A Crise Ético-Religiosa Contemporânea e a Constituição do Sujeito – Ético-Religioso – no Pensamento de Freud

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March 9, 2015
A Crise Ético-Religiosa Contemporânea e a Constituição do Sujeito – Ético-Religioso – no Pensamento de Freud

images (2)A sociedade contemporânea experiência um certo amortecimento ético em todos os seus setores. A religião, objeto de nosso estudo, já não consegue dar um respaldo positivo às questões postas. A crise ética à qual estamos imersos tem seu agravante desde Auschwitz. Após esse desastroso evento ficou-se ainda mais difícil falar sobre a formação do sujeito, o que acarretou uma série de crises – que tem suas raízes no campo ético – na sociedade [1]. Propor uma formação do sujeito ético é a tarefa mais difícil na contemporaneidade, haja vista que todas as instituições, com as quais poderíamos contar para essa árdua tarefa, encontram-se em crises, como já foi dito anteriormente; e o pior é quando uma para se eximir joga para a outra a responsabilidade pela formação do sujeito. O certo é que nem a família, nem a escola, nem mesmo a religião conseguem dar respostas plausíveis à problemática existente e que se agrava a cada dia.  E o resultado dessa crise é observável em toda a aldeia global. Ora, estamos experienciando um certo retorno à animalidade, e isso se explica pelos altos índices dos mais variados tipos de violência, física, moral, sexual, como também por um consumismo exacerbado, pelo comércio do corpo, tudo isso pela busca de uma satisfação imediata do prazer.

No campo do sujeito individual estamos vivenciando a “Era de Narciso” em seu agravante, onde tendemos a nos esconder em um mundo irreal. E falar em ética para uma sociedade extremamente egocêntrica, voltada à vivência de um amor-próprio, é algo minuciosamente difícil. Para não incorrermos em um erro ainda mais agravante faz-se necessário ir a fundo na problemática, sem superficialidade nos discursos, buscar no íntimo da subjetividade humana razões para se vivenciar uma ética, pautadas no desejo, que é inerente a sua existência.

No que concerne ao discurso ético-religioso, evidenciar a crise existente e apontar caminhos para a constituição do sujeito ético na atualidade talvez seja a maior contribuição que se possa oferecer a este sujeito que aparentemente parece não ter perspectivas de futuro. Para tanto, é preciso compreender como se deu o processo constitutivo da religião e quais as inferências desta para a vida do homem. Para esse itinerário, Freud pode nos ajudar no sentido de compreender a religião e a ética como algo inerente à civilização, evento que tira o homem da animalidade e o torna um ser sociável.

Aqui, pretendemos restringir o nosso discurso e discorrer, num primeiro momento, acerca da crise ética na religião, evidenciado por Silveira, quando diz que “ao entrar na modernidade a ética e a religião entraram em crise, uma vez que na sociedade da técnica não há mais lugar para a tradição” [2] e, depois oferecer um cabedal de reflexões concernente à constituição do sujeito ético.

O problema da cultura, portanto dessa religião e dessa ética, provindos de uma tradição, já foi evidenciado por Freud, em “O Mal estar na Civilização”, onde nosso autor contesta esse nosso processo civilizatório, embora der nuances duvidosos acerca da possibilidade de que seríamos mais felizes se abandonássemos tudo e retornássemos ao estado primevo [3]. O preço que o homem paga em nome de um projeto civilizatório é muito alto. Sérgio Paulo Rouanet nos explica melhor:

Para Freud, esse mal-estar, Unbehagen, é o desconforto sentido pelo individuo em conseqüência dos sacrifícios pulsionais exigidos pela vida social. No plano erótico, ele abre mão do incesto em benefício da sexualidade exogâmica, da “perversidade polimorfa” em benefício da genitalidade, e da promiscuidade em benefício da monogamia. E abdica da gratificação dos seus impulsos agressivos [4].

Freud não somente evidenciou, como também constatou que a promessa civilizatória fracassou por não corresponder mesmo com os anseios do homem, ou aquilo a que se propunha. Herrero aponta para quatro vergonhas político-morais que afetam gravemente a nossa existência, como conseqüência da falsa promessa do pensamento iluminista, quais sejam:

a fome e a miséria que conduz à inanição e a morte de um número cada vez maior de seres humanos e de nações; a tortura e a contínua violação da dignidade humana; o crescente desemprego e disparidade na distribuição de renda e riqueza; a ameaça de destruição da humanidade pelo perigo, de uma guerra nuclear e pelo desequilíbrio ecológico [5].

No que diz respeito à religião, para Freud, a idéia de Deus surge da necessidade do homem em satisfazer seu desejo primário. Esse desejo primeiro encontra-se na sua relação com a mãe que sustinha suas necessidades e dava segurança e que foi cortada pelo pai. O pai a partir desse momento passa a ser objeto de ódio, por um lado, e por outro, passa a ser objeto de imitação. Quando depara-se com a fragilidade deste, e há também com este um corte – que é morto no complexo de Édipo – ele cria algo que lhe substitua, Deus, na imagem de um Pai, todo-poderoso.

Numa perspectiva mais ampla, tanto a civilização, como a religião são “males” necessários, pois sem elas o homem era movido inteiramente pelos instintos, por sua animalidade primária. Os homens, eles mesmos mataram o pai primevo e criaram, para substituí-lo o Pai todo-poderoso para preencher a lacuna deixada pelo primeiro, neste sentido chegamos à origem da religião, apontada por Freud como uma realidade vinculada ao evento totêmico, junto com ela também nasce a civilização, o “sujeito ético”. A religião nasce de uma culpa, de um vazio, de uma ausência, jamais preenchível. Por isso que Freud diz que a religião é uma ilusão, fruto de uma infantilidade humana [6].

A idéia de religião está mesmo intimamente ligada a norma, que provoca muitas seqüelas no sujeito. É a normatização do sujeito, que o torna um “ser de máscaras”, onde o sujeito submete-se a determinadas regras para inserir-se, ou sentir-se aceito por determinado grupo, o que de certa forma contribui para que a subjetividade do sujeito fique de certa forma inativa. A própria idéia de “socialização” já traz em si, a idéia de “dissociação” do sujeito enquanto ser. Em outras palavras, o sujeito nega a si mesmo, e muitas vezes adere uma imagem, um personagem, que não diz nada do seu verdadeiro EU.

O desafio é pôr fim às máscaras, as quais o sujeito se submete e dar espaço para que o sujeito em sua verdadeira subjetividade se mostre, o que de certa forma parece ser impossível, pelo fato de que o sujeito não se forma apenas mediante a fatores internos.

Vivemos em uma cultura da “inautenticidade”, e essa inautenticidade perpassa todas as áreas ou instituições que formam o conjunto da sociedade, de um modo particular insere-se numa realidade subjetiva e inconsciente do sujeito. Em se tratando da autenticidade do sujeito, numa perspectiva psicanalítica, podemos nos apoiar em Frankl, citado por Valfredo Tepe

O homem, pode pois, ser ‘autêntico’ naquilo em  que é inconsciente; por outro lado, porém, é ‘autêntico’ tão somente quando não está impulsionado, tão somente quando é responsável. O autêntico ‘ser humano’ começa, portanto, somente ali onde já não existe um ser impulsivo e termina ali onde finaliza o ser-responsável. O autêntico ser-humano só pode, pois, realizar-se ao deixar o homem de ser impulsionado pelo ‘Id’, passando a ser um Eu que toma decisões [7].

Partindo dessa constatação de Frankl, a nossa pesquisa pretende analisar a estrutura psíquica elaborada por Freud, buscando nas idéias de Id, Ego e Super-ego, uma compreensão mais elaborada do sujeito, que tem sua fonte no inconsciente.

Alguns questionamentos nos são pertinentes: É possível constituir-se eticamente sem a intervenção de uma instituição, como a religião, por exemplo? Quais as possibilidades? Quais os meios necessários para constituição do sujeito ético na contemporaneidade? Qual a contribuição de Freud e da Psicanálise para a ética do sujeito na atualidade?

O sujeito é jogado em uma instância cultural que lhe parece superior, e é esta quem o forma, quem o socializa. A religião cumpre também esse papel, mas não é a única via, nem a mais favorável ao sujeito. A idéia central é partir do próprio sujeito em sua subjetividade profunda e buscar nesta, as razões para constituir-se eticamente sem precisar de frustrar seus desejos mais profundos. Fazer com que o homem tome consciência do mal-estar na cultura e partindo daí busque as razões subjetivas para um agir ético, realizando seus próprios desejos com o mínimo de normas e o máximo de segurança e eficiência comunitária, como aponta Vincenzo Di Matteo, eis o grande desafio que até agora nenhuma sociedade conseguiu vencer satisfatoriamente [8].

Uma via que resolva de forma favorável a crise ética, é a que leve em consideração o sujeito como construtor ético, partindo de sua subjetividade, considerando o mesmo que é ser de desejo, e buscando nesse desejo as razões que fundamente o agir ético humano em consonância com os seus co-partícipes, pois entendemos que um discurso ético, que não leve em consideração o sujeito está fadado ao fracasso. Fazer com que o homem tome consciência de sua própria verdade e de sua liberdade, e como sujeitos livres e filhos do desejo, exerçam sua capacidade de amar.

Entendemos que sem uma empreitada ética, o homem tende à barbárie. E é isso que presenciamos no cotidiano, violência em todos os graus possíveis, contra o homem, contra a natureza, enfim, contra o nosso ethos, enquanto morada. Sygmunt Bauman aponta para um reencantamento,

o reencantamento pós-moderno do mundo traz a oportunidade de encarar a capacidade moral humana sem reboços, tal como é realmente, sem disfarces e sem deformações; de readmiti-la no mundo humano vindo de seu exílio moderno; de restaurá-la em seus direitos e sua dignidade; de apagar a memória da difamação, o estigma deixado pelas desconfianças modernas [9].

 Finalmente, mais que uma crítica as influências da religião, sob um prisma ainda que negativo, como nos é oferecido por Freud, o que se pretende é, sobretudo, mostrar ao sujeito a sua capacidade de escolhas e torná-lo consciente de suas limitações, que não se encerram com o seu pertencimento a qualquer instância, ainda que se lhe pareça superior. A auto-aceitação é o melhor caminho para um sujeito que quer constituir-se ético e que se compreende como um ser com os outros. Deste modo, a via psicanalítica tem por finalidade desenvolver no homem a capacidade de amar e de conviver consigo mesmo e com os outros. Assim sendo, chegaremos a uma ética, que não é repressora, mas que pode ser pautada pelo desejo, enquanto desejo pelo outro, sem que fira o sujeito, como se tem feito até aqui.

O presente artigo pretende discutir A Constituição do Sujeito Ético-religioso no Pensamento de Freud. Do pensamento de Freud extrairemos as bases para a compreensão antropológica e psíquica da origem da religião, como também suas contribuições acerca da descoberta do inconsciente que legitima até certo ponto sua crítica à “ilusão religiosa”. Com isso, pretendemos oferecer ao sujeito uma justa compreensão do que estar posto, fazendo encontros e desencontros entre religião e ética, dando possibilidades do homem refletir-se enquanto sujeito ético independente dos ditames da religião. Entendemos que o grande desafio para o sujeito pós-moderno é reencontrar-se com sua subjetividade, sem ter que se ferir tanto, como ocorreu todo esse tempo em que o homem decidiu por ser um “ser religioso”.

2. A Crise Ética na Contemporaneidade

A questão Ética sempre esteve presente em toda a história da Filosofia. Existe uma forte tradição filosófica que defende que a verdadeira moralidade humana seria aquela que está completamente livre de nossos instintos animais, prevalecendo somente a nossa parte racional. Kant é um importante expoente deste pensamento, por isso nos apoiaremos neste pensador para melhor ampliar nosso conhecimento acerca da temática proposta.

A crise ética provém e varia de acordo com cada contexto em que se encontra a sociedade da qual ela circunda. Segundo Rocha, “sempre haverá crise, quando a tradição se encontrar em conflito com o progresso, ou vice-versa” [10]. É natural porque a cada dia descobrem-se novos valores que substituem outros tidos como ultrapassados ou que não correspondem com as necessidades do tempo vigente. Ou ainda de acordo com o autor acima citado, “a ética entra em crise quando as particularidades de seu ethos cultural e histórico não encontram mais uma justificação racional na tradição que as vinha sustentando e legitimando” [11].

A crise atual talvez se der pela não correspondência de alguns valores éticos e a não aceitação de outros, por parecerem contrários aos já existentes, ou por serem opostos à tradição. Reporto-me aqui às questões pertinentes da atualidade como a situação da homossexualidade, que tanto no campo social como no religioso, sofre ferrenhas contraposições em nome de uma ética moralista. Isso se dá, sobretudo, no campo religioso, que desconsidera, no campo ético, muitas vezes, a subjetividade individual.

A crise ética e religiosa é visível, no entanto, paralelo a essa situação temos um certo crescimento exacerbado de religiões, sobretudo cristãs. Pensamos ser interessante fazer uma investigação para melhor entender por que se a religião é a depositária dos valores morais e éticos, se cresce a cada dia em números, por que não consegue dar um respaldo positivo a problemática, ou ainda, se ela mesma está em crise por que consegue crescer a cada dia?

3. A Origem da Religião para Freud

Em O Futuro de uma ilusão, O Mal-estar na civilização, Moisés e o Monoteísmo, Totem e Tabu, Freud vai dar uma atenção toda peculiar à problemática da religião. Para Freud a religião não passa de uma mera ilusão infantil. É dessa ilusão que provém e é essa quem a sustém. Freud não só vai mostrar como se dá a ilusão, como também aponta as saídas para o sujeito. Talvez o principal papel da Psicanálise, ancorada pela ciência e pelo “deus Logos”, seja dar ao sujeito a capacidade de adaptar-se a realidade, independente da religião.

O nosso autor tenta nos mostrar que a religião surge como uma resposta imediata a uma ausência deixada pela a perda do pai, como veremos adiante. Mas há também de se notar que a religião busca alicerçar-se sob aquilo que é mais subjetivo no homem, o desejo. É justamente por isso que Freud a denuncia como sendo uma ilusão, porque esse desejo humano é insaciável e é falso querer pretender preencher esse vácuo por intermédio de algo tão indiferente à própria natureza do homem (retomo aqui a idéia de religião enquanto agência “moralista” que se propõe a domar o homem).

A religião, é claro desempenhou grandes serviços para a civilização humana. Contribuiu muito para domar os instintos associais. Mas não o suficiente. Dominou a sociedade por muitos milhares de anos e teve tempo para demonstrar o que pode alcançar. Se houvesse conseguido tornar feliz a maioria da humanidade, confortá-la, reconciliá-la com a vida, e transformá-la em veículo de civilização ninguém sonharia em alterar as condições existentes [12].

A própria religião se autodenuncia, quando propaga a construção de um outro Reino, que se inicia ainda aqui na terra. Tal propagação diz claramente de sua ineficiência responsal quanto aos anseios íntimos do homem. Se ela, de fato, fosse uma resposta não se precisaria propagar um porvir como garantia, pois esse reino que ela propaga já estaria implícito no seu discurso. Acusa Freud, “não é segredo que os sacerdotes só puderam manter as massas submissas à religião pela efetivação de concessões tão grandes quanto essa à natureza instintiva do homem” [13].

A religião nasce juntamente com a civilização, e junto com ambas nasceu também a Lei, a norma e é essa lei ou norma quem as legitima. Nasceram com a pretensão de “civilizar” ou socializar o sujeito. No entanto, o percurso que fizeram todo esse tempo não foi o mais favorável ao sujeito, pois o desconsidera completamente. Não há espaço para o sujeito em sua subjetividade, esse é o mal da civilização.

Segundo Rouanet,

a neurose é o prolongamento intrapsiquico de um processo societário baseado na distorção do processo de comunicação. Ao mesmo tempo, as visões do mundo legitimadoras dessa distorção derivam sua força de sua maior capacidade de satisfazer fantasmas individuais, cuja fonte é a própria repressão pulsional […] A tradição cultural pode ser vista como a sedimentação de fantasias projetivas, destinadas a gratificar, substantivamente os desejos proibidos [14].

Neste sentido, a religião ganha corpo, em se tratando de uma instituição formada por indivíduos ressequidos em seus desejos, que uma vez reprimidos buscam outras formas de satisfazê-los, ainda que seja de forma distorcida, como propõe a religião.

Valfredo Tepe, ancorado pelo pensamento freudiano nos diz que “a religião era-lhe uma “neurose coletiva”, um fenômeno passageiro na evolução da Humanidade que será sucedido e suplantado pelo domínio universal da ciência”[15]. E “a neurose começa quando se lança mão de uma solução inautêntica, tangencial, do conflito”[16].

A religião ainda pode encontrar sua fonte na angústia, que se origina de uma falta, ausência e do conflito entre as energias instintivas e as normas exigentes do ambiente. A angústia o deparar-se do ser com sua finitude. É o descobrir-se enquanto criatura frágil.

A angustia básica nasce da sensação de rejeição, de uma frustração maciça de carinho e afeto. Esta se agrava, exacerba-se pelo sentimento de culpa, oriundo da percepção de conflito entre desejos instintivos e as exigências do ambiente, respectivamente do Superego. O próprio Freud concede ao sentimento de culpa um papel decisivo na formação das neuroses [17].

A fonte primária da angústia provém de uma ausência, que foi gerada no evento totêmico. Para Freud a cultura e a religião nascem de um ato criminoso, segundo nos é relatado no “mito da horda primeva”, onde os irmãos por se sentirem indignados com o Pai, pelo fato deste usufruir todas as mulheres do clã, matam o pai. O sentimento de culpa e a ausência deixada pelo pai, portanto a insegurança leva-os a fazerem entre si um pacto, daí surge a Lei (simbólica), no lugar do pai, como garantia da sociabilidade, da convivência. É importante notar, portanto, que a ausência não se encerra com a pretensa Lei. Desse assassinato coletivo do Pai da horda, comemorado com a refeição totêmica surge à organização social e o fundamento da cultura.

 O parricídio e o devoramento de um pai despótico levam Freud a observar que ‘o pai morto se torna mais forte que o vivo”, pois no lugar de uma lei tirânica do pai onipotente surge um acordo entre os irmãos culpados, ou seja, cria-se uma lei simbólica, à qual todos se sujeitam, “o poder do indivíduo é substituída pelo poder da coletividade [18].

No mito da horda observamos que há uma culpa, proveniente de uma ausência deixada pelo pai. Nesse contexto de ausência podemos entender o que seja o desejo, pois este se remete sempre a uma falta [19]. A ausência do pai se perpetua na história da humanidade e é dessa que se fundamenta a religião.

Assim, seu anseio por um pai constitui um motivo idêntico à sua necessidade de proteção contra as conseqüências de sua debilidade humana. É a defesa contra esse desamparo infantil que empresta suas feições características à reação do adulto ao desamparo que ele tem de reconhecer – reação que é, exatamente, a formação da religião [20].

O maior ideário de Freud foi seu pensamento acerca da dimensão psíquica inconsciente do homem. Ele conseguiu colocar em xeque toda uma tradição acerca do sujeito, e descentralizar esse mesmo sujeito. Ora, para nosso autor, o sujeito se revela através de atos falhos, de chistes, insights, sonhos, etc. Com esse enunciado, Freud marca o descentramento do sujeito. O que diz ser o “ser” do sujeito não é apenas aquilo que lhe parece consciente, mas sim e sobretudo, os registros inconscientes. Por isso de ele dizer que “o ego não é senhor de sua própria morada”. Os produtos provindos do inconsciente são sempre enigmáticos, e apresentam-se através de atos, falas ou imagens inesperados.

É na teorização da segunda tópica de Freud, ocorrida entre os anos 1920 e 1923 que temos uma melhor esquematização com uma qualificação do inconsciente em três instâncias: o id (o isso), o ego (o eu) e o superego (supereu).

O id é entendido como sendo uma espécie de reservatório pulsional desorganizado, caótico, dele provém as paixões indomadas que “sem a intervenção do eu, seria um joguete de suas aspirações pulsionais e caminharia inelutavelmente para sua perdição” [21].

O ego é a ponte entre as forças do id e do superego. “Ele é encarregado de funções importantes e, em sua relação com o sistema perceptivo, estabelece a ordenação temporal dos processos psíquicos e os submete à prova de realidade. Intercalando os processos de pensamento, consegue adiar as descargas motoras e domina os acessos à motilidade” [22]. O papel central do ego é filtrar as energias antagônicas do id e do superego e torná-las consciente, ou recalcando-as sem causar danos ao sujeito. Tepe esclarece melhor:

O Eu consciente, para nós a parte mais nobre e importante da personalidade total do homem, é para Freud algo acessório, secundário, produto do Id ao se chocar com o mundo externo. Na teoria de Freud, o Eu aparece ainda demasiadamente amarrado e diminuído. Não dirige, mas serve. Serve a três senhores exigentes: o Id, o mundo exterior e o Superego, procurando, num malabarismo entontecedor, contentar a todos [23].

O superego é a norma, a lei, portanto a proibição. É a repressão aos desejos, sobretudo. Ele é manifestado indiretamente à consciência, sob forma da moral, como um conjunto de interdições e deveres, e por meio da educação, no seu sentido mais amplo, levando em consideração todas as agências formativas, entre elas a religião, objeto de nosso estudo, que tem a pretensão de formar um “eu ideal”, isto é, uma pessoa moral, boa e virtuosa. É com essa instância que podemos dialogar com o imperativo categórico de Kant, vejamos o que Freud diz: “O supereu – a consciência em ação no eu – pode então tornar-se dura, cruel e inexorável contra o eu que está a seu cargo. O Imperativo Categórico de Kant, é assim, o herdeiro direto do Complexo de Édipo” [24]. De acordo com Rudge,

o vínculo do supereu com o imperativo categórico se localiza no ponto em que a lei moral kantiana opera à revelia de qualquer sentimento ou tendência, de qualquer consideração pelo prazer, pela simpatia e pelo amor. É apenas por dever que se cumpre a lei moral[25].

4. Conclusão

A ética e a religião tem seu fundamento no desejo, este por sua vez encontra sua raiz no inconsciente do homem e é dele que provém o agir humano. Este é expressado através de pulsões: Eros (pulsão de vida) e Tânatos (pulsão de morte), mas não se limita a elas, vai além, pois, na verdade o desejo é sempre uma ausência e como já vimos, uma ausência impreenchível, uma “falta-desejante” [26].

O sujeito de desejo se constitui a partir de um conjunto de elementos, mas o que dele se exterioriza em acontecimento só é possível a partir da castração simbólica que instaura o desejo como falta que procura ser preenchida com objetos causa de desejo. Por causa disso

Vivemos em guerra permanente com conosco mesmos. Somos incapazes de ser felizes. Não somos o que desejamos ser. O que desejamos ser jaz reprimido…[…] Não sabemos o que desejamos porque o desejo, reprimido, foi forçado a habitar as regiões do esquecimento. Tornou-se inconsciente [27].

É pela via do desejo que a religião se firma, por representar para o sujeito frágil uma fortaleza, uma garantia de proteção contra as forças da natureza, perdida no evento totêmico. Deste modo, “Deus é este coração fictício que o desejo inventou, para tornar o universo humano e amigo”

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