente às quais o adolescente comporta-se de diferentes maneiras. Assim, enquanto a turma passa a ser um espaço de vazão das fantasias e ideais, dos impulsos amorosos e agressivos, a família continua sendo a maior representante do princípio de realidade, onde as oscilações de humor e de comportamento são incompreendidas e repreendidas. A separação entre estas duas instâncias é positiva, pois permite a experimentação de outros papéis e identificações. No entanto, pode levar a uma busca exagerada pela diferenciação dos pais e a adesão cega a qualquer forma identitária pregada pela turma.

Gradualmente o adolescente desvincula-se da relação de dependência com os pais, inicialmente de forma confusa e contraditória. Exige que seus pais sustentem a sua independência no mundo, o que é uma grande fonte de conflito. Decepcionado, afasta-se e isola-se, para elaborar a perda dos pais da infância. Surgem sentimentos de revolta que interferem ou mesmo interrompem a comunicação com os pais em alguns casos. Também os pais precisam elaborar a perda definitiva de seu filho criança. Muitos não aceitam o crescimento de seus filhos e agem inviabilizando qualquer possibilidade de autonomia do adolescente, “vivendo cada originalidade sua como sinal de dispersão e mesmo de desagregação familiar” (EIGUER, 1989, p.79). Assim como o adolescente inicialmente busca uma desvinculação de forma confusa e contraditória, também os pais podem exigir a independência dos filhos de forma ambivalente.

O desenvolvimento da vida e o crescimento impõe dores incontornáveis… Como sugere Drummond no poema Verbo Ser, difícil mesmo é conciliar CRESCER e SER.

Que vou ser quando crescer?

Sou obrigado a? Posso escolher? 

Não dá para entender. Não vou ser. 

Vou crescer assim mesmo.

Sem ser Esquecer.

*Aline Sanches é Psicóloga (UNESP/Assis), Psicoterapeuta (CRP-08/19679), Doutora em Filosofia (UFSCar) e Psicanálise (Paris 7).